OLHA AS LINDAS MARCHAS!

Pelo traço de Mestre José Ruy, em Quadradinhos nº 54, 2ª série, de 20/6/1981 (suplemento do extinto vespertino A Capital, dirigido por Adolfo Simões Müller), chega-nos um pitoresco desfile das marchas populares desse festivo mês de Junho, enquadradas por famosos heróis de papel, de arquinho e balão em punho, que ainda hoje fazem as delícias dos seus inúmeros admiradores, num renovado preito de homenagem aos magistrais artistas que os criaram há muitas décadas.

E até Tom Sawyer e Ivanhoe se aliaram à festa… como convidados especiais do Quadradinhos, um suplemento que, fiel ao lema do seu director, procurava não só divertir como instruir, fomentando também entre os mais jovens o convívio com os heróis dos clássicos literários, através da fusão entre o texto e a imagem.   

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EXPOSIÇÃO SOBRE O “CAVALEIRO ANDANTE” NO CPBD

Prosseguindo uma intensa actividade, com ciclos temáticos que englobam exposições, colóquios e outros eventos realizados na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada (CPBD) inaugura no próximo dia 18 de Março (sábado) uma mostra dedicada à emblemática revista Cavaleiro Andante, que na década de 1950 rivalizou com o Mundo de Aventuras e outras publicações juvenis, distinguindo-se por oferecer aos seus leitores as melhores obras da BD europeia, nomeadamente de origem italiana e franco-belga.

A exposição comemora os 65 anos de nascimento do Cavaleiro Andante, cuja existência decorreu de 5 de Janeiro de 1952 até 25 de Agosto de 1962 (556 números), sempre sob a direcção de Adolfo Simões Müller e contando com Maria Amélia Bárcia como redactora e Fernando Bento como principal colaborador artístico.

CAVALEIRO ANDANTE – UMA REVISTA DE BD QUE FEZ HISTÓRIA ENTRE A “GENTE NOVA”

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Se tivesse sobrevivido mais seis décadas — feito ao alcance, por razões óbvias, de poucas publicações periódicas, a começar pelas de banda desenhada —, o Cavaleiro Andante, nascido em 5 de Janeiro de 1952, faria hoje 65 anos!

Efeméride meramente simbólica, mas que nos apraz registar, mais uma vez, em honra de uma emblemática revista, de características únicas no seu género, editada pela Empresa Nacional de Publicidade e dirigida por Adolfo Simões Müller, que introduziu em Portugal, na esteira de Tintin e de Hergé — embora estes fossem oriundos d’O Papagaio e do Diabrete —, os maiores heróis e autores da BD franco-belga, como Blake e Mortimer (de Edgar P. Jacobs), Lucky Luke (de Morris), Michel Vaillant (de Jean Graton), Dan Cooper (de Albert Weinberg), Buck Danny (de Hubinon e Charlier), Jerry Spring (de Jijé), Ric Hochet (de Tibet e Duchâteau), a par de outras grandes criações europeias.

Por outro lado, se o Cavaleiro Andante tivesse tido existência mais efémera, como algumas revistas do seu tempo — que viveram pouco mais do que as rosas —, talvez não tivessem florescido nas suas páginas muitas obras que enriqueceram o património artístico da BD portuguesa, com a assinatura de Fernando Bento, José Ruy, José Garcês, Artur Correia, Fernandes Silva, José Manuel Soares e Stuart Carvalhais.

Honra, pois, a uma saudosa revista que durou apenas uma década, mas sem a qual a história da BD portuguesa teria ficado, certamente, mais pobre!

AS EXPOSIÇÕES DO CPBD: FERNANDO BENTO

Nota: O artigo seguinte, da autoria de Carlos Gonçalves, membro da actual direcção do Clube Português de Banda Desenhada, foi reproduzido da “folha de sala” dedicada à exposição de originais de Mestre Fernando Bento (com vários e magníficos exemplos da sua arte incomparável), que continua patente, até ao final do ano, na sede do CPBD, sita na Avenida do Brasil, 52 A, Reboleira (Amadora), podendo ser visitada todos os sábados, das 15 às 18 horas.

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 FERNANDO BENTO, UM CONTRIBUTO INESGOTÁVEL DE ARTE

Sabemos que no nosso país pouco ou quase nada distinguimos as pessoas pelas suas qualidades, sejam de que tipo forem e muito menos na Banda Desenhada. Dar valor ao nosso vizinho mortal, está fora de questão. É preciso lembrar muitas vezes o seu contributo e, mesmo assim, só passados vários anos é que é fixada na mente das pessoas a realidade do seu valor e da existência desse prodígio. Temos vindo a considerar Eduardo Teixeira Coelho, ainda que perfeitamente legítimo, como a elite dos nossos desenhadores. É claro que a banda desenhada é um campo muito vasto e ainda que os estilos dos vários desenhadores possam ser muito diferentes, o resultado final e prático é que conta.

