O ELEFANTE QUE VIAJOU ATÉ À TURQUIA…

João Amaral (A Viagem do Elefante em turco)

A notícia chegou-nos há dias, transmitida quase sorrateiramente pelo blogue do João Amaral, cuja proverbial modéstia o impede de “embandeirar em arco” quando o sucesso (merecidamente) lhe bate à porta… como já aconteceu diversas vezes.

Desta feita, a sua carreira de indiscutível mérito, num percurso sempre ascendente, teve mais um prémio com a edição no estrangeiro da sua obra mais apreciada: a adaptação do romance de José Saramago “A Viagem do Elefante”.

Sublinhe-se que este marco é ainda mais importante porque se trata de uma edição em turco (com a chancela da editora Kirmizikedi), país onde nunca um autor português de Banda Desenhada teve a sorte de ver, até hoje, a sua obra divulgada a par da de um Prémio Nobel da Literatura. Nem em nenhum outro local do mundo, aliás…

João Amaral fez uma aposta ganhadora ao investir o seu amor à BD, o seu talento, a sua fé e a sua capacidade de trabalho num projecto que, à partida, estava eivado de dificuldades. Mas porfiou e venceu… como atesta o êxito da edição portuguesa, rapidamente esgotada (e que recebeu os maiores elogios da própria viúva de Saramago), e agora esta edição numa língua “bizarra” e num país onde não imaginávamos que a obra de José Saramago e a Banda Desenhada eram tão populares.

Parabéns, João Amaral, por este novo sucesso! E confiantes no dom que tens de nos surpreender, continuaremos à espera, com muita expectativa e curiosidade, dos teus próximos trabalhos. A viagem no dorso da BD (e do elefante) continua…

“A VIAGEM DO ELEFANTE” – EXPOSIÇÃO EM VISEU

cartaz viseu- viagem do elefante

É já amanhã sábado, dia 14, às 16.00 horas, que será inaugurada na Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, em Viseu, uma exposição relativa ao mais recente e valioso trabalho de João Amaral: a adaptação de A Viagem do Elefante”, de José Saramago, em banda desenhada, cujo merecido êxito tem feito o seu autor calcorrear também um longo caminho, recheado de episódios marcantes.

“Quem tiver a oportunidade de se deslocar a esta bonita cidade beirã” — escreveu João Amaral no seu blogue — “poderá ver algumas reproduções de pranchas, desenhos, e saber um pouco do que foi todo o processo criativo desta obra. Na sessão inaugural, obviamente que estarei presente para falar também sobre esse assunto. Para já, fica o meu agradecimento aos elementos do GICAV, que tiveram a ideia e organizaram todo o núcleo expositivo relativo a este meu trabalho, bem como à Câmara Municipal de Viseu pelo seu apoio. Fica, então, aqui exposto o cartaz e o convite dirigido a todos os que puderem comparecer”.

“PECADOS” DA DEMOCRACIA

JOÃO AMARAL - FRED 226

Fred & Companhia é o título de uma rubrica que João Amaral, desenhador e argumentista de reconhecidos méritos, criou no seu blogue e que semanalmente, sob a forma de uma tira de BD, chega a todos os recantos da blogosfera, pois já são muitos os amigos e admiradores do Fred, um rapaz sem “papas na língua”, que sabe pensar pela própria cabeça e diz às vezes (ou quase sempre) coisas muito lúcidas. Isto é, um jovem adolescente, ainda quase um garoto, na pele de um filósofo!…

Luxemburgo (Abadia de St. Maurice)Ora, o comentário do Fred, nesta tira que reproduzimos com a devida vénia, postada por João Amaral no seu blogue, em 12 de Junho p.p., fez-nos oportunamente reflectir sobre as contradições e as injustiças — a que J. A. chama “pecados”, com toda a justeza — do sistema dito democrático em que vivemos.    

