CELEBRANDO MAIS UM ANIVERSÁRIO DO “MUNDO DE AVENTURAS” (DESAPARECIDO HÁ 30 ANOS)

Nascido em 18/8/1949, o Mundo de Aventuras — um dos títulos mais emblemáticos da nossa imprensa juvenil — teve publicação ininterrupta durante cerca de 38 anos, até 15/1/1987. Um autêntico recorde de longevidade que nenhuma outra revista periódica de banda desenhada logrou sequer almejar, pois todas ficaram a grande distância dessa meta, mesmo as que no seu tempo foram tão populares como o Mundo de Aventuras.

Essa longa vida, abruptamente interrompida pela crise da Agência Portuguesa de Revistas, que acabou também pouco tempo depois, foi assinalada, como é óbvio, por várias fases de maior e menor êxito, em que o MA mudou não só de periodicidade, de formato e de aspecto gráfico, como de sede, de oficinas, de director e de colaboradores.

Transcrevemos, a propósito, um trecho da bela “dedicatória” intitulada “Em cada quinta- -feira um novo mundo”, que o nosso querido amigo Professor António Martinó colocou, há três anos, no seu magnífico blogue Largo dos Correios, onde reluz o dom da palavra e da escrita de um mestre conceituado:

“(…) Confrontando-se durante uma parte da sua longa vida com uma concorrência de peso, a revista conseguiu subsistir e atravessar diversas fases editoriais e modelos/formatos distintos. Mudando mesmo a sua filosofia, das histórias de continuação para as histórias completas, prenunciou o fim irreversível dessa saudosa fase onde aguardávamos com impaciência cada 5ª feira que nos fornecia o episódio seguinte de aventuras movimentadas, aptas a preencher um pouco da nossa própria vida. Sobrevivemos sem “play- -stations” e sem telemóveis, sem brinquedos sofisticados, até mesmo, imagine-se, sem televisão e, obviamente, desprovidos de acesso à internet… Sobrevivemos, sem traumas nem stresses, e isso deve-se em boa parte aos diabretes, aos mosquitos, aos mundos de aventuras e quejandos…”

A última série, iniciada em 4/10/1973, sob a direcção de Vitoriano Rosa, que sucedeu a José de Oliveira Cosme, falecido pouco tempo antes, teve também vários formatos e periodicidades, além de uma controversa interrupção cronológica, como se de uma nova revista se tratasse, com a numeração a voltar ao ponto de partida, após 1252 semanas de presença contínua nas bancas. O segundo director dessa série foi António Verde, que se manteve no cargo até ao último número (589), sempre coadjuvado pelo chefe de redacção (coordenador) Jorge Magalhães.

Mas o nascimento do Mundo de Aventuras está ligado a um facto pitoresco que poucos bedéfilos conhecem… a história de dois “mundos”, como a baptizou Orlando Marques (consagrado novelista e colaborador de longa data do MA), que foi um dos seus principais protagonistas.

A título de curiosidade, reproduzimos seguidamente um artigo publicado no nº 559 (15/9/1985), em que, pelo punho de Orlando Marques, se relata esse pitoresco episódio, cujo desfecho quase ia arruinando a sua carreira literária.

EXPOSIÇÃO “100 ANOS DO CROMO EM PORTUGAL”

Colóquio inaugural da exposição “100 Anos do Cromo em Portugal”, no dia 1 de Fevereiro de 2017, às 17h45. Apresentação de Carlos Gonçalves, do Clube Português de Banda Desenhada, e intervenção de João Manuel Mimoso, historiando a origem e a evolução das colecções de cromos dos rebuçados e caramelos em Portugal e de alguns dos seus fabricantes, desde a década de 1920 até à de 1960.

Um colóquio posterior, a realizar em 2 de Março, abordará os “cromos-surpresa” lançados pela Agência Portuguesa de Revistas, em 1952, e prestará homenagem ao grande artista e ilustrador, recentemente falecido, Carlos Alberto Santos.