bento-3-vezes Ao longo destas últimas décadas e naquelas onde a Banda Desenhada se evidenciou mais, as que poderemos considerar como o período áureo das histórias aos quadradinhos, foram a década de vinte do século passado com o aparecimento da revista ”ABC-zinho”, com trabalhos de Cotinelli Telmo e Rocha Vieira, a década de trinta com a publicação da revista “O Papagaio”, com trabalhos de José de Lemos, Arcindo Madeira, Rudy, Ruy Manso, Tom, Meco, etc., e “O Mosquito” com Tiotónio, E. T. Coelho, José Garcês, José Ruy, Servais Tiago, Jayme Cortez, etc., a década de quarenta com a edição do “Diabrete”, com trabalhos de Fernando Bento, os anos cinquenta com a remodelação do “Mundo de Aventuras”, com Vítor Péon, Carlos Alberto Santos, José Batista, José Antunes, etc., e o lançamento do “Cavaleiro Andante” com histórias de Fernando Bento outra vez, E. T. Coelho também, e finalmente a década de sessenta com a publicação da revista “Tintin”, nesta última fase já com a introdução de uma nova escola na Banda Desenhada, a franco-belga, até aqui pouco conhecida dos leitores nacionais.

Quanto aos desenhadores portugueses, o leque já era muito pequeno, tirando o José Ruy, o Vítor Péon, o Fernando Relvas e pouco mais. Em todas estas décadas distinguiram-se muitos desenhadores portugueses e, de uma maneira geral, de uma forma bastante positiva. Alguns deles têm sido mais distinguidos, outros menos. Pensamos que seria agora a oportunidade de engrandecer Fernando Bento, através de uma amostra bastante significativa dos trabalhos deste desenhador no campo das capas, cuja produção se aproxima dos duzentos trabalhos, todos eles de invulgar beleza, embora nem todos pudessem ser escolhidos, como é óbvio.

A sua produção é infindável, quer nas capas quer nas histórias aos quadradinhos, e sempre com uma qualidade de que dificilmente o artista abdicou, ainda que poucas vezes, principalmente já nos últimos anos do “Cavaleiro Andante”, algumas histórias de “Emílio e os Detectives” e as aventuras de “Sherlock Holmes” tenham sido produzidas de uma forma mais prática e com uma simplificação de alguns pormenores e cenários, não prejudicando de qualquer dos modos a sua qualidade, mas oferecendo aos leitores um novo formato e um novo estilo, fruto da sua maturidade. Muitos desenhadores e pintores, depois de uma vida intensa e criativa, optam por desenhar e pintar de uma forma diferente, abarcando até alguns estilos menos marcantes e mais experimentais.

Fernando Bento foi um dos desenhadores portugueses que, em paralelo com Eduardo Teixeira Coelho, adaptaria mais obras literárias à banda desenhada. O primeiro iria buscar aos romances dos nossos escritores Eça de Queiroz e Alexandre Herculano, com arranjos de Raul Correia, temas para criar os seus trabalhos e Fernando Bento a Júlio Verne, de parceria com Adolfo Simões Muller. Fernando Bento era acima de tudo um desenhador de aventuras e emoções. Era natural a sua escolha do escritor francês. Estamos quase certos ao afirmar que, tanto quanto conhecemos da sua obra e da de outros desenhadores estrangeiros, o nosso artista foi, sem dúvida alguma, o que mais títulos das obras de Júlio Verne aproveitaria para as suas criações.  

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Mas claro que não seria só a sua escolha preferida, a par dos grandes feitos, grandes viagens e muita aventura. A arte de Fernando Bento na execução de ilustrações e capas era também destinada aos leitores mais jovens, com histórias adaptadas de contos escritos por Adolfo Simões Müller ou por outros autores de renome, como Alice Ogando, Maria de Figueiredo, Emília de Sousa Costa, etc.

UMA VIDA DE ARTISTA

Fernando Bento nasceu a 26 de Outubro de 1910 e veio a falecer no dia 14 de Setembro de 1996. Do mesmo modo que alguns outros artistas, começaria muito novo a dominar o lápis e a borracha e, como era usual na época, viria a criar o tal chamado jornalinho que era emprestado, alugado ou copiado (quando tal era possível), para ser vendido aos amigos e colegas de turma. Na década de trinta já o encontramos como desenhador activo, colaborando numa série de jornais e revistas, tais como “Os Sports”, “Diário de Lisboa”, “A República”, “O Século”, “A Capital”, etc., com reportagens sobre Teatro e a desenhar caricaturas, além de se ocupar de reportagens sobre outros temas. Cinco anos depois, tinha também abraçado o teatro como figurinista e maquetista, desempenhando as respectivas tarefas em vários teatros da época: Variedades, Nacional, Apolo, Avenida e Maria Vitória.

