EXPOSIÇÃO DE ORIGINAIS DE AUGUSTO TRIGO NA BEDETECA DA AMADORA

Bedeteca Amadora

Com a presença dos autores, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, foi inaugurada no passado dia 23 uma exposição com cerca de 30 originais pertencentes ao acervo da Bedeteca da Amadora, que estará patente numa das suas salas até ao próximo dia 26 de Agosto.

À sessão, apresentada por Pedro Mota, presidente do Clube Português de Banda Desenhada — entidade que propôs esta mostra à Bedeteca, integrando-a na celebração do seu 40º aniversário —, assistiram várias figuras do nosso meio bedéfilo, como José Ruy, Fernando Relvas (e esposa), Catherine Labey, Irene Trigo (e sua mãe), Carlos Gonçalves, Geraldes Lino, Cândida Silva (coordenadora da Bedeteca), Pedro Moura, Carlos Moreno, Monique Roque, e um público pouco numeroso, mas atento e interessado, que seguiu com curiosidade, como demonstram as fotos inseridas mais abaixo, os comentários de Augusto Trigo, perante as pranchas expostas, e do seu argumentista, ambos notoriamente satisfeitos por recordarem um tempo em que “trabalhavam para revistas, sem pensarem sequer na hipótese de terem as suas histórias publicadas em álbuns”. Isto é, um tempo em que havia mais segurança e mais oportunidades para os autores de BD.

Expo Trigo - Foto 1

Finda a apresentação do seu trabalho, a veterana dupla foi entrevistada por uma repórter da TVA (Televisão da Amadora), antes de passar à sala seguinte, onde está patente outra excelente exposição intitulada “As Jóias da Bedeteca”, com originais de vários autores portugueses e estrangeiros que fazem parte do valioso espólio desta instituição.

Expo Trigo - 2

Graças aos bons préstimos de João Francisco, um bedéfilo oriundo do Seixal, que quis testemunhar de viva voz o seu apreço pela obra de Trigo & Magalhães — o que deixou o argumentista (e autor destas linhas) também muito lisonjeado —, apresentamos seguidamente mais algumas imagens deste evento, com os nossos agradecimentos ao jovem amante da 9ª Arte (e coleccionador de mérito, pelo que nos foi dado apreciar), cujos talentos fotográficos aqui ficam também registados.

Expo Trigo - 13

Expo Trigo - 14

Expo Trigo - 15

Expo Trigo - 3

Expo Trigo - 5 A

Expo Trigo - 6

Expo Trigo - 5

Expo Trigo - 7

Expo Trigo - 10

Expo Trigo - 11

PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA NA BEDETECA DA AMADORA

inauguração da expo Trigo-Magalhães.png

Em Outubro de 1982, terminava a revista Tintin portuguesa, que desde 1968 marcou gerações de leitores. No momento em que a banda desenhada em Portugal fez a transição dos jornais e revistas para os álbuns, destacaram-se as obras da autoria de Augusto Trigo e Jorge Magalhães.

“A Moura Cassima”, terceiro título da colecção Lendas de Portugal em Banda Desenhada, foi o primeiro álbum distinguido na Amadora com o prémio para o melhor álbum português de banda desenhada, em 1992. Dez anos antes, o Clube Português de Banda Desenhada distinguia os dois autores com o Troféu O Mosquito, reconhecendo Jorge Magalhães como Melhor Argumentista do Ano de 1981 e Augusto Trigo como Revelação do Ano de 1981.

35 anos depois desse 1981 que revelava Trigo, num ano em que Magalhães completa 40 anos de actividade como argumentista, justifica-se uma exposição da histórica dupla, na cidade que ainda distinguiria os dois autores com o mais prestigiado prémio da BD portuguesa, o Troféu Honra (Jorge Magalhães em 1999, e Augusto Trigo em 2000).

A exposição, presente na Bedeteca da Amadora a partir de 23 de Junho, parte dos muitos originais que Augusto Trigo doou ao Município da Amadora e que estão no edifício da Biblioteca Municipal, onde funciona a Bedeteca.