A exposição será inaugurada às 19h00, após o encerramento do colóquio, e ficará patente ao público até ao dia 29 de Abril de 2017.

IN MEMORIAM: CARLOS ALBERTO SANTOS (1933-2016)

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A Banda Desenhada, a Cultura e as Artes Plásticas portuguesas acabam de ficar mais pobres, pois perderam um dos seus maiores valores das últimas décadas…

Com 83 anos, faleceu ontem de madrugada, no Hospital Egas Moniz, onde estava internado há vários dias, devido ao súbito agravamento do seu estado de saúde, o pintor e ilustrador Carlos Alberto Ferreira dos Santos, nascido em 18 de Julho de 1933, em Lisboa, e cuja carreira artística começou bem cedo, depois de ter entrado como aprendiz para a Bertrand & Irmãos, apenas com 10 anos de idade. Consolidando essa iniciação nas artes gráficas, trabalhou também na Fotogravura Nacional e no atelier de publicidade de José David. 

O seu enorme talento começou a notabilizar-se noutra empresa de grandes dimensões, a Aguiar & Dias (vulgo APR ou Agência Portuguesa de Revistas), onde colaborou assiduamente desde o 1º número do Mundo de Aventuras, integrando pouco tempo depois o seu quadro de desenhadores privativos.  Embora relativamente escassa no campo da Banda Desenhada, a sua produção como ilustrador é vasta e diversificada, com destaque para a “História de Portugal” em cromos, um grande sucesso editorial, e outras valiosas colecções do mesmo género, assim como para o álbum “Camões – Sua Vida Aventurosa”, editado pela APR em 1972 e anos depois reeditado, a cores, pela ASA. Foi também autor das mais eróticas ilustrações da BD portuguesa, para a revista Zakarella da Portugal Press.

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Mais vasta e rica ainda é a sua obra como pintor, consagrada à divulgação dos grandes heróis e dos feitos mais relevantes da nossa História Pátria. Com efeito, foi a pintura (e só ela) que lhe permitiu exteriorizar a sua verdadeira personalidade artística. As suas telas estão espalhadas por diversas instituições públicas e particulares, como o Museu Militar do Porto, suscitando também o interesse de coleccionadores de todo o mundo.

O funeral de Carlos Alberto realiza-se na próxima quinta-feira, às 11h00, no cemitério do Alto de S. João, depois da missa de corpo presente, pelas 10h30, na Igreja do Santo Condestável, bairro de Campo de Ourique (onde o artista casou, em Janeiro de 1959, com a pintora Maria de Lurdes Paes).

Em memória de um extraordinário vulto das artes gráficas e plásticas portuguesas dos últimos 60 anos e de um homem de gentileza ímpar, reproduzimos seguidamente um artigo publicado na revista Temas nº 3 (Abril de 2000), em que se evoca o seu percurso, breve mas igualmente extraordinário, como banda desenhista.

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Nota – Tive a grande honra de colaborar com Carlos Alberto, como argumentista, num projecto que me encheu de satisfação (mas que seria a sua última obra em banda desenhada): a história “O Rei de Nápoles”, com 14 páginas a cores, publicada no 4º volume da colecção Contos Tradicionais Portugueses em BD, das Edições ASA (1993).

Na cena de abertura dessa história, de ambiente medieval, propus-lhe retratar uma caçada a um dos muitos animais selvagens que povoavam as florestas europeias desse tempo. Mas Carlos Alberto opôs-se, alegando respeitar, por princípio humanitário, a vida dos animais, qualquer que fosse a sua espécie. E a cena ficou assim…

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Infelizmente, os seus problemas de visão afastaram-no definitivamente da BD e até da ilustração, para se dedicar apenas à pintura, onde deixou obras que perpetuam a tradição dos grandes mestres figurativos, honrando o nosso património artístico e cultural. Mas as suas criações para o Mundo de Aventuras, o Jornal do Cuto e outras revistas de banda desenhada também não serão esquecidas!

