IN MEMORIAM

NUNO SAN-PAYO (1926-2014)

NA PINTURA E NA BD

Casal com filacteras

Foto Nuno San-PayoComo já é raro ler jornais — de vez em quando abro uma excepção para o I, o Público e o DN —, só tive conhecimento da morte deste notável e multi- facetado Artista através do meu amigo Leonardo De Sá, que na mensagem que me enviou lamentava, com razão, a ignorância da imprensa ao referir que Nuno San-Payo nascera em Lisboa (quando era natural de Petrópolis, no Brasil) e ao omitir uma das facetas mais significativas da sua carreira artística: a passagem pela Banda Desenhada nos anos 40 e 50, como autor da nova e talentosa geração revelada nas páginas do Jornal da MP e do Camarada (1ª série), sem esquecer a Lusitas, destinada à juventude feminina, e o Lusito, lido pelos rapazes.

Casal a dançarInfelizmente, os jornalistas que redigiram a notícia devem desconhecer a existência da BD portuguesa, bem como de uma obra fundamental, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, publicada em 1999 pelas Edições Época de Ouro e pelo Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI): Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal. Um título comprido, mas, pelos vistos, não o bastante para chamar a atenção de quem escreve sobre certos temas e autores relacionados com a BD, sem perceber patavina do assunto.

Neste livro de consulta e leitura obrigatórias, recheado de completas notas biográficas sobre os nomes mais importantes das artes figurativas nacionais, naquelas duas áreas específicas, regista-se que Nuno Belger Alves de San-Payo nasceu em 1 de Maio de 1926, no Brasil, e formou-se em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto. Foi também pintor, figurinista, cenógrafo, autor de cartazes e ilustrador de livros e revistas, tendo a sua breve mas notória intervenção no campo das histórias aos quadradinhos ficado assinalada em vários títulos, como Os Sports, Jornal da MP, Lusito, Camarada e Diabrete.

Nuno San-Payo (1951). Saltimbancos (óleo sobre tela - 99x120cm)Também foi membro directivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, cuja presidência exerceu entre 1971 e 1979. Quase tenho a certeza de que foi este distinto cargo que mais impressionou os autores das notas necrológicas publicadas, com mais ou menos floreados, nalguns jornais; mas esque- ceram-se simplesmente de frisar que Nuno San-Payo, como escreveu Jorge Machado- -Dias no seu blogue Kuentro-2, foi “uma das mais ilustres figuras da cultura portuguesa do século XX”. Assim o documenta uma exposição antológica das suas obras pictóricas, patente no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, até ao próximo dia 24 de Agosto — talvez uma das mais importantes realizadas em Portugal nos últimos anos.

Nuno San-Payo - diabrete 822Conheci-o há muito tempo, numa das animadas tertúlias do Parque Mayer, onde foi homenageado, por iniciativa de Geraldes Lino, e nas breves mas amistosas impressões que trocámos sobre Banda Desenhada, veio à baila uma das suas melhores histórias, publicada no Diabrete em 1951: “A Ilha de Coral”, cujos originais ainda possuía.

Tive, então, a ideia, com que ele prontamente concordou, de publicar essa obra, a preto e branco, nos Cadernos de Banda Desenhada, mas esta revista bimestral que editei, com alguns amigos, por amor à 9ª Arte (ou seja, com grande prejuízo da nossa bolsa), durou pouco tempo mais.

Nuno San-Payo - Ilha do coral 1 e 2

Recordo esse encontro com Nuno San-Payo e um projecto que, infelizmente, não passou de um sonho, apenas para sublinhar que nenhuma das histórias aos quadradinhos que ele realizou foi reeditada até hoje. O que é pena… Nem suas nem de outros autores da novel escola do Jornal da MP e do Camarada, como Júlio Gil, Marcelo de Moraes, Bastos Coelho, António Vaz Pereira, cuja inspiração de cunho modernista criou um estilo gráfico independente, que abriu novos horizontes à BD portuguesa.

Em jeito de homenagem, aqui ficam algumas páginas ilustradas por Nuno San-Payo no Diabrete e no Camarada (onde assinou também com o seu segundo nome: Belger), todas praticamente desconhecidas das actuais gerações. Exemplos de uma fase mais ama- durecida da sua carreira de banda-desenhista, nelas transparecem já as relações com o estilo de pintura, sobretudo figurativo, que viria a desenvolver posteriormente.

Nuno San-Payo - camarada 67 e 95Nuno San-Payo - Hassan o audaz - 1 e 2Nuno San-Payo - Hassan 3 e 4Nuno San-Payo - Castel-Diabo 1e 2Nuno San-Payo - Kalambula 1 e 2

 

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 8

Estátua Vasco da Gama  838VASCO DA GAMA (1)

Entre as personagens da História de Portugal mais em foco, todas as que estão relacionadas com a época dos Descobrimentos adquiriram um cunho e um simbolismo especiais, nomeadamente Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Diogo Cão, Gil Eanes, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães e o Infante D. Henrique.

No campo da literatura juvenil e em particular da Banda Desenhada, todas foram retratadas por vários autores portugueses e até de outras origens, embora na maioria dos casos as versões alheias tenham tido pouca ou nenhuma divulgação entre nós, reduzindo bastante o conhecimento da importância e da projecção que os feitos heróicos dos nossos antepassados tiveram (e ainda têm) para muitos especialistas de diversas áreas, incluindo a Figuração Narrativa.

