GALA DOS PRÉMIOS DO AMADORA BD 2016

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Encerrou ontem, domingo, o Amadora BD 2016, ao cabo de três fins-de-semana em que a animação foi a nota dominante, com a presença de muito público e de autores nacionais e estrangeiros que participaram em concorridas sessões de autógrafos.

Como habitualmente, o momento mais solene e de maior repercussão mediática foi a tradicional gala de entrega dos prémios, amadores e profissionais, que se realizou no passado dia 27 de Outubro, atraindo mais uma vez ao amplo salão dos Recreios da Amadora muitas pessoas, sobretudo jovens, que assistiram interessadas a um espectáculo de música, dança e poesia, que primou pela coordenação e pelo bom desempenho dos artistas convidados, com relevo para o declamador Napoleão Mira.

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Premiados dos concursos de BD e “Cartoon”

Na atribuição de prémios profissionais, por categorias, os principais destaques vão para os de Melhor Álbum, que coube a “Tudo Isto é Fado!” (Nuno Saraiva), Museu do Fado; Melhor Argumento para Álbum Português: “Fósseis das Almas Belas” (Mário Freitas), Kingpin Books; Melhor Desenho para Álbum Português: “Tormenta” (João Sequeira), Polvo; Melhor Álbum em Língua Estrangeira: “Sleepy Hollow” (Jorge Coelho e Marguerite Bennett), Boom!; Melhor Álbum de Autor Estrangeiro: “Presas Fáceis” (Miguelanxo Prado), Levoir; Melhor Álbum de Tiras Humorísticas: “Seu Nome Próprio… Maria! Seu Apelido, Lisboa!” (Henrique Magalhães), Polvo; Clássicos da 9ª Arte: “Revisão – Bandas Desenhadas dos Anos 70” (colectânea), Chili com Carne, e “V de Vingança” (Alan Moore e David Lloyd), Levoir; Melhor Fanzine: “Shock” (homenagem ao saudoso Estrompa), El Pep.

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Nuno Saraiva, prémio do Melhor Álbum Português: “Tudo Isto é Fado!”

A notícia mais aguardada, no entanto — sobretudo entre os veteranos que assistem, desde 1990, a este evento que transformou a cidade da Amadora na capital portuguesa da BD —, era a do laureado com o Troféu Honra “Zé Pacóvio e Grilinho”, o maior galardão atribuído pela Câmara Municipal da Amadora, no âmbito do Festival, que continua ainda hoje a consagrar personalidades de reconhecido mérito na área da BD lusa.

E desta vez a escolha recaiu sobre um desses veteranos, sobejamente popular no meio, sobretudo pela sua intensa actividade como repórter fotográfico (de que este blogue tem sido um dos beneficiários, como atestam as imagens supra), e pela estreita ligação ao Clube Português de Banda Desenhada, onde ocupa o lugar de presidente da Mesa da Assembleia Geral. Mas o currículo de Dâmaso Afonso, pois é dele que estamos a falar, engloba outras facetas, que ao longo dos anos lhe deram especial renome.

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Aqui fica um breve apontamento biográfico e respectivas fotos, extraídos, com a devida vénia, do magnífico e sempre actualizado blogue Largo dos Correios.

damaso-afonso«António José Dâmaso Afonso, alentejano, nasceu em Évora a 11 de Janeiro de 1931. Cursou a Escola Industrial e Comercial Gabriel Pereira, na sua cidade, e começou a carreira profissional como escriturário, convertendo-se mais tarde em desenhador na Direcção de Estradas do Distrito de Lisboa, depois num gabinete de Arquitectura e finalmente na Sorefame. Entretanto, publicou anedotas ilustradas no Sempre Fixe (1951), assim como em O Mundo Ri, assinando aqui também com o pseudónimo “Tony”.

Colaborou também no jornal Democracia do Sul (1955) e mais tarde em Itinerário (Boletim da Casa do Pessoal da Junta Autónoma de Estradas), no Boletim Informativo do Clube Sorefame e em D. Quixote, suplemento literário inicialmente do Jornal de Évora e depois do Diário do Sul. Ilustrou uma história para o jornal da J.O.C. e, para o Exército Português, forneceu muitos desenhos respeitantes a ginástica, atletismo, luta livre, lançamento de granadas, etc., destinados a ilustrar livros dos cursos de sargentos e oficiais, a partir de 1959.

É coordenador e redactor do suplemento e rubrica ocasionais sobre BD no Diário do Sul, com a epígrafe O Cuco, desde 1994. Foi recentemente eleito presidente da Assembleia Geral do Clube Português de Banda Desenhada [vulgo CPBD], associação que há muito acompanha de perto. Costuma elaborar os cartazes anunciadores dos frequentes eventos culturais do Clube».

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PARABÉNS E MUITAS FELICIDADES, DÂMASO AFONSO!

