IMAGENS DO PASSADO – 1

Esta foto histórica, com quatro dos maiores desenhistas brasileiros do século XX, verdadeiras glórias da ilustração e das “histórias em quadrinhos”, foi extraída de uma revista da EBAL (Editora Brasil-América Lda.), a Epopeia-Tri nº 55 (Fevereiro 1986).

Ivan W. Rodrigues foi autor da “História do Brasil em Quadrinhos” (2 vols.) e de outras obras documentais de referência; A. Monteiro Filho, precursor de toda uma geração de desenhistas, lançou as histórias em quadrinhos no Brasil; André Le Blanc foi o primeiro artista brasileiro do seu género a fazer carreira nos Estados Unidos; e António Euzébio tornou-se o capista, por excelência, da EBAL, com obras admiráveis espalhadas por dezenas de revistas (muitas das quais distribuídas também no nosso país).

JOHN F. KENNEDY NA BANDA DESENHADA – 2

“MISSÃO DO SUPER-HOMEM PARA O PRESIDENTE KENNEDY”

Almanaque Superman 1965 (capa)Do nosso amigo Leonardo De Sá um “poço de sabedoria” nas mais diversas matérias, reputado ensaísta e investigador na área da BD, com obra extensa e de vulto, sobretudo monografias, publicada nos dois últimos decénios, em Portugal e no estrangeiro, recebemos esta magnífica imagem com a capa do Almanaque de Superman 1965, dado à estampa pela Ebal (Editora Brasil-América, Lda), companhia criada por Adolfo Aizen em 1945 e que se tornou uma das principais promotoras das histórias em quadrinhos no vasto território brasileiro e noutros países da América do Sul.

Aizen lançou muitas séries americanas de autores consagrados, como Alex Raymond, Hal Foster, Lyman YoungWilliam Ritt & Clarence Gray, Burne Hogarth, e converteu os super-heróis, com destaque para Superman, Superboy  e Batman, nos personagens favoritos, durante várias décadas, do público brasileiro.

Nesta capa, da autoria do mestre Monteiro Filho — referência incontornável das histórias em quadrinhos nacionais, na época pioneira da sua expansão nas páginas do Suplemento Juvenil, criado também por Adolfo Aizen —, é distinguida, de forma original, a histórica “Missão do Super-Homem para o Presidente Kennedy”, à qual fizemos avultada referência nos posts anteriores dedicados a JFK e a Al Plastino, o malogrado artista que desenhou esse célebre episódio para a revista da DC Superman # 170 (Julho, 1964), e que faleceu, por doença, há apenas quatro dias, na tarde de 25 de Novembro, notícia que só começou a circular no dia seguinte, depois do nosso post já ter sido editado.

Superman #170 (capa 2)Uma singular coincidência, que aproveitámos para fazer mais uma merecida e sentida homenagem a Al Plastino, complementada agora por esta bela amostra da arte de Monteiro Filho, que muitos fãs portugueses e brasileiros do Super-Homem nunca tiveram certamente diante dos seus olhos. Acresce que ela é uma peça de singular importância, única variante mundial, ao que tudo indica, da vulgar edição da DC, cuja capa, seguindo uma linha tradicionalista, versava outra aventura do Homem de Aço publicada no mesmo número, com o título “If Luthor Were Superman’s Father”.

Para evitar controvérsias com os leitores, nas ondas de choque provocadas pela trágica morte de Kennedy, o editor Mort Weisinger preferiu “jogar pelo seguro”, escolhendo uma capa puramente comercial, sem qualquer relação com a história mais emblemática desse número, ou seja, a que Al Plastino ilustrou, tendo por tema a grande campanha nacional de aptidão física que o malogrado Presidente queria promover entre a juventude americana. 

Os nossos agradecimentos a Leonardo De Sá por nos ter brindado com outro exemplo (e talvez dos mais raros) da passagem de JFK pela banda desenhada. A seguir apresentamos algumas páginas dessa edição brasileira de finais de 1964, infelizmente a preto e branco e com uma qualidade gráfica que deixava muito a desejar.

