O REI FAZ ANOS!

Os exemplos da BD sobre temas desportivos não abundam na 9ª Arte portuguesa — e ainda menos os que versam o futebol —, mas este é um dos mais marcantes, sobre a carreira do mítico Eusébio da Silva Ferreira, o rei dos goleadores, com texto e desenhos de Eugénio Silva, a merecerem especial menção.
Embora editado há muitos anos pela Meribérica (e já reeditado pela Arcádia), este álbum é uma iniciativa que se saúda com apreço, comemorativa dos 76 anos que Eusébio completaria em 25 do corrente, se ainda estivesse entre nós.

ARCÁDIA EDITA “O COMBOIO DOS ÓRFÃOS”

O combóio dos orfãos

O Comboio dos Órfãos é uma história sobre mobilidade e desenraizamento, que nos revela um período menos conhecido, mas muito significativo, da História dos Estados Unidos da América. Na sua costa leste, a onda de emigração maciça levou ao abandono de muitas crianças oriundas do velho continente. Miseráveis entre os mais miseráveis, essas crianças abandonadas e maltratadas sobreviviam à custa de pequenos furtos e mendicidade nas ruas de Nova Iorque. Só nesta cidade, eram cerca de 20 mil em 1854, ano em que foi posto em prática o primeiro programa de adopção, conhecido pelo nome de “Orphan Train Riders”. Inicialmente artesanal, este sistema adquiriu rapidamente uma dimensão e uma eficácia quase industriais. Quando a iniciativa terminou, em 1929, cerca de 250.000 crianças haviam sido enviadas para o Oeste dos Estados Unidos.

O reverendo Charles Loring Brace foi o primeiro a acreditar que, retirando estas crianças do seu ambiente nocivo (onde eram conhecidas pela alcunha de “street rats“), poderia transformá-las em cidadãos irrepreensíveis. Nos estados do Middle West, havia falta de mão-de-obra e muitos casais que não podiam ter filhos… pelo que seria recomendável enviá-las, por comboio, de uma costa à outra dos EUA. As primeiras viagens, patrocinadas pela organização de Brace, a Children’s Aid Society, foram realmente um êxito.

Recorrendo a agentes locais, Charles Brace instituiu um sistema de cartazes que anunciavam a chegada das crianças para adopção. As “distribuições” realizavam-se no teatro, na ópera, na igreja, ou até no cais da estação ferroviária. Os nomes, ou números, pregados nos casacos dos mais novos permitiam que os agentes os identificassem facilmente. Era frequente, porém, que estes actos se assemelhassem a uma feira de gado. Compostas, na sua grande maioria, por agricultores, as famílias de acolhimento exigiam o direito de verificar o estado de saúde (principalmente dos dentes) dos meninos e meninas trazidos de tão longe. Era raro que fossem imediatamente adoptados. A única obrigação das famílias de acolhimento consistia em tratá-los como se fossem seus filhos, até atingirem os 17 anos. Obviamente, muitos eram considerados apenas como mão-de-obra barata, mas, para o reverendo e para a maioria dos órfãos, era uma situação melhor do que aquela em que viviam nas ruas de Nova Iorque, entregues à sua mísera sorte.

Este álbum de BD, com 96 páginas, apresentado agora em português, numa edição da “renascida” Arcádia, relata uma longa viagem pautada pela amizade, pela entreajuda… mas também pela traição. Uma obra de temática original, a não perder!

 

AMADORA BD 2014 – 5

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Como já noticiámos, o Troféu de Honra — o mais importante e antigo galardão do Festival Internacional da Amadora, atribuído a uma personalidade com especial relevo na BD portuguesa — distinguiu outro autor veterano, Carlos Baptista Mendes, cuja obra tem sido quase exclusivamente dedicada a temas da História de Portugal.

Batista Mendes silva porto159Quero aqui deixar uma nota de amizade, respeito e admiração pelo Carlos, que conheço há muitos anos, desde a nossa juventude passada em comum nas salas de aula e nos ginásios do Liceu Gil Vicente, em Lisboa, onde já ambos manifestávamos a nossa predilecção pelas histórias aos quadradinhos, ele desenhando, eu escre- vendo para os “jornais de parede” e outras publicações artesanais, feitas por processos rudimentares, como o copiógrafo (de que hoje já ninguém ouve falar).

