DIA 17: PALESTRAS SOBRE “O MOSQUITO” NA BIBLIOTECA NACIONAL

De hoje a oito dias, 4ª feira, 17 de Fevereiro, às 17h00, realiza-se uma série de colóquios na Biblioteca Nacional (Campo Grande), que têm por tema o 80º aniversário da mais emblemática revista juvenil portuguesa, O Mosquito, com a intervenção de figuras bem conhecidas pela sua preponderante acção no meio bedéfilo, artístico e cultural, como José Ruy, António Martinó Coutinho, Carlos Gonçalves e João Manuel Mimoso, estes dois na qualidade de comissários da exposição organizada pelo Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), em parceria com a Biblioteca Nacional, onde estão patentes vários exemplares d’O Mosquito (1ª série), publicados entre 1936 e 1953, separatas com construções de armar (algumas já montadas), álbuns, suplementos como A Formiga, dedicado às raparigas, e outros ítens raros e curiosos.

A exposição, que pode ser visitada diariamente, de 2ª feira a 6ª feira, entre as 9h30 e as 19h30, e aos sábados das 9h30 às 17h30, encerra no final deste mês.

 

A BD PORTUGUESA OUTRA VEZ DE LUTO

Mariana-Viegas-Figura bem conhecida no meio bedéfilo nacional, a simpática “Tia Nita”, irmã de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), um dos directores e fun- dadores d’O Mosquito, faleceu no passado dia 6 de Outubro, com a idade de 95 anos. Embora há muito afastada do convívio com os seus antigos leitores (e leitoras), a “Tia Nita”, que dirigiu e coordenou o suplemento A Formiga, entre 1943 e 1947, mantinha-se no coração de todos aqueles que não esqueceram essa pequena revista — ontem e hoje, tal como O Mosquito, muito procurada pelos coleccionadores — e personagens tão carismáticas como a Anita Pequenita, de Jesús Blasco, o gato Morronguito, de Alejandro Blasco, e a destemida Formiguinha, figura criada por Ángel Puigmiquel, que se tornou outro ex-libris do atractivo suplemento dedicado às meninas (que os sobrinhos da “Tia Nita” também liam com o mesmo interesse).

Formiga 01Para as raparigas era de leitura obrigatória o Diário da Bélita, que ela escrevia com o seu cunho pessoal, retratando as suas próprias vivências; e os rapazes gostavam especialmente (penso que ao falar por mim, falo também dos outros) das cómicas peripécias da Rainha Serafina, desenhadas por Reg Parlett, e das lendas fantásticas das mouras encantadas, que o traço naturalista e poético de E. T. Coelho tornava infinitamente sedutoras para os nossos corações infantis.

Agradecemos a Leonardo De Sá, uma das personalidades que mais de perto convive- ram com a “Tia Nita”, a quem ofereceu a maior alegria da sua vida, o texto que se segue, em homenagem à sua memória.

FALECEU A “NOSSA” TIA NITA – por Leonardo De Sá

Tia Nita + irmãos122Esta grande senhora chamava-se Mariana Simões Lopes Pereira Viegas. Era mãe do actor Mário Viegas. E, entre 1943 e 1947, foi directora da quase totalidade dos 180 pequenos números de A Formiga (que incluiu colaboração de E. T. Coelho, Jayme Cortez, Jesús Blasco, Arturo Moreno, Ángel Puigmiquel, entre outros), o suplemento “para meninas” da célebre revista infanto- -juvenil O Mosquito, onde utilizava o pseu- dónimo “Tia Nita”, com a consonância fa- miliar que era muitas vezes costume usar naquela época. 

Era a mais nova irmã de Cardoso Lopes Júnior, o Tiotónio do mesmo O Mosquito e muitas outras revistas de histórias aos quadradinhos, que em 1950 emigrou para o Brasil e, por assim dizer, por lá desapareceu.

Depois daqueles “pecados de juventude” casou-se com Francisco Pereira Viegas, farmacêutico e figura destacada da sociedade de Santarém, onde o casal tomou residência e onde foi professora. Manteve sempre o interesse pela literatura infanto-juvenil e, em particular, pela banda desenhada. Foi ela, por exemplo, quem conseguiu trazer ao conhecimento pessoal do meio bedéfilo a figura de Amélia Pae da Vida, a primeira mulher a ter realizado bandas desenhadas em Portugal, a partir de 1924 na revista ABC-zinho.

Tio tónio123Ao longo dos anos em que pude trocar impressões com ela, já cega e com idade avançada, mas sempre com grande lucidez, sempre me dizia e repetia que “não gostava de morrer sem saber o que tinha acontecido ao irmão desaparecido no Brasil”. Foi em grande parte por isso que realizei a pesquisa que foi, finalmente, bem sucedida, sabendo-se hoje a história completa – que contei no livro Tiotónio: uma vida aos quadradinhos (Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008).

Esta grande senhora chamava-se Mariana Simões Lopes Pereira Viegas, mas nós preferíamos antes tratá-la simplesmente por “Tia Nita”. Faleceu no dia 6 de Outubro de 2013, em Santarém. Tinha 95 anos.