OS SEUS TRABALHOS NA REVISTA “DIABRETE”

A grande reviravolta na sua vida artística dá-se a partir de 4 de Janeiro de 1941, quando se inicia como colaborador da revista “Diabrete” a partir do seu nº. 1, com a criação das personagens “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”. Depois, é uma criação contínua nas páginas desta revista, onde se mantém durante uma década como desenhador de serviço, criando personagens e ocupando-se da parte gráfica da publicação, com principal incidência nas obras de Júlio Verne que passamos a destacar:

“Dois Anos de Férias” (Diabrete nºs. 33/74); “Volta ao Mundo em 80 Dias” (Diabrete nºs. 75/100); “Miguel Strogoff” (Diabrete nºs. 101/138); “Robur, o Conquistador” (Diabrete nºs. 139/161); “Viagem ao Centro da Terra” (Diabrete nºs. 187/216); “Da Terra à Lua” (Diabrete nºs. 217/236); “À Roda da Lua” (Diabrete nºs. 237/256); “Um Herói de Quinze Anos” (Diabrete nºs. 257/311); “Cinco Semanas em Balão” (Diabrete nºs. 312/356); “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Diabrete nºs. 357/415); “A Ilha Misteriosa” (Diabrete nºs. 416/510) e “Matias Sandorf” (Diabrete nºs. 512/644).

Doze obras estavam, pois, adaptadas à banda desenhada em mais de 500 páginas e capas. Mais tarde, começa a adaptar obras infantis para a revista e a contar as vidas de figuras históricas portuguesas, destacando os seus feitos de forma inesquecível. Ao mesmo tempo, criava várias personagens, “Zuca”, “Zé Quitolas”, ”Bicudo e Bochechas”, etc., todas elas em paralelo com as suas atividades profissionais. E ainda desenhava “As Mil e Uma Noites”…

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A SUA PRODUÇÃO NA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE”

Mas foi no “Cavaleiro Andante” que o seu apogeu se verificou, devido às grandes obras que viria a criar para as páginas da publicação. Algumas serão sempre inesquecíveis, tais como “Quintino Durward”, “Beau Geste”, talvez a mais significativa, “O Anel da Rainha de Sabá” e “A Torre das 7 Luzes”. Nesta publicação as adaptações da obra de Júlio Verne continuam a encantá-lo, pois “Uma Cidade Flutuante” (Cavaleiro Andante nºs. 253/289) irá divertir os leitores. Outra adaptação cheia de interesse foram as aventuras de “Emílio e os Detectives”, assim como os belos quadros que nos deixou nas páginas do “Cavaleiro Andante”, evocando “Os Lusíadas” de Luís de Camões, na comemoração do dia do poeta. Algumas das suas obras viriam a ser, mais tarde, publicadas em álbum: “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”, “34 Macacos e Eu”, “Diabruras da Prima Zuca”, “A Ilha do Tesouro” (uma edição pelas Iniciativas Editoriais e outra pela Asa), “As Mil e Uma Noites”, “Beau Geste”, “O Anel da Rainha de Sabá”, “Com a Pena e Com a Espada”, “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, “Regresso à Ilha do Tesouro”, etc.

OUTRAS PUBLICAÇÕES COM TRABALHOS DO DESENHADOR

Sempre que nos debruçamos sobre a vida de qualquer desenhador português e perante a vasta produção de cada um deles, sem esquecer que quase todos não puderam exercer em pleno a sua vocação a nível profissional, pois era necessário ter em paralelo um emprego fixo, perguntamos como era possível dedicar tanto tempo à banda desenhada, sem prejuízo de outras tarefas e da sua vida particular.

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Mas, na verdade, assim acontecia e além das duas revistas principais em que Fernando Bento colaborou, de que já falámos, há outras onde o artista deixaria a sua arte indelével. A primeira foi “República – Secção Infantil”, suplemento infantil do jornal “A República”, entre 1938 e 1939, “Pim-Pam-Pum”, suplemento infantil do jornal “O Século”, onde colaborou de 1941 a 1959, “Norte Infantil”, suplemento infantil do jornal “Diário do Norte”, com trabalhos seus de 1951/1952, revista “Mundo de Aventuras” em 1980, “Quadradinhos – Suplemento infantil do jornal “A Capital”, em 1980/1982, etc. Depois há vários trabalhos esporádicos espalhados pelo “Bip-Bip”, “Nau Catrineta”, “O Pajem” (suplemento infantil do “Cavaleiro Andante”), livros infantis e outros. Estava, pois, cumprida uma missão inesquecível de um artista que, durante mais de 40 anos, nos deixou ter acesso a obras excepcionais que nos acompanharam nos nossos períodos lúdicos.

                                             Carlos Gonçalves

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 14

O HERÓICO CAVALEIRO D. NUNO (1)

Crónica do Condestável 725A figura do ilustre Condestável D. Nuno Álvares Pereira — que o escritor António Campos Júnior crismou de “guerreiro e monge” — foi dada a conhecer à juventude em várias histórias aos quadradinhos (como antigamente se chamava à narração figurativa) e nalguns livros de que ainda conservo grata memória, como os de uma popular colecção da Livraria Sá da Costa, que teve largas tiragens, com títulos dedicados à Odisseia, de Homero, à Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, à História Trágico-Marítima, aos Lusíadas e a muitas outras obras de cariz histórico, entre as quais a Crónica de Nuno Álvares Pereira, com texto de Jaime Cortesão e ilustrações de Martins Barata.

