ARTUR CORREIA HOMENAGEADO EM MOURA

É já no próximo domingo, 15 de Abril, que se inaugura em Moura, às 15:00 horas, uma exposição de trabalhos de Artur Correia, nome incontornável da Banda Desenhada e do Cinema de Animação recentemente desaparecido, como noticiámos.

A exposição, organizada pela Câmara Municipal de Moura, está inserida na 38ª edição da Feira do Livro e decorre no Parque de Feira e Exposições (pavilhão 2) daquela cidade, até ao próximo dia 26 de Abril.

Mais do que uma exposição sobre o conjunto da vasta obra de Artur Correia (iniciada, em 1948, n’O Papagaio), esta significativa mostra detém-se, maioritariamente, em material poucas vezes ou nunca antes exposto em público: esboços, ilustrações avulsas, argumentos e guiões, pranchas inéditas, cartunes, projectos começados e nunca concluídos, storyboards, postais ilustrados, jogos, revistas, capas de discos, filmes de animação, cartões de Aniversário e de Natal personalizados… Enfim, um vasto e diversificado leque de trabalhos que, certamente, encantarão quem tiver a oportunidade de ir a Moura, no coração do Alentejo.

E muita gente da “tribo” da BD se perfila já para marcar presença no dia 21 de Abril, sábado, data da sessão de homenagem póstuma, que inclui também o lançamento de mais um número dos “Cadernos Moura BD”, dedicado a Artur Correia (com duas histórias inéditas: “Donzela que vai à Guerra” e “A Nau Catrineta”). Será, também, exposto um conjunto de testemunhos (escritos e desenhados) de colegas de ofício e amigos de Artur Correia, que quiseram, dessa forma, associar-se a esta bela homenagem.

Nota: noticiário extraído do blogue BDBD (http://bloguedebd.blogspot.pt), a cargo de Luiz Beira e Carlos Rico. Em devido tempo, como anunciou, este blogue publicará a reportagem que se impõe sobre a meritória iniciativa da Câmara Municipal de Moura. Até lá, porque não uma visita à Feira do Livro e à grande exposição de Artur Correia, no próximo dia 21 de Abril?

IN MEMORIAM: ARTUR CORREIA (1932-2018)

Artur Correia e alguns dos seus personagens retratados por Zé Manel

O cineasta [e autor de BD] Artur Correia, que foi distinguido este ano pela Academia Portuguesa de Cinema com o Prémio de Carreira SOPHIA 2018 e premiado, em 1967, no maior Festival de Cinema de Animação do mundo, morreu na passada quinta-feira, dia 1 de Março, aos 85 anos.

Segundo a informação divulgada pelo Cine Clube de Avanca, em cujos estúdios de animação foi produzida a série “História a Passo de Cágado”, a obra de Artur Correia “marca de forma indelével vários momentos da história do cinema de animação português”.

Artur Correia iniciou-se na animação nos anos 60 e foi o primeiro cineasta português distinguido no maior Festival de Cinema de Animação, em Annecy (França), onde o seu filme “O Melhor da Rua” ganhou o prémio Melhor Filme Publicitário (1967).

Os filmes de Artur Correia receberam várias distinções, nomeadamente no campo do cinema de animação publicitário, tendo sido laureados com prémios em Veneza, Cannes, Hollywood, Bilbau, Nova York (1968 e 1969), Argentina (1970), Tomar (1981) e Lugano (1983).

A primeira série portuguesa de animação, realizada por Artur Correia [e Ricardo Neto], em 1988, foi “O Romance da Raposa”, adaptação do célebre romance homónimo de Aquilino Ribeiro, que se transformou rapidamente num dos maiores sucessos da indústria audiovisual portuguesa.

Artur Correia aliava o seu trabalho na animação [como fundador da Topefilme] à autoria de ilustrações e de álbuns de banda desenhada. Entre eles, as obras de vulto “História Alegre de Portugal” e “Super-Heróis da História de Portugal” [em parceria com o argumentista António Gomes de Almeida], que obteve o prémio Melhor Álbum no AMADORA BD 2005. [Há cerca de dois anos, este volume foi reeditado em fascículos, com grande êxito, pelo jornal Correio da Manhã].