Para além da apreciação da notável técnica individual que distingue cada um dos dois autores, a mostra permitirá abordar a temática do trabalho em colaboração entre argumentista e desenhador, e observar a forma de abordagem a diferentes géneros que se afirmaram na banda desenhada.

Trata-se da primeira colaboração do Clube Português de Banda Desenhada com a Bedeteca da Amadora, permitindo ao município associar-se à celebração do 40.º aniversário do Clube, e permitindo ao Clube concretizar uma apresentação com outras possibilidades ao nível do requinte de forma, susceptíveis até de atrair a malta jovem, como diria o Machado-Dias.

Sobretudo, permite-se à banda desenhada portuguesa reconhecer e homenagear o trabalho em colaboração de dois autores fundamentais na sua história recente.

CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Os principais álbuns de Trigo & Magalhães:

Capas álbuns Trigo-Magalhães

Excalibur, a Espada Mágica
– O Anel Mágico (Meribérica)
Lendas de Portugal em Banda Desenhada
– A Lenda do rei Rodrigo / A Moura Encantada (Asa)
– A Lenda de Gaia / A Dama Pé-de-Cabra (Asa)
– A Moura Cassima (Asa)
Luz do Oriente (Futura)
Ranger
– A Vingança do Elefante (Meribérica)
Wakantanka
– O Bisonte Negro (Edinter)
– O Povo Serpente (Meribérica)

 

OS HOMENS E A HISTÓRIA – 3

A SAGA DE LEIF ERIKSON

Leif Erikson descobre a América (quadro de Christian Krohg)

Apresentamos hoje mais um artigo que foi publicado, há algumas décadas, no desaparecido vespertino A Capital — com texto meu e uma ilustração de Augusto Trigo —, subordinado ao título Histórias da História, comum a essa série de artigos que dediquei a figuras e a factos heróicos do passado que estimularam a minha imaginação — como os relatos da aventurosa viagem de um destemido navegador Viking, Leif Erikson em retratode seu nome Leif Erikson, que pela primeira vez pisou solo americano e desbravou a orla de um continente desconhecido onde outros navegadores europeus, chefiados por Cristóvão Colombo (um nome bem mais célebre), só chegariam 500 anos depois.

Nem sempre a História faz justiça aos mais audazes pioneiros, àqueles que enfrentaram, em épocas remotas, os perigos dos oceanos e das longas travessias, sem bússolas, sem astrolábios e sem outros instrumentos de navegação, guiados apenas pela sua coragem e pelo seu ardente desejo de chegar cada vez mais longe, de sulcar mares desconhecidos, de avistar novas terras e descobrir imensas riquezas… mas cujos feitos, no caso de Leif Erikson (ou Leif-o-Feliz), ficaram obscuramente registados em sagas e canções nórdicas, escritas numa linguagem muito menos universal do que a de Homero.

Os Homens e a Histórias - cabeçalho

LEIF ERIKSON E O CONTINENTE MISTERIOSO

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Leif Erikson (drakkar)Quatrocentos e noventa e dois anos antes de Cristovão Colombo, já a América do Norte era conhecida por um povo guerreiro da Europa Setentrional: os Vikings. Sabe-se hoje que foi Leif Erikson o primeiro navegador que explorou essas paragens, dando-lhes o nome de Vineland, isto é, “Terra dos Vinhedos”.

Leif era filho do norueguês Erik Rauda, por alcunha Erik-o-Ruivo (ou Erik-o-Vermelho), que com toda a sua família emigrou para a Islândia em meados do século X. Certo dia, Erik, que segundo rezam as crónicas era de índole violenta, matou alguns homens numa disputa com os vizinhos. O Althing, Supremo Tribunal Viking, condenou-o ao exílio perpétuo, expulsando-o da ilha. Num pequeno barco, Erik e os seus velejaram para Oeste, durante muitos dias. A audaciosa viagem terminou junto das costas da Gronelândia, onde Erik desembarcou e estabeleceu uma nova colónia, chamando a esse continente, onde os invernos eram tão rigorosos como na Islândia, “Terra Verde”, não se sabe por que motivo, talvez saudoso dos verdes fiordes do seu país natal.

