NO ANIVERSÁRIO DO JORNAL DO CUTO (1971-78)

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Cumpre-se hoje mais um aniversário do Jornal do Cuto, lançado em 7 de Julho de 1971 pela Portugal Press, editora fundada por Roussado Pinto (1926-1985), cuja actividade profissional na área Roussado Pinto foto Ada Banda desenhada já vinha de longe, desde títulos como O Pluto, Titã, Flecha e Valente, criados nos anos 40 e 50.

A essas efémeras tentativas de fazer concorrência a outras revistas juvenis solidamente implantadas no nosso meio editorial, como O Mosquito, o Diabrete, o Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras, seguiu-se, duas décadas depois, a sua primeira empresa apoiada em bases financeiras mais firmes e o primeiro dos seus títulos que iria alcançar um satisfatório êxito comercial, aliado a uma longevidade que só foi abruptamente interrompida por motivos de saúde do seu director.

Jornal do Cuto 2 300 - 7Roussado Pinto não interrompeu aí a sua carreira, continuando a dirigir os destinos da Portugal Press durante um novo período, que ficou assinalado por um dos maiores êxitos da imprensa portuguesa dessa época: o Jornal do Incrível.

Mas a sua grande paixão, como ele próprio tantas vezes confessou, era a Banda Desenhada, à qual deu o melhor de si próprio como propagandista e pioneiro de uma nova forma de arte popular que conhecia como poucos. Aliás, apesar de todas as contingências e adversidades do destino, nunca quis interromper a sua luta, sonhando ainda, pouco tempo antes de sofrer outro enfarte, em Março de 1985, reunir condições para ressuscitar o Jornal do Cuto. Infelizmente, já era tarde…

Nos primeiros números desta excelente revista, que durou até ao nº 174, publicado em 1/2/1978, destaca-se o equilíbrio entre autores clássicos oriundos d’O Mosquito — como Eduardo Teixeira Coelho (A Morte do Lidador, A Lei da Selva), Raul Correia (Cantinho de um Velho, O Navio Negro), Percy Cocking (Serafim e Malacueco) e Jesús Blasco, criador do mítico herói que Roussado Pinto escolheu para nome do seu novo jornal — e outros, sendo de referir entre estes a presença de Bud Sagendorf (Popeye), Mac Raboy (Flash Gordon), Alberto Salinas (Moira, a Escrava de Roma) e Russ Manning (Tarzan), além de José Batista e Carlos Alberto (este último ilustrador, com o pseudónimo de M. Gustavo, da rubrica Quadros da História de Portugal, publicada em separata).

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Outros vieram depois, também coroados por justa fama — como Alex Raymond, Mel Graff, Roy Crane, Hal Foster, Lee Falk, Phil Davis, José Luís Salinas, Walter Booth, Reg Perrott, Roy Wilson, Franco Caprioli, Emilio Freixas, Frank Bellamy, Sergio Toppi, Vítor Péon, Orlando Marques — e as homenagens ao Mosquito continuaram a ser uma das tónicas dominantes do projecto mais acalentado por Roussado Pinto, que se desdobrava em múltiplas tarefas, escrevendo, coordenando, traduzindo e até maquetizando a revista.

Jornal do Cuto 3 300 - 7Lembro-me de só ter visto o Jornal do Cuto, pela primeira vez, seis meses depois do seu lançamento, porque nessa altura vivia em Angola, aonde as revistas de BD (e outras) só chegavam por via marítima. Não porque as viagens através do Atlântico demorassem tanto tempo, como é lógico, mas porque era assim que funcionavam os circuitos comerciais e as leis da distribuição entre Angola e a metrópole. Por incrível que pareça!…

Seja como for, ainda recordo com nitidez esse primeiro encontro e a extraordinária emoção que senti ao ver numa loja do Lobito, cidade do sul de Angola onde estava de passagem, uma revista cuja capa me despertou imediatamente as memórias de Cuto, o maior herói d’O Mosquito, um dos gloriosos ídolos da minha geração.

Jornal do Cuto 4 - 300 7 2A partir desse dia, não fui capaz de esperar tanto tempo para ler o Jornal do Cuto e tornei-me assinante da revista por via aérea, tal como já era do Tintin e do Diário de Notícias (que publicava aos sábados um interessante suplemento intitulado Nau Catrineta, onde podíamos matar as saudades do Zorro e do Cavaleiro Andante).

Quanto ao Mundo de Aventuras, confesso que nessa época não estava no topo das minhas preferências (por causa do seu aspecto modesto, num formato muito reduzido), embora continuasse a acompa- nhar as aventuras de heróis como Mandrake, Rip Kirby, Garra de Aço, Matt Dillon, Matt Marriott e outros, sem imaginar, nem em sonhos, que viria a tornar-me seu colaborador (e depois coordenador), por ironia do destino, quando regressei à metrópole, poucos meses antes do 25 de Abril de 1974. E foi então que tive o privilégio de conhecer pessoalmente Roussado Pinto, com quem já trocava correspondência desde os primeiros números do Jornal do Cuto.