A GRANDE FAMÍLIA DO “MUNDO DE AVENTURAS”

Assinalando o 67º aniversário do Mundo de Aventuras — cujo primeiro número surgiu nas bancas em 18 de Agosto de 1949, aguardado com grande expectativa pelo público juvenil, depois de uma massiva campanha publicitária, que teve eco em todo o país —, recordamos outra data festiva e simbólica (a do 20º aniversário do MA) e um número especial (o 1038 da 1ª série) com 120 páginas, onde foram evocados, numa curiosa reportagem fotográfica, vários elementos da sua redacção e do seu sector comercial e gráfico, do mais importante ao mais humilde. Aqui a reproduzimos para memória futura…

MA 1038 C e D

Era o ano de 1969 e a equipa, entretanto, tinha-se renovado, mas o MA não esqueceu também os seus colaboradores mais antigos, alguns dos quais já tinham partido para outras “aventuras”, como Vítor Péon e Roussado Pinto, ou já habitavam outros “mundos”, em companhia dos mais emblemáticos heróis da Banda Desenhada, cujo destino é eterno — tal como o dos lendários heróis da Mitologia.

Por muito estranho que pareça, a verdade é que revistas como o Mundo de Aventuras — ou como O Mosquito, O Papagaio, o Diabrete, o Cavaleiro Andante, o Tintin — também não morrem, porque a sua existência física se prolonga numa espécie de estado imaterial e etéreo, onde a essência dos sonhos continua a acalentar aquele sentimento mágico que as suas páginas despertaram no espírito de milhares de leitores.

Parabéns por mais este aniversário, Mundo de Aventuras!!!  

JOSÉ BATISTA: RETROSPECTIVA – 10

A HISTÓRIA DO “TRINCA-FORTES”

JOBAT - ANO DEPOISNum tempo em que se pensa pouco e em que se pretende (exactamente sem pensar) alterar tudo ou quase tudo, cada vez mais os valores do passado e as bases sobre as quais construímos a nossa formação se tornam indispensáveis para compreendermos o presente sem o desligarmos desses valores morais, culturais, sociais e espirituais que, às vezes, tendem actualmente a ser tão menosprezados.

Felizmente, a banda desenhada e outros passatempos lúdicos continuam a ser um suporte do passado, quando nos embrenhamos, por exemplo, na leitura dos clássicos, por onde flui a corrente do tempo, recheada de memórias, citações, alegorias e ensinamentos, conjugados com os valores artísticos de épocas e escolas que nunca deixarão de ser referências para os leitores de ontem, de hoje e de amanhã.

A obra de José Batista, talvez mais conhecido entre os bedéfilos pelo acrónimo de Jobat, é uma dessas referências, embora mais breve do que a de outros artistas que marcaram também o percurso da BD portuguesa — sem deixar, apesar disso, de se destacar pela qualidade do traço, da pesquisa, da expressão de valores históricos e culturais que, em grande medida, definem também a personalidade intelectual e artística de um homem ávido de saber, aliada ao seu culto da modéstia e ao seu fervor criativo, mesmo limitado pelo recolhimento a que, nos últimos anos, se votou na sua terra natal, Loulé.

jobat Cuto camões088Continuando a homenagear a memória de um Amigo com quem partilhámos muitos momentos inesquecíveis — depois de termos apresentado nesta retrospectiva os primeiros trabalhos que fez para o Mundo de Aventuras, nos finais dos anos 50, e para outras publicações da Agência Portuguesa de Revistas (da qual foi colaborador durante cerca de 20 anos) —, recordamos hoje, dia 10 de Junho, uma curta biografia de Camões (um dos seus temas favoritos) que concebeu para o Jornal do Cuto, quando ainda não era chefe de redacção desta revista, dirigida por Roussado Pinto. Pouco tempo depois, haveria de surpreender todos os seus fãs com uma obra de fôlego, quer em termos estéticos quer narrativos, que foi indiscutivelmente a sua coroa de glória, exaltando com eloquência a figura do nosso maior vate, símbolo épico da Pátria, como poucos o tinham feito, até então, no campo da banda desenhada.

