O FOGUETÃO E OS OVOS DA PÁSCOA DE HERGÉ

Todos os anos, pelo Natal e pela Páscoa, os jovens leitores da revista Tintin, “dos 7 aos 77”, aguardavam (certamente cheios de curiosidade) que o seu autor preferido, isto é, Georges Rémi (vulgo Hergé), os brindasse com mais uma capa alusiva a essas quadras festivas… pois as suas ilustrações tinham sempre algo de especial.

Já se tinha tornado uma tradição que Hergé (auxiliado pelos seus colaboradores, com destaque para Bob de Moor, o que melhor imitava o seu estilo) realizasse essas capas com a mesma inspiração com que idealizava as aventuras de um jovem repórter chamado Tintin, cuja fama se estendia a todo o mundo, sobretudo depois de ter dado mais um passo a caminho da imortalidade, preparando-se para viajar até à Lua.

Corria o ano de 1952 e na mente e nos planos dos cientistas essa viagem não passava ainda de um sonho difícil de concretizar nos anos mais próximos. Mas Tintin e os seus amigos não tardariam a ser os primeiros astronautas a pisar a Lua, graças à imaginação, ao talento e à audácia de um autor para quem o futuro (até mesmo esse futuro ainda tão distante) não tinha segredos nem encerrava impossíveis!

Assim, o supersónico foguetão (hoje um dos objectos mais célebres do Museu Hergé, em Bruxelas) onde os seus heróis viajaram ao encontro do misterioso satélite, foi a imagem escolhida, como metáfora de um sonho que nada impediria de se tornar realidade, para que os “ovos da Páscoa” de 1952 parecessem ainda mais deliciosos e a revista Tintin (que já ia no 7º ano de existência) continuasse a surpreender e a encantar os seus leitores!

Advertisements

“A MARCA JACOBS” OU QUANDO UM AUTOR VIVE A SUA PRÓPRIA AVENTURA

Artigo de Nuno Galopin, na revista E do Expresso (25/2/2017)

O álbum “A Marca Jacobs”, recentemente editado pela Arte de Autor e que recomendamos sem reservas a todos os admiradores do mestre belga, é distribuído pelo grupo Europress. Seguidamente, reproduzimos duas páginas desta obra, extraídas, com a devida vénia, do blogue Kuentro-2. Além de Edgar Pierre Jacobs, é visível numa delas, pelo traço de Alloing, a figura de Georges Rémi, que se celebrizou com o pseudónimo de Hergé. Jacobs foi seu assíduo (e valioso) colaborador, nos primeiros estúdios do criador de Tintin.

A GRANDE AVENTURA DO JORNAL TINTIN

tintin-paris-match-e-dbd

Depois do Paris Match, que lhe dedicou um número especial com 112 páginas, recheadas de artigos, entrevistas e imagens de interesse histórico, a revista especializada dBD assinalou também o 70º aniversário do Tintin belga, nascido em 26 de Setembro de 1946, por iniciativa de Raymond Leblanc, fundador das Éditions du Lombard, e sob a direcção artística do mais famoso autor dessa época, Georges Rémi (Hergé), a quem coube a tarefa de reunir uma ecléctica equipa de colaboradores, da qual fizeram parte, nos primeiros tempos, Edgar Pierre Jacobs, Jacques Laudy, Paul Cuvelier, Le Rallic e ele próprio.

Tão intemporal como o célebre herói que lhe deu o nome, o semanário “dos jovens dos 7 aos 77 anos” (que já não se publica desde 1988) continua a perdurar na memória dos seus fiéis leitores espalhados pelo mundo — e que em Portugal, graças a uma edição lançada em Junho de 1968, foram também da ordem das dezenas de milhares.

