UM RAIO DE LUZ E DE ESPERANÇA

Fátima, 13 de Maio… Há quase 100 anos, três humildes pastorinhos assistiram, na Cova da Iria, a uma deslumbrante aparição que os deixou mudos de assombro. A sua milagrosa história e a sua fé inabalável no que tinham visto e ouvido, apesar do repúdio das autoridades e da própria Igreja, contagiaram uma nação inteira, reavivando o fervor religioso que os novos dogmas republicanos e ateístas tinham duramente atacado. Meses depois, perante uma multidão de curiosos e de crentes, seria confirmado o milagre… e a glória dos três pastorinhos.

Alusivas a esta data que continua a atrair a Fátima milhares de peregrinos de todo o mundo, numa grande manifestação de fé, eis duas belas ilustrações de Augusto Trigo — que aqui recordamos novamente —, dadas à estampa no Mundo de Aventuras nº 448, de 13 de Maio de 1982.

Fátima 13 de Maio copy

FÁTIMA, 13 DE OUTUBRO

Diabrete 865   090

O calendário das celebrações Marianas na Cova da Iria atinge o seu ponto alto a 13 de Outubro, atraindo sempre muitos peregrinos (mesmo com mau tempo) ao Santuário onde se erguem a magnífica Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima e a Basílica da Santíssima Trindade, a par da vetusta Capelinha das Aparições.

Nesta data, há 63 anos, isto é, em 13/10/1951, o Diabrete dedicou a capa do seu nº 865, com uma bela ilustração de Marcelo de Morais, ao acontecimento que abalou os primórdios do regime republicano em Portugal e as suas relações com a Igreja Católica.

Em cores suaves, planas, e num estilo de linhas quase geométricas que combinava singeleza, harmonia e modernidade, o desenhador evocou a imagem tradicional dos três devotos pastorinhos perante a Virgem Maria, que lhes apareceu envolta num halo de mistério, pairando como uma nuvem sobre os ramos de uma azinheira.

Já aqui fizemos referência, algumas vezes, aos trabalhos que este excelente artista, um dos maiores expoentes da nova vaga da ilustração e da BD portuguesas, na segunda metade do século XX, produziu para vários jornais e revistas, nomeadamente o Diabrete, onde se distinguiu também, nessa época, como um dos seus melhores colaboradores.

A prová-lo estão as dezenas de ilustrações, páginas de curiosidades, passatempos e histórias aos quadradinhos, com o seu peculiar estilo “linha clara”, que rechearam o popular bissemanário juvenil, ombreando dignamente com a obra de Fernando Bento, Fernandes Silva e outros notáveis autores portugueses, nessa última e interessantíssima etapa da carreira do “grande camaradão”.

 

CURIOSIDADES DO “MUNDO DE AVENTURAS” – 2

ARTE E RELIGIÃO

No seu nº 448 (aliás, 1700, pela numeração antiga), em pleno mês de Maio de 1982, o Mundo de Aventuras evocou também, pela primeira vez, as aparições de Fátima e as figuras dos três humildes pastorinhos, apresentando uma história curta ilustrada por Fernand Cheneval, com texto de Yves Duval: “Fátima, Terra Eleita de Nossa Senhora”.

Fátima 13 de MaioOriunda do Tintin belga, ela já fora publicada, anos antes no Pisca-Pisca (a cores, como na versão original); e há alguns meses, num post que pode ser visto aqui, este blogue teve também oportunidade de recordá-la e de prestar homenagem aos seus autores.

Nesse mesmo número do Mundo de Aventuras, cujo tema principal era dedicado a Fátima e aos milagres que trans- formaram a Cova da Iria num santuário universal da fé e da religião católicas, avultam também a bela capa de Augusto Trigo e uma eloquente ilustração que o mesmo realizou para o artigo de abertura que eu escrevi, com o simbólico título “Um Raio de Luz”.