OS REIS DO RISO – 6

ESTROMPA – O HUMOR À FLOR DA PELE

ESTROMPA photo 920Este mês ficou assinalado pelo brusco desaparecimento de outra notável figura da BD portuguesa, um dos mais singulares humoristas da sua geração, mas de carreira tão discreta como a sua própria personalidade, que — apesar da formação que obteve na Escola António Arroio — procurou seguir novos rumos, fazendo a ponte entre um certo classicismo (de inspiração tradicional) e um conceito mais vanguardista, fortemente marcado pelo estilo underground que caracterizou indelevelmente o seu traço.

Tive o prazer de trabalhar com Estrompa, em perfeita sintonia, nalguns projectos de que guardo boa memória, como O Mosquito (5ª série), da Editorial Futura (1984-86) — onde ele animou a rubrica Clássicos & Desintegrados —, as Selecções BD (2ª série), da Meribérica/Liber (1998-2001), e o livro de homenagem a Vasco Granja, “Uma Vida… 1000 Imagens”, editado pela Asa em 2003. Durante uma relação de amizade encetada muitos anos antes, sempre admirei o seu profissionalismo, o seu sentido de humor, a sua franqueza, a sua honestidade, o seu respeito pelo próximo, a sua inata simplicidade.

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Esta foi também a faceta mais marcante do seu carácter, distinguindo-o de outros autores do seu tempo que tiveram carreira pública mais notória, não porque o excedessem em mérito e brio profissional, mas porque quiseram estar na primeira linha, enquanto que ele sempre se remeteu a um obscuro e modesto recolhimento, embora atravessado por Shock fanzine 28 (Estrompa)alguns flashes de brilhante inspiração, como denota o seu trabalho gráfico nalguns fanzines (Shock, Banda, CafénoPark), e sobretudo a mais emblemática das suas criações: uma série policial recheada de humor negro, com as confidências, bem apimentadas de sexo, anarquia e violência, de um satírico (e sátiro) anti-herói conhecido pela alcunha de Tornado.

Nas Selecções BD, onde esta série fez uma breve reaparição (nº 9, Julho 1999), enquadrada por um exce- lente estudo de Geraldes Lino, Estrompa realizou também alguns trabalhos dignos de nota (mas a cores, registo pouco comum no seu currículo), cujo mote obedecia a uma regra simples: a apresentação do sumário em jeito de cartoon, numa dupla tira, com tema livre. Tarefa em que ele se sentiu como peixe na água, rivalizando com outros autores que também se encarregaram desse espaço criativo e de síntese gráfica, muito apreciado pelos leitores da revista.

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Como preito à sua memória e ao seu talento artístico, num género em que se cotou como um dos melhores humoristas da sua geração, tanto pelo estilo inconfundível como pela prosa vernácula, sem “meias tintas” — que nascia espontaneamente do seu espírito anti-conformista, despido de preconceitos moralistas, do seu olhar singelo e, ao mesmo tempo, límpido e maduro, capaz de transformar a realidade urbana numa crónica brejeira de costumes, matizada de comédia policial —, aqui ficam também dois sumários a cores que a Selecções BD apresentou nos nºs 28 e 29 (2001), e o episódio de Tornado 1989 (título completo da série) publicado no nº 9 da mesma revista.

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NÚMEROS “PRIMUS”, NÚMEROS RAROS – 2

O MOSQUITO RESSUSCITADO… Mosquito Futura - nº 1   727PELA 4ª VEZ (1)

Mosquito Futura - Postal d'AnúncioHá três décadas, em Abril de 1984 — ano que os leitores do célebre romance futurista de George Orwell guardarão sempre na memória —, saiu o primeiro número de uma nova série d’O Mosquito, a mítica revista nascida em 14 de Janeiro de 1936 por obra de dois amigos com jeito para escrever e desenhar e já com larga experiência, sobretudo o primeiro, no campo do jornalismo infanto-juvenil: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

Ostentando um cabeçalho com a imagem simbólica de um “mosquito ardina”, criada em 1943 por E. T. Coelho, o mais notável colaborador do seu primeiro ciclo vital, esta nova série d’O Mosquito, a quinta por ordem cronológica — que até teve direito a uma campanha publicitária, em vésperas do seu lançamento —, foi o corolário dos álbuns publicados pela Editorial Futura, com recuperação de histórias Mosquito Futura - almanaque 1984    726que se tornaram grandes clássicos, como “O Caminho do Oriente” (a obra-prima de E. T. Coelho), e de um Almanaque O Mosquito, editado em finais de 1983, numa tentativa nostálgica de reviver um título cheio de nobres tradições e o respectivo Almanaque O Mosquito e a Formiga, cujo número único saiu no Natal de 1944.