Em 2011, Artur Correia recebeu o Prémio de Honra do supracitado Festival de Banda Desenhada da Amadora, certame em que marcou presença desde o seu início.

Nota: texto reproduzido parcialmente do blogue “Largo dos Correios”. Para ver esse “post” na íntegra clicar em: https://largodoscorreios.wordpress.com/2018/03/02/artur-correia-1932-2018-um-notavel-autor-de-bd-e-animacao/

Ver também: https://ovoodomosquito.wordpress.com/2018/03/05/artur-correia-1932-2018-um-grande-mestre-da-bd-humoristica-e-do-cinema-de-animacao/

INVASÃO DE SUPER-HERÓIS À PORTUGUESA NO “CORREIO DA MANHÔ

Super Heróis Portuguese - Anúncio 1 209Super Heróis Portuguese - Anúncio 2 212Super Heróis Portuguese - Anúncio 3 210

Depois de longa ausência, a banda desenhada humorística regressa aos jornais, com uma nova colecção apresentada pelo Correio da Manhã: “Super-Heróis da História de Portugal”, irresistível e premiada criação de dois veteranos da BD portuguesa, dois mestres do género, Artur Correia e António Gomes de Almeida, que nos mostram o lado mais divertido de uma História velha de séculos.

Todas as semanas, às 6ªs, sábados e domingos, até 7 de Maio, 14 fascículos grátis, com 32 páginas, recheados de impagáveis personagens. Uma colecção que este blogue obviamente recomenda!

 

PARADA DA PARÓDIA – 16

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM 12 PARÁGRAFOS

Artur Correia - D. Afonso I.jpg

Nos primeiros tempos da monarquia, numa feia noite de Dezembro, o rei veio à varanda do seu palácio cheio de luzes e reparou que a cidade estava escura como breu.

Chamou o seu grão-mestre e ordenou-lhe:

— Antes do Natal quero ver a cidade toda iluminada. Toma lá 500 cruzados e trata já de resolver o problema.

O grão-mestre chamou o burgomestre e ordenou-lhe:

— O nosso rei quer a cidade toda iluminada antes ainda do Natal. Toma lá 200 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema.

O burgomestre chamou o seu secretário e disse-lhe:

— O nosso rei ordenou que puséssemos a cidade toda iluminada na quadra do Natal. Toma lá 50 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema.

O secretário obedeceu e redigiu um edital nos seguintes termos:

“Por ordem de El-Rei, em todas as ruas e em todas as casas deve imediatamente ser colocada iluminação de Natal. Quem não cumprir esta ordem será açoitado”.

Dias depois, o rei veio à varanda do seu palácio e, ao ver a cidade profusamente iluminada, exclamou:

— Que lindo! Abençoado dinheiro que gastei. Valeu a pena!

E foi assim, há oito séculos, que Portugal começou a funcionar… e com esta “boa ordem” se tem governado até hoje…

(Nota: ilustração de Mestre Artur Correia. Texto adaptado de autor anónimo)

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 11

O REGICÍDIO

O Regicídio - 2

História de Portugal (4º volume)O brutal assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, no primeiro dia de Fevereiro de 1908, foi o prelúdio do fim da monarquia, vítima dos seus próprios e trágicos erros, e da implantação da República, uma nova aurora política em que Portugal continuou a viver, nessa encruzilhada histórica, sob o domínio da contestação, da anarquia e das revoltas armadas que punham em causa a estabilidade económica, política e social. Tudo isso a juntar ao flagelo da 1ª Grande Guerra, com o seu cortejo de mortos e estropiados em batalhas inglórias. Na Banda Desenhada, o regicídio — um dos acontecimentos revolucionários de crucial importância que mudaram o destino do país no primeiro decénio do século XX —, foi retratado nalgumas obras de cunho didáctico, como a História de Portugal em BD, de A. do Carmo Reis e José Garcês, composta por 4 volumes publicados entre 1987 e 1989, pela Asa, e reeditados diversas vezes.