Basta ver o que se passa no Luxemburgo e em muitos outros países, cujos trabalhadores imigrantes contribuem para o respectivo PIB e para as finanças públicas, mas não têm direito de voto em eleições legislativas. E esse é — ou devia ser — um dos direitos fundamentais, um direito para todos, nas democracias europeias… que já assim se intitulavam quando as mulheres, ou seja, a maioria da população, ainda não podiam votar. Porquê? Porque, então, as mulheres viviam num isolamento imposto pela sua “inferior” condição feminina, sob a tutela dos maridos ou de outros poderes. Eram “estrangeiras”, sem direitos de cidadania, na própria terra onde tinham nascido. Um elo mais fraco, que só em tempos relativamente recentes, há menos de 100 anos, se tornou mais forte. Não foi, nem será o único… como a História repetidamente nos ensina… mas, para isso, foi preciso percorrer um longo caminho.

Em Portugal, o sufrágio feminino sem quaisquer restrições, excepto a obrigação de saber ler e escrever — o que excluía, de antemão, grande número de mulheres —, só foi oficialmente reconhecido em 1968! O analfabetismo que grassou, durante décadas, na sociedade portu- guesa e só começou a ser combatido com êxito depois do 25 de Abril de 1974, foi, de facto, um dos maiores obstáculos ao direito de voto das mulheres (e também de muitos homens). Depois da implantação da República, em 1910, surgiram associações feministas, representadas por per- sonalidades como Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, cuja posição de destaque nos meios culturais e científicos (e na Maçonaria) lhes permitiu desafiar o sistema eleitoral vigente, apoiado até por muitos republicanos.

Carolina Ângelo (1878-1911), distinta médica cirurgiã, foi, aliás, a primeira sufragista nacional, num polémico processo que culminou com a aprovação do seu voto nas eleições de 28 de Maio de 1911 para a Assembleia Constituinte — como mestre José Ruy nos descreve num magnífico álbum dedicado a este grande vulto feminino da sociedade portuguesa do século XX. Mas a lei foi logo alterada no ano seguinte, concedendo apenas o direito de voto aos chefes de família do sexo masculino.

Carolina vai votar 1 e 3

Retomando o fio da nossa “conversa”, suscitada pelos comentários do Fred, parece-nos que o que se passou há pouco tempo no Luxemburgo, com um referendo que negou, mais uma vez, aos imigrantes (perfeitamente integrados na sua sociedade, como os portugueses) o direito de voto, reduzindo-os apenas à condição de massa trabalhadora, embora constituam quase 50% da população, é um absurdo tão anti-democrático que apetece dizer: “Então, se não os deixam participar na eleição do governo, vão à fava e amanhem-se pelos seus próprios meios! Façam vocês o trabalho que eles fazem! Prosperem sem a ajuda deles!”.

Pouco mais de 50% da população luxemburguesa precisa da outra metade para viver, mas não lhe quer conceder os mesmos direitos… proibindo até os seus filhos de falar a língua materna nas escolas. Pessoas que habitam e trabalham no mesmo território, sujeitas às mesmas leis e, no entanto, impedidas de intervir na sua aprovação. Acrópole no tempo de PériclesOs imigrantes de muitos países têm, hoje, de travar a mesma luta das corajosas femi- nistas do século passado.

Este absurdo “democrático” reme- te-nos — ressalvando embora, no caso vertente, as grandes distâncias entre os opostos — para o exemplo da antiga Grécia, citado a propósito pelo Fred, em que uma enorme legião de escravos e servos, sem quaisquer direitos, vivia quase como animais, esquecida, despre- zada até pelos próprios mentores da democracia. Homens de profundos pensamentos e elevados ideais, mas que reduziam também o mundo a uma nesga daquilo que viam (ou julgavam ver). Mesmo no “século de ouro” da Grécia, quando Atenas foi governada por Péricles, os plutocratas dominavam a sociedade, com total indiferença pelas mulheres e pelas classes mais baixas.

