JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 11

OS CAVALEIROS DO VALE NEGRO (1ª parte)

José Ruy (1950)Hoje, dia de aniversário de Mestre José Ruy, a quem endereçamos com muita amizade os nossos parabéns e votos de longa vida, começamos a publicar mais uma história realizada nos primórdios da sua carreira, quando ele era um dos mais jovens e mais activos colaboradores d’O Papagaio, vistoso semanário infanto-juvenil cuja redacção era chefiada, nessa época, por Carlos Cascais. José Ruy tinha, então, apenas 17 anos e as suas inspirações artísticas vinham de temas como as aventuras na selva, policiais, de piratas e de cowboys.

Género difícil e exigente mas apaixonante, o western, com as suas ramificações literárias e cinematográficas, que o fascinavam desde a infância, foi para José Ruy uma experiência nova nas páginas d’O Papagaio, que a acolheu com as devidas honras, reservando-lhe lugar condigno e as suas cores mais garridas, nos nºs 665 a 681, publicados entre 8 de Janeiro e 29 de Abril de 1948.

Cavaleiros do Vale Negro - 678A história, com o palpitante título “Os Cavaleiros do Vale Negro”, tinha argumento de Roussado Pinto nos primeiros episódios… mas, como José Ruy nos revelou, essa colaboração foi sol de pouca dura, porque Roussado Pinto, com o seu feitio irrequieto, decidiu, entretanto, experimentar outros voos. O facto, porém, importa ser salientado, não só como uma excepção na carreira de José Ruy (que só repetiria a experiência de desenhar aventuras de cowboys uma única vez), mas também por ter sido a primeira escrita, ainda que parcialmente, por um dos maiores argumentistas da BD portuguesa.

Nos episódios seguintes, José Ruy teve de se desenvencilhar sozinho, mas criar uma história não era problema para ele, como demonstrou sobejamente n’O Papagaio, onde até chegou a ilustrar contos da sua própria autoria… que já revelavam, além do talento artístico, uma veia literária digna do seu fértil imaginário.

A par destas primeiras páginas, reproduzimos seguidamente um breve depoimento com que José Ruy amavelmente satisfez a nossa curiosidade, respondendo a algumas questões que lhe pusemos acerca da sua primeira história de cowboys, de que em breve publicaremos os restantes episódios.

Cavaleiros do Vale negro - 1 e 2Cavaleiros do Vale negro - 3 e 4

Confesso que esta história foi uma das que mais me entusiasmou quando, ainda menino e moço, lia O Papagaio — que, nessa fase, ainda publicava as aventuras de Tintin (O Segredo da Licorne) e prosseguia a sua carreira de vento em popa, com o concurso de uma equipa jovem e talentosa, formada nas suas páginas. As palavras, agora, são de José Ruy:

«Em finais de 1947, perfaziam-se três anos que publicava ininterruptamente as minhas histórias em quadrinhos n’O Papagaio, bem como novelas e contos, quando o Roussado Pinto — que se instalara também na redacção d’O Papagaio — fez a proposta de me escrever um argumento. Era uma novidade para mim, pois até aí sempre fizera os argumentos e guiões para as minhas histórias.

O Roussado Pinto, desde que o seu jornal infanto-juvenil O Pluto acabara, estava a evidenciar-se com as suas novelas e guiões, colaborando em revistas, almanaques, no Século Ilustrado e onde podia. O Tiotónio d’O Mosquito havia-o acolhido na sua redacção, onde eu trabalhava já na selecção litográfica das cores».

Cavaleiros do Vale negro - 5 e 6Cavaleiros do Vale negro - 7 e 8

«Considero ter sido uma experiência agradável e fiquei satisfeito com a ideia. É diferente dialogarmos com alguém que nos apresenta uma ideia já estruturada e a que temos de dar resposta, do que o monólogo que existe quando somos nós próprios a fazer enredo e desenho. Ele descrevia como idealizava a cena, a posição das figuras e outros elementos, os campos de visão, quem falava primeiro e a seguir, o que obrigava a uma certa disciplina na montagem das composições.