Viva a República

Num tom mais jocoso, tratando os assuntos sérios com a sua veia artística de consumado humorista, merece especial referência a História Alegre de Portugal, adaptada por Artur Correia da obra homónima de Pinheiro Chagas, numa edição da Bertrand (2002/2003), em dois grossos volumes (o segundo, de onde reproduzimos as páginas seguintes, com texto de António Gomes de Almeida).

Regicidio - Hist alegre P 1 e 2

Outro desenhador argumentista que pegou no tema, desenvolvendo-o de forma apurada, num registo realista e jornalístico fiel aos anais da época, foi Santos Costa, cujo trabalho, inicialmente publicado no semanário O Crime, em 1999, foi posteriormente reeditado no álbum Registos Criminais, com outras histórias do mesmo autor.

O Regicídio - 5

MATARAM O REI - capa350Mas o nosso principal destaque vai para um álbum de José Ruy intitulado Mataram o Rei!… Viva a República!, editado em 1993 pela Asa e reeditado em 2008 pela Âncora, onde o veterano Artista, com o seu traço sóbrio, a atenção aos pormenores, a fluência do estilo gráfico/narrativo, a faceta romanesca (que tem sido pouco valorizada nas apreciações críticas) e o rigor documental e histórico que preside a todos os seus trabalhos, reconstituiu de forma viva, lúdica e emotiva o ambiente social e político dessa época agitada, assim como o “pacto de sangue” entre membros da Carbonária e de forças republicanas, numa conspiração contra o governo e a figura do Rei que conduziu ao fatídico desenlace junto das arcadas do Terreiro do Paço, no dia 1 de Fevereiro de 1908, precipi- tando a queda do regime monárquico, ainda mais frágil no reinado de D. Manuel II.

Eis algumas páginas deste magnífico álbum de José Ruy, um autor/investigador que, com a sua obra vasta e diversificada, já com dezenas de títulos, muito tem enriquecido e prestigiado a BD portuguesa de temática histórica e didáctica.

MATARAM O REI - 1 e 2MATARAM O REI - 3 e 4

Em nota final desta breve (e quiçá incompleta) retrospectiva, queremos também chamar a atenção para outra abordagem, muito curiosa, do regicídio, que pode ser apreciada no conhecido blogue Leituras de BD: http://bongop-leituras-bd.blogspot.pt/2012/03/herois-ou-assassinos.html

Quatro páginas apenas, com guião de Nuno Amado, grafismo e cores de Daniel dos Santos, mas de uma intensidade estética e narrativa a justificar nota alta. Aqui mostramos duas dessas páginas, com a devida vénia ao Leituras de BD.

Heróis ou assassinos - pág. 2 e 3

QUANDO O FUTEBOL VOLTOU AO CAVALEIRO ANDANTE – 3

Aqui têm mais seis páginas da série desportiva, com fotografias das equipas, fichas dos jogadores, emblemas e informações várias sobre os clubes de futebol da 1ª divisão nacional (época de 1959-60), que o popular semanário juvenil Cavaleiro Andante ofereceu aos seus leitores, entre os nºs 437, de 14 de Maio de 1960, e 454, de 10 de Setembro do mesmo ano, quase sempre com destaque na capa e na terceira página.

CA Futebol 7  531Os respectivos textos, embora não assinados, alardeavam a competência e os conhecimentos de um especialista na matéria, que com toda a probabilidade seria o jornalista Carlos Pinhão, coordenador do suplemento Desportos do Cava- leiro Andante, que teve publicação regular, em duas séries — desde o nº 62 até ao nº 313 —, e deu grande destaque a várias modalidades desportivas (incluindo obviamente o futebol).  

A maioria desses artigos tinham pitorescas ilustrações de Artur Correia, que já então fazia jus ao título de um dos maiores valores da BD humorística portuguesa.

Nestas páginas, correspondentes aos nºs 444, 445 e 446 do Cavaleiro Andante, as equipas em foco eram três das mais populares e competitivas dessa época: Boavista, Belenenses e Sporting da Covilhã.

Os nossos leitores que queiram consultar os posts anteriormente apresentados com este tópico, podem clicar aqui e aqui.