Nessas luxuosas publicações, recentemente distribuídas nas bancas portuguesas e que recomendamos sem reservas a todos os tintinófilos, em geral, e aos visitantes deste blogue, em particular, constam várias homenagens aos principais heróis da revista e seus autores, com destaque para uma grande entrevista com Raymond Leblanc (no Paris Match Hors-Série) e para séries emblemáticas como Blake e Mortimer, Alix, Dan Cooper, Chlorophylle, Modeste et Pompon, Ric Hochet, Michel Vaillant, Corentin, Thorgal, Bernard Prince e muitas outras, à testa das quais figura naturalmente o incontornável personagem que deu fama, glória e fortuna ao seu criador: o sempre jovem Tintin, que Hergé quis que morresse com ele, mas que afinal lhe sobreviveu mesmo sem viver novas aventuras, para deleite de quem ainda sonha com um mundo transfigurado pela inocente magia do exotismo.

COMO TINTIN APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS

O Papagaio nº 3 (Tom)Já não é novidade para ninguém que Portugal foi o primeiro país não francófono a traduzir as aventuras de Tintin, graças a uma feliz conjugação de gostos e de vontades, entre o Padre Abel Varzim, que frequentara no início dos anos 30 a Universidade de Lovaina, onde conheceu a obra de Hergé, e Adolfo Simões Müller, director da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença.

A influência de Abel Varzim foi decisiva na compra dos direitos de Tintin para Portugal, como comprova a sua correspondência trocada com Hergé, mas é igual- mente verdade que Simões Müller ficou tão interes- sado como ele na publicação das aventuras do juvenil repórter que tanta celeuma levantara com a sua viagem ao país dos Sovietes — a primeira de muitas, pois na pele de destemido aventureiro iria correr meio mundo e viver extraordinárias peripécias, defrontando sinistros inimigos e fazendo também inúmeros amigos, entre os quais alguns companheiros inseparáveis.

O Papagaio nº 15 (Tom)O Papagaio, como ficou honrosamente registado nos anais da BD portuguesa, era uma revista para miúdos com um assinalável conteúdo artístico e literário. Naquele tempo de “vacas magras” para a imprensa infantil, nenhuma outra revista do seu género, nomeadamente o Tic-Tac e O Senhor Doutor, conseguia rivalizar com o colorido, a graça e o primor gráfico e estético estampados em todas as suas páginas.

Era, na época, finais dos anos 30, um dos maiores encantos dos miúdos, mesmo daqueles que ainda não andavam na escola, e as mães, os pais, os amigos, os professores, aconselhavam vivamente a sua leitura, como útil e pedagógico instrumento de aprendizagem das primeiras letras (e primeiras artes). Muitos lares portugueses em que havia crianças tinham, naquele tempo, o lúdico hábito de comprar semanalmente O Papagaio, que era, na sua fase inicial, a revista infantil de maior tiragem e expansão.

Quando eu nasci, já O Mosquito reinava nas preferências da miudagem, que aprendera rapidamente a ler e achava O Papagaio caro demais para as suas modestas posses, pois custava 1$00, o dobro do que O Mosquito lhes oferecia em páginas recheadas de muito maior emoção. Enquanto que O Papagaio, de certa forma, representava a classe burguesa mais endinheirada, O Mosquito hasteava a bandeira dos mais pobres, dos mais humildes e necessitados. Democraticamente, acabaram todos por se juntar, por uma questão de interesses e de gostos, e O Mosquito tornou-se o campeão da popularidade, apesar de não ter nas suas páginas (bem mais modestas que as d’O Papagaio) um herói como Tintin.

O Papagaio (monografia)Mas voltando atrás, aos primeiros anos da minha infância, nunca esqueci os dias soalheiros passados a desfolhar um volume que a minha carinhosa madrinha me tinha oferecido e que eu alegremente, e sem grandes escrúpulos de consciência, “maltratei” tantas vezes que acabou por ficar num estado lastimoso. Era o primeiro volume d’O Papagaio, magnífica edição cartonada que se tornou uma valiosa raridade, e apesar dos danos que sofreu nas mãos de um garoto traquinas, com pouco mais de três anos, ainda hoje conservo o que dele resta.