Brattahlid, a nova colónia, prosperou, no entanto, graças às frequentes trocas comerciais com a Islândia. Aí, Leif cresceu, vigoroso e feliz, tornando-se um campeão em todas as provas de destreza e um hábil caçador. O pai ensinou-lhe a ciência de navegar e aos dezoito anos Leif manifestou o desejo de conhecer a Noruega, pátria dos audaciosos Vikings cujo sangue lhe corria nas veias. A travessia do Oceano não teve obstáculos para ele. Num mês apenas repetiu a proeza de Erik e apresentou-se em Trondheim, onde o velho rei Olaf tinha a sua corte, com um barco carregado de peles e de presentes.

Leif Erikson em bronzeO rei recebeu-o com satisfação e deu todo o seu apoio ao projecto de colonizar a Gronelândia, que segundo Leif garantia a pés juntos era “uma terra verde, imensa, com boas pastagens”. Muitos  súbditos de Olaf, seduzidos por essas promessas, prontificaram-se a segui-lo, levando com eles uma nova religião: o cristianismo. E uma grande frota de drakkars (barcos a remos compridos e de proas altas, com uma única vela) acompanhou a embarcação de Leif até à sua nova pátria. Entre eles, seguia também o do nobre Bjarni, comerciante e navegador, que se juntou a Leif ao largo da Islândia. Mas uma tempestade separou os navios, fazendo Bjarni perder a rota e navegar para sudoeste.

Quando chegaram ao porto de Erik-o-Ruivo, Leif, desolado, deu ao pai a notícia de que um dos membros da frota se perdera. Mas, algumas semanas depois, a vela de um drakkar surgiu no horizonte. Eram Bjarni e os seus valentes companheiros. Arrastados pelas correntes e pelos ventos contrários, impelidos pelas formidáveis barreiras de gelo, tinham navegado para muito longe, para terras desconhecidas. Bjarni não se atrevera a desembarcar, mas tais maravilhas disse dessas terras que bordejara de perto, que Leif, entusiasmado, pensou logo em explorá-las. Claro que um Viking como Erik-o-Ruivo tinha de aprovar o projecto do filho, embora na sua idade já não pudesse acompanhá-lo. E Leif partiu com trinta e cinco homens decididos, em busca do continente misterioso.

Leif Erikson - Trigo 597

Durante muitas semanas navegaram entre icebergs de esmagadora imponência. O barco foi assolado por violentas tempestades. Os homens passaram tormentos de toda a espécie. Por fim, avistaram terra. Mas esta era pedregosa, desolada, sem vegetação. Chamaram-lhe Helluland, a “Terra das Pedras Chatas”, e corajosamente prosseguiram a viagem. Já não tinham forças nem provisões para regressar. Se fracassassem, ficariam para sempre perdidos no oceano, até que os deuses fúnebres viessem cobrar o seu tributo. Por fim, um belo dia, avistaram dois extensos promontórios verdes, uma baía larga e bem abrigada.

Estátua de Leif Erikson em St. Paul, Minnesota (EUA)Havia ali mais árvores do que em toda a Gronelândia. Desembarcaram e Leif mandou cortar madeira para construírem casas. O inverno aproximava-se e Brattahlid estava muito longe. Como a caça era abundante e os rios fervilhavam de peixes, sobretudo salmões, resolveram ficar ali até à Primavera. Leif, sempre audaz e previdente, organizou quatro grupos com a missão de explorarem o interior.

Todos os Vikings regressaram na lua nova, com excepção de Tyrker, um marinheiro natural do país dos Francos, que tinha fama de imprudente e costumava separar-se dos seus companheiros. Mas Tyrker apareceu pouco depois, dando pulos de alegria, como se estivesse embriagado. Encontrara uvas, grandes extensões de vinhas rubras como os cabelos de Erik! E mostrava as mãos cheias de cachos, perante o olhar atónito dos que já o julgavam morto…

Esse dia em que os Vikings provaram o sabor de um novo fruto pertence à História e à Lenda. As Sagas dos rudes homens do Norte falam-nos dele. As Sagas cantadas pelos bardos (scalds) nas longas noites de inverno, quando o vento e a neve varriam as grandes florestas da Escânia e os telhados de Eastbygd, a capital do reino de Erik. A Saga Eyrbiggia, a Saga de Thorwald, de Karlsefni e das novas terras, nos distantes mares do sul.