Jornal do Cuto 5 300 7À sua afabilidade e simpatia, à sua generosa amizade, ao seu caloroso e contagiante entusiasmo, ao seu epicurista gosto pela vida, que nada parecia afectar — nem mesmo os avisos dos médicos, que o admoestavam por trabalhar e comer demais —, à sua sabedoria sempre pronta a dar uma ajuda aos mais novos e inexperientes, devo muitos momentos de inesquecível convívio e camaradagem, e alguns dos mais preciosos conselhos que obtive na minha actividade profissional ligada à BD.

Por isso, ao recordar esta efeméride do Jornal do Cuto, quero também prestar, mais uma vez, homenagem ao seu criador, um ícone da Banda Desenhada portuguesa (e não só), cuja vasta obra permanece viva na memória nostálgica de várias gerações, com quem partilhou muitos êxitos e desaires, assim como muitos episódios de trinta anos de laboriosa carreira, ao serviço de uma causa que nunca renegou.

Nem mesmo quando o seu maior projecto (e triunfo) jornalístico, o Jornal do Incrível, que o absorveu por completo, durante os últimos anos de vida, se interpôs entre o amor pela BD e a dedicação a uma editora que estivera à beira da falência… mas que ele deixou, ao partir de súbito para outra grande aventura, com um saldo largamente positivo.

Obrigado por tudo, Roussado Pinto!

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 8

Estátua Vasco da Gama  838VASCO DA GAMA (1)

Entre as personagens da História de Portugal mais em foco, todas as que estão relacionadas com a época dos Descobrimentos adquiriram um cunho e um simbolismo especiais, nomeadamente Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Diogo Cão, Gil Eanes, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães e o Infante D. Henrique.

No campo da literatura juvenil e em particular da Banda Desenhada, todas foram retratadas por vários autores portugueses e até de outras origens, embora na maioria dos casos as versões alheias tenham tido pouca ou nenhuma divulgação entre nós, reduzindo bastante o conhecimento da importância e da projecção que os feitos heróicos dos nossos antepassados tiveram (e ainda têm) para muitos especialistas de diversas áreas, incluindo a Figuração Narrativa.

Albi del Vittorioso

Hoje, vamos recordar a figura de Vasco da Gama, fidalgo da confiança de D. Manuel I, natural de Sines, que se cobriu de glória por ter comandado a expedição que desbravou o caminho marítimo para a Índia, numa longa e atribulada viagem de dois anos (ida e volta), iniciada na praia do Restelo em 8 de Julho de 1497.

Milhares de jovens leitores d’O Mosquito reviveram no seu espírito, durante um período quase equivalente ao tempo real da viagem, a epopeia dos audazes navegadores portugueses, graças às magníficas imagens, em formato maior do que o normal (quatro, três e, às vezes, só uma por página), de uma magistral criação de Eduardo Teixeira Coelho, com o título “O Caminho do Oriente”, que um eminente crítico e estudioso das histórias aos quadradinhos, António Dias de Deus, comparou aos versos imortais de Camões, cognominando-a, com acerto, “Os Lusíadas da BD Portuguesa”.

Caminho do Oriente 1

Caminho do Oriente Vinheta Simão Infante849Descrito de forma lírica e empolgante por Raul Correia — e às vezes, também, em verso, como no episódio avulso da conquista de Lisboa aos Mouros, que o marinheiro trovador Fernão Veloso narrou aos seus companheiros, num momento de calmaria da viagem —, “O Caminho do Oriente” tem como principal protagonista um ladino garoto chamado Simão Infante, que veio para Lisboa, em cata de fortuna e de aventuras, e logo teve a sorte de se cruzar com Vasco da Gama, caindo nas boas graças do futuro Vice-Rei da Índia, pela sua esperteza, honestidade, arrojo e valentia.

Essas qualidades valeram-lhe também o favor régio e permissão para embarcar na pequena esquadra que se preparava para sulcar os mares desconhecidos, tornando realidade o velho sonho de descobrir a rota das Índias, das especiarias, das terras fabulosas que ocultavam preciosos tesouros.

Caminho do Oriente 2Caminho do Oriente 3

O sonho cumpriu-se e Simão Infante, depois de muitas e aventurosas peripécias em terras distantes e exóticas, que nunca sonhara conhecer — onde havia confraternizado com gentes de várias raças, aprendendo novos costumes e novas línguas, combatido perigos e inimigos de toda a espécie, às vezes escondidos na sombra, a ruminar planos de traição, e encontrado pitorescas personagens, como Tzerine, o mestre de artes marciais, e o faustoso Samorim, rajá de Calecut, que Vasco da Gama tratava com cortesia e prudente astúcia —, regressa ao reino com os sobreviventes da expedição, mais atilado e experiente do que à partida, graças a tudo quanto vira, aprendera e padecera.

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E, como a razão assiste aos valentes, Simão Infante não hesita em provar, mais uma vez, que é um moço de rija têmpera e um patriota dos quatro costados, quando um bufão começa a escarnecer dos perigos e tormentos da viagem, maldizendo os intrépidos mareantes que tinham passado por tantas provações, sob o férreo comando de Vasco da Gama, para levar até aos gentios o nome de Portugal e a fama dos seus heróis.

