FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 8

DUNLOP, O INVENTOR DA RODA PNEUMÁTICA

A garden hose provided John Dunlop with a smooth bicycle rideUm campeão chamado J. Agostinho 2

Nesta pré-época do futebol, em que todos os grandes clubes com aspirações a copiosas vitórias (e receitas) em futuros torneios tendem a contratar novos jogadores e a renovar as suas equipas técnicas, com vultuosas transferências de milhões de euros (como no mediático caso de Jorge Jesus), há outro desporto, de uma modalidade muito mais modesta (e mais antiga), que durante os longos e cálidos dias de Julho e Agosto chama também a atenção dos media e desperta o entusiasmo dos espectadores.

Claro que estamos a referir-nos ao ciclismo, cujas provas principais, como a Volta à França, a Volta à Itália, a Volta à Espanha e a nossa menos carismática Volta doméstica, já iniciaram o seu calendário, enchendo as estradas com o clássico e colorido espectáculo das longas filas de corredores, agrupados em pelotões compactos e em equipas que mal se distinguem umas das outras, numa homogénea mole humana que serpenteia pelas monótonas pistas de asfalto, plácida ou velozmente, com a natureza campestre e os cenários urbanos em pano de fundo. Lembrando-nos (sempre) um grande campeão português, Joaquim Agostinho, que mestre Fernando Bento, outro gigante, mas da arte e das histórias aos quadradinhos, retratou com o seu traço genial.

Bicicletas primitivas 2Mas já pensaram nas voltas que deu o pequeno e veloz velocípede até se tornar o símbolo de um dos desportos mais populares do nosso tempo, embora nascido na agitada era da revolução industrial? Ao princípio, as bicicletas eram de madeira, pesadas e incómodas porque a sua tracção se fazia ainda sem pedais. Imaginem os desajeitados velocipedistas, de pés assentes no solo, impelindo-as com pequenos saltos! Só muito mais tarde, cerca de 1885, o novo veículo, depois de passar por profundas transformações, ganhou velocidade e ligeireza com um sistema de duas rodas do mesmo tamanho, substituindo os modelos anteriores com uma grande roda traseira (ou ainda mais bizarros, como o da imagem anexa), que permitiam ao seu ocupante equilibrar-se melhor no selim e passear orgulhosamente nas avenidas citadinas, entre cabriolés puxados por cavalos.

John Dunlop filhoMas os acidentes não estavam afastados, porque as rodas ainda eram pesadas (já não de madeira, mas metálicas, como o resto da estrutura), e qualquer pequeno obstáculo podia provocar quedas dolorosas. Por causa da trepidação e dos numerosos acidentes, as bicicletas — utilizadas cada vez mais pela classe média e pelo operariado, ao ponto de se tornarem um símbolo da sua ascensão social — ganharam mesmo um epíteto pejorativo: “boneshakers” — isto é, em sentido figurado, “quebra-ossos”.

Dunlop na sua bicicletaFoi então (1887) que surgiu, pela mão de um médico veterinário de espírito sagaz, nascido na Escócia e chamado John Boyd Dunlop (1840-1921), um invento que trans- formou por completo a bicicleta, tornando-a um veículo mais ligeiro, mais cómodo, mais robusto e mais seguro. Graças a uma ideia de génio — pneumáticos com ar comprimido revestindo as duas rodas —, Dunlop conseguiu ultrapassar uma das barreiras que impediam a humanidade de desenvolver novos e mais eficientes meios de transporte. Foi, como tantos outros sábios e inventores, alguns por mero acaso, um elo fundamental da meritória cadeia que põe em movimento as rodas do progresso e projecta a inteligência humana até aos patamares do futuro.

Leiam seguidamente a história do médico John Dunlop e do seu precioso invento, que o nosso bem conhecido Jean Graton, um dos maiores especialistas desportivos da Banda Desenhada europeia, narrou com o seu habitual estilo prático e bem documentado, em sequências dinâmicas e realistas, dadas à estampa no Tintin belga nº 22 (12º ano), de 29 de Maio de 1957, e n’O Falcão (1ª série) nº 67, de 24 de Março de 1960.