Albi del Vittorioso

Hoje, vamos recordar a figura de Vasco da Gama, fidalgo da confiança de D. Manuel I, natural de Sines, que se cobriu de glória por ter comandado a expedição que desbravou o caminho marítimo para a Índia, numa longa e atribulada viagem de dois anos (ida e volta), iniciada na praia do Restelo em 8 de Julho de 1497.

Milhares de jovens leitores d’O Mosquito reviveram no seu espírito, durante um período quase equivalente ao tempo real da viagem, a epopeia dos audazes navegadores portugueses, graças às magníficas imagens, em formato maior do que o normal (quatro, três e, às vezes, só uma por página), de uma magistral criação de Eduardo Teixeira Coelho, com o título “O Caminho do Oriente”, que um eminente crítico e estudioso das histórias aos quadradinhos, António Dias de Deus, comparou aos versos imortais de Camões, cognominando-a, com acerto, “Os Lusíadas da BD Portuguesa”.

Caminho do Oriente 1

Caminho do Oriente Vinheta Simão Infante849Descrito de forma lírica e empolgante por Raul Correia — e às vezes, também, em verso, como no episódio avulso da conquista de Lisboa aos Mouros, que o marinheiro trovador Fernão Veloso narrou aos seus companheiros, num momento de calmaria da viagem —, “O Caminho do Oriente” tem como principal protagonista um ladino garoto chamado Simão Infante, que veio para Lisboa, em cata de fortuna e de aventuras, e logo teve a sorte de se cruzar com Vasco da Gama, caindo nas boas graças do futuro Vice-Rei da Índia, pela sua esperteza, honestidade, arrojo e valentia.

Essas qualidades valeram-lhe também o favor régio e permissão para embarcar na pequena esquadra que se preparava para sulcar os mares desconhecidos, tornando realidade o velho sonho de descobrir a rota das Índias, das especiarias, das terras fabulosas que ocultavam preciosos tesouros.

Caminho do Oriente 2Caminho do Oriente 3

O sonho cumpriu-se e Simão Infante, depois de muitas e aventurosas peripécias em terras distantes e exóticas, que nunca sonhara conhecer — onde havia confraternizado com gentes de várias raças, aprendendo novos costumes e novas línguas, combatido perigos e inimigos de toda a espécie, às vezes escondidos na sombra, a ruminar planos de traição, e encontrado pitorescas personagens, como Tzerine, o mestre de artes marciais, e o faustoso Samorim, rajá de Calecut, que Vasco da Gama tratava com cortesia e prudente astúcia —, regressa ao reino com os sobreviventes da expedição, mais atilado e experiente do que à partida, graças a tudo quanto vira, aprendera e padecera.

Caminho do Oriente 4Caminho do oriente 5

E, como a razão assiste aos valentes, Simão Infante não hesita em provar, mais uma vez, que é um moço de rija têmpera e um patriota dos quatro costados, quando um bufão começa a escarnecer dos perigos e tormentos da viagem, maldizendo os intrépidos mareantes que tinham passado por tantas provações, sob o férreo comando de Vasco da Gama, para levar até aos gentios o nome de Portugal e a fama dos seus heróis.

Caminho do Oriente 6

História de longa duração, como já referimos, publicada entre os nºs 749 (28/8/1946) e 941 (30/6/1948) d’O Mosquito — embora com muitos intervalos, por doença ou excesso de trabalho de E. T. Coelho —, “O Caminho do Oriente” tornou-se uma das obras mais emblemáticas da BD portuguesa, vencendo a barreira do tempo para chegar até outros leitores, através das oportunas reedições no Jornal do Cuto, em 1971/72, e mais tarde na Antologia da BD Portuguesa, a primeira edição integral em álbum (seis volumes), a partir de provas originais, com posfácios de António Dias de Deus e textos revistos (depois de obtido o beneplácito do seu autor, Raul Correia), para evitar que as legendas, por vezes demasiado extensas, tapassem parte dos desenhos.

Vasco da Gama - Caminho do oriente Futura 1 e 2

Versões curtas, em jeito de biografia resumida, sobre a homérica epopeia de Vasco da Gama e do seu punhado de marinheiros, também as houve, realizadas por outros especialistas de temas históricos, como Baptista Mendes e Eugénio Silva, autores já familiares aos visitantes assíduos deste blogue.

A título de curiosidade, aqui ficam mais duas histórias com a sua assinatura, extraídas respectivamente do Mundo de Aventuras nº 476, de 25/11/1982, e do livro escolar Lições de História Pátria, com texto de Pedro de Carvalho.

Vasco da Gama -Baptista Mendes 1 e 2Vasco da Gama - Eugénio Silva 1e 2

Capa Pisca Pisca 17Outro desenhador português de ecléctica perso- nalidade artística, que deixou largo testemunho como pintor de excepcional craveira e desenhador de apurado estilo realista (embora, na BD, preferindo o preto e branco), Carlos Alberto Santos de seu nome, evocou também a figura e os feitos de Vasco da Gama numa história publicada a cores no nº 17 (Julho de 1969) da revista Pisca-Pisca, com o título “O Almirante das Naus da Índia” e texto de Olga Alves.

Pelo seu estilo vigoroso, as cores garridas e a abordagem concisa, mas sugestiva dos factos históricos, este breve episódio merece também ser recordado — o que fazemos, com a devida vénia, em jeito de homenagem ao prodigioso talento de um Mestre ainda vivo, que consagrou alguns dos seus ócios a uma paixão menor, mas indesmentível: a Banda Desenhada.

Vasco da Gama - Carlos Alberto 1 e 2Vasco da Gama - Carlos Alberto 3 e 4Vasco da Gama - Carlos Alberto 5          856