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História de longa duração, como já referimos, publicada entre os nºs 749 (28/8/1946) e 941 (30/6/1948) d’O Mosquito — embora com muitos intervalos, por doença ou excesso de trabalho de E. T. Coelho —, “O Caminho do Oriente” tornou-se uma das obras mais emblemáticas da BD portuguesa, vencendo a barreira do tempo para chegar até outros leitores, através das oportunas reedições no Jornal do Cuto, em 1971/72, e mais tarde na Antologia da BD Portuguesa, a primeira edição integral em álbum (seis volumes), a partir de provas originais, com posfácios de António Dias de Deus e textos revistos (depois de obtido o beneplácito do seu autor, Raul Correia), para evitar que as legendas, por vezes demasiado extensas, tapassem parte dos desenhos.

Vasco da Gama - Caminho do oriente Futura 1 e 2

Versões curtas, em jeito de biografia resumida, sobre a homérica epopeia de Vasco da Gama e do seu punhado de marinheiros, também as houve, realizadas por outros especialistas de temas históricos, como Baptista Mendes e Eugénio Silva, autores já familiares aos visitantes assíduos deste blogue.

A título de curiosidade, aqui ficam mais duas histórias com a sua assinatura, extraídas respectivamente do Mundo de Aventuras nº 476, de 25/11/1982, e do livro escolar Lições de História Pátria, com texto de Pedro de Carvalho.

Vasco da Gama -Baptista Mendes 1 e 2Vasco da Gama - Eugénio Silva 1e 2

Capa Pisca Pisca 17Outro desenhador português de ecléctica perso- nalidade artística, que deixou largo testemunho como pintor de excepcional craveira e desenhador de apurado estilo realista (embora, na BD, preferindo o preto e branco), Carlos Alberto Santos de seu nome, evocou também a figura e os feitos de Vasco da Gama numa história publicada a cores no nº 17 (Julho de 1969) da revista Pisca-Pisca, com o título “O Almirante das Naus da Índia” e texto de Olga Alves.

Pelo seu estilo vigoroso, as cores garridas e a abordagem concisa, mas sugestiva dos factos históricos, este breve episódio merece também ser recordado — o que fazemos, com a devida vénia, em jeito de homenagem ao prodigioso talento de um Mestre ainda vivo, que consagrou alguns dos seus ócios a uma paixão menor, mas indesmentível: a Banda Desenhada.

Vasco da Gama - Carlos Alberto 1 e 2Vasco da Gama - Carlos Alberto 3 e 4Vasco da Gama - Carlos Alberto 5          856

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 3

MAIS UMA RONDA PELO “PISCA-PISCA”

PISCA-PISCA - 1Aqui têm, caros internautas que regularmente nos visitam, mais uma série de capas do Pisca-Pisca, excelente mensário juvenil que se publicou entre Janeiro de 1968 e Dezembro de 1970, num total de 33 números, sob a direcção de Álvaro Parreira, que foi também um dos directores da 2ª série do Camarada, revista editada e distribuída pela Mocidade Portuguesa (MP), uma organização juvenil para- militar que ficou para a História como um dos símbolos do regime salazarista e da doutrina do Estado Novo.

À primeira análise, o Pisca-Pisca parece imbuído pelo mesmo espírito nacio- nalista, mas de uma forma mais discreta, mais sintonizada com a cultura do que com a política, como poderá constatar quem percorrer os seus números com atenção. As alusões ao regime e às campanhas cívicas e “patrióticas” da MP eram, quanto muito, subliminares. Os tempos, aliás, tinham mudado e, mesmo com Marcello Caetano na cadeira do poder, pressentia-se já o fim da ditadura…

PISCA-PISCA - 6 e 9

Neste conjunto de capas que hoje oferecemos à vossa curiosidade, figuram os traços, facilmente reconhecíveis, de três grandes ilustradores portugueses, cada um com obras de vulto no seu género (e que não olvidaram também a Banda Desenhada): José Antunes (nºs 1, 6 e 9), Eugénio Silva (nºs 25 e 29) e Carlos Alberto (nºs 30 e 33).

No nº 6 (Junho de 1968), o destaque foi dado a uma biografia de Camões em “quadrinhos”, narrando sumariamente, pelo traço de Fernand Cheneval, desenhador oriundo do Tintin belga, a epopeia poética e aventurosa de um dos maiores heróis da nossa História. Lembro-me bem de que este foi o primeiro número do Pisca-Pisca que me veio parar às mãos, quando eu e a minha família ainda vivíamos em Angola.

PISCA-PISCA - 25 e 29

A capa do nº 29 (Julho de 1970) exibe um belo exemplo do talento pictórico e figurativo de Eugénio Silva, um dos artistas gráficos mais em foco no Pisca-Pisca, que, no sumário desse mesmo número, brindou os leitores da revista com uma magnífica (e verídica) história de aventuras juvenis, em BD, intitulada “A Gruta dos Três Irmãos”.

Quanto a Carlos Alberto Santos, o mais realista de todos os desenhadores do Pisca-Pisca, distinguiu-se pelas suas composições sobre temas históricos (entre elas, uma HQ dedicada a Vasco da Gama), fazendo gala de um estilo robusto e vigoroso, de grande apuro estético e documental, a par de excepcionais aptidões como artista plástico.

PISCA-PISCA - 30 e 33

PISCA-PISCA - IZNOGOUD621Foi devido à valiosa colaboração literária e artística de numerosos autores portugueses e estrangeiros que o Pisca-Pisca, apesar de não ter conseguido ultrapassar algumas barreiras — resistindo precariamente à concor- rência de revistas com periodicidade semanal e menos preocupações de ordem didáctica, ou seja, com outros atractivos comerciais, como o Tintin e o veterano Mundo de Aventuras —, deixou uma agradável (e indelével) recordação entre alguns leitores desse tempo.