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A VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA

Nicolau_e_Trindade_dos_anos_30Com o futebol um pouco “adormecido” durante o estio — ou, pelo menos, mais afastado das competições nacionais até ao início de nova época —, Julho e Agosto são meses tradicionalmente dominados por outra grande modalidade desportiva, o ciclismo, com destaque para o Tour de France e, no nosso (mais tacanho) circuito caseiro, a Volta a Portugal, que já chegou ao fim da sua 75ª prova, com a vitória de um galego, Alejandro Marque, e da sua equipa.

Volta a Portugal 1Ao vermos as imagens, nos telejornais, dos velozes ciclistas que se lançam briosamente ao assalto das estradas e das pistas de montanha onde a glória pode estar à sua espera, perpassam-nos pela memória os nomes e os feitos de grandes ídolos do passado como Fausto Coppi, Gino Bartali, Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Indurain, José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Alves Barbosa, Moreira de , Ribeiro da Silva, Joaquim Agostinho, Marco Chagas e outros mais, que os autores de BD, nalguns casos, ajudaram também a cobrir com os louros da fama.

agostinho_joaquimUm desses exemplos, no sumário historial desportivo da BD portuguesa, é “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, episódio publicado no vespertino A Capital, durante a Volta a Portugal de 1973, cujo registo biográfico se transformou numa autêntica reportagem ilustrada, graças ao traço dinâmico e às envolventes composições de Fernando Bento, para quem o ciclismo não era um tema inédito.

Em 2010, associando-se às celebrações do centenário do genial Artista, o Gicav, promotor e organizador do Salão de BD de Viseu, reeditou esse trabalho — perdido, como tantos outros, nas páginas de jornais que já não existem — em homenagem ao talento do Mestre também já desaparecido, dedicando-lhe um magnífico álbum de grande formato, a fim de permitir aos seus indefectíveis admiradores uma apreciação mais perfeita do expressivo e documental estilo exibido nessas 16 pranchas, quase como se estivessem a admirar os originais.

Joaquim Agostinho Capa+1

Joaquim Agostinho 2 + 3

Ao longo da sua prolífica carreira, Fernando Bento fez várias ilustrações sobre temas desportivos, incluindo caricaturas de “ases” do ciclismo n’Os Sports e tiras sobre a Volta a Portugal na secção infantil do República. No Cavaleiro Andante chegou mesmo a contar a história do popular velocípede de duas rodas numa página recheada de curiosos apontamentos sobre a evolução da sua forma e do seu funcionamento. Nascida de uma ideia totalmente absurda, que era a da locomoção pedestre num ridículo veículo de madeira sem pedais, a bicicleta tornou-se, graças a um pequeno acidente, o meio de transporte ideal (embora destinado a poucos passageiros), antes da invenção do automóvel, e ganhou direito de cidadania em todos os países do mundo.

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CAVALEIRO ANDANTE 146A página que aqui reproduzimos foi publicada no nº 23, de 7/6/1952, do Cavaleiro Andante, onde tempos depois não tardariam a surgir vários episódios curtos sobre temas desportivos, na sua maioria desenhados por Jean Graton (o futuro criador de Michel Vaillant), que dedicou também especial atenção às peripécias e às emoções do desporto mais popular, logo a seguir ao futebol, em Espanha, França, Itália, Bélgica, Portugal e noutros países europeus.

Mas dessas histórias (e de outras que as antecederam) falaremos com mais detalhe em próximos artigos sobre este aliciante (e pouco divulgado) tema.

A título de curiosidade, apresentamos também uma página com um mapa da 19ª Volta a Portugal (cujo vencedor foi Alves Barbosa), publicada no Cavaleiro Andante nº 242, de 18/8/1956, em que a rapaziada podia seguir as etapas da prova e fazer, ao mesmo tempo, uma espécie de jogo com os amigos, que consistia simplesmente em anotar no mapa os seus prognósticos para os vencedores de cada etapa, somando 10 pontos quando acertavam.

Os pitorescos “bonecos” que ilustram essa página, com um traço humorístico inconfundível, são de Artur Correia, um dos mais apreciados e mais antigos colaboradores da revista, cujos trabalhos recheavam o suplemento infantil O Pajem.


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