A vida do Condestável 727Foi nesse livro e noutro de leitura ainda mais apaixonante, “A Vida Grandiosa do Condestável”, escrito por Mário Domingues — autor de nomeada no campo da narrativa histórica, com vasta obra publicada pelas Edições Romano Torres —, que aprofundei os meus conhecimentos sobre um dos maiores vultos da nossa História, cujo papel na luta pela independência, durante a grave crise de 1383-85, foi ainda mais decisivo que o do Mestre de Avis, futuro rei D. João I. De facto, sem o Condestável, cujo patriotismo foi um exemplo para muitos portugueses daquela época, que hesitavam entre a facção do Mestre e a do rei de Castela, Portugal estaria condenado à derrota e ao domínio estrangeiro. Mas hoje, num tempo estranho e sem alma, em que as memórias desses feitos quase se apagaram, já nem se comemoram as grandes batalhas, como Aljubarrota e Atoleiros, que ilustram a grandeza do Condestável, do seu génio militar e político, e a bravura das hostes que fielmente o seguiram, contra a vontade de muitos nobres e das próprias Cortes.

Crónica do Condestável 2 726Como escreveu Jaime Cortesão na “Crónica do Condestável” (oriunda de autor anónimo do século XV): “(…) então a honra dos fidalgos estava em amar e ser fiel a seus senhores ou reis, fonte de todos os seus bens e privilégios. Apenas os cidadãos burgueses e a gente miúda, os que não eram filhos de algo, punham a honra em amar e defender a terra em que nasceram e as liberdades que haviam conquistado”.    

Desde essas leituras, dediquei especial interesse às histórias ilustradas sobre a figura do Condestável, algumas das quais já recordámos neste blogue (como a memorável versão de Fernando Bento publicada, em 1950/51, no Diabrete).

Por sinal, este eclético artista já tinha abordado o tema numa patriótica rubrica intitulada “Histórias da Nossa História”, com textos de Adolfo Simões Müller, que deu destaque no nº 147 do Diabrete (23-10-1943) às proezas de cavalaria do jovem Nuno Álvares Pereira.

Seguidamente apresentamos mais algumas páginas, com o traço de outros desenhadores (e os cá de casa parece terem sido os únicos a interessar-se, até agora, por este capítulo da nossa nacionalidade, menos universal do que a longa gesta dos Descobrimentos).

Camarada 16 - 3º ano 728Ombreando dignamente com os seus pares da BD histórico-didáctica, José Antunes publicou no Camarada nº 16, 7º ano (8-8-1964) — com capa de Júlio Gil — um curto episódio sobre o bravo guerreiro D. Nuno, que ainda moço imberbe já fora armado cavaleiro pela rainha Dona Leonor Teles, depois de ter provado o seu valor nas primeiras escaramuças com os inimigos do reino. Longe vinham ainda os tempos de Aljubarrota, mas a profecia do alfageme de Santarém, a quem Nun’Álvares encomendou uma espada, haveria de cumprir-se, forjando o seu épico e glorioso destino.

Embora tivesse ilustrado mais narrativas históricas no Camarada, com o seu traço cheio e um pouco anguloso, sombreado por fortes pinceladas em que vibrava um tributo aos mestres Alex Toth e Frank Robbins, da escola americana que tanto admirava, José Antunes só voltou a retratar a figura do Condestável numa capa realizada para a revista mensal Pisca-Pisca.

A história “O Cavaleiro D. Nuno” foi reeditada no nº 5 dos Cadernos Moura BD, dedicado a este talentoso ilustrador, que se distinguiu também como capista em várias publicações, graças à sua versatilidade e à sua cultura que lhe permitiam abordar qualquer tema.

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Evocando outro episódio da vida heróica e piedosa de D. Nuno Álvares Pereira, eis uma página dada à estampa no nº 59 (1960) da Fagulha, com o personalíssimo traço de Bixa (pseudónimo de Maria Antónia Roque Gameiro Martins Barata Cabral), uma das melhores colaboradoras dessa revista, editada pela Mocidade Portuguesa Feminina.

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Por último (last but not least), uma referência a Mestre José Ruy, a quem poucos podem pedir meças no domínio da BD histórica e cuja vasta obra — com um estilo desenvolto, em que sobressai o apurado uso da cor, a harmonia da forma e o rigoroso equilíbrio da composição — tem alguns capítulos, embora breves, dedicados ao valoroso guerreiro que salvou Portugal das invasões castelhanas no século XIV.

Recordemos, por exemplo, o episódio “Os Duzentos Inimigos do Condestável”, publicado no Camarada nº 5, 2º ano (28-2-1959), em que D. Nuno se bate temerariamente contra uma chusma de castelhanos, até ser socorrido pelos seus companheiros de armas… curiosamente a mesma peleja que Fernando Bento retratou nas páginas do Diabrete, com o seu traço fluido e expressivo, num vigoroso e plástico preto e branco.