Em memória da descoberta de Tyrker, Leif Erikson pôs àquela região o nome de Vineland. E na primavera seguinte, já refeito das provações da viagem, regressou à Gronelândia. Entusiasmado com o que ouviu, Thorwald, outro dos filhos de Erik, organizou uma nova frota e partiu na esteira do irmão. Thorwald, em cujas veias corria também sangue aventureiro, esperava navegar ainda mais longe e descobrir outras terras. Mas esta segunda expedição foi menos feliz. Num primeiro recontro com os “peles-vermelhas” (a quem os Vikings puseram o nome de Skraellings), Thorwald foi mortalmente ferido. Os seus homens sepultaram-no em Vineland e, temendo novos ataques dos selvagens e aguerridos Skraellings, apressaram-se a regressar à Gronelândia.

Leif Erikson - selos de S.Tomé e Príncipe e EUANão seria essa a última expedição Viking ao “País dos Vinhedos”. Mas nenhuma tentativa dos guerreiros do Norte para se fixarem naquela terra verdejante e de clima hospitaleiro foi bem sucedida, por causa da animosidade dos Skraellings e das disputas entre os seus próprios chefes, que não possuíam a fibra nem a capacidade organizadora de Leif Erikson.

Há provas, hoje, de que as Sagas Vikings, as Sagas que falam de Erik e dos seus filhos, de Bjarni e dos seus companheiros, são verdadeiras. Em Agosto de 1898, em Salém (EUA), um lavrador de origem sueca, Olaf Ohman, ao abater uma velha árvore, descobriu sob as suas raízes uma pedra onde estavam gravados estranhos sinais semelhantes à escrita rúnica. Um professor da Universidade de Minnesota conseguiu decifrá-los. Soube-se, assim, que no ano 1000 tinha passado por ali um grupo de Vikings em jornada de descoberta para o interior. Esses homens estavam a catorze dias de marcha dos seus barcos.

Estátua de Leif Erikson em Newport (EUA)Hoje, a “Pedra de Kensington”, como se tornou conhecida, constitui uma das mais preciosas relíquias do Museu Nacional de Washington. E não é o único vestígio arqueológico que confir- ma o que narram as Sagas. Desde 1964 (por decisão do presidente Lyndon B. Johnson), celebra-se nos Estados Unidos, a 9 de Outubro, o Leif Erikson’s Day, assinalando a chegada do primeiro europeu à América do Norte. Leif tornou-se um herói nacional, com estátuas por toda a parte!…

Desde tempos remotos que os caminhos marítimos foram desbravados por homens atraídos pelo desconhecido, em pequenas e frágeis embarcações dos mais diversos tipos. E as mais temerárias dessas viagens perdem-se na noite dos séculos, embelezadas quase sempre pelo mistério e pela lenda. Antes de Leif-o-Feliz, talvez os Fenícios de Hannon, os primeiros que ultrapassaram as Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), tenham descoberto o caminho das Américas. Antes dos Fenícios, quem sabe se os Atlantes, esse misterioso povo desaparecido, antepassado de muitas civilizações do continente americano.

Cristóvão Colombo, o Genovês, somente cinco séculos mais tarde repetiu o feito de um punhado de Vikings que, além de rudes navegadores, eram também poetas e tinham nos olhos e no coração o amor da aventura, dos mares revoltos e das terras desconhecidas que se erguiam além do horizonte!

UM RAIO DE LUZ E DE ESPERANÇA

Fátima, 13 de Maio… Há quase 100 anos, três humildes pastorinhos assistiram, na Cova da Iria, a uma deslumbrante aparição que os deixou mudos de assombro. A sua milagrosa história e a sua fé inabalável no que tinham visto e ouvido, apesar do repúdio das autoridades e da própria Igreja, contagiaram uma nação inteira, reavivando o fervor religioso que os novos dogmas republicanos e ateístas tinham duramente atacado. Meses depois, perante uma multidão de curiosos e de crentes, seria confirmado o milagre… e a glória dos três pastorinhos.