CA Futebol 1 e 2CA Futebol 3 e 4CA Futebol 5 e 6

OS REIS DO RISO – 3

NEM TUDO O QUE LUZ É OURO…

E para acabar com sorrisos e boa disposição mais um ano de “vacas magras”, em que muitos políticos e doutas personalidades continuaram a repisar os mesmos discursos, vendendo promessas e ilusões, aqui têm uma história de tesouros, com o traço — que alguns dos nossos leitores poderão não reconhecer — de um dos mais geniais humoristas da BD portuguesa: Artur Correia.

Este curto episódio foi publicado no número de Natal do Camarada (2ª série) de 1958, revista em que floresceu uma notável escola de desenhadores humorísticos, com Artur Correia, Carlos Roque, Fernandes Silva e Ricardo Neto no topo da lista. 

Um bom ano de 2014 para todos são os votos d’O Gato Alfarrabista!

Artur Correia - O tesouro 1 e 2

CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 1

JOSÉ ANTUNES, CAPISTA DO PISCA-PISCA

Pisca pisca nº3Nesta rubrica em estreia do Gato Alfarrabista, vamos apresentar, uma vez por outra, algumas ilustrações que ainda hoje nos enchem o olho, escolhidas ao acaso entre as capas dos milhares de livros e revistas que atafulham todos os cantos desta casa. Até o nosso gato já tem pouco espaço para meter o nariz onde lhe apetece, porque certos caminhos lhe estão vedados e há portas (que guardam preciosos segredos, isto é, objectos muito sensíveis ao tacto e às unhas dos felinos) sempre fechadas.

Entre essas “relíquias” de papel, a nossa primeira escolha recaiu sobre algumas capas do Pisca-Pisca, revista de periodicidade mensal, nascida em Janeiro de 1968, sob a direcção de Álvaro Parreira e Olga Alves, na qual, entre outros motivos de interesse, surgiram pela primeira vez, em tradução portuguesa, as tragicómicas aventuras do ignóbil Grão-Vizir Iznogoud e do  inefável Califa de Bagdad, criadas por outra dupla de respeito: Goscinny (argumento) e Tabary (desenhos).

Com um excelente elenco de colaboradores e um lote bem escolhido de histórias aos quadradinhos, oriundas sobretudo de revistas franco-belgas, o Pisca-Pisca abriu também as suas páginas a alguns desenhadores portugueses de primeira linha, como José Garcês, José Ruy, Carlos Alberto, Eugénio Silva, Zé Manel, Fernandes Silva, Artur Correia e José Antunes — este último autor das capas que hoje vos apresentamos.

Pisca pisca nº2Com um fértil percurso artístico que o projectou desde as primeiras histórias aos quadradinhos no Mundo de Aventuras e no Camarada (2ª série) até aos píncaros da ilustração no Jornal do Exército e em inúmeras publicações de diversas editoras, José Antunes foi orientador gráfico do Pisca-Pisca, onde não fez banda desenhada, mas deixou alguns dos seus melhores trabalhos como ilustrador, nomeadamente as capas dos primeiros números, com destaque para as do nº 3 (Março 1968), assinalando a estreia da série “O Califa e o Grão-Vizir” (que se tornaram os heróis mais emblemáticos da revista), e do nº 2 (Fevereiro 1968), baseada numa curta história de William Vance, famoso desenhador belga, cujas principais criações, como Bruno Brazil, Ramiro, Howard Flynn, Bob Morane e XIII, figuram entre as mais memoráveis da moderna escola franco-belga emergente nos anos charneira de 60 e 70.

Ao encetar a sua carreira, Vance especializou-se no domínio dos récits complets de cunho histórico e didáctico, muito em voga no Tintin e no Spirou, produzindo dezenas de episódios como o que deu origem à magnífica capa de José Antunes (certamente mais completa no original, pois parece ter sofrido um corte na margem direita), sobre a famosa companhia de diligências Wells Fargo, que transportava o correio nos tempos heróicos e turbulentos do Oeste americano, como o cinema tantas vezes nos mostrou.