Missão do Superman para JFK (Alm)+2Missão do Superman para JFK - 3 e 4Missão do Superman para JFK - 5 e 7

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 5

OUTRA VEZ FÁTIMA

Ao que recentemente apurámos, com base numa informação de Carlos Gonçalves, estudioso e coleccionador com profundos conhecimentos sobre a BD portuguesa e brasileira, o álbum Notre-Dame de Fatima, com texto de Agnès Richomme e desenhos de Robert Rigot (a que fizemos referência num post anterior que pode ser visto aqui), foi o segundo de temática mariana realizado por estes autores. O primeiro teve honras de edição portuguesa em 1954 (Ano Mariano), pelo Secretariado Nacional de Catequese, com o título Nossa Mãe, Nossa Rainha (A Vida de Nossa Senhora), mas só na parte final relatava os milagres e as aparições de Fátima. Trata-se do nº 2 da colecção Belles Histoires et Belles Vies, publicado pela primeira vez em 1949, com o título La Belle Vie de Notre-Dame (informação de Leonardo De Sá), mais tarde abreviado para Marie de Nazareth.

Rigot capa e página

Carlos Gonçalves, a quem expressamos, mais uma vez, o nosso reconhecimento, enviou-nos também duas páginas da história publicada na colecção brasileira Série Sagrada, da Ebal (série normal e série especial), com sugestivas capas de António Euzebio e Monteiro Filho (respectivamente), já apresentadas nesta rubrica. Infelizmente, continuamos a desconhecer o autor dos desenhos, embora possa tratar-se, como sugeriu Carlos Gonçalves, de um dos artistas referidos: Monteiro Filho. Aqui fica o registo.

Coleção serie sagrada

img489Outra interessantíssima versão de que Carlos Gonçalves nos deu conhecimento surgiu em 1952 no livrinho Fátima Para os Vossos Filhos, escrito em verso por Rui Santos, com imagens de um dos nossos mais talentosos ilustradores infantis, o saudoso Méco, de seu nome António Serra Alves Mendes, pai de outro artista que lhe seguiu com sucesso os passos: Zé Manel.

Não se trata de uma história aos quadradinhos (embora com vinhetas sequenciais), mas poder apreciar um trabalho raro de Méco, numa das áreas em que mais se distinguiu, a ilustração para crianças, com toda a singeleza e prazenteiro encanto que caracteriza o seu estilo, é motivo suficiente para o incluirmos nesta lista.

Nascido em 1915 e falecido tragicamente em 1957, quando passeava de barco com o filho, Méco deixou magníficos exemplos da sua arte inconfundível em revistas tão carismáticas como O Papagaio (onde eu li, pela primeira vez, As Minas de Salomão, aventuras fantásticas transfiguradas pelo seu traço semi-caricatural), O Senhor Doutor e Joaninha.

img490

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 4

FÁTIMA, TERRA ELEITA DE NOSSA SENHORA

Fátima - Notre-Dame de FatimaUm dos temas religiosos mais em foco na nossa história contemporânea e no seio da igreja católica — as aparições e os milagres de Fátima —, foi também objecto de muitas abordagens em álbuns e revistas de BD, de diversas procedências, merecendo especial relevo, pelo trabalho documental e artístico, a que foi dada à estampa, com texto de Agnès Richomme e desenhos do veterano Robert Rigot (1908-1998), na colecção das Editions Fleurus, Belles Histoires et Belles Vies, uma das mais célebres de temática religiosa em língua francesa.

Não é possível classificá-la, em rigor, como uma história aos quadradinhos, pois nessa colecção o texto tinha primazia sobre as imagens, que eram apenas quatro por página. No entanto, merece destaque a minúcia histórica do relato, com 164 vinhetas, e o apuro, a harmonia, a exactidão factual (até no retrato dos três pastorinhos) que caracterizam os desenhos de Robert Rigot, realçados pelos suaves tons em lavis. Segundo conseguimos apurar, a primeira edição deste álbum data de 1961.

Fátima - Notre-DAme de Fátima 1 e 2Fátima - Notre-Dame de Fatima - 3 e 4

Queremos também assinalar, pela sua novidade e raridade, algumas publicações de origem mexicana, entre as quais uma de produção mais recente (Abril de 2001), que ostenta o nº 66 da colecção Hombres y Héroes, da editorial Novedades, com capa de Francisco Samaniego e guião de Victor Manuel Yañez, realizado por um desenhador sem grandes credenciais, pelo menos por estas bandas, de seu nome Gregório Grande (note-se que o formato da revista até é bastante pequeno: 13 x 14,5 cms).