Especialmente por ter apresentado em estreia nas suas páginas, como já referimos noutro post (ver aqui), uma das séries mais hilariantes criadas pela fértil imaginação de René Goscinny, com desenhos de Tabary: “O Califa [de Bagdad] e o Grão-Vizir”, magistral sucessão de episódios curtos, onde, num ritmo frenético, como era timbre de Goscinny, assistimos às desgraças do maquiavélico e patético Iznogoud, cujos sinistros planos esbarram sempre em dois obstáculos incontornáveis: a candura e a boa-fé do rival que sonha destronar por todos os meios ao seu alcance.

 

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 5

Se ainda estivesse neste mundo, o nosso saudoso amigo e grande artista José Baptista teria feito 78 anos no passado dia 18. Ainda nos parece que foi ontem que falámos com ele pela última vez, sempre lúcido e calmo, mas já muito minado pela doença que em tão pouco tempo o vitimou, roubando-o inesperadamente ao afecto de familiares e amigos, num paradigma daquelas terríveis injustiças com que o destino (e a vida), por vezes, fulminam as efémeras e vãs esperanças humanas. No espírito de Jobat, a esperança de vencer a doença mantinha-se firme, acalentada pelo desejo de retomar a rotina familiar e o contacto com o seu mundo intelectual e artístico, logo que pudesse regressar a casa.

img504Continuando a homenagear a sua memória, através da obra que prodigalizou a milhares de jovens em tantas páginas de revistas como o Mundo de Aventuras, o Condor Popular e o Jornal do Cuto, e em inúmeros livros de colecções de bolso editadas pela Agência Portuguesa de Revistas (APR), da qual foi um dos principais colaboradores na área do desenho e da coordenação editorial, durante mais de 20 anos de profícua actividade, recordamos hoje outra das suas primeiras criações como autor de BD, dada à estampa por volta de 1958 na rara Colecção Audácia, cujos fascículos que formam o 5º volume se tornaram com o tempo os mais difíceis de encontrar.

Tal como “O Voto de Afonso Domingues”, um dos seus primeiros trabalhos de cariz histórico, já apresentado no nosso blogue (como podem ver aqui), este curto episódio evoca também um feito célebre da História de Portugal, narrando em imagens rústicas, mas de traço bem delineado, num estilo vigoroso, cheio de expressividade e movimento, a tomada do castelo de Santarém, durante as refregas com os Mouros pela expansão do território, no reinado de D. Afonso I.

Mais uma vez agradecemos a Carlos Gonçalves a colaboração que nos tem prestado, pois ficamos-lhe a dever a digitalização destas seis páginas (e respectiva capa), com a qualidade que os nossos leitores e amigos podem já de seguida apreciar.

Nota: “A Conquista de Santarém” foi publicada nos nºs 6 a 11 da Colecção Audácia, 5º e último volume. Na capa do fascículo nº 8, cujo tema central está assinado por José Baptista, notam-se também os traços de José Antunes, autor do cabeçalho, e de Carlos Alberto, que concebeu os frisos laterais, com figuras de vária índole. Os três eram, nessa época, os principais elementos da equipa de desenhadores da APR.

Conquista de Santarém 1+2Conquista de Santarém 3+4Conquista de Santarém 5+6

 

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 1

JOSÉ ANTUNES, CAPISTA DO PISCA-PISCA

Pisca pisca nº3Nesta rubrica em estreia do Gato Alfarrabista, vamos apresentar, uma vez por outra, algumas ilustrações que ainda hoje nos enchem o olho, escolhidas ao acaso entre as capas dos milhares de livros e revistas que atafulham todos os cantos desta casa. Até o nosso gato já tem pouco espaço para meter o nariz onde lhe apetece, porque certos caminhos lhe estão vedados e há portas (que guardam preciosos segredos, isto é, objectos muito sensíveis ao tacto e às unhas dos felinos) sempre fechadas.

Entre essas “relíquias” de papel, a nossa primeira escolha recaiu sobre algumas capas do Pisca-Pisca, revista de periodicidade mensal, nascida em Janeiro de 1968, sob a direcção de Álvaro Parreira e Olga Alves, na qual, entre outros motivos de interesse, surgiram pela primeira vez, em tradução portuguesa, as tragicómicas aventuras do ignóbil Grão-Vizir Iznogoud e do  inefável Califa de Bagdad, criadas por outra dupla de respeito: Goscinny (argumento) e Tabary (desenhos).

Com um excelente elenco de colaboradores e um lote bem escolhido de histórias aos quadradinhos, oriundas sobretudo de revistas franco-belgas, o Pisca-Pisca abriu também as suas páginas a alguns desenhadores portugueses de primeira linha, como José Garcês, José Ruy, Carlos Alberto, Eugénio Silva, Zé Manel, Fernandes Silva, Artur Correia e José Antunes — este último autor das capas que hoje vos apresentamos.