Pisca pisca nº4 e 5

De “encher o olho” são também as capas dos nºs 4 (Abril 1968) e 5 (Maio 1968), dedicadas a outras histórias curtas, com especial relevo no sumário desses números: a lenda medieval de “Amadis, o Donzel do Mar” e a curiosa história da girafa oferecida, em 1826, ao rei de França, ilustradas respectivamente por José Garcês, no seu estilo harmonioso e poético, e por Fred Funcken, outro versátil especialista belga deste género de episódios verídicos, criador, com sua mulher Liliane, de séries muito populares como Chevalier Blanc, Harald le Viking, Jack Diamond, Doc Silver e Capitan.

Pisca pisca nº 7 e 24 Pisca pisca nº11 escola de detectives

Chamam também a atenção as capas dos nºs 7 (Julho 1968) e 24 (Fevereiro 1970), em que Iznogoud e o ingénuo Califa continuam a ser os “reis da comédia”, sob a exímia batuta de Goscinny e Tabary; e a do nº 11 (Janeiro 1969), pondo em foco a Escola de Detectives, secção policial orientada pelo célebre Inspector Varatojo (que se estreou com uma rubrica do mesmo nome no Diabrete) e profusamente ilustrada por José Antunes.

Pisca pisca nº14+ 21

As capas dos nºs 14 (Abril 1969) e 21 (Novembro 1969), de aspecto bélico, ilustram as proezas de destemidos heróis portugueses dos séculos XVI e XVII, que andaram pelo Oriente, assunto abordado com fluência narrativa e rigor histórico por Olga Alves, Ortiz da Fonseca e outros colaboradores literários do Pisca-Pisca, onde estes temas (como noutras revistas juvenis da época) tinham grande destaque.

Pisca pisca nº 12 + 18

Outro feito memorável da nossa História, a 1ª travessia aérea do Atlântico Sul, levada a cabo por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, nos tempos pioneiros da aviação, serviu de tema à capa do nº 12 (Fevereiro 1969), enquanto que, na do nº 18 (Agosto 1969), o ignóbil Iznogoud desempenha novo papel, como figura de um filme de desenhos animados, cuja técnica é explicada aos leitores no interior da revista.

Realmente especial é a capa do nº 19 (Setembro 1969), que evoca um dos acontecimentos mais notáveis do século XX, tema de uma grande reportagem fotográfica inserida nesse número: a chegada à Lua, mês e meio antes, do foguetão Apolo XII, tripulado por três astronautas americanos, tendo dois deles, Armstrong e Collins, pisado, pela primeira vez na história da Humanidade, a superfície lunar.

Reparem num pormenor curioso desta capa: a presença de Iznogoud ao lado dos célebres astronautas. A razão é porque, na sua aventura desse número espe(a)cial, o malfadado Grão-Vizir entrou também em órbita!

Pisca pisca nº19 e iznogood

Pisca pisca nº23José Antunes foi responsável gráfico do Pisca-Pisca até ao derradeiro nº 33, saído em Dezembro de 1970, e continuou, por isso, a ilustrar textos e capas da revista, coadjuvado por outros desenhadores, como documentam as três ultimas que apresentamos, correspondentes aos nºs 23 (Janeiro 1970), 27 (Maio 1970) e 28 (Junho 1970), todas bons exemplos da sua maturidade gráfica, do seu sentido da composição e da mestria revelada no tratamento da cor. Lamentamos apenas que, por falta de motivação ou de tempo, não tivesse brindado também os leitores, a exemplo dos seus colegas José Garcês, Carlos Alberto e Eugénio Silva, com uma história em quadrinhos (designação que o Pisca-Pisca usava correntemente).

Na galeria de grandes ilustradores/capistas portugueses das últimas décadas, em áreas tão concorridas como a literatura e a imprensa infanto-juvenis, José Antunes (1937-2010) é seguramente, pelo seu multifacetado talento e por toda a vasta obra que realizou, um dos nomes a reter na nossa memória.