A história de seis páginas que se segue — espécie de preâmbulo da obra majestosa que já germinava no seu espírito — foi publicada em 1972 no nº 49 do Jornal do Cuto, cuja capa (também da sua autoria) reproduzimos mais acima. E esse novo trabalho de José Batista, dedicado ao 4º centenário da publicação de Os Lusíadas, parece ter gerado uma polémica que motivou o seu afastamento da APR (em conflito com a administração), empresa à qual dedicara o melhor do seu talento e da sua juventude. Mas isso é outra história…

Jobat - Camões - 1e 2

Jobat - Camões - 3 e 4

Jobat - Camões - 5 e 6

A QUINZENA CÓMICA – 18

ELAS AO VOLANTE (1)

Cara Alegre 135 320

Voltando a este tema sempre actual, visto que já deve haver mais condutoras do que condutores no nosso país (embora hoje, com toda a evidência, mais habilitadas do que no passado), apresentamos aos nossos leitores e amigos a capa do Cara Alegre nº 135 e a página central do nº 96, ambas ilustradas por José Manuel Soares, um dos melhores colaboradores desta icónica revista de humor.

Talentoso e versátil artista figurativo, cuja carreira se iniciou em finais dos anos 40 do século passado, JMS distinguiu-se como pintor, cartunista, ilustrador de livros e revistas e autor de banda desenhada, nomeadamente em títulos como Cavaleiro Andante, Número Especial do Cavaleiro Andante, Mundo de AventurasLusitas, Spar e sobretudo Fagulha, revista editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

Passou por várias editoras, com destaque para a Agência Portuguesa de Revistas (onde foi um dos principais desenhadores do seu quadro privativo) e para a Romano Torres, e colaborou assiduamente nas duas séries do Cara Alegre.

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JOSÉ BATISTA: RETROSPECTIVA – 9

A HOMÉRICA ODISSEIA DE ULISSES (3ª parte)

?????????????????????????????????????????????????????????Publicamos hoje a conclusão das lendárias aventuras de Ulisses, um trabalho com o traço de José Batista, dado à estampa em 1956, no fascículo nº 57 da Colecção Condor, editada pela Agência Portuguesa de Revistas (APR), onde Jobat foi, durante perto de 20 anos, um dos principais elementos do seu quadro privativo de desenhadores.

Inspirado numa produção histórica italiana de tema semelhante, rodada nos estúdios da Cinecitta, com interpretações de Kirk Douglas, Silvana Mangano e Anthony Quinn, nos principais papéis, Ulisses foi uma das primeiras histórias aos quadradinhos realizadas por José Batista (então apenas com 20 anos de idade), o que não deixa de ser surpreendente, pois a sua perfeição artística excede em muito outros trabalhos do género, mormente em colecções americanas e de outras origens que também adaptaram muitos filmes famosos.

Como já tivemos ocasião de referir (ver os dois posts anteriores desta rubrica), Jobat colaborou assiduamente num periódico da sua terra natal, O Louletano, onde em 2004 surgiu uma versão de Ulisses restaurada a partir das pranchas originais, versão essa que também foi reeditada integralmente, e com magnífica apresentação, no fanzine Cadernos Moura BD, coordenado por Carlos Rico e publicado no âmbito do 15º Salão de BD realizado naquela localidade alentejana, em Novembro de 2005, evento onde José Batista teve trabalhos expostos e foi homenageado com o troféu “Balanito de Honra”.

Nota: para ler a história, com maior ampliação, clicar duas vezes sobre as imagens.