Só tinha um contra, dava-me os guiões muito em cima da hora, o que me obrigava a fazer alguns longos serões para não falhar na entrega dos originais.

Algum tempo depois, Roussado Pinto saiu d’O Papagaio e deixou o argumento em meio. Disse-me que lhe desse continuidade, pois achava-me em condições para o fazer. E sem saber de todo o que ele havia idealizado para desfecho da história, lá fui inventando outros episódios até à sua conclusão».

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 5

Natal - Faísca nº42

Esta capa, com um dos mais tradicionalistas temas de Natal, o Presépio, deve-se ao traço de António Barata, um artista que, apesar de muito subestimado, foi um dos melhores colaboradores de revistas infanto-juvenis como O Senhor Doutor (onde se estreou na técnica das histórias aos quadradinhos), O Papagaio e O Faísca. Se a sua produção não tivesse sido tão esparsa e irregular, devido a outras escolhas profissionais mais lucrativas, teria hoje certamente um lugar privilegiado nas crónicas da “época de ouro” da BD portuguesa, a par de Fernando Bento, E.T. Coelho e Vítor Péon, que foram seus contemporâneos, embora manifestassem outras influências e menos admiração (sobretudo os dois primeiros) por um estilo narrativo à maneira americana.

Foi n’O Faísca, onde criou as suas melhores obras (“Pedro, o Gavião”, “O Cavaleiro da Rainha”, “O Rei da Campina”), que António Barata conquistou o lugar a que tinha direito, consolidando o seu próprio estilo e evidenciando, cada vez mais, uma firmeza e maturidade de traço dignas de nota, a par de uma natural elegância (herança de Alex Raymond, um dos seus maiores mestres), como prova esta magnífica capa de Natal, publicada sem assinatura no nº 42, de 25/12/1943, com 12 páginas.

O natal de Branca de Neve + Florbela e Diabrete

Este número d’O Faísca — revista que teve existência relativamente efémera, pois não chegou ao 3º ano, devido à forte concorrência d’O Mosquito e do Diabrete — era dedicado por completo à quadra natalícia, como ilustram algumas festivas histórias inglesas, com o traço de bons (mas anónimos) desenhadores humorísticos, contos e passatempos vários e duas poéticas alegorias do director e editor Carlos Cascais, que se distinguiu também, pelos seus dotes literários, noutras publicações de maior nomeada, como O Papagaio.

Um desses poemas, com o título “Invocação”, lembrava o flagelo da guerra que, em pleno Natal de 1943, continuava a assolar várias nações europeias.

Natal - Invocation + Súplica de criança

A colorida contracapa — luxo reservado somente a duas páginas nesta edição de Natal, assim como nos números anteriores —, apresentava um curioso “brinde”, que colheu decerto o aplauso dos leitores, mas com evidente prejuízo da revista: dois postais de Boas Festas para recortar e colar em cartolina, pois podiam ser enviados pelo correio.

Aliás, as contracapas d’O Faísca tornaram-se descartáveis, numa série de números, por causa das estampas de um concurso com o sugestivo tema Bandeiras de Portugal. O garrido aspecto dessas estampas, que deviam ser coladas numa caderneta, habilitando assim a uma bicicleta como grande prémio, acabaria por penalizar os coleccionadores… alguns deles ainda hoje à procura de exemplares com essa última folha.

Natal - CCapa Faísca nº 42   319

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 7

RAPTORES – 3

Aqui têm mais quatro episódios desta trepidante aventura de ambiente marítimo, desenhada por José Ruy nos seus “verdes anos” para a 2ª série d’O Papagaio, quando este semanário infantil, dirigido durante os primeiros tempos por Adolfo Simões Müller, interrompeu bruscamente a sua longa carreira, recheada de êxitos, transformando-se num modesto suplemento da revista de actualidades Flama — embora  continuasse a acolher trabalhos dos seus melhores colaboradores, como José Ruy, Vítor Silva e Carlos Cascais.