Pisca pisca nº27+28

A VOLTA A PORTUGAL EM BICICLETA

Nicolau_e_Trindade_dos_anos_30Com o futebol um pouco “adormecido” durante o estio — ou, pelo menos, mais afastado das competições nacionais até ao início de nova época —, Julho e Agosto são meses tradicionalmente dominados por outra grande modalidade desportiva, o ciclismo, com destaque para o Tour de France e, no nosso (mais tacanho) circuito caseiro, a Volta a Portugal, que já chegou ao fim da sua 75ª prova, com a vitória de um galego, Alejandro Marque, e da sua equipa.

Volta a Portugal 1Ao vermos as imagens, nos telejornais, dos velozes ciclistas que se lançam briosamente ao assalto das estradas e das pistas de montanha onde a glória pode estar à sua espera, perpassam-nos pela memória os nomes e os feitos de grandes ídolos do passado como Fausto Coppi, Gino Bartali, Louison Bobet, Jacques Anquetil, Eddy Merckx, Bernard Hinault, Miguel Indurain, José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Alves Barbosa, Moreira de , Ribeiro da Silva, Joaquim Agostinho, Marco Chagas e outros mais, que os autores de BD, nalguns casos, ajudaram também a cobrir com os louros da fama.

agostinho_joaquimUm desses exemplos, no sumário historial desportivo da BD portuguesa, é “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, episódio publicado no vespertino A Capital, durante a Volta a Portugal de 1973, cujo registo biográfico se transformou numa autêntica reportagem ilustrada, graças ao traço dinâmico e às envolventes composições de Fernando Bento, para quem o ciclismo não era um tema inédito.

Em 2010, associando-se às celebrações do centenário do genial Artista, o Gicav, promotor e organizador do Salão de BD de Viseu, reeditou esse trabalho — perdido, como tantos outros, nas páginas de jornais que já não existem — em homenagem ao talento do Mestre também já desaparecido, dedicando-lhe um magnífico álbum de grande formato, a fim de permitir aos seus indefectíveis admiradores uma apreciação mais perfeita do expressivo e documental estilo exibido nessas 16 pranchas, quase como se estivessem a admirar os originais.

Joaquim Agostinho Capa+1

Joaquim Agostinho 2 + 3

Ao longo da sua prolífica carreira, Fernando Bento fez várias ilustrações sobre temas desportivos, incluindo caricaturas de “ases” do ciclismo n’Os Sports e tiras sobre a Volta a Portugal na secção infantil do República. No Cavaleiro Andante chegou mesmo a contar a história do popular velocípede de duas rodas numa página recheada de curiosos apontamentos sobre a evolução da sua forma e do seu funcionamento. Nascida de uma ideia totalmente absurda, que era a da locomoção pedestre num ridículo veículo de madeira sem pedais, a bicicleta tornou-se, graças a um pequeno acidente, o meio de transporte ideal (embora destinado a poucos passageiros), antes da invenção do automóvel, e ganhou direito de cidadania em todos os países do mundo.

Volta a Portugal 3

CAVALEIRO ANDANTE 146A página que aqui reproduzimos foi publicada no nº 23, de 7/6/1952, do Cavaleiro Andante, onde tempos depois não tardariam a surgir vários episódios curtos sobre temas desportivos, na sua maioria desenhados por Jean Graton (o futuro criador de Michel Vaillant), que dedicou também especial atenção às peripécias e às emoções do desporto mais popular, logo a seguir ao futebol, em Espanha, França, Itália, Bélgica, Portugal e noutros países europeus.

Mas dessas histórias (e de outras que as antecederam) falaremos com mais detalhe em próximos artigos sobre este aliciante (e pouco divulgado) tema.

A título de curiosidade, apresentamos também uma página com um mapa da 19ª Volta a Portugal (cujo vencedor foi Alves Barbosa), publicada no Cavaleiro Andante nº 242, de 18/8/1956, em que a rapaziada podia seguir as etapas da prova e fazer, ao mesmo tempo, uma espécie de jogo com os amigos, que consistia simplesmente em anotar no mapa os seus prognósticos para os vencedores de cada etapa, somando 10 pontos quando acertavam.

Os pitorescos “bonecos” que ilustram essa página, com um traço humorístico inconfundível, são de Artur Correia, um dos mais apreciados e mais antigos colaboradores da revista, cujos trabalhos recheavam o suplemento infantil O Pajem.


Volta a Portugal 2