Ah, a democracia!… Sendo, genuinamente, um sistema político baseado nas aspirações de justiça, liberdade e igualdade social, parece, às vezes, uma das maiores mentiras inventadas pelos homens para enganarem e explorarem o seu semelhante!

Obrigado, Fred, por nos lembrares que “nem tudo o que luz é ouro”.

A VIAGEM DO ELEFANTE

A viagem do elefante

José Saramago pela primeira vez em Banda Desenhada!

Uma obra em que texto e imagens formam uma unidade, conjugando-se numa síntese harmónica entre a criação literária, a narrativa gráfica e o exuberante imaginário colhido num feito real: a longa viagem de um paquiderme, de Lisboa até ao coração da Europa.

Desenhos de João Amaral, autor jovem mas já com 20 anos de carreira, assinalada por marcos como A Voz dos Deuses, Bernardo Santareno ou Cinzas da Revolta, e que comentou assim a génese deste álbum no seu blogue (http://joaocamaral.blogspot.pt):

“Pois é, o primeiro passo da extraordinária viagem de um elefante à Áustria foi dado nos reais aposentos da corte portuguesa, mais ou menos à hora de ir para a cama. É mais ou menos com estas palavras que o prémio Nobel da literatura José Saramago inicia um dos vários romances que o tornaram célebre, o que quer dizer que essa jornada foi um facto histórico. Houve, de facto, um elefante que foi oferecido pela coroa portuguesa ao arquiduque Maximiliano da Áustria e que fez uma longa viagem de Lisboa a Viena, fazendo o que melhor sabia fazer: caminhar…

O segundo passo, como é óbvio, foi dado pelo próprio Saramago que, ao longo de mais de duzentas e cinquenta páginas, imortaliza este elefante chamado Salomão e o seu cornaca, um indiano conhecido pelo nome de Subhro (que quer dizer branco), num relato fascinante e profundamente irónico sobre alguns aspectos da condição humana.

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Esse facto exerceu logo em mim um profundo fascínio pelo livro. Isso, aliado a uma forma de escrever que me colocou de imediato nos locais da acção, fez-me despertar um desejo que já não sentia há algum tempo: o de fazer uma adaptação para banda desenhada.

Todavia, há duas coisas que tenho que confessar: “A Viagem do Elefante” não foi o primeiro livro de Saramago que me fascinou. O primeiro foi o “Ensaio Sobre a Cegueira”. Porém, cedo soube que o realizador Fernando Meirelles o estava a adaptar para o cinema e tirei daí a minha ideia. Quanto a este livro propriamente dito, foi-me apresentado pela minha mulher, que o leu num fôlego e me disse, de imediato, que este era um projecto que me poderia entusiasmar.

Tinha razão, pois li a obra em poucos dias e na minha mente começaram logo a fervilhar imagens, ao mesmo tempo que ia ficando cada vez mais maravilhado com as personagens que iam entrando e saindo, conferindo elas próprias notáveis retratos da condição humana.

viagem11A partir daí, decidi meter mãos à obra naquela que para mim também se tornou numa longa viagem. O livro, que será o mais longo que fiz até hoje, com cerca de 120 páginas, foi elaborado durante cerca de dois anos e meio, durante os quais contei com o apoio de vários amigos a quem agradeço no livro e que, de uma forma ou de outra, se tornaram parte integrante desta saga. No entanto, aqui quero deixar uma palavra especial a José Saramago, pois sem o seu inegável talento esta aventura nunca teria sido possível, e a Pilar del Rio pelo carinho que dedicou a este projecto, desde a primeira hora em que tomou contacto com ele. Mas melhor do que quaisquer palavras que eu possa dizer, ficam as primeiras imagens de um livro que irá ser colocado à venda durante o mês de Novembro, pela Porto Editora”.

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Apraz-nos também registar a entrevista com João Amaral publicada num prestigioso órgão de informação, o Diário de Notícias, de 12 de Novembro p.p. — prova de que esta adaptação do romance de José Saramago está (e vai continuar) a atrair a atenção dos media.

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