CURIOSIDADES DO “MUNDO DE AVENTURAS” – 3

O DIA EM QUE “O MUNDO” NASCEU (1)

cabeçalho do MA       963

Até finais dos anos 40, o panorama da BD portuguesa, que atravessara uma década dourada, de pleno desenvolvimento, manteve-se estável, com a rivalidade entre os dois maiores títulos, O Mosquito e o Diabrete, sempre acesa, num despique que, às vezes, parecia ultrapassar as regras da cortesia e da boa convivência entre colegas de ofício.

Mas os primeiros sinais de mudança surgiram com o nascimento, em 18 de Agosto de 1949, de um novo título, em moldes muito diferentes dos seus congéneres, semelhante a algumas publicações brasileiras, como O Suplemento Juvenil, O Globo Juvenil, A Gazetinha, e dirigido (embora ainda sem especificar esse objectivo) a leitores no limiar dos 18 anos.

MA - presentação

Essa nova revista chamava-se O Mundo de Aventuras e a sua penetração nos gostos e hábitos do público que elegera como alvo foi lenta e difícil, durante o primeiro ano de vida, tendo sido obrigada, para não desaparecer ingloriamente ao fim de tão pouco tempo, a escolher outra fórmula, trocando o Mundo de Aventuras nº 1tamanho tablóide, de dimensões invulgares no nosso meio e que os leitores claramente rejeitavam, por um formato mais manuseável, quase idêntico ao que O Mosquito adoptara na sua 3ª fase (mas, neste caso, crescendo em vez de diminuir).

O que, no entanto, distinguia essencialmente o novel semanário dos outros periódicos juvenis eram as séries americanas que recheavam, quase na totalidade, os seus primeiros números (a única excepção foi “História Maravilhosa de João dos Mares”, com o traço de um ainda desconhecido Carlos Alberto Santos).

Essas séries, inéditas para a maioria dos leitores, eram oriundas das tiras diárias dos jornais e destinadas, portanto, a um público adulto — justificando a posterior classificação etária “para maiores de 17 anos”, que procurava (obedecendo à censura) ter um efeito dissuasor sobre os mais novos… mas também de chamariz (à revela dessa mesma censura!).

Mundo de Aventuras nº 5 e 7

Graças à sua superior qualidade artística, esses heróis de cunho menos tradicional, criados por grandes autores, os maiores do seu género e do seu tempo, enraizaram-se pouco a pouco no imaginário juvenil, Mundo de Aventuras nº 30destronando a BD inglesa e espanhola que O Mosquito e o Diabrete continuavam a publicar, embora já tivessem aderido a algumas boas séries americanas.

E foi assim que um arco-íris de memoráveis heróis e artistas, muitos dos quais habitam agora o Olimpo dos deuses da 9ª Arte, resplandeceu nas páginas d’O Mundo de Aventuras, desde o seu sensacional número de estreia (que hoje, pela sua raridade, vale uma boa maquia):

Rip Kirby, de Alex Raymond; Johnny Hazard (João Tempestade), de Frank Robbins; Flash Gordon (Roldan, o Temerário), de Mac Raboy; Brick Bradford, de William Ritt e Clarence Gray; Steve Canyon (Luís Ciclón ou Luís Ciclone), de Milton Caniff; Barney Baxter, de Frank Miller; Captain Easy (Capitão Águia), de Leslie Turner; Alley Oop (Trucutu), de V.T. Hamlin; Dick Adventures in Dreamland (Aventuras de Dick), de Mundo de Aventuras nº 31Neil O’Keefe e Max Trell; X-9, de Mel Graff; Tim Tyler, de Lyman Young; Mandrake, de Lee Falk e Phil Davies; Prince Valiant (Príncipe Valente), de Harold Foster; Cisco Kid, de José Luís Salinas e Rod Reed; Big Ben Bolt (Luís Euripo), de John Cullen Murphy; Rusty Riley (Pedrito), de Frank Godwin; Tommy of the Big Top (Tommy, o Rapaz do Circo), de John Lehti… e mais, muitos mais!

A maioria das vezes, esses nomes eram “nacio- nalizados” ou ostentavam ainda a origem espa- nhola (como no caso de Luís Ciclón), pois as res- pectivas séries, oriundas do King Features Syndicate, a maior  agência de imprensa do seu género, chegavam à Europa e à América Latina em versões traduzidas para castelhano.

(Nota: algumas das imagens que ilustram este post foram reproduzidas, com a devida vénia, do blogue http://timtimportimtim.com.sapo.pt)

MA - Ciclon e KirbyMA - Trucutu e Baxter