Ulisses p 21 e 22

Ulisses p 23 e 24

Ulisses p 25 e 26

Ulisses p 27 e 28


JOBAT NO CARNAVAL DE LOULÉ

JoBatNatural desta ridente cidade algarvia, o saudoso José Baptista (Jobat) sempre teve uma ligação muito forte à sua terra, mesmo quando viveu e trabalhou em Lisboa, como desenhador privativo da Agência Portuguesa de Revistas (APR) e, mais tarde, noutra empresa do mesmo ramo editorial, a Portugal Press, onde desempenhou, entre outras destacadas tarefas, a de chefe de redacção do  emblemático Jornal do Cuto.

Sempre ligado às artes gráficas, durante a sua longa carreira, mas também empenhado intensamente noutras actividades culturais, José Baptista voltou à sua terra natal em meados dos anos 70, quando acabou a 1ª série do Jornal do Cuto, nela perma- necendo até ao fim da sua vida. E foi em Loulé que deixou mais uma marca do seu talento e da sua criatividade ao colaborar assiduamente no jornal O Louletano, onde republicou alguns dos seus melhores trabalhos e elaborou a página “9ª Arte”, dedicada ao culto daquela que foi uma das suas maiores paixões artísticas: a banda desenhada.

Os méritos profissionais de Jobat e o seu profundo conhecimento da história da BD portuguesa (e estrangeira) estão bem patentes nessa rubrica que coordenou fervoro- samente durante cerca de dez anos, com grande sucesso a nível nacional, fazendo com que O Louletano chegasse às mãos de muitos leitores que só o adquiriam (e por vezes também o assinavam) por causa da sua página de banda desenhada.

Jobat no Carnaval de Loulé

Em Loulé, terra de lendas, de animação e de folclore, a memória de Jobat não foi esquecida e em pleno Entrudo deste ano a sua imagem tornou-se uma das figuras mais pitorescas do corso carnavalesco, ao desfilar num vistoso carro alegórico que prestava uma simbólica (e merecida) homenagem ao autor e artista gráfico que tanto tinha dignificado a sua terra.

Resta-nos desejar que essas homenagens perdurem no memorial da cidade e no afecto dos louletanos, porque Jobat, que tanto amou as suas raízes e os seus conterrâneos, bem merece ter o seu nome preservado e o seu talento prestigiado pela urbe onde nasceu, viveu, trabalhou, criou e sonhou até ao último alento.

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

UM ANO DE SAUDADE

Faz hoje um ano que faleceu José Baptista, um dilecto Amigo que ilustrou o meu primeiro conto publicado no Mundo de Aventuras, em 1959, e com quem privei durante várias décadas, como já tive oportunidade de referir algumas vezes, citando também a estreita colaboração que mantivemos nestes últimos anos, por causa da sua rubrica Arte – Memórias da Banda Desenhada, publicada no extinto jornal O Louletano, entre 2004 e 2012, num total de 233 páginas, que continuam oportunamente (e regularmente) a ser divulgadas pelo popular blogue Kuentro-2.

JOBAT - ANO DEPOISIn memoriam deste talentoso e ecléctico profissional — formado na idónea Escola de Artes Decorativas António Arroio, e que, além de ilus- trador e autor de BD, foi coordenador editorial (na APR e na Portugal Press), maquetista, artista cerâmico, professor de desenho, e se dedicava com paixão ao estudo das ciências paranormais —, recordamos um dos seus textos mais inspirados, incluído na referida rubrica 9ª Arte, texto que parece conter uma premonição do destino que em breve o arrebataria aos seus entes queridos e ao mundo das artes e do saber que, como homem de cultura, tanto prezava:

«O tempo, esse imperceptível eterno presente, fugaz e volátil como o fumo que se evola de distraído cigarro entre os dedos, passa rápido, invisível e sorrateiro sobre os nossos sonhos, alegrias e tristezas, inclusive sobre aquilo que profissionalmente produzimos, de tal maneira o ocultando sob a patine do passado que muito do que fizemos quase o ignoramos ou esquecemos».