Mais tarde, depois de muitas reviravoltas da vida, reencontrámo-nos na Agência Portu- guesa de Revistas (APR), onde eu me tornei coordenador do Mundo de Aventuras, a partir de Maio de 1974, e ele já figurava no quadro de desenhadores, incumbido de ilustrar alguns títulos das colecções de livros de bolso românticas e de cowboys que a APR, na altura, ainda publicava.

Claro que esse foi o pretexto e o estímulo (a par da nossa amizade de longa data) para que Baptista Mendes se juntasse ao projecto de renovação do Mundo de Aventuras, tornando-se, durante algum tempo, um dos seus mais proeminentes colaboradores, a quem se devem muitas ilustrações e HQ’s publicadas nesse período.

Batista Mendes lenda de gaia160Foi com ele que fiz “A Lenda de Gaia”, a minha primeira história de BD, apresentada no MA nº 143, de 24 de Junho de 1976, com honras de capa (e reeditada, anos depois, no Jornal do Exército e nos Cadernos Sobreda BD).

Em 1983, o seu talento artístico ressurgiu na colecção Antologia da BD Portuguesa, da Editorial Futura, com o álbum intitulado “Por Mares Nunca Dantes Navegados”, onde foram compilados alguns episódios curtos sobre a epopeia dos Descobrimentos, ilustrando a sua aptidão para os temas históricos e biográficos, género que, como já referimos, cultivou longamente, desde o início da sua carreira, nas páginas de várias revistas e suplementos juvenis: Camarada, Falcão, Cavaleiro Andante, Pardal, Pim-Pam-Pum, Mundo de Aventuras, e sobretudo no Jornal do Exército e na Revista da Armada.

Infante D. Henrique (B. Mendes)Nos anos seguintes, para as editoras Asa e Âncora, realizou outros álbuns de BD, com trabalhos inéditos, continuando a exercer na vida privada as funções de chefe do gabinete de desenho de uma importante empresa industrial.

A sua obra mais recente, dedicada ao tema “Portugueses na Grande Guerra (1914-1918)”, surgiu nos escaparates em finais de Outubro, com o selo da Arcádia, editora que parece novamente apostada em afirmar-se no mercado, competindo directamente com a Asa. Foi este trabalho, com vários episódios respigados do Jornal do Exército e algum material inédito, que o Amadora BD escolheu para expor este ano na Galeria dos Paços do Concelho (ou Galeria Municipal Artur Bual), homenageando também Carlos Baptista Mendes com a atribuição do Troféu de Honra, prémio de mérito pelos seus 55 anos de carreira.

Batista Mendes grande guerra161Posso afirmar categoricamente que o trabalho do Carlos sempre se pautou pelo rigor e pelo brio profissional. Nunca cedeu à facilidade, abordando com ligeireza os temas que pretendia ilustrar; pelo contrario, antes de “passar à acção” documentava-se exaustivamente, com o intuito de ser minucioso no desenho e na explanação dos factos históricos, mesmo em episódios curtos, geral- mente de duas páginas (em que também adaptou textos e traçou biografias de vários escritores portugueses, a merecer igualmente uma recolha em álbum).

No tocante aos prazos, por vezes forçosamente curtos, era o campeão da pontualidade. Gabava-se, aliás, da sua rapidez de execução, pois num fim de semana era capaz de realizar 6 a 12 ilustrações para os livrinhos de bolso da APR. E sem esforço, nem perda de qualidade!

IMG_2056Para ti, velho camarada, um abraço muito afectuoso deste companheiro nalgumas encruzilhadas da BD e da vida. Em recordação dos bons velhos tempos!…

Nota: as fotos que ilustram este post são da autoria de Dâmaso Afonso. Seguidamente, apresentamos uma breve reportagem da exposição de Baptista Mendes na Galeria Municipal Artur Bual, inaugurada em 24 de Outubro, com a presença de Nelson Dona, director do Festival, António Moreira, vereador da Cultura na Câmara Municipal da Amadora, e de vários autores de BD, colegas do homenageado.

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