Pisca pisca nº2Com um fértil percurso artístico que o projectou desde as primeiras histórias aos quadradinhos no Mundo de Aventuras e no Camarada (2ª série) até aos píncaros da ilustração no Jornal do Exército e em inúmeras publicações de diversas editoras, José Antunes foi orientador gráfico do Pisca-Pisca, onde não fez banda desenhada, mas deixou alguns dos seus melhores trabalhos como ilustrador, nomeadamente as capas dos primeiros números, com destaque para as do nº 3 (Março 1968), assinalando a estreia da série “O Califa e o Grão-Vizir” (que se tornaram os heróis mais emblemáticos da revista), e do nº 2 (Fevereiro 1968), baseada numa curta história de William Vance, famoso desenhador belga, cujas principais criações, como Bruno Brazil, Ramiro, Howard Flynn, Bob Morane e XIII, figuram entre as mais memoráveis da moderna escola franco-belga emergente nos anos charneira de 60 e 70.

Ao encetar a sua carreira, Vance especializou-se no domínio dos récits complets de cunho histórico e didáctico, muito em voga no Tintin e no Spirou, produzindo dezenas de episódios como o que deu origem à magnífica capa de José Antunes (certamente mais completa no original, pois parece ter sofrido um corte na margem direita), sobre a famosa companhia de diligências Wells Fargo, que transportava o correio nos tempos heróicos e turbulentos do Oeste americano, como o cinema tantas vezes nos mostrou.

Pisca pisca nº4 e 5

De “encher o olho” são também as capas dos nºs 4 (Abril 1968) e 5 (Maio 1968), dedicadas a outras histórias curtas, com especial relevo no sumário desses números: a lenda medieval de “Amadis, o Donzel do Mar” e a curiosa história da girafa oferecida, em 1826, ao rei de França, ilustradas respectivamente por José Garcês, no seu estilo harmonioso e poético, e por Fred Funcken, outro versátil especialista belga deste género de episódios verídicos, criador, com sua mulher Liliane, de séries muito populares como Chevalier Blanc, Harald le Viking, Jack Diamond, Doc Silver e Capitan.

Pisca pisca nº 7 e 24 Pisca pisca nº11 escola de detectives

Chamam também a atenção as capas dos nºs 7 (Julho 1968) e 24 (Fevereiro 1970), em que Iznogoud e o ingénuo Califa continuam a ser os “reis da comédia”, sob a exímia batuta de Goscinny e Tabary; e a do nº 11 (Janeiro 1969), pondo em foco a Escola de Detectives, secção policial orientada pelo célebre Inspector Varatojo (que se estreou com uma rubrica do mesmo nome no Diabrete) e profusamente ilustrada por José Antunes.

Pisca pisca nº14+ 21

As capas dos nºs 14 (Abril 1969) e 21 (Novembro 1969), de aspecto bélico, ilustram as proezas de destemidos heróis portugueses dos séculos XVI e XVII, que andaram pelo Oriente, assunto abordado com fluência narrativa e rigor histórico por Olga Alves, Ortiz da Fonseca e outros colaboradores literários do Pisca-Pisca, onde estes temas (como noutras revistas juvenis da época) tinham grande destaque.

Pisca pisca nº 12 + 18

Outro feito memorável da nossa História, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, levada a cabo por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, nos tempos pioneiros da aviação, serviu de tema à capa do nº 12 (Fevereiro 1969), enquanto que, na do nº 18 (Agosto 1969), o ignóbil Iznogoud desempenha novo papel, como figura de um filme de desenhos animados, cuja técnica é explicada aos leitores no interior da revista.

Realmente especial é a capa do nº 19 (Setembro 1969), que evoca um dos acontecimentos mais notáveis do século XX, tema de uma grande reportagem fotográfica inserida nesse número: a chegada à Lua, mês e meio antes, do foguetão Apolo XII, tripulado por três astronautas americanos, tendo dois deles, Armstrong e Collins, pisado, pela primeira vez na história da Humanidade, a superfície lunar.

Reparem num pormenor curioso desta capa: a presença de Iznogoud ao lado dos célebres astronautas. A razão é porque, na sua aventura desse número espe(a)cial, o malfadado Grão-Vizir entrou também em órbita!

Pisca pisca nº19 e iznogood

Pisca pisca nº23José Antunes foi responsável gráfico do Pisca-Pisca até ao derradeiro nº 33, saído em Dezembro de 1970, e continuou, por isso, a ilustrar textos e capas da revista, coadjuvado por outros desenhadores, como documentam as três ultimas que apresentamos, correspondentes aos nºs 23 (Janeiro 1970), 27 (Maio 1970) e 28 (Junho 1970), todas bons exemplos da sua maturidade gráfica, do seu sentido da composição e da mestria revelada no tratamento da cor. Lamentamos apenas que, por falta de motivação ou de tempo, não tivesse brindado também os leitores, a exemplo dos seus colegas José Garcês, Carlos Alberto e Eugénio Silva, com uma história em quadrinhos (designação que o Pisca-Pisca usava correntemente).

Na galeria de grandes ilustradores/capistas portugueses das últimas décadas, em áreas tão concorridas como a literatura e a imprensa infanto-juvenis, José Antunes (1937-2010) é seguramente, pelo seu multifacetado talento e por toda a vasta obra que realizou, um dos nomes a reter na nossa memória.