José Ruy (Camarada)

Aqui fica o registo de cinco estilos gráficos diferentes, que ilustram bem a riqueza e variedade da escola realista (e modernista) que inaugurou uma nova etapa nas histórias aos quadradinhos portuguesas, a partir dos anos 40 do século passado.

(Nota: a página de José Ruy foi extraída, com a devida vénia, do magnífico blogue BDBD, orientado por Carlos Rico e Luiz Beira. As restantes pertencem à minha colecção, bem como os livros apresentados também neste post).

COMO TINTIN APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS

O Papagaio nº 3 (Tom)Já não é novidade para ninguém que Portugal foi o primeiro país não francófono a traduzir as aventuras de Tintin, graças a uma feliz conjugação de gostos e de vontades, entre o Padre Abel Varzim, que frequentara no início dos anos 30 a Universidade de Lovaina, onde conheceu a obra de Hergé, e Adolfo Simões Müller, director da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença.

A influência de Abel Varzim foi decisiva na compra dos direitos de Tintin para Portugal, como comprova a sua correspondência trocada com Hergé, mas é igual- mente verdade que Simões Müller ficou tão interes- sado como ele na publicação das aventuras do juvenil repórter que tanta celeuma levantara com a sua viagem ao país dos Sovietes — a primeira de muitas, pois na pele de destemido aventureiro iria correr meio mundo e viver extraordinárias peripécias, defrontando sinistros inimigos e fazendo também inúmeros amigos, entre os quais alguns companheiros inseparáveis.

O Papagaio nº 15 (Tom)O Papagaio, como ficou honrosamente registado nos anais da BD portuguesa, era uma revista para miúdos com um assinalável conteúdo artístico e literário. Naquele tempo de “vacas magras” para a imprensa infantil, nenhuma outra revista do seu género, nomeadamente o Tic-Tac e O Senhor Doutor, conseguia rivalizar com o colorido, a graça e o primor gráfico e estético estampados em todas as suas páginas.

Era, na época, finais dos anos 30, um dos maiores encantos dos miúdos, mesmo daqueles que ainda não andavam na escola, e as mães, os pais, os amigos, os professores, aconselhavam vivamente a sua leitura, como útil e pedagógico instrumento de aprendizagem das primeiras letras (e primeiras artes). Muitos lares portugueses em que havia crianças tinham, naquele tempo, o lúdico hábito de comprar semanalmente O Papagaio, que era, na sua fase inicial, a revista infantil de maior tiragem e expansão.

Quando eu nasci, já O Mosquito reinava nas preferências da miudagem, que aprendera rapidamente a ler e achava O Papagaio caro demais para as suas modestas posses, pois custava 1$00, o dobro do que O Mosquito lhes oferecia em páginas recheadas de muito maior emoção. Enquanto que O Papagaio, de certa forma, representava a classe burguesa mais endinheirada, O Mosquito hasteava a bandeira dos mais pobres, dos mais humildes e necessitados. Democraticamente, acabaram todos por se juntar, por uma questão de interesses e de gostos, e O Mosquito tornou-se o campeão da popularidade, apesar de não ter nas suas páginas (bem mais modestas que as d’O Papagaio) um herói como Tintin.

O Papagaio (monografia)Mas voltando atrás, aos primeiros anos da minha infância, nunca esqueci os dias soalheiros passados a desfolhar um volume que a minha carinhosa madrinha me tinha oferecido e que eu alegremente, e sem grandes escrúpulos de consciência, “maltratei” tantas vezes que acabou por ficar num estado lastimoso. Era o primeiro volume d’O Papagaio, magnífica edição cartonada que se tornou uma valiosa raridade, e apesar dos danos que sofreu nas mãos de um garoto traquinas, com pouco mais de três anos, ainda hoje conservo o que dele resta.

Foi, sem dúvida, O Papagaio que despertou a minha ligação afectiva com os “bonecos” e as histórias aos quadradinhos, pois lembro-me perfeitamente de olhar maravilhado para alguns dos desenhos que enchiam de humor, encanto e fantasia as suas páginas, especialmente os de Thomaz de Mello (Tom) e José de Lemos, dois dos melhores colaboradores artísticos d’O Papagaio, cuja peculiar estilização gráfica despertou também as primeiras emoções estéticas noutros garotos da minha idade.

Papagaio 53Quando eu me encantava e divertia a folhear (e a recortar, colar e pintar) esse volume — cuja capa foi reproduzida num valioso trabalho monográfico de José Menezes, já com várias edições —, ainda não tinha tido nenhum contacto com a figura de Tintin, que só faria a sua entrada triunfal no nº 53 (2º volume) e era, então, um herói completamente desconhecido dos miúdos portugueses. Nenhum sabia a sua origem, nem o verdadeiro nome do seu autor. Verdade se diga que isso, para a maioria, não tinha importância, pois Tintin fora-lhes apresentado como um juvenil repórter e explorador português, cuja idade rondava os 15/16 anos, mas desem- poeirado, intrépido e capaz de se desenvencilhar como um adulto, em quaisquer circunstâncias.