RETROSPECTIVA – 6

Desde há um ano, como forma de homenagear a sua memória e o seu talento artístico (para que o tempo não “o oculte sob a patine do passado”), temos vindo a apresentar neste espaço alguns dos primeiros trabalhos que José Baptista realizou no âmbito das histórias aos quadradinhos, revelando uma acentuada predilecção pelos géneros histórico e policial, embora só tivesse cultivado este último na fase inicial da sua carreira.

MA 437  584Aliás, foi com um problema policial ilustrado que se apresentou aos leitores do Mundo de Aventuras no nº 437, de 2/1/1958, onde também tiveram lugar de honra outros jovens colaboradores artísticos da Agência Portuguesa de Revistas (APR), tais como José Antunes, Carlos Alberto e José Manuel Soares.

Nesse mesmo número — cuja capa, de concepção original, com todos os heróis da revista a representarem as letras do título, foi obra da criatividade de José Antunes —, estreou-se uma das melhores produções históricas de Jobat, “O Voto de Afonso Domingues”, baseada no célebre conto de Alexandre Herculano “A Abóbada”.

Jobat Afonso Domingues 1Apraz-nos também assinalar a página policial que o Mundo de Aventuras então publicava, sob a orientação de Luís Correia, e a curiosa experiência gráfica a que José Baptista se abalançou ao transformar um enigma policial numa pequena sequência animada pelo seu traço robusto e expressivo, cheio de nuances de claro-escuro, como algumas séries norte-americanas influen- ciadas pela estética expressionista do film noir (o cinema policial de tons mais dramáticos, filmado a preto e branco).

Pena que essa experiência de Jobat — dando continuidade a outros problemas policiais do mesmo género, da autoria de Vítor Péon e Roussado Pinto, apresentados anteriormente no Século Ilustrado e no Mundo de Aventuras — não se tivesse repetido. Embora a sua afeição pelo tema, fomentada decerto pelas leituras e pelos filmes com que entretinha os momentos de ócio, desse origem, tempos depois, a um herói detectivesco do qual também já aqui falámos: Luís Vilar.

Nota: para visionar o primeiro post publicado nesta retrospectiva, com todas as páginas da história “O Voto de Afonso Domingues”, clicar aqui.

MA 437 - 2

BATMAN – DE GOTHAM CITY PARA O CNBDI

Realiza-se amanhã, dia 27 de Março, pelas 21h00, um novo encontro no Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), no âmbito das palestras anuais Às quintas falamos de BD (ciclo Heróis de Papel, cujo tema será, desta vez, os 75 anos de Batman).

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Para falarem deste super-herói norte-americano estarão presentes João Miguel Lameiras — reputado especialista de banda desenhada, que dará a conhecer o nascimento de Batman e desvendará um pouco da sua história —, Luís Salvado — jornalista com vastos conhecimentos sobre a BD e a 7ª Arte, que evocará as várias vidas de Batman e a forma como todas elas reflectiram não só as adaptações da BD ao grande ecrã, mas também todo o cinema popular do respectivo período —, e ainda José de Freitas, ex-editor da Devir, que publicou Batman durante a última década.

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Recordamos a propósito que, no nosso país, o “homem-morcego” se estreou 20 anos depois do Super-Homem, com quem viria a partilhar A Revista dos Super-Heróis, editada nos anos 80 pela APR (Agência Portuguesa de Revistas), primeira publicação portuguesa de BD em que estes dois icónicos personagens tiveram vida autónoma.

Batman 6 e 8Batman 10 e 14

Em 1977, o Jornal do Cuto, na sua última fase, publicou durante vários números uma série de tiras diárias assinadas por Al Plastino, sob o título genérico Batman — Na Pista da Aventura, dedicando-lhes algumas capas da autoria de Carlos Alberto Santos, o primeiro ilustrador profissional português a retratar o “homem-morcego”.

Batman cuto 158 e 165