Alusivas a esta data que continua a atrair a Fátima milhares de peregrinos de todo o mundo, numa grande manifestação de fé, eis duas belas ilustrações de Augusto Trigo — que aqui recordamos novamente —, dadas à estampa no Mundo de Aventuras nº 448, de 13 de Maio de 1982.

Fátima 13 de Maio copy

O HUMOR DE AUGUSTO TRIGO – 4

Trigo Boas festas

O ano passado, nesta mesma data, apresentámos alguns cartões de Boas Festas com que Augusto Trigo nos brindou em sucessivas quadras natalícias, escolhendo quase sempre as paisagens africanas que tanto ama, principalmente as da sua Guiné natal, como cenário das visitas do simpático e bonacheirão velhote de barbas brancas.

Desse gesto de amizade, fraterno e caloroso, que se renova todos os anos, mostramos hoje mais dois exemplos, com a beleza, a graça e o colorido que são apanágio da arte multifacetada de Augusto Trigo: os cartões recebidos em 2013 e 2014.

Trigo cartão 2013   257Trigo cartão 2014

FELIZ E PRÓSPERO ANO NOVO PARA TODOS, SÃO OS VOTOS DO “GATO ALFARRABISTA”

O HUMOR DE AUGUSTO TRIGO – 3

Image converted using ifftoanyAté há pouco tempo, Augusto Trigo colaborou num órgão de imprensa de grande tiragem, o Correio da Manhã, onde surgiram diariamente, desde meados de 2011, pequenos cartoons duplos com a sua assinatura, iguais à primeira vista, mas que encerravam sempre oito diferenças, escon- didas nalguns pormenores do desenho. Trabalho singelo, sem pretensões (para uma faixa pouco exigente de leitores amantes deste género de passatempos), que A. Trigo caprichou, no entanto, em rechear de graça e fantasia, mostrando o seu virtuosismo numa linha espirituosa e às vezes, até, picaresca e atrevida. Ou seja, transformando esses cartoons em peças dignas de um olhar mais atento.

Aqui têm alguns exemplos, com cenas de um tema sempre presente nestes meses de estio: a época balnear, que continua a atrair muita gente às praias… apesar do Verão já não ser o que era, como afirmam convictamente os meteorologistas e os vendedores de bolas-de-berlim, cujo negócio tem ido por “água abaixo”.

(Lembro-me bem delas, quando, ainda rapazote, frequentava, por hábito e por gosto, a Costa de Caparica. Mesmo com alguma areia à mistura, porque as comia tão sofregamente que nem limpava os dedos, eram um pitéu delicioso!).

Diferenças Trigo - 1 e 2

Diferenças Trigo - 3 e 4

Diferenças Trigo - 5 e 6

Diferenças Trigo - 7 e 8

NÚMEROS “PRIMUS”, NÚMEROS RAROS – 2

O MOSQUITO RESSUSCITADO… Mosquito Futura - nº 1   727PELA 4ª VEZ (1)

Mosquito Futura - Postal d'AnúncioHá três décadas, em Abril de 1984 — ano que os leitores do célebre romance futurista de George Orwell guardarão sempre na memória —, saiu o primeiro número de uma nova série d’O Mosquito, a mítica revista nascida em 14 de Janeiro de 1936 por obra de dois amigos com jeito para escrever e desenhar e já com larga experiência, sobretudo o primeiro, no campo do jornalismo infanto-juvenil: António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio) e Raul Correia.