N610_0015_branca_t0A componente religiosa desse número incluiu ainda um conto de Raul Correia, com ilustrações de E. T. Coelho, oriundo do célebre Almanaque d’O Mosquito e d’A Formiga publicado 38 anos antes. Nas páginas seguintes, desen- rolava-se uma aventura do Príncipe Valente, datada de 1975, quando John Cullen Murphy já era o novo desenhador da série.

Como simples curiosidade, mas um tanto ou quanto invulgar numa revista juvenil com as características temáticas do Mundo de Aventuras (ao ponto desses mesmos trabalhos terem sido comentados por um grande número de leitores), aqui ficam as duas magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista tão ecléctico que se desempenhava com eficácia e superior talento de qualquer tarefa que lhe fosse confiada. E também, como é óbvio, as de E. T. Coelho, um dos maiores mestres da ilustração e da BD nascidos em Portugal, cujo dinâmico e harmonioso traço fez escola durante os anos 40 e 50 do século passado.

Fátima - um raio de luz e Terra EleitaFátima - O milagre 1 e 2

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 5

OUTRA VEZ FÁTIMA

Ao que recentemente apurámos, com base numa informação de Carlos Gonçalves, estudioso e coleccionador com profundos conhecimentos sobre a BD portuguesa e brasileira, o álbum Notre-Dame de Fatima, com texto de Agnès Richomme e desenhos de Robert Rigot (a que fizemos referência num post anterior que pode ser visto aqui), foi o segundo de temática mariana realizado por estes autores. O primeiro teve honras de edição portuguesa em 1954 (Ano Mariano), pelo Secretariado Nacional de Catequese, com o título Nossa Mãe, Nossa Rainha (A Vida de Nossa Senhora), mas só na parte final relatava os milagres e as aparições de Fátima. Trata-se do nº 2 da colecção Belles Histoires et Belles Vies, publicado pela primeira vez em 1949, com o título La Belle Vie de Notre-Dame (informação de Leonardo De Sá), mais tarde abreviado para Marie de Nazareth.

Rigot capa e página

Carlos Gonçalves, a quem expressamos, mais uma vez, o nosso reconhecimento, enviou-nos também duas páginas da história publicada na colecção brasileira Série Sagrada, da Ebal (série normal e série especial), com sugestivas capas de António Euzebio e Monteiro Filho (respectivamente), já apresentadas nesta rubrica. Infelizmente, continuamos a desconhecer o autor dos desenhos, embora possa tratar-se, como sugeriu Carlos Gonçalves, de um dos artistas referidos: Monteiro Filho. Aqui fica o registo.

Coleção serie sagrada

img489Outra interessantíssima versão de que Carlos Gonçalves nos deu conhecimento surgiu em 1952 no livrinho Fátima Para os Vossos Filhos, escrito em verso por Rui Santos, com imagens de um dos nossos mais talentosos ilustradores infantis, o saudoso Méco, de seu nome António Serra Alves Mendes, pai de outro artista que lhe seguiu com sucesso os passos: Zé Manel.

Não se trata de uma história aos quadradinhos (embora com vinhetas sequenciais), mas poder apreciar um trabalho raro de Méco, numa das áreas em que mais se distinguiu, a ilustração para crianças, com toda a singeleza e prazenteiro encanto que caracteriza o seu estilo, é motivo suficiente para o incluirmos nesta lista.

Nascido em 1915 e falecido tragicamente em 1957, quando passeava de barco com o filho, Méco deixou magníficos exemplos da sua arte inconfundível em revistas tão carismáticas como O Papagaio (onde eu li, pela primeira vez, As Minas de Salomão, aventuras fantásticas transfiguradas pelo seu traço semi-caricatural), O Senhor Doutor e Joaninha.