Raptores 8 e 9Raptores 10 e 11 (Nota: vejam no próximo post um curioso artigo de José Ruy sobre os processos de impressão desta e de outras histórias d’O Papagaio)

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 6

RAPTORES – 2

Papagaio Flama577Apresentamos hoje mais três páginas de “Raptores”, história iniciada no     nº 67 da revista Flama, quando esta inseria como suplemento O Papagaio, depois deste ter sido um semanário autónomo e de largo prestígio entre    o público infanto-juvenil até ao nº 722. Propriedade da União Gráfica, foi um tanto intempestivamente, apanhando de surpresa os próprios leitores, que O Papagaio se transformou, a partir    de Fevereiro de 1949, num modesto suplemento da Flama, muito embora continuasse a contar com a assídua colaboração de Carlos Cascais, José Ruy e Vítor Silva, que formavam o núcleo principal (literário e artístico) da antiga redacção. E foi neste raro suplemento, como também já várias vezes referimos, que José Ruy teve ensejo de publicar alguns dos melhores trabalhos dessa fase pioneira, evidenciando notáveis progressos a nível técnico e uma grande sensibilidade artística em temas exóticos como os das “Lendas Japonesas”, mas que já dantes tinham frutificado em histórias cheias de movimento e ambientadas em cenários modernos, como “Reportagem Inesperada”,     “A Bravura de Chico” e “Raptores”, que temos vindo a apresentar no nosso blogue.

«Sobre esta aventura — conta-nos o Mestre, com a sua memória sempre viva —, não há episódios de bastidores. O miúdo, o Cartucho, teve por modelo um rapazito chamado Pedro Gomes, que morava perto da casa dos meus pais, onde desenhei estas histórias, e que mais tarde veio a ser jogador do Sporting. Ainda hoje ele se lembra perfeitamente dos dois escudos e cinquenta centavos que eu lhe pagava à hora pelas poses!».

Carlos Cascais retrato«Quanto ao Carlos Cascais — prossegue José Ruy, em resposta a outra pergunta nossa —, ele era chefe de redacção d’O Papagaio, mas quando este foi integrado na Flama tornou-se uma espécie de coordenador. O verdadeiro chefe de redacção era o Padre Diogo Crespo, uma belíssima pessoa, sendo o director o desportista Mário Simas. O Cascais tratava com os colaboradores, escrevia peças e um conto ou outro, e depois de elaborado o número o Diogo Crespo passava tudo a pente fino. O Simas aparecia em representações, como entrevistas a figuras importantes. Não interferia na revista, dava só o nome de proa».

«Junto um retrato que fiz do Carlos Cascais e que apliquei numa ilustração da própria Flama. Foi um desenho realizado logo à pena, sem lápis, como algumas das figuras nas vinhetas de “Raptores”. Eram ensaios que eu experimentava na altura, logo a partir dos modelos, influenciado pelo Mestre espanhol Emilio Freixas, que desenhava desta maneira, sobre vegetal, com um ligeiríssimo esboço a lápis noutro papel que punha à transparência. É que ao cobrir os desenhos a lápis, feitos estes do natural, os meus desenhos perdiam      (e perdem) a frescura do croquis».

Carlos Cascais foi também retratado em “Raptores”, como é patente na penúltima vinheta da terceira página que hoje publicamos. Entretanto, recebemos já de José Ruy um extenso artigo sobre a sua colaboração n’O Papagaio, revista onde teve início uma prolífica carreira artística com mais de 60 anos — artigo esse cheio de curiosos pormenores e de muitas revelações, que começaremos a publicar dentro de pouco tempo.

05 Raptores

06 Raptores

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Nota à parte — O ex-jogador sportinguista Pedro Gomes, que serviu de modelo a José Ruy nesta história, chegou a ser internacional nas décadas de 60 e 70 (em que o Sporting arrecadou muitos triunfos) e vive ainda hoje em Lisboa. Terminada a sua carreira de jogador, como defesa direito, dedicou-se a treinar algumas equipas da 2ª Divisão, com destaque para o Marítimo e o União de Leiria, que fez subir à 1ª Divisão, e em 1984 regressou às hostes do Sporting como treinador-adjunto, ascendendo ao lugar de treinador principal nas últimas jornadas dessa época.