Ostentando um cabeçalho com a imagem simbólica de um “mosquito ardina”, criada em 1943 por E. T. Coelho, o mais notável colaborador do seu primeiro ciclo vital, esta nova série d’O Mosquito, a quinta por ordem cronológica — que até teve direito a uma campanha publicitária, em vésperas do seu lançamento —, foi o corolário dos álbuns publicados pela Editorial Futura, com recuperação de histórias Mosquito Futura - almanaque 1984    726que se tornaram grandes clássicos, como “O Caminho do Oriente” (a obra-prima de E. T. Coelho), e de um Almanaque O Mosquito, editado em finais de 1983, numa tentativa nostálgica de reviver um título cheio de nobres tradições e o respectivo Almanaque O Mosquito e a Formiga, cujo número único saiu no Natal de 1944.

A penúltima “ressurreição” d’O Mosquito tinha ocorrido quase dez anos antes, mas foi de todas a mais efémera, pois saldou-se também por um número isolado — hoje uma raridade que não vale o seu preço de mercado, já que nada de importante acrescentou ao prestigioso historial do seu “irmão” mais velho, ao contrário da 2ª série, dirigida e editada, em 1960/61, por José Ruy, num esforço pioneiro e entusiástico que se traduziu pela publicação de 30 fascículos semanais. Neles foram reeditadas algumas séries clássicas d’O Mosquito e revividas célebres personagens como o Capitão Meia-Noite e Rudy Carter, a par de outro material inédito.

A 3ª série, publicada também em 1961, sob a égide de António Costa Ramos, teve apenas quatro números, num formato idêntico à anterior e com um sumário ainda mais nostálgico, que abrangia séries cómicas e grandes êxitos do passado, como O Gavião dos Mares, O Voo da Águia e Pelo Mundo Fora. Mas os leitores dos anos 60 já estavam noutra “onda”!…

Mosquito Nº13 - 2ª serie & nº 3 3ª serie

A aventura d’O Mosquito, da Editorial Futura — de início com periodicidade bimestral, depois mensal —, não foi além de 12 números, mas tanto bastou para marcar a diferença em relação às outras revistas de BD que apareciam nas bancas, Mosquito Futura - nº 1 Sumário739nomeadamente as duas mais antigas: O Falcão, do Grupo de Publicações Periódicas, e o Mundo de Aventuras, da Agência Portuguesa de Revistas (APR), que, apesar de ainda terem um público fiel, já se aproximavam também, a passos largos, do seu fim.

Tive o raro privilégio de coordenar simultaneamente, durante cerca de 22 meses, O Mosquito da 5ª série e o Mundo de Aventuras, que já contava a bonita idade de 35 anos. Essa acumulação de funções paralelas em revistas quase concorrentes, não me acarretou quaisquer problemas porque os meus vínculos com a APR já eram, então, de natureza precária, pois tinha passado voluntariamente ao regime de colaborador em part-time. Apesar disso, ainda me aguentei no Mundo de Aventuras até ao seu “estertor” final, que coincidiu com a queda, não menos dolorosa e lenta, da APR, a maior empresa do seu ramo até à década de 80.

N’O Mosquito da Futura tentei, com o precioso e incondicional apoio do seu director, o malogrado Dr. Chaves Ferreira, fundir a tradição clássica com uma linha mais modernista, o que nos permitiu apresentar obras de autores contemporâneos, sobretudo europeus e sul-americanos, que ainda hoje são grandes figuras do mundo da BD.

Mosquito Futura - nº 1 Desafio 1e 2

Logo no primeiro número (com histórias curtas ou com séries), foi a vez de Eduardo Teixeira Coelho (O Desafio), António Hernandez Palácios (Manos Kelly), Juan Jimenez (Ás de Espadas), Júlio Ribera (Nunca Estamos Contentes), Esteban Maroto (Zodíaco) — e seguidamente de Jordi Bernet, Moebius, Mandrafina, Solano Lopez, Milo Manara, Guido Buzzelli, Jesús Blasco, Hugo Pratt, Paul Gillon, Yves Chaland, Richard Corben e outros.

Alguns destes nomes, como Moebius, Chaland e Mandrafina, foram mesmo estreias absolutas no panorama da BD portuguesa.

