O ANIVERSÁRIO D’O MOSQUITO… HÁ 28 ANOS

Mosquiro sentado com jornal

Quando passaram 50 anos sobre a data de nascimento d’O Mosquito ainda não havia Internet nem a “febre” das redes sociais e dos blogues que hoje cobrem e discutem todos os acontecimentos de relevo nas áreas da cultura, do desporto, da política (e em muitas outras), mas estava ainda em publicação a última série da mais famosa revista juvenil portuguesa, ressuscitada dois anos antes pela Editorial Futura, sob a direcção do malogrado dr. Chaves Ferreira, médico de profissão, amante das letras e da BD.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12488Foi por sua iniciativa que um numeroso grupo de colaboradores dessa série (a quinta, no quadro histórico e cronológico d’O Mosquito), a que se juntaram outras figuras — algumas também já desaparecidas, como António Homem Christo, António Costa Ramos, Augusto Simões Lopes, António Barata e Lúcio Cardador —, se reuniu junto da antiga sede das Edições O Mosquito, onde funcionavam também as suas oficinas, na Travessa de S. Pedro, nº 9 (contígua ao Jardim de S. Pedro de Alcântara), e depois num restaurante do Bairro Alto para celebrar essa data histórica e, ao mesmo tempo, dizer adeus à nova série, cujo último número se publicou nesse mês de Janeiro de 1986.

Mosquito faz véniaO encontro promovido em pleno coração da imprensa lisboeta e o simbolismo da efeméride não passaram despercebidos a alguns jornais, como foi o caso do Diário de Lisboa e do Diário Popular, vespertinos na altura ainda em circulação, que no dia seguinte, 15 de Janeiro, publicaram com assinalável destaque as notícias que seguidamente reproduzimos.Mosquito 50 anos - Diário popular  486 Mosquito 50 anos - Diário de Lisboa487DiárioPopular - 50 anos do Mosquito copyDiário de Lisboa - 50 anos do Mosquito COPY

Mesmo sem Internet, Facebook, Google, Twitter, TV por cabo e outros avanços tecnológicos dos meios de comunicação que desde essa época se registaram a espantosa velocidade, um facto merece ser sublinhado: nos anos 80 do século XX (e até em décadas anteriores) os jornais davam mais importância à Banda Desenhada, como forma moderna e transversal de arte figurativa popular, do que dão hoje.

Mosquito ao guardachuvaMas os encontros entre gerações de leitores entusiastas, estudiosos, colaboradores e coleccionadores d’O Mosquito, esses não se extinguiram, nem o sentimento especial que Cardoso Lopes e Raul Correia, com o seu papel lúdico e educativo (mas distanciando-se da escola e da pedagogia), fomentaram numa larga camada da juventude portuguesa — que, por sua vez, o acalentou, num recanto nostálgico da sua memória, e o transmitiu no tempo, partilhando-o, pelo espírito e pelo exemplo, com as gerações futuras.

Mosquito 50 anos - Mosquito nº 12 B489

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 8

Pluto nº 5

Este número especial d’O Pluto, comemorativo do Natal de 1945, é bem nutrido de páginas (trinta e duas) e de ilustrações de Vítor Péon, que o recheiam de uma ponta à outra.

Diga-se de passagem, para quem não souber, que este prolífico artista, então com 22 anos — cuja carreira na imprensa infanto-juvenil começara pouco tempo antes, e logo na revista mais famosa desse tempo, O Mosquito —, era a “mais valia” d’O Pluto e do seu director artístico e editor, o também jovem e dinâmico José Augusto Roussado Pinto, que apesar dos seus “verdes” 18 anos, acalentava o homérico projecto de fazer concorrência ao Mosquito e talvez, se os deuses e a sorte o ajudassem, superar até o seu êxito.

Assim é feito o Pluto - 2  346

Para isso, contou com a ajuda dos tipógrafos e de outros trabalhadores gráficos da Imprensa Barreiro, sita em Lisboa (a quem O Pluto prestava uma homenagem fotográfica nas páginas centrais desse número), mas sobretudo de Vítor Péon, que foi o autor de mais de 80% das histórias aos quadradinhos publicadas na revista e de quase todas as ilustrações que guarneciam as suas páginas, desde as capas aos textos e às rubricas mais variadas. Exceptuando o primeiro número, que contou com uma capa e um conto ilustrados por António Barata, todos os créditos artísticos no que respeita à produção nacional pertencem exclusivamente a Vítor Péon e ao seu prodigioso e rotineiro esforço criativo (sem quebra notória de qualidade), que já nessa altura começava a pedir meças aos talentos de E.T. Coelho e de outros grandes desenhadores da época, mesmo com estilos muito diferentes do seu, como era o caso de Fernando Bento.

Pluto - Roubo e Crime [ 3 balas

Só para dar uma ideia da volumosa produção de Péon, contabilizam-se neste número de Natal as seguintes histórias em episódios com a sua assinatura, abordando os mais distintos temas: de âmbito aventuroso, “Dick, Terry e Tom no Reino Selvagem”, “Roubo e Crime”, “Três Balas”; e em estilo cómico (género que ele também muito apreciava), “Furacão e o Seu Cavalo Trovão”, “Fitas Sonoras”, “Felizardo, o Rei do Azar” e “As Aventuras de Zé Nabo e Zé Bolota”. Por opção editorial, a fim de dar mais uniformidade à revista — e talvez, também, para imitar O Mosquito —, todas tinham legendas didascálicas.

