O NAUFRÁGIO DA LÍNGUA

Nunca me pronunciei sobre o novo Acordo Ortográfico (que para mim é como se não existisse, pois continuo fiel às minhas raízes linguísticas, escrevendo como aprendi, há muito tempo, nos bancos da escola), mas tenho acompanhado com interesse o debate cada vez mais aceso acerca de um documento que parece ter sido feito à pressa, e não agrada a gregos nem a troianos… excepto a um pequeno grupo de “eminências pardas” que gostam de ditar novas regras, impondo aos outros as suas esdrúxulas ideias, sem se importarem (porque nunca os avaliam antecipadamente) com as consequências e os danos que irão causar no sistema estabelecido — pois os sistemas são como os edifícios, não se podem abalar as fundações sem correr o risco de abrir brechas que farão ruir toda a construção.

Algumas novas regras serão, porventura, perfeitamente justificáveis; mas outras roçam o ridículo e o absurdo, porque conferem a certas palavras e expressões um sentido muito diferente (por vezes, até antagónico). Atente-se neste exemplo: Alto e pára o baile! — tirando-lhe o acento, resulta nisto: Alto e para o baile!

ACORDO ORTOGRÁFICO FOTOO jornal Público, bastião de um jornalismo que preserva a cultura e a língua, tem sido dos mais combativos na denúncia intransi- gente do novo AO e muitos dos artigos que tem publicado sobre o assunto encontraram pronto eco no blogue Largo dos Correios, superiormente administrado pelo Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, que já alinhou desde há muito  com os que defendem a abolição urgente desse Acordo — agora em vigor com a força impositiva da lei, excepto para quem queira usar o direito de desobediência, como afirmaram Bagão Félix e Pacheco Pereira nos seus programas televisivos. Afinal vivemos ou não numa democracia? A questão fundamental é que este AO nunca foi referendado. Como qualquer lei arbitrária pode, portanto, ser alvo de contestação.

Hoje — porque a polémica não acabará tão cedo —, quero contribuir também para o debate, especialmente em honra do Professor Martinó, divulgando um artigo que me foi enviado por um amigo e que li com prazer, pois trata-se de um dos mais brilhantes e lúcidos depoimentos que sobre o tema tive oportunidade de apreciar até agora.

O citado artigo, que seguidamente transcrevemos, foi publicado no jornal brasileiro A Folha de São Paulo (suponho que já há algum tempo) e é da autoria de um escritor português, a quem são devidos todos os elogios pela síntese clara e objectiva que esmalta as suas frases. Como, por exemplo: “A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se (…) pela partilha da sua diversidade”.

Nada mais verdadeiro. Quem o não o entende, peca por excesso de zelo ou, melhor dizendo, por capricho e por arrogância. Para já não falar de (crassa) ignorância…

Naufragar é preciso?

Texto de João Pereira Coutinho (escritor português)

“Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?

Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?

A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.

Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor. Não aderi a ele: nesta “Folha”, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil. Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.

Questão de educação.

Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: “Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia”.

A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem as zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.

A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.

Resultado: é o desacordo total, com todo o mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?

Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.

Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.

Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo”, etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.

Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.

Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que estudou atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.

A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.

Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta “desconforto” ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.

Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem “desconforto” por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.

Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.

De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?”