A penúltima “ressurreição” d’O Mosquito tinha ocorrido quase dez anos antes, mas foi de todas a mais efémera, pois saldou-se também por um número isolado — hoje uma raridade que não vale o seu preço de mercado, já que nada de importante acrescentou ao prestigioso historial do seu “irmão” mais velho, ao contrário da 2ª série, dirigida e editada, em 1960/61, por José Ruy, num esforço pioneiro e entusiástico que se traduziu pela publicação de 30 fascículos semanais. Neles foram reeditadas algumas séries clássicas d’O Mosquito e revividas célebres personagens como o Capitão Meia-Noite e Rudy Carter, a par de outro material inédito.

A 3ª série, publicada também em 1961, sob a égide de António Costa Ramos, teve apenas quatro números, num formato idêntico à anterior e com um sumário ainda mais nostálgico, que abrangia séries cómicas e grandes êxitos do passado, como O Gavião dos Mares, O Voo da Águia e Pelo Mundo Fora. Mas os leitores dos anos 60 já estavam noutra “onda”!…

Mosquito Nº13 - 2ª serie & nº 3 3ª serie

A aventura d’O Mosquito, da Editorial Futura — de início com periodicidade bimestral, depois mensal —, não foi além de 12 números, mas tanto bastou para marcar a diferença em relação às outras revistas de BD que apareciam nas bancas, Mosquito Futura - nº 1 Sumário739nomeadamente as duas mais antigas: O Falcão, do Grupo de Publicações Periódicas, e o Mundo de Aventuras, da Agência Portuguesa de Revistas (APR), que, apesar de ainda terem um público fiel, já se aproximavam também, a passos largos, do seu fim.

Tive o raro privilégio de coordenar simultaneamente, durante cerca de 22 meses, O Mosquito da 5ª série e o Mundo de Aventuras, que já contava a bonita idade de 35 anos. Essa acumulação de funções paralelas em revistas quase concorrentes, não me acarretou quaisquer problemas porque os meus vínculos com a APR já eram, então, de natureza precária, pois tinha passado voluntariamente ao regime de colaborador em part-time. Apesar disso, ainda me aguentei no Mundo de Aventuras até ao seu “estertor” final, que coincidiu com a queda, não menos dolorosa e lenta, da APR, a maior empresa do seu ramo até à década de 80.

N’O Mosquito da Futura tentei, com o precioso e incondicional apoio do seu director, o malogrado Dr. Chaves Ferreira, fundir a tradição clássica com uma linha mais modernista, o que nos permitiu apresentar obras de autores contemporâneos, sobretudo europeus e sul-americanos, que ainda hoje são grandes figuras do mundo da BD.

Mosquito Futura - nº 1 Desafio 1e 2

Logo no primeiro número (com histórias curtas ou com séries), foi a vez de Eduardo Teixeira Coelho (O Desafio), António Hernandez Palácios (Manos Kelly), Juan Jimenez (Ás de Espadas), Júlio Ribera (Nunca Estamos Contentes), Esteban Maroto (Zodíaco) — e seguidamente de Jordi Bernet, Moebius, Mandrafina, Solano Lopez, Milo Manara, Guido Buzzelli, Jesús Blasco, Hugo Pratt, Paul Gillon, Yves Chaland, Richard Corben e outros.

Alguns destes nomes, como Moebius, Chaland e Mandrafina, foram mesmo estreias absolutas no panorama da BD portuguesa.

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Procurámos também que a revista incluísse colaboração de desenhadores nacionais, de preferência com histórias inéditas, apesar disso acrescentar mais despesas ao seu oneroso orçamento, visto que o material estrangeiro nos ficava geralmente mais barato. Encargos a ter em conta, pois a revista fora planeada, de início, com 60 páginas, oito das quais a cores, além das capas, seguindo o modelo das suas congéneres espanholas Blue Jeans, Comix, Cimoc e Totem (estas ainda mais volumosas).

Nesse caderno central a cores teve honras de estreia a magnífica série Manos Kelly, com a deslumbrante paleta de um mago da BD espanhola: António Hernandez Palácios.

Mosquito Futura - nº 1 Manos Kelly 1 e 2

Ao nosso convite responderam, de imediato, Estrompa e Augusto Trigo, autores de características muito diferentes, mas já de mérito consagrado — o primeiro com a rubrica satírica Clássicos e Desintegrados, sucessão de hilariantes pastiches de personagens célebres da BD, e o segundo (a quem se deve a capa do número inaugural) com a sua esplendorosa série de temática africana Kumalo, um dos muitos trabalhos em que colaborei com ele, como autor do argumento, e que ainda hoje é um dos nossos preferidos.

Sobre o mesmo tema, escrevi também, para esse primeiro número, um artigo de divulgação intitulado “A África Negra na BD Portuguesa”, em que passei em revista outras obras de conhecidos autores nacionais desenroladas em paragens africanas.

Mosquito Futura - nº 1 Kumalo 1 e 2Mosquito FUTURA - nº 1 Kumalo 3 e África Negra na BD 2