Pluto - Trovão e Felizardo

Além desta proeza, num total de onze páginas, Péon conseguiu ainda tempo para ilustrar outros assuntos, incluindo três novelas assinadas por Jomar (pseudónimo de Orlando Jorge B. Marques, outro prolífico colaborador que Roussado Pinto foi “roubar” ao Mosquito),  com os títulos “Os Planos H.P. 202”, “O Crime do Lucky Night” e “Hoje não, Joe!”, esta última de tema natalício. Até a página de abertura — com a tocante epígrafe “Mãezinha que estás no Céu!…” (capaz de derreter o coração dos leitores de tenra idade), em que, sob o “disfarce” de Velho Augusto, o jovem Roussado Pinto pretendia imitar o Avôzinho Raul Correia — foi também ilustrada a preceito por Péon, como seguidamente mostramos.

Pluto - Mãezinha + hoje não!1

A fértil criatividade destes dois activos e talentosos colaboradores, cujo entusiasmo e dedicação à “causa” transparecem em todos os números d’O Pluto, não teve paralelo em nenhuma revista infanto-juvenil dessa época, mesmo destacando o papel de Fernando Bento e E.T. Coelho nos quadros artísticos d’O Mosquito e do Diabrete, os dois grandes rivais com que O Pluto garbosamente se batia.

O valoroso despique não teve desfecho feliz para Roussado Pinto, que viu os seus sonhos esfumarem-se ao cabo de 25 números, mas esse “fracasso” inicial não o impediu de voltar à liça pouco tempo depois, primeiro aliando-se a Cardoso Lopes e a Raul Correia n’O Mosquito — onde conseguiu introduzir algumas HQ’s de origem americana —, depois passando para as fileiras do recém-chegado Mundo de Aventuras, na companhia do seu inseparável amigo e “braço direito” Vítor Péon.

Pluto - Presépio

A capa deste número d’O Pluto, com o tema do Presépio (que Péon voltaria a retratar noutras imagens natalícias) serviu de mote à magnífica separata em folha dupla que a revista ofereceu como brinde aos seus leitores — como se já não bastassem todas as outras atracções por um preço quase simbólico de 1$50 escudos —,  num ano em que O Mosquito se engalanou também com (mais) um Presépio de E.T. Coelho.

Nos nºs 7 e 8 d’O Pluto vinham inseridas as restantes folhas deste Presépio de Vítor Péon, que temos o privilégio de reproduzir integralmente no nosso blogue, quase 70 anos depois da sua publicação naquela raríssima revista.

E, como já estamos a curtos dias do Natal, aproveitamos este ensejo para endereçar a todos os nossos leitores e amigos os primeiros votos de Boas Festas do Gato Alfarrabista.

Présépio 2 APrésépio 3

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 5

Natal - Faísca nº42

Esta capa, com um dos mais tradicionalistas temas de Natal, o Presépio, deve-se ao traço de António Barata, um artista que, apesar de muito subestimado, foi um dos melhores colaboradores de revistas infanto-juvenis como O Senhor Doutor (onde se estreou na técnica das histórias aos quadradinhos), O Papagaio e O Faísca. Se a sua produção não tivesse sido tão esparsa e irregular, devido a outras escolhas profissionais mais lucrativas, teria hoje certamente um lugar privilegiado nas crónicas da “época de ouro” da BD portuguesa, a par de Fernando Bento, E.T. Coelho e Vítor Péon, que foram seus contemporâneos, embora manifestassem outras influências e menos admiração (sobretudo os dois primeiros) por um estilo narrativo à maneira americana.

Foi n’O Faísca, onde criou as suas melhores obras (“Pedro, o Gavião”, “O Cavaleiro da Rainha”, “O Rei da Campina”), que António Barata conquistou o lugar a que tinha direito, consolidando o seu próprio estilo e evidenciando, cada vez mais, uma firmeza e maturidade de traço dignas de nota, a par de uma natural elegância (herança de Alex Raymond, um dos seus maiores mestres), como prova esta magnífica capa de Natal, publicada sem assinatura no nº 42, de 25/12/1943, com 12 páginas.

O natal de Branca de Neve + Florbela e Diabrete

Este número d’O Faísca — revista que teve existência relativamente efémera, pois não chegou ao 3º ano, devido à forte concorrência d’O Mosquito e do Diabrete — era dedicado por completo à quadra natalícia, como ilustram algumas festivas histórias inglesas, com o traço de bons (mas anónimos) desenhadores humorísticos, contos e passatempos vários e duas poéticas alegorias do director e editor Carlos Cascais, que se distinguiu também, pelos seus dotes literários, noutras publicações de maior nomeada, como O Papagaio.

Um desses poemas, com o título “Invocação”, lembrava o flagelo da guerra que, em pleno Natal de 1943, continuava a assolar várias nações europeias.

Natal - Invocation + Súplica de criança

A colorida contracapa — luxo reservado somente a duas páginas nesta edição de Natal, assim como nos números anteriores —, apresentava um curioso “brinde”, que colheu decerto o aplauso dos leitores, mas com evidente prejuízo da revista: dois postais de Boas Festas para recortar e colar em cartolina, pois podiam ser enviados pelo correio.

Aliás, as contracapas d’O Faísca tornaram-se descartáveis, numa série de números, por causa das estampas de um concurso com o sugestivo tema Bandeiras de Portugal. O garrido aspecto dessas estampas, que deviam ser coladas numa caderneta, habilitando assim a uma bicicleta como grande prémio, acabaria por penalizar os coleccionadores… alguns deles ainda hoje à procura de exemplares com essa última folha.

Natal - CCapa Faísca nº 42   319