Pisca pisca nº27+28

COLECÇÕES DE CROMOS – 5

História de portugal cabeçalho

História de portugal capa 1ª edição171Como já assinalámos, esteve patente na Biblioteca Nacional, encerrando hoje, uma mostra comemorativa do lançamento, há 60 anos, de uma das mais apreciadas colecções de cromos que circularam no nosso país — obra de um ilustrador e pintor de reais méritos, Carlos Alberto Santos, então ainda no limiar da juventude e de uma fértil carreira artística. 

Trata-se da História de Portugal, a primeira colecção temática deste género, editada pela Agência Portuguesa de Revistas (APR) em Outubro de 1953, depois de outros êxitos que abriram caminho a uma nova espécie de cromos, que se vendiam separadamente em “envelopes-surpresa”, por 40 centavos, e não, como dantes, nas mercearias e confeitarias, a embrulhar caramelos e rebuçados.

Carlos Alberto foi um dos principais artistas portugueses a distinguir-se nesta popular modalidade, com um apurado sentido gráfico e estético na realização das pequenas estampas, primeiro a preto e branco — como na História de Portugal, cuja colorização era dada nas provas em “azul” — e mais tarde em cores directas, com guache, num estilo mais próximo dos seus trabalhos pictóricos.

Apesar de ter feito banda desenhada para algumas revistas da APR, como o Mundo de Aventuras, foi nas colecções de cromos, destinadas a um público mais heterogéneo, que averbou os seus maiores êxitos. Trajos Típicos de Todo o Mundo, História de Lisboa, Camões, Pedro Álvares Cabral, Romeu e Julieta, são exemplos paradigmáticos de trabalhos primorosos no campo didáctico e artístico.

História de portugal contracapa e rosto História de portugal pág 1+2História de portugal pág 3+4

Colecção formada inicialmente por 203 cromos, com textos de António Feio, a História de Portugal obteve um êxito retumbante, que se saldou por contínuas reedições até à 17ª, em 1973, já depois de Carlos Alberto ter abandonado a APR. Um êxito comercial e artístico absoluto que, em termos lucrativos, pouco rendeu, porém, ao seu criador gráfico.

História de portugal pág 5+6História de portugal pág 7+8

História de portugal pequena 1Posteriormente, à figura do general Craveiro Lopes, no cromo nº 203, vieram juntar-se as do almirante Américo Tomás, novo presidente da República, e do professor Marcelo Caetano, presidente do Conselho, sendo este, portanto, o cromo que encerrou a caderneta.

Para a 10ª edição, de 1964, com um formato diferente, quase quadrangular (22 x 21,5 cms), Carlos Alberto realizou uma nova capa, cuja imagem se popularizou também entre os coleccionadores, mantendo-se esse formato até à última edição. Devido ao novo modelo, que inaugurou com pompa a “Colecção Ecléctica”, cada página tinha lugar apenas para quatro estampas.

História de portugal último cromo edição pequena186O fim da colecção coincidiu com o fim do regime, derrubado pela “revolução dos cravos”, e com uma nova era, em que o planeamento editorial da APR sofreu profundas alterações, perdendo definitivamente o seu cariz tradicionalista, familiar e pedagógico, de que a História de Portugal e outras colecções de cromos eram um dos símbolos mais radiosos.

História de portugal capa e ccapa edição pequenaHistória de portugal pequena 2 +3

História de portugal anúncio1Ainda hoje, porém, esta magnífica colecção possui uma aura de mítica beleza e de fascínio para várias gerações, que foram atraídas pelo apelo da História e pela arte insuperável das imagens de Carlos Alberto, largamente publicitadas no Mundo de Aventuras e noutras publicações da APR (mas sem uma referência explícita ao seu autor).

História de portugal anúncio 2Como afirmou João Manuel Mimoso, um dos organizadores da mostra da Biblioteca Nacional (o outro foi Leonardo De Sá), “a História de Portugal tornou-se a colecção de maior sucesso no país, estabelecendo um padrão de qualidade raramente igualado no campo do cromo comercial. (…) É instrutivo verificar como a subtileza dos tons e a riqueza de pormenores se perdem nas impressões baratas e como, apesar disso, a paixão pela qualidade, que no artista é um reflexo da sua natureza, o levou a continuar a desenhar e pintar com um detalhe que os cromos, tal como eram finalmente publicados, não justificavam” [in catálogo da exposição de homenagem a C. Alberto, realizada na Casa Roque Gameiro – Amadora BD 2005].

No site da nossa maior instituição cultural, guardiã de um valioso património literário, científico e artístico com séculos de história, está disponível um catálogo dessa excelente mostra, em formato ebook, que pode ser descarregado mediante o pagamento de uma  importância simbólica.

Ver informações em http://livrariaonline.bnportugal.pt/Issue.aspx?i=2188

EXPOSIÇÃO DE CARLOS ALBERTO SANTOS NA BIBLIOTECA NACIONAL

BNEncontro

Por ocasião da mostra que comemora o 60º aniversário da publicação da caderneta de cromos História de Portugal, patente até ao final do mês na BNP, organiza-se um Encontro nesta Sexta-feira, 18 de Outubro, pelas 18 horas, que contará com a presença do desenhador Carlos Alberto Santos.

Leonardo De Sá fará uma intervenção sobre o percurso artístico do ilustrador e João Manuel Mimoso abordará o seu trabalho na História de Portugal e noutras colecções de cromos que realizou, a que se seguirá uma breve visita guiada à exposição.