Sendo um aventureiro de características tão independentes acabou por sair da esfera da ficção, tornando-se tão real como os outros heróis, de “carne e osso”, que a miudagem via no cinema. Portanto, não precisava de ter “pais”, nem bilhete de identidade, nem residência fixa, para ser credível como um herói d’O Papagaio que viajava por todo o mundo, um repórter de 1ª linha cujas crónicas eram publicadas em imagens, para lhes dar ainda maior realismo. Hergé e o director do Petit Vingtième contribuíram voluntariamente para essa dualidade, quando Tintin (em pessoa) desembarcou apoteoticamente na gare central de Bruxelas, regressado da sua famosa reportagem na União Soviética.

Papagaio 51A primeira aventura de Tintin em português estreou-se, como referimos, no nº 53 d’O Papagaio, dado à estampa em 16 de Abril de 1936, e foi também a primeira (coisa que não é novidade para ninguém) a ser publicada a cores no espaço europeu, o que agradou (como também se sabe) a Hergé, cada vez mais cordial no trato com Simões Müller.

Mas a primeira autêntica aparição de Tintin, com essa garrida paleta cromática que dava outro aspecto aos seus trajes de cowboy (visto que a aventura se desenrolava na América do Norte, em pleno país do famoso Al Capone), foi na capa do nº 51, de 2 do mesmo mês de Abril, onde já eram patentes as encrencas em que o nosso herói se ia meter.

A partir desse momento, mesmo sem abrir a boca, Tintin já começava a falar português, comportando-se até como um vulgar emigrante açoriano ou madeirense que tivesse demandado o Novo Mundo em busca da riqueza e das oportunidades que na sua terra escasseavam. E as suas aventuras continuaram a ser seguidas com entusiasmo pelos leitores d’O Papagaio, que viam nele um símbolo da coragem e do espírito nómada e aventureiro que tinham feito a grandeza lusíada noutras eras.

Papagaio 115 e 138Português de adopção, por obra do Padre Abel Varzim e de Adolfo Simões Müller, português ficou enquanto andou a saltitar de revista em revista, d’O Papagaio para o Diabrete e deste para o Cavaleiro Andante, depois para o Foguetão e o Zorro. Só mais tarde, com uma pequena mudança ortográfica no “registo civil” (à qual, a bem dizer, ninguém ligou importância) regressou às origens, recuperando o seu estatuto mítico de “cidadão universal”.

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Nota: Agradecemos a Leonardo De Sá algumas correcções feitas a este texto (ver 1º parágrafo) e aconselhamos a leitura do seu comentário. A capa d’O Papagaio comemorativa do seu 7º aniversário (na imagem supra), é de um dos mais jovens e talentosos colaboradores desta revista, precocemente desaparecido: Güy Manuel.

TRÊS HISTÓRICAS REVISTAS DE BD QUE FAZEM ANOS EM JANEIRO E UMA SINGULAR HOMENAGEM DO “LARGO DOS CORREIOS”

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Nestes primeiros dias de um tristonho e pluvioso mês de Janeiro — daqueles dias em que nem apetece sair de casa, quando se tem a sorte de poder ficar no aconchego doméstico, a nossa “zona de conforto”, sem ser devido a uma incómoda gripe ou a outros motivos de força maior —, celebraram-se dois aniversários que para muitos de nós, bedéfilos inveterados, continuam a ter uma importância especial, pois assinalam o nascimento de duas das mais populares e míticas revistas do género publicadas neste país, o Diabrete e o Cavaleiro Andante, ambas editadas em boa hora pela Empresa Nacional de Publicidade e dirigidas por um dos mais distintos nomes das nossas letras, afeiçoado como poucos à literatura infanto-juvenil e às histórias aos quadradinhos: Adolfo Simões Müller.

Cavaleiro Andante nº 1 (Martinó)Facto curioso e digno de nota: em Janeiro também fazem anos O Mosquito (1936), mais velho cinco anos do que o Diabrete (1941) e dezasseis do que o Cavaleiro Andante (1952), e a sua “irmã” mais nova, a Fagulha (1958). Mas, voltando ao princípio, isto é, ao aniversário das duas revistas que surgem à cabeça de uma longa lista anual que muitos bedéfilos ainda hoje recordam e acarinham com sentida emoção, queremos partilhar com os nossos visitantes e amigos um magnífico texto dedicado ao Diabrete por um dos seus maiores cultores em crónicas que fazem história, o Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, cujo prestigioso blogue Largo dos Correios é uma referência incontornável entre todos os que se dedicam à divulgação desta nobre 9ª Arte (embora os conhecimentos, os interesses e os propósitos do Professor Martinó excedam largamente o âmbito das histórias aos quadradinhos e das revistas que lhes deram valioso suporte).