Mosquito Futura - nº 1 Zodiaco 1 e 2

Mosquito Futura - nº 1nunca estamos contentes 1  e 2

Procurámos também que a revista incluísse colaboração de desenhadores nacionais, de preferência com histórias inéditas, apesar disso acrescentar mais despesas ao seu oneroso orçamento, visto que o material estrangeiro nos ficava geralmente mais barato. Encargos a ter em conta, pois a revista fora planeada, de início, com 60 páginas, oito das quais a cores, além das capas, seguindo o modelo das suas congéneres espanholas Blue Jeans, Comix, Cimoc e Totem (estas ainda mais volumosas).

Nesse caderno central a cores teve honras de estreia a magnífica série Manos Kelly, com a deslumbrante paleta de um mago da BD espanhola: António Hernandez Palácios.

Mosquito Futura - nº 1 Manos Kelly 1 e 2

Ao nosso convite responderam, de imediato, Estrompa e Augusto Trigo, autores de características muito diferentes, mas já de mérito consagrado — o primeiro com a rubrica satírica Clássicos e Desintegrados, sucessão de hilariantes pastiches de personagens célebres da BD, e o segundo (a quem se deve a capa do número inaugural) com a sua esplendorosa série de temática africana Kumalo, um dos muitos trabalhos em que colaborei com ele, como autor do argumento, e que ainda hoje é um dos nossos preferidos.

Sobre o mesmo tema, escrevi também, para esse primeiro número, um artigo de divulgação intitulado “A África Negra na BD Portuguesa”, em que passei em revista outras obras de conhecidos autores nacionais desenroladas em paragens africanas.

Mosquito Futura - nº 1 Kumalo 1 e 2Mosquito FUTURA - nº 1 Kumalo 3 e África Negra na BD 2

CURIOSIDADES DO “MUNDO DE AVENTURAS” – 2

ARTE E RELIGIÃO

No seu nº 448 (aliás, 1700, pela numeração antiga), em pleno mês de Maio de 1982, o Mundo de Aventuras evocou também, pela primeira vez, as aparições de Fátima e as figuras dos três humildes pastorinhos, apresentando uma história curta ilustrada por Fernand Cheneval, com texto de Yves Duval: “Fátima, Terra Eleita de Nossa Senhora”.

Fátima 13 de MaioOriunda do Tintin belga, ela já fora publicada, anos antes no Pisca-Pisca (a cores, como na versão original); e há alguns meses, num post que pode ser visto aqui, este blogue teve também oportunidade de recordá-la e de prestar homenagem aos seus autores.

Nesse mesmo número do Mundo de Aventuras, cujo tema principal era dedicado a Fátima e aos milagres que trans- formaram a Cova da Iria num santuário universal da fé e da religião católicas, avultam também a bela capa de Augusto Trigo e uma eloquente ilustração que o mesmo realizou para o artigo de abertura que eu escrevi, com o simbólico título “Um Raio de Luz”.

N610_0015_branca_t0A componente religiosa desse número incluiu ainda um conto de Raul Correia, com ilustrações de E. T. Coelho, oriundo do célebre Almanaque d’O Mosquito e d’A Formiga publicado 38 anos antes. Nas páginas seguintes, desen- rolava-se uma aventura do Príncipe Valente, datada de 1975, quando John Cullen Murphy já era o novo desenhador da série.

Como simples curiosidade, mas um tanto ou quanto invulgar numa revista juvenil com as características temáticas do Mundo de Aventuras (ao ponto desses mesmos trabalhos terem sido comentados por um grande número de leitores), aqui ficam as duas magníficas ilustrações de Augusto Trigo, um artista tão ecléctico que se desempenhava com eficácia e superior talento de qualquer tarefa que lhe fosse confiada. E também, como é óbvio, as de E. T. Coelho, um dos maiores mestres da ilustração e da BD nascidos em Portugal, cujo dinâmico e harmonioso traço fez escola durante os anos 40 e 50 do século passado.