Detalhes aqui:

http://www.bnportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=859

O catálogo desta mostra está disponível em formato ebook, também no site da BNP (mas requer a prévia instalação do leitor Adobe Digital Editions (ADE) disponibilizado gratuitamente pela Adobe):

http://livrariaonline.bnportugal.pt/Issue.aspx?i=2188

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

A BATALHA DE ALJUBARROTA E A ALA DOS NAMORADOS

DIABRETE 733Há algumas datas históricas que vale a pena recordar e celebrar, pelo que representam para a nossa identidade como nação secular, altiva e independente, mesmo quando não são (ou já deixaram de ser) feriados nacionais. Uma delas é a da batalha travada em Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, entre as fracas hostes (mas o fraco fez-se forte, como cantou Camões) do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o imponente exército castelhano que, na mira de se apoderar do frágil reino governado por um jovem monarca — escolhido pelas Cortes, na qualidade de Mestre de Avis, para suceder a    D. Fernando —, entrara com grande alarde por terras da Beira, abrindo triunfalmente caminho até ao sul, no intuito de pôr cerco a Lisboa.

Nos nºs 734 a 785 do Diabrete (1950/51), Fernando Bento, então no auge do seu estilo pleno de fluidez, sobriedade e movimento, narrou de forma magnífica a vida e os feitos do Condestável, a cuja nobreza, patriotismo e valentia Portugal ficou a dever, nesses tempos heróicos e conturbados, a manutenção da sua independência.

DIABRETE 767 e 769

DIABRETE 770 e 771

Cav Andante 67Outro popular semanário juvenil, o Cavaleiro Andante, dirigido também por Adolfo Simões Müller, escritor e poeta de forte veia nacionalista, depois de ter dado à estampa no nº 67, de 11/4/1953, uma página magistralmente ilustrada por Fernando Bento, com estâncias d’Os Lusíadas alusivas à “incerta guerra” que “uns leva a defensão da própria terra, outros a esperança de ganhá-la”, voltou a assinalar essa gloriosa efeméride, apresentando nas páginas centrais do seu    nº 241, de 11/8/1956, um magnífico poster a cores, com a assinatura de José Manuel Soares, dedicado à maior vitória do Exército português contra um inimigo numérica e militarmente muito superior, mas que foi completamente destroçado pela bravura e tenacidade das nossas hostes e pela ardilosa estratégia do Condestável.

Cav. Andante 241

Ala dos namorados azulejo copyNesse mesmo número, o Cavaleiro Andante tinha em publicação o episódio histórico “A Ala dos Namorados”, baseado na obra homónima de António de Campos Júnior, cujo tema era a luta de um punhado de jovens patriotas — dos quais fazia parte o célebre Álvaro Coutinho, o “Magriço” — em defesa da independência, durante a crise de 1384/85 (depois das revoltas populares contra Leonor Teles e da morte do conde Andeiro), culminando na batalha de Aljubarrota, em que participaram a fina-flor da nobreza, a peonagem, besteiros e lanceiros endurecidos por muitos combates, e a juventude heróica que ardia no desejo de expulsar os castelhanos invasores.

Cav Andante 220   A obra de Campos Júnior foi adaptada por uma excelente dupla formada por Artur Varatojo e José Manuel Soares, que nas páginas do Cavaleiro Andante souberam retratar com emoção, fiéis ao espírito do romance (embora cometendo a proeza de condensar em 24 pranchas uma obra tão extensa), aquele que foi, no meio de inenarráveis sofrimentos e de graves ameaças externas — como o bloqueio naval do Tejo por uma poderosa frota castelhana, aliado à peste e à fome causadoras de inúmeras vítimas entre a população de Lisboa —, um dos períodos mais negros e, ao mesmo tempo, mais triunfantes e decisivos da História de Portugal.

Cav Andante 239 e 240

Cav Andante 241 e 242

Ant BD Portuguesa820Apresentada entre os nºs 218 e 249 do Cavaleiro Andante, com algumas páginas a cores e outras a preto e branco, “A Ala dos Namorados” foi reeditada em 1986 num volume da Antologia da BD Portuguesa (Editorial Futura), enriquecido com textos de Artur Varatojo e de Luiz Beira e uma magnífica capa de José Manuel Soares, reprodução de um quadro a óleo que este fecundo e versátil artista, nome consagrado da pintura e da “época de ouro” da BD portuguesa, expôs no Mosteiro da Batalha.

Em 1956, o Mundo de Aventuras — que no campo da BD histórica de produção nacional procurava tomar a dianteira ao seu rival Cavaleiro Andante — publicou também uma vida do Santo Condestável, em páginas com três vinhetas uniformes intercaladas por farta prosa, da lavra, ao que supomos, do seu director José de Oliveira Cosme, humorista, poeta, músico, homem da Rádio, tradutor e autor de livros de multifacetada espécie e colaborador de várias publicações infanto-juvenis, desde os anos 30, em que foi chefe de redacção do semanário O Senhor Doutor.

ma 375 830Os desenhos dessa narrativa ilustrada, dada à estampa nos nºs 374 a 385 do Mundo de Aventuras, eram da autoria de um dos melhores artistas da “casa”, o ainda jovem Carlos Alberto, cujo talento se espraiava já por colecções de cromos — como a famosa História de Portugal —, capas de livros e revistas, ilustrações de contos, histórias aos quadradinhos, traçando firmemente um assinalável percurso artístico que, mais tarde, se consumaria numa das artes mais nobres e consagradas, a Pintura, em que granjeou ainda maior reputação, com trabalhos que figuram em numerosas colecções nacionais e estrangeiras.