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A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 4

FÁTIMA, TERRA ELEITA DE NOSSA SENHORA

Fátima - Notre-Dame de FatimaUm dos temas religiosos mais em foco na nossa história contemporânea e no seio da igreja católica — as aparições e os milagres de Fátima —, foi também objecto de muitas abordagens em álbuns e revistas de BD, de diversas procedências, merecendo especial relevo, pelo trabalho documental e artístico, a que foi dada à estampa, com texto de Agnès Richomme e desenhos do veterano Robert Rigot (1908-1998), na colecção das Editions Fleurus, Belles Histoires et Belles Vies, uma das mais célebres de temática religiosa em língua francesa.

Não é possível classificá-la, em rigor, como uma história aos quadradinhos, pois nessa colecção o texto tinha primazia sobre as imagens, que eram apenas quatro por página. No entanto, merece destaque a minúcia histórica do relato, com 164 vinhetas, e o apuro, a harmonia, a exactidão factual (até no retrato dos três pastorinhos) que caracterizam os desenhos de Robert Rigot, realçados pelos suaves tons em lavis. Segundo conseguimos apurar, a primeira edição deste álbum data de 1961.

Fátima - Notre-DAme de Fátima 1 e 2Fátima - Notre-Dame de Fatima - 3 e 4

Queremos também assinalar, pela sua novidade e raridade, algumas publicações de origem mexicana, entre as quais uma de produção mais recente (Abril de 2001), que ostenta o nº 66 da colecção Hombres y Héroes, da editorial Novedades, com capa de Francisco Samaniego e guião de Victor Manuel Yañez, realizado por um desenhador sem grandes credenciais, pelo menos por estas bandas, de seu nome Gregório Grande (note-se que o formato da revista até é bastante pequeno: 13 x 14,5 cms).

Notre-Dame de Fátima quadro

Fátima - Quien fuéNo México, país católico, o culto mariano também é seguido com devoção por milhões de fiéis, não sendo, pois, de admirar que tenhamos encontrado mais revistas, de várias editoras, com a história de Fátima, duas delas impressas a sépia, com argumento de Francisco Gurza e desenhos do mesmo artista, por sinal de bom nível, António Gutierrez, mas em colecções distintas: Biografias Selectas nº 127 (Abril de 1961), da Editorial Argumentos (Edar), e Quien Fue…? nºs 15 e 16 (Fevereiro de 1981), da Editorial Vid; a terceira, de aspecto mais modesto, com o selo da Editorial Pin-Pon, pertence à colecção Vidas Ejemplares y Milagros (nº 33, Maio de 1984) e tem guião de J. Santoyos e desenhos de Pedro Morales, cujos trabalhos também nunca chegaram ao continente europeu.

Fátima - Biografias Selectes capa e 1Fátima - Biografias Selectes 2 e 3Fátima - Vidas ejemplares - capa e 1

Noutro país, o Brasil, onde o catolicismo é a religião dominante, temos notícia de mais uma versão dos milagres de Fátima, publicada na revista Série Sagrada nº 2 (Outubro de 1953), da Ebal (Editora Brasil-América), com uma capa muito semelhante à da revista mexicana Quien Fue…?, mas não podemos fornecer mais pormenores sobre esta edição, porque nem o nosso gato conseguiu ainda encontrá-la cá em casa. A Ebal apresentou também a história dos pastorinhos, com uma capa diferente, na Série Sagrada Especial nº 1. Aqui ficam essas capas, retiradas do site guiaebal: http://guiaebal.com/index.htmlque recomendamos vivamente a todos os interessados pelas publicações desta antiga editora.

Série Sagrada nº 2 e especial (Ebal)jpg Segundo Leonardo De Sá, a quem agradecemos a “dica” e as imagens (fornecidas há mais de três anos!), a desaparecida Editorial Campo Verde, com gráfica própria na Venda Nova, publicou em 1978 um pequeno álbum sobre esta temática, intitulado “O Milagre de Fátima”, com desenhos do prometedor estreante Duarte Gravato. Milagre de Fátima capa e page