Fátima - um raio de luz e Terra EleitaFátima - O milagre 1 e 2

O HUMOR DE AUGUSTO TRIGO – 2

Image converted using ifftoanyMais conhecido pelos seus inúmeros admiradores como desenhador de estilo “sério”, de um realismo objectivo e quase fotográfico, Augusto Trigo — cuja carreira se iniciou oficialmente em 1980, no Mundo de Aventuras e no suplemento Quadradinhos, do extinto diário A Capital —, tem desde há muito revelado outras facetas do seu ecléctico talento, distinguindo-se também como um notável desenhador humorístico, já com vários trabalhos desse género publicados em jornais, revistas, fanzines, álbuns e até livros didácticos.

Um desses álbuns, a merecer destaque, foi publicado em 2004 pelo Montepio Geral/Associação Mutualista, com uma série de histórias do “herói” Tio Pelicas, criado por Trigo, sob argumento de Paula Guimarães, para uma revista que o Montepio editava periodicamente, destinada em exclusivo aos filhos dos seus sócios.

Trigo - Tio Pelicas capaO Tio Pelicas, como o próprio nome dá a entender, é um simpático pelicano cujos dotes de detective são postos ao serviço da comunidade, sobretudo por causa das patifarias do seu arqui- -inimigo, o maléfico Egoístão, de aspecto sinistro mas bem humano, que como todos os vilões que se prezam também possui um arsenal de armas secretas.

Além do Tio Pelicas e do seu sobrinho Peliquinhas, aparecem mais persona- gens antropomórficas na série, assim como dois animais domésticos, o gato Sapato e o cão Pelicão, dominados pela mesma rivalidade que existe entre os seus donos.

Os temas, muito variados, tinham, por vezes, referências a questões políticas da época, retratando com um traço pitoresco e perfeito locais e figuras que animavam o quotidiano nacional, mas Trigo queixava-se de ter pouco espaço para os desenvolver, pois as histórias não excediam, em regra, duas ou três páginas (embora as que saíram no álbum formem um episódio unitário, dividido em partes mais longas).

Trigo - Tio Pelicas logotipo570Algumas dessas histórias, publicadas entre 2001 e 2003, foram coligidas num número especial da revista do Clube Tio Pelicas (cuja capa reproduzimos), também de distribuição limitada aos sócios, apesar da tiragem de 28.000 exemplares (!), sendo, por isso, tal como as do álbum, uma das obras mais raras e menos conhecidas de Augusto Trigo e, ao mesmo tempo, umas das que melhor atestam as suas reais qualidades de desenhador ambivalente, tão exímio no estilo humorístico como no realista.

Eis dois episódios da série Tio Pelicas Investiga, “A Revolta do Dinheiro” e “A Invasão dos Coelhos Brancos”, respigados da mencionada revista (de formato mais pequeno que o do álbum), e que, curiosamente, até aparentam alguma relação com factos mais actuais — se quisermos também vê-los pelo lado picaresco!

Trigo - Tio Pelicas 1574Pelicano 2Pelicano 3Pelicano 4Pelicano 5Pelicano 6

 

 

     

 

UM ANO DEPOIS…

1º ANIVERSÁRIO DO GATO ALFARRABISTA

Para celebrar o nosso 1º aniversário na blogosfera — corolário de 12 meses de regular actividade, que se saldou por um total de 152 posts (número ainda modesto, mas acima das previsões iniciais de um estreante nestas lides), com picos em Agosto e Dezembro, e mais de 20 000 visionamentos —, escolhemos um cartoon de Irene Trigo, jovem desenhadora de inegáveis méritos, embora com poucas obras publicadas, que herdou o talento artístico do seu ilustre progenitor Augusto Trigo.

Este cartoon foi reproduzido do nº 13 (Novembro de 1999) da revista Selecções BD (2ª série), onde serviu para apresentar o sumário, com legendas que nós agora modificámos, a pretexto desta efeméride. (Para ler o texto, basta clicar na imagem).

Anos Gato Alfarrabista

Na nova etapa que se abre à nossa frente, esperamos continuar a progredir no sentido de fazer deste blogue um dos que mais espaço e atenção dedicam ao valioso património literário e artístico com que muitos autores da época pioneira da BD portuguesa contribuíram para o prestígio e para a evolução da imprensa infanto-juvenil, das histórias aos quadradinhos, das artes gráficas e da cultura em geral.