DIAS 22 E 29 DE ABRIL: DUAS PALESTRAS NO CPBD SOBRE “A LEI DA SELVA” DE E.T. COELHO

Na continuidade das iniciativas que tem organizado com frequência na sua nova sede, o Clube Português de Banda Desenhada anuncia mais duas palestras, a realizar nos próximos dias 22 e 29 de Abril, pelas 17h00, e dedicadas, com o precioso apoio de um dos seus mais ilustres consócios, mestre José Ruy, à obra-prima de Eduardo Teixeira Coelho “A Lei da Selva”, publicada em 1948 na mítica revista O Mosquito e reeditada finalmente em livro, há alguns meses, por Manuel Caldas.

À parte o interesse específico do tema — apresentado de forma inédita, a partir da leitura de um excelente estudo de Domingos Isabelinho —, este evento representa um progresso para o CPBD, que está agora equipado com meios técnicos (PowerPoint) que lhe permitem valorizar enormemente as suas sessões. 

CONTO: “O PREDADOR” – Introdução

Cabeçalho Caçada em África

Todo o mundo vibrou de indignação com a notícia, ainda recente, daquele caçador norte- -americano, dentista afortunado que pagou 50.000 dólares por uma caçada (S. Pedro vai certamente exigir muito mais para lhe abrir as portas do Céu!), matando um leão do parque natural de Hwange, no Zimbabwe, depois de o atrair traiçoeiramente a uma emboscada.

Essa notícia, devidamente confirmada pelas agências informativas e por organizações acima de qualquer suspeita, como a Avaaz, deu-me a ideia de reescrever um conto, que já em tempos idos tinha planeado transformar num guião de banda desenhada.

Caçada em África 2O projecto não se concretizou, na altura, mas a ideia renasceu quando o caso de Cecil, o leão do Zimbabwe, se tornou conhecido. Já o comentámos neste blogue, recordando uma extraordinária história de E.T. Coelho publicada n’O Mosquito, em 1948, “A Lei da Selva”, onde os leões eram as figuras prin- cipais, tão importantes como os heróis das outras histórias aos quadradinhos.

Devo esclarecer que, ao pegar neste tema e na personagem de Walter Palmer — o tristemente célebre caçador que matou Cecil, um dos mais populares habitantes da reserva de Hwange, procurado e admirado pelos turistas —, não tenho intenção de exaltar o nome do primeiro, nem os seus “feitos venatórios”, mas sim de mostrar, na minha humilde óptica de novelista, o que poderia acontecer ao seu sósia se vivesse noutra época — num futuro distópico onde fosse proibido matar animais selvagens — e continuasse a nutrir uma doentia paixão pela caça.

Este conto, que intitulei “O Predador”, será publicado em três partes consecutivas no nosso blogue. Espero que gostem da ideia… Mas antes de “passarmos à acção”, quero recordar aqui algumas peripécias de um intrépido caçador que, na sua primeira viagem a África, também se viu a contas com um leão. Só que as coisas acabaram de forma muito diferente para o rei da selva… que se sentiu apenas beliscado na sua dignidade (e no seu apêndice caudal) por um adversário que infundia ainda mais respeito! Quanto a esse caçador, dispensa apresentações…

TINTIN NO CONGO E O LEÃO

  

LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

Cecil the lion - 2

A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

Exposição de troféus de caçaChamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

A Lei da Selva 1

Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

Lei da Selva 2       385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os Lei da Selva 3       386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

Jornal do Cuto 9         387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue irmão O Voo d’O Mosquito, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.