Notre-Dame de Fátima quadro

Fátima - Quien fuéNo México, país católico, o culto mariano também é seguido com devoção por milhões de fiéis, não sendo, pois, de admirar que tenhamos encontrado mais revistas, de várias editoras, com a história de Fátima, duas delas impressas a sépia, com argumento de Francisco Gurza e desenhos do mesmo artista, por sinal de bom nível, António Gutierrez, mas em colecções distintas: Biografias Selectas nº 127 (Abril de 1961), da Editorial Argumentos (Edar), e Quien Fue…? nºs 15 e 16 (Fevereiro de 1981), da Editorial Vid; a terceira, de aspecto mais modesto, com o selo da Editorial Pin-Pon, pertence à colecção Vidas Ejemplares y Milagros (nº 33, Maio de 1984) e tem guião de J. Santoyos e desenhos de Pedro Morales, cujos trabalhos também nunca chegaram ao continente europeu.

Fátima - Biografias Selectes capa e 1Fátima - Biografias Selectes 2 e 3Fátima - Vidas ejemplares - capa e 1

Noutro país, o Brasil, onde o catolicismo é a religião dominante, temos notícia de mais uma versão dos milagres de Fátima, publicada na revista Série Sagrada nº 2 (Outubro de 1953), da Ebal (Editora Brasil-América), com uma capa muito semelhante à da revista mexicana Quien Fue…?, mas não podemos fornecer mais pormenores sobre esta edição, porque nem o nosso gato conseguiu ainda encontrá-la cá em casa. A Ebal apresentou também a história dos pastorinhos, com uma capa diferente, na Série Sagrada Especial nº 1. Aqui ficam essas capas, retiradas do site guiaebal: http://guiaebal.com/index.htmlque recomendamos vivamente a todos os interessados pelas publicações desta antiga editora.

Série Sagrada nº 2 e especial (Ebal)jpg Segundo Leonardo De Sá, a quem agradecemos a “dica” e as imagens (fornecidas há mais de três anos!), a desaparecida Editorial Campo Verde, com gráfica própria na Venda Nova, publicou em 1978 um pequeno álbum sobre esta temática, intitulado “O Milagre de Fátima”, com desenhos do prometedor estreante Duarte Gravato. Milagre de Fátima capa e page

Fátima Pisca-PiscaMas as versões que mais despertaram o meu interesse, apesar do seu reduzido número de páginas — à parte, bem entendido, a de E.T. Coelho, cujo texto me coube escrever, publicada em1985 pela Editorial Futura e reeditada em 2001 pela Meribérica —, foram as que surgiram nas páginas de duas das mais importantes revistas europeias, o Tintin e o Spirou, com a assinatura de dois grandes mestres da BD belga: Eddy Paape (1920-2012) e Fernand Cheneval (1918-1991). Enquanto que a primeira, “Le Soleil Danse à Fatima”, é ainda inédita entre nós, a segunda, “Fátima, Terre Élue de Notre-Dame”, com o sóbrio e esmerado traço de Cheneval — outro artista que se especializou no domínio das histórias curtas com temas documentais e didácticos —, foi publicada duas vezes em português, por intermédio do Pisca-Pisca nº 15 (Maio de 1969) e do Mundo de Aventuras nº 448, de 13-5-1982 (neste a preto e branco, com uma capa alegórica de Augusto Trigo).

Aqui têm ambas, nas respectivas versões integrais em francês, oriundas do Spirou nº 1252 (12-4-1962) e do Tintin nº 43, 18º ano (22-10-1963). Os argumentos, pela mesma ordem, são de Octave Joly e Yves Duval, nomes tão ilustres no meio bedéfilo franco-belga como os dos seus colaboradores artísticos. Resta ao nosso gato desejar a todos boa leitura!

Nota: um artigo muito interessante, com informações complementares sobre este tema, pode (e deve) ser lido no blogue BDBD:  http://bloguedebd.blogspot.pt

Fátima - Paape - 1 e 2Fátima - Paape - 3 e 4Fátima - Cheneval - 1 e 2Fátima - Cheneval - 3