Aqui fica, pois, com a devida vénia ao Largo dos Correios, o link para esse texto admirável e inspirado, que se lê com o mesmo prazer com que degustamos uma rara e saborosa iguaria; e em cuja “inflamada” e apologética evocação do Diabrete e dos seus gloriosos companheiros de aventuras, todos os bedéfilos de alma e coração fervorosamente se revêem: https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/01/04/um-celeste-diabrete/

Largo dos Correios (cabeçalho)

Na senda do aniversário do Diabrete, o Largo dos Correios iniciou oportunamente uma nova rubrica, subordinada ao título Antologia BD, em que começou já a apresentar uma das obras que mais se destacaram na primeira etapa dessa revista, pelo traço desenvolto, de rara elegância e virtuosismo, do seu principal desenhador, Fernando Bento, que deliciou os leitores do “grande camaradão de todos os sábados” com algumas memoráveis adaptações de romances de Jules Verne, entre elas “A Volta ao Mundo em 80 Dias”.

Foi esta a escolha do Largo dos Correios para inaugurar a sua nova rubrica, cujos primeiros posts, com páginas magníficas de Fernando Bento (ainda a ensaiar, airosamente, um estilo realista), poderão apreciar aqui: https://largodoscorreios.wordpress.com/category/historias-aos-quadradinhos/

Diabrete nº 75

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 13

Título D FilipaFilipa de Lancastre, casa de Avis, Garcês

Em 25 de Julho de 1415, teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses, com uma grande expedição militar chefiada por el-rei D. João I e pelo con- destável D. Nuno Álvares Pereira, cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

Nessa heróica empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate, os jovens infantes D. Henrique e D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado para reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e o segundo para suceder no trono ao Rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro — que seria chamado “o das sete partidas” — foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

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Um dos episódios mais marcantes, mas talvez menos recordados, hoje em dia, dessa histórica epopeia — assinalada, 600 anos depois, como o primeiro marco da globalização que encurtou as distâncias entre os povos e acelerou a marcha do progresso económico e social —, é o que revela a profunda afeição que D. Filipa de Lencastre (a rainha mãe de virtuosos dotes e de costumes austeros, que muito Mário Domingues - Ceutacontribuiu para o bom nome e o exemplar reinado de D. João I) sentia pelos seus filhos, a quem quis entregar as espadas de cavaleiros antes da partida para Ceuta, apesar de ter caído ao leito, gravemente enferma.

Mário Domingues, um popular escritor do século XX, que produziu vários romances históricos com biografias de reis, príncipes, cavaleiros, navegadores, poetas, sacer- dotes, estadistas, generais, passando em revista os períodos mais gloriosos, mas também os mais obscuros da nossa monarquia, evocou este edificante episódio num capítulo do livro “Grandes Momentos da História de Portugal” (2º volume), editado em 1962 pela F.N.A.T. (Federação Portuguesa para a Alegria no Trabalho). Os outros são dedicados à tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques e ao cerco de Ormuz, em que se distinguiu Afonso de Albuquerque. Páginas da nossa História que atravessam cinco séculos!…

Filipa de Lancastre, Garcês 455Vítima da peste, causadora de inúmeras mortes, que grassava em Lisboa e adivinhando que o seu fim também estava próximo, D. Filipa quis dar o primeiro sinal aos seus filhos do glorioso futuro que os esperava, para bem do reino de Portugal, recomendando a Duarte, o primogénito e herdeiro do trono, que defendesse com toda a energia os seus súbditos e zelasse pelo cumpri- mento do direito e da justiça, a Pedro que estivesse sempre ao serviço das donas e das donzelas, e a Henrique, o mais novo dos três mancebos, mas também o mais audaz e sonhador, que protegesse “os senhores, cavaleiros fidalgos e escudeiros do reino, fazendo-lhes todas as mercês a que, por razão, tivessem direito”.

Depois, abençoou os filhos, entregando-lhes as três espadas que mandara forjar para aquele momento solene e com as quais seriam armados cavaleiros pelo rei, seu pai, na mesquita de Ceuta, após a conquista que transformou esta cidade marroquina no primeiro baluarte cristão do norte de África, inexpugnável durante séculos.

tira de Flipa a entregar espadas aos filhos

Mestre José Garcês — cujos trabalhos de inspiração (e fervor) nacionalista, o consagraram, ao longo de várias décadas, por mérito, experiência artística e conhecimentos didácticos, como um dos nossos autores de maior renome no campo da BD histórica — retratou a mesma cena num livro dedicado a D. Filipa de Lencastre (Edições Asa, 1987) e numa magnífica biografia aos quadradinhos do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano (1960), com texto de António Manuel Couto Viana. Mais sucintamente, representou-a também no 2º volume da História de Portugal em BD, projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com retumbante êxito, a partir de 1985.

Filipa de Lancastre, Garcês 2 e 3

Também Eugénio Silva, outro nome consagrado da geração que recebeu o clássico testemunho dos mestres pioneiros da BD realista, como Garcês, Fernando Bento e Eduardo Teixeira Coelho, teve o condão de ilustrar com o seu traço suave e poético, em duas páginas inseridas no livro escolar para a 3ª classe “Lições de História Pátria”, a biografia da excelsa rainha nascida em Inglaterra, no ano de 1360, em cuja linhagem corria o nobre sangue dos Lencastres e dos Plantagenetas, e que veio para Portugal anos depois, ainda jovem, para contrair núpcias com D. João I. Desse enlace forjado pelo destino e pelas relações dinásticas entre velhos aliados, nasceria a “Ínclita Geração” que engrandeceu o nome de Portugal aos olhos da Europa e deu novos mundos ao mundo.