Fátima Pisca-PiscaMas as versões que mais despertaram o meu interesse, apesar do seu reduzido número de páginas — à parte, bem entendido, a de E.T. Coelho, cujo texto me coube escrever, publicada em1985 pela Editorial Futura e reeditada em 2001 pela Meribérica —, foram as que surgiram nas páginas de duas das mais importantes revistas europeias, o Tintin e o Spirou, com a assinatura de dois grandes mestres da BD belga: Eddy Paape (1920-2012) e Fernand Cheneval (1918-1991). Enquanto que a primeira, “Le Soleil Danse à Fatima”, é ainda inédita entre nós, a segunda, “Fátima, Terre Élue de Notre-Dame”, com o sóbrio e esmerado traço de Cheneval — outro artista que se especializou no domínio das histórias curtas com temas documentais e didácticos —, foi publicada duas vezes em português, por intermédio do Pisca-Pisca nº 15 (Maio de 1969) e do Mundo de Aventuras nº 448, de 13-5-1982 (neste a preto e branco, com uma capa alegórica de Augusto Trigo).

Aqui têm ambas, nas respectivas versões integrais em francês, oriundas do Spirou nº 1252 (12-4-1962) e do Tintin nº 43, 18º ano (22-10-1963). Os argumentos, pela mesma ordem, são de Octave Joly e Yves Duval, nomes tão ilustres no meio bedéfilo franco-belga como os dos seus colaboradores artísticos. Resta ao nosso gato desejar a todos boa leitura!

Nota: um artigo muito interessante, com informações complementares sobre este tema, pode (e deve) ser lido no blogue BDBD:  http://bloguedebd.blogspot.pt

Fátima - Paape - 1 e 2Fátima - Paape - 3 e 4Fátima - Cheneval - 1 e 2Fátima - Cheneval - 3

LIVROS INFANTIS & OUTRAS CURIOSIDADES – 2

O MILAGRE DE FÁTIMA por Leyguarda Ferreira

O milagre de Fátima - capaVoltando à temática mariana, na área infanto-juvenil,  queremos também destacar outra obra profusamente ilustrada, desta feita por Júlio Amorim (1909-1988), cujos trabalhos, num estilo quase hierático mas singularmente atractivo, eram bem conhecidos dos leitores da famosa Colecção Manecas — uma das publicações de referência dos miúdos portugueses —, lançada em meados dos anos 20 pela Editorial Romano Torres.

Foi nessa colecção que surgiu, há mais de 60 anos, um pequeno livro intitulado “O Milagre de Fátima”, com texto de Leyguarda Ferreira, nome também bastante popular na literatura infanto-juvenil dessa época, e ilustrações de Amorim, que realizou, além da capa, uma dúzia de vinhetas com imagens de belo efeito, impressas a três cores, como frisos a engalanar várias páginas. Contemplando-as em sequência, até parece que estamos a ver uma história com o ritmo narrativo da banda desenhada.

Nota: Agradecemos a Leonardo De Sá as informações que amavelmente nos prestou sobre Júlio Amorim (ler o seu comentário).

O milagre de Fátima - rosto e pág 1O milagre de Fátima - pág 2   135O milagre de Fátima - pág 3    136O milagre de Fátima - pág 4   137O milagre de Fátima - pág 5    138O milagre de Fátima - pág 6     139 O milagre de Fátima - pág 7      140O milagre de Fátima - pág 8     141

LIVROS INFANTIS & OUTRAS CURIOSIDADES – 1

THE STORY OF FATIMA for children

Assinalando as celebrações marianas de 13 de Outubro na Cova da Iria e em Roma, na presença do Papa, eis uma curiosidade de outros tempos…

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Livrinho de 20 páginas, formato 16 x 21,6 cms, publicado em data indeterminada pela célebre editora infantil Majora, do Porto, com uma versão em inglês da história de Fátima, aprovada pelas autoridades eclesiásticas e pela censura, como era obrigatório no anterior regime, e recheado de ilustrações de Laura Costa (1910-1992), artista cujo traço onírico, de suave beleza estética, encantou muitas crianças, nas décadas de 40 e 50 do século passado. É provável existir também uma versão em português.

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