Foi, sem dúvida, O Papagaio que despertou a minha ligação afectiva com os “bonecos” e as histórias aos quadradinhos, pois lembro-me perfeitamente de olhar maravilhado para alguns dos desenhos que enchiam de humor, encanto e fantasia as suas páginas, especialmente os de Thomaz de Mello (Tom) e José de Lemos, dois dos melhores colaboradores artísticos d’O Papagaio, cuja peculiar estilização gráfica despertou também as primeiras emoções estéticas noutros garotos da minha idade.

Papagaio 53Quando eu me encantava e divertia a folhear (e a recortar, colar e pintar) esse volume — cuja capa foi reproduzida num valioso trabalho monográfico de José Menezes, já com várias edições —, ainda não tinha tido nenhum contacto com a figura de Tintin, que só faria a sua entrada triunfal no nº 53 (2º volume) e era, então, um herói completamente desconhecido dos miúdos portugueses. Nenhum sabia a sua origem, nem o verdadeiro nome do seu autor. Verdade se diga que isso, para a maioria, não tinha importância, pois Tintin fora-lhes apresentado como um juvenil repórter e explorador português, cuja idade rondava os 15/16 anos, mas desem- poeirado, intrépido e capaz de se desenvencilhar como um adulto, em quaisquer circunstâncias.

Sendo um aventureiro de características tão independentes acabou por sair da esfera da ficção, tornando-se tão real como os outros heróis, de “carne e osso”, que a miudagem via no cinema. Portanto, não precisava de ter “pais”, nem bilhete de identidade, nem residência fixa, para ser credível como um herói d’O Papagaio que viajava por todo o mundo, um repórter de 1ª linha cujas crónicas eram publicadas em imagens, para lhes dar ainda maior realismo. Hergé e o director do Petit Vingtième contribuíram voluntariamente para essa dualidade, quando Tintin (em pessoa) desembarcou apoteoticamente na gare central de Bruxelas, regressado da sua famosa reportagem na União Soviética.

Papagaio 51A primeira aventura de Tintin em português estreou-se, como referimos, no nº 53 d’O Papagaio, dado à estampa em 16 de Abril de 1936, e foi também a primeira (coisa que não é novidade para ninguém) a ser publicada a cores no espaço europeu, o que agradou (como também se sabe) a Hergé, cada vez mais cordial no trato com Simões Müller.

Mas a primeira autêntica aparição de Tintin, com essa garrida paleta cromática que dava outro aspecto aos seus trajes de cowboy (visto que a aventura se desenrolava na América do Norte, em pleno país do famoso Al Capone), foi na capa do nº 51, de 2 do mesmo mês de Abril, onde já eram patentes as encrencas em que o nosso herói se ia meter.

A partir desse momento, mesmo sem abrir a boca, Tintin já começava a falar português, comportando-se até como um vulgar emigrante açoriano ou madeirense que tivesse demandado o Novo Mundo em busca da riqueza e das oportunidades que na sua terra escasseavam. E as suas aventuras continuaram a ser seguidas com entusiasmo pelos leitores d’O Papagaio, que viam nele um símbolo da coragem e do espírito nómada e aventureiro que tinham feito a grandeza lusíada noutras eras.

Papagaio 115 e 138Português de adopção, por obra do Padre Abel Varzim e de Adolfo Simões Müller, português ficou enquanto andou a saltitar de revista em revista, d’O Papagaio para o Diabrete e deste para o Cavaleiro Andante, depois para o Foguetão e o Zorro. Só mais tarde, com uma pequena mudança ortográfica no “registo civil” (à qual, a bem dizer, ninguém ligou importância) regressou às origens, recuperando o seu estatuto mítico de “cidadão universal”.

Papagaio 366 087

Nota: Agradecemos a Leonardo De Sá algumas correcções feitas a este texto (ver 1º parágrafo) e aconselhamos a leitura do seu comentário. A capa d’O Papagaio comemorativa do seu 7º aniversário (na imagem supra), é de um dos mais jovens e talentosos colaboradores desta revista, precocemente desaparecido: Güy Manuel.