Filipa de Lancastre,Eugénio Silva 1 e 2

Filipa de Lancastre,bento diabrete 201- vinheta 463Por último, recordamos, com as devidas honras, outro grande vulto da cultura e das artes figurativas portuguesas do século XX, o saudoso mestre Fernando Bento, que também evocou a lição maternal de D. Filipa de Lencastre e a sua ilustre descendência, numa patriótica rubrica do Diabrete intitulada “Histórias da Nossa História”, com texto de Adolfo Simões Müller — à qual já aludimos diversas vezes neste blogue.

O episódio que seguidamente apresentamos, com o título “As Três Espadas”, foi publicado no nº 201 (4 de Novembro de 1944) do “grande camaradão” da juventude portuguesa, editado pela E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade), proprietária do Diário de Notícias e que, em 1952, se tornaria também editora do Cavaleiro Andante.

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CALENDÁRIOS ILUSTRADOS – 1

Natal - Diabrete 1947O número de Natal do Diabrete de 1947, que tinha na capa uma fogosa ilustração de Fernando Bento, retratando a eufórica alegria de dois miúdos no “dia mais belo do ano”, e era preenchido por histórias do próprio Bento e de outros excelentes colaboradores artísticos, como Emilio Freixas, Luís de Barros, Vítor Péon e Burne Hogarth — genial desenhador de Tarzan, um dos heróis que apareciam há mais tempo nas suas páginas —, foi para mim, numa altura em que começava a sentir-me algo desiludido com O Mosquito (então a atravessar uma fase decadente), uma edição muito especial, que ainda hoje, quando a folheio, me traz ao espírito saudosas e inefáveis recordações.

Um dos motivos, para mim, com mais interesse deste número duplo (32 páginas), eram, na altura, as histórias de Vítor Péon que o recheavam de ponta a ponta (nada mais nada menos do que quatro), principalmente uma vibrante aventura de cowboys, com o A revolta dos Navajos solotítulo “A Revolta dos Navajos”, cujas oito páginas (metade das quais a cores) formavam outro volume da tradicional colecção de fascículos com histórias completas que o Diabrete inseria, como “prenda” de Natal, nessas edições especiais (e excepcionais) ansiosamente aguardadas pelo seu público mais fiel.

Outro memorável (e precioso) brinde deste número bem condimentado de acção, aventura, humor, encanto, arte e fantasia — onde também não faltava, servido pelo traço esfuziante de Fernando Bento, o estro poético e literário do seu director Adolfo Simões Müller —, foi o calendário para 1948 publicado nas páginas centrais, outro trabalho da lavra do prolífico Vítor Péon, desenhador de traço clássico e realista, mostrando, para surpresa e gáudio dos leitores do Diabrete, o seu jeito humorístico, em doze pitorescos “quadradinhos” transbordantes de jovialidade.

Calendário Bento 1947

A bem-dizer, este curioso calendário ilustrado serve só para os dois primeiros meses do ano em curso, que começou também numa terça-feira, mas não é bissexto. Diabrete - VelhoOutra(s) importante(s) diferença(s)… é que já não há fotógrafos ambulantes nas praias (substituídos pelos telemóveis); as aulas, mesmo nas escolas primárias, reabrem mais cedo (a não ser quando o Ministério decide criar a confusão); as famílias, no S. Martinho, entretêm-se, como todas as noites, a ver telenovelas; e, no Natal, o que os mais novos esperam encontrar no sapatinho são “brinquedos” mais sofisticados do que aqueles com que se contentavam os seus avós.

Quanto ao “dia das mentiras”, graças aos novos meios de informação, multiplicou-se como as ervas daninhas, proliferando em todos os dias do ano. Talvez por isso é cada vez menor a atenção que desperta… embora possa tornar-se um potencial candidato a património cultural da Humanidade! Sinal dos tempos modernos… em que nem tudo o que é diferente tem o significado de mudou para melhor, como alguns governantes nos querem fazer crer!

O PRESÉPIO NAS CAPAS DE NATAL – 4

Presépio Cavaleiro Andante 1954

O sedutor grafismo de um Artista ímpar, à base de harmonia, encanto, expressividade, requinte, fantasia (mesmo quando de inspiração mais clássica), avulta em todas as composições natalícias de Fernando Bento, autor de uma das mais belas capas do Cavaleiro Andante, em que a estrela do Presépio parece refulgir no seio de um coração de cristal. Ou melhor dizendo, de papel!…

Com o nº 156 e data de 25 de Dezembro de 1954, esta edição do Cavaleiro Andante foi uma das prendas que Adolfo Simões Müller e a E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade) colocaram generosamente (isto é, por poucas dezenas de escudos) nos sapatinhos de milhares de jovens portugueses.