Talvez por ter renunciado cedo à BD, Carlos Alberto não se considera um desenhador como muitos outros, embora reconheça que ficou a dever à narração figurativa (também chamada 9ª Arte) a experiência, o rigor e os conhecimentos — a composição das cenas e o movimento das figuras, por exemplo — que lhe permitiram fazer um certo tipo de pintura.

ma 383e 384

Um dos Quadros da História de Portugal, realização de Carlos Alberto (com o pseudónimo de M. Gustavo), que o Jornal do Cuto publicou em separata no nº 34, de 23/2/1972, retrata de forma intensamente realista o desfecho da batalha de Aljubarrota, com el-rei D. João prostrado pela fadiga e pela emoção da vitória, diante do estandarte castelhano que Antão Vasques, um dos bravos oficiais das suas hostes, lhe veio depor aos pés.

Jornal Cuto 34Outros nomes ilustres da BD portuguesa, como Vítor Péon, José Garcês, José Ruy, José Antunes e Artur Correia (este em registo obviamente humorístico), também evocaram os feitos de Nuno Álvares Pereira e, em particular, a batalha de Aljubarrota, mas reservamos alguns desses trabalhos, dispersos em revistas e álbuns, para um próximo post.

Queremos, porém, num preito à memória do saudoso Mestre Vítor Péon, apresentar, como condigno remate deste artigo, a sua vigorosa reconstituição da célebre batalha, tal como foi publicada, com uma nova página, no Mundo de Aventuras nº 358 (2ª série), de 14/8/1980. A versão original pode ler-se no Tintin nº 2 (1º ano), de 8/6/1968.

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ma 358 - 3 e 4

COLECÇÕES DE CROMOS – 4

OS FILHOS DOS TRÊS MOSQUETEIROSlf

Com as colecções da Agência Portuguesa de Revistas (APR), os cromos tornaram-se um passatempo familiar, desfrutado por todos e não apenas pela garotada, a “arraia miúda” com uma avidez especial pelas pequenas estampas coloridas, que já não precisava de sacar dinheiro aos pais para poder comprá-las, pois eles próprios tomavam a iniciativa.

No primeiro trimestre de 1953, saiu outra colecção da APR com o mesmo tema de “Os Três Mosqueteiros”, intitulada      “Os Filhos dos Três Mosqueteiros” e baseada numa sequela do filme anterior, desta vez produzida pela RKO (com o título At Sword’s Point), numa adaptação mais livre e com outros protagonistas: Cornel Wilde, Maureen O’Hara, Robert Douglas, Dan O’Herlihy e Alan Hale Jr.

RCartaz alemão com legendaecebida também com entusiasmo por um público mais vasto que o dos anos 30 e 40 e cada vez mais receptivo às realizações da APR, a maior editora popular do seu tempo, esta colecção (com 154 estampas coloridas) foi a quarta de uma longa e memorável série que varreu a lembrança das estampas que serviam de invólucro aos caramelos (ou das guloseimas que eram um mero pretexto para vender cromos e outros artigos), ateando nos jovens em idade escolar a pequena e lúdica chama do interesse didáctico, recreativo ou desportivo… que iria crescer e inflamar gerações!

les fils des mousquetairesDe salientar que esta caderneta era ilustrada, na parte central de todas as páginas, com vinhetas de Vítor Péon. Além de uma nota, à laia de prefácio, sobre o fundo histórico em que se desenrolava a acção do filme, incluía uma página dedicada a outras publicações da APR bafejadas pelo sucesso, numa miscelânea de vários títulos, entre os quais dois álbuns de cromos: “Os Três Mosqueteiros” e “Famosas Estrelas de Cinema”. A rematar o conteúdo da caderneta, era dado destaque ao próximo lançamento de uma nova colecção, baseada na História de Portugal... e que se tornaria um dos maiores êxitos de sempre da APR no âmbito deste tipo de edições, com desenhos de um artista de mérito, já no limiar da fama:  Carlos Alberto Santos.

Juntamente, e pela primeira vez, foi distribuída uma pequena brochura com quatro páginas (e capa e contracapa iguais às da caderneta), que oferecia duas estampas como brinde, dando ainda a possibilidade de adquirir directamente ao editor os últimos 30 cromos, mediante uma lista apresentada na terceira página.

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS CAPA BRINDE600Como afirma João Manuel Mimoso, no seu pioneiro estudo sobre a vida editorial da APR, “Os Filhos dos Três Mosqueteiros” foi a primeira colecção de cromos inteiramente realizada por esta empresa, tendo as imagens do filme sido coloridas por um dos melhores artistas da casa: José Manuel Soares.

Decidida a impor-se cada vez mais no mercado e a comercializar os seus próprios produtos, em áreas onde podia competir com a Bruguera e outras editoras estrangeiras, a APR caprichou nesta colecção, tentando repetir o êxito de “Os Três Mosqueteiros”, mas parece que só houve uma tiragem.

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS capa e contracapa

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS PAG Rosto e 1

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS PAG 2 e 3

OS FILHOS DOS 3 MOSQUETEIROS Anúncio e Hist. de Portugal