“OS DOZE DE INGLATERRA” – por E.T. Coelho (4)

12654220_902723516493237_4320641162970025297_nComo oportunamente informámos, realizou-se no dia 10 de Fevereiro, no Centro Nacional de Cultura, uma sessão de lançamento do álbum “Os Doze de Inglaterra”, com desenhos de Eduardo Teixeira Coelho, editado pela Gradiva. Ao assinalável evento deram ainda maior brilho as intervenções de três ilustres oradores: Dr. Guilherme Oliveira Martins, Dr. Guilherme Valente (editor da Gradiva) e Mestre José Ruy, que coordenou esta edição.

Recordamos que a história “Os Doze de Inglaterra”, considerada unanimemente como uma obra-prima da BD portuguesa, foi publicada n’O Mosquito, em 1950-51, numa fase da revista que não primava pela excelência gráfica, nem pelo respeito devido às obras dos seus colaboradores artísticos, visto que o abundante texto das legendas “usurpava”, por vezes, o espaço destinado aos desenhos, causando-lhes danos parciais, mas irreparáveis, como aconteceu em muitas páginas desta magnífica criação de Eduardo Teixeira Coelho.

Felizmente, José Ruy (com a intenção de preservar um precioso espólio) guardou as respectivas provas de impressão e foi a partir desse primitivo material, com os desenhos sem cortes, que foi possível restaurar, de forma quase perfeita, a beleza da arte inigualável de um dos maiores ilustradores portugueses de todos os tempos.

12 de I - Mosquito 1294 959Segundo revelações de José Ruy — que assistiu à realização desta obra, por partilhar, na época, um atelier com E.T. Coelho, sito na Calçada do Sacramento, em Lisboa —, a impressão d’O Mosquito era feita nas oficinas da Bertrand & Irmãos, mas estava confiada a aprendizes (talvez por se tratar — a ironia é nossa — de uma revista juvenil!), enfermando inevi- tavelmente de muitas “mazelas”, agravadas pelo tamanho das legendas escritas por Raul Correia, numa prosa de pitoresco recorte literário, mas por vezes demasiado redun- dante, inspirada, como sustenta José Ruy, num opúsculo da autoria de António Campos Júnior (1850-1917), consagrado autor de narrativas históricas, cuja obra mais célebre é “A Ala dos Namorados”, publicada em 1905.

“Continua o enigma sobre o opúsculo que eu vi o ETC manusear, da «autoria» de Campos Júnior; este nome estava impresso na capa branca só com letras. O Coelho desenhava ao meu lado (tínhamos, nessa altura, um ateliê na Calçada do Sacramento, onde também o Mário Costa, aguarelista, tinha o seu no sótão, enquanto que o nosso era numa sala com janela para a rua). Até a autoria desse texto está em dúvida quanto a ser de Campos Júnior. Umas fontes afirmam que sim, outras que não, e o seu biógrafo não incluiu este romance na sua obra, mas que vi essa publicação, não tenho dúvida.

Sempre pensei que Raul Correia teria outro exemplar, pois este nunca deixou de estar em poder do ETC. Mas é certo que o Coelho desenvolveu «buchas» nos episódios picarescos da aventura do Magriço. Certo, certo, é que o Raul Correia escrevia as legendas com base nos desenhos, como fazia com todas as histórias, criando uma bela e «extensa» prosa que subia pelas pernas das personagens, tapando-lhes grandes partes.

O Coelho nunca se insurgiu, aceitava isso como um ‘Karma’, sem nunca se impor. E ia desenhando, sabendo que partes da composição seriam amputadas. E, nessa altura, não se vislumbrava a hipótese de ser reeditada. Procurei nesta edição cortar as redundâncias do texto, poupando assim muito espaço e fazendo coincidir, em cada vinheta, o assunto que aí se desenvolve”.

doze-de-inglaterra-cnc-2E o resultado está à vista, acrescentamos nós — graças à dedicação, ao brio profissional e ao esforço desinteressado de José Ruy, cuja carreira  acompanhou muito de perto a d’O Mosquito, durante a sua época de maior apogeu —, num belo álbum da Gradiva que fará certamente as delícias de todos os admiradores do talento ímpar de E.T. Coelho, e também de uma nova geração que, por lamentável lapso dos nossos editores, nas últimas três décadas, desconhece quase em absoluto a obra e a importância deste autor.

Aqui fica, pois, um breve registo com imagens do encontro realizado há 15 dias no Centro Nacional de Cultura, para apresentação, como já referimos, do álbum “Os Doze de Inglaterra”, uma das maiores obras-primas de E.T. Coelho. As fotos são de José Boldt, a quem agradecemos (assim como a José Ruy) a amável e sempre pronta colaboração.

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A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

A BATALHA DE ALJUBARROTA E A ALA DOS NAMORADOS

DIABRETE 733Há algumas datas históricas que vale a pena recordar e celebrar, pelo que representam para a nossa identidade como nação secular, altiva e independente, mesmo quando não são (ou já deixaram de ser) feriados nacionais. Uma delas é a da batalha travada em Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, entre as fracas hostes (mas o fraco fez-se forte, como cantou Camões) do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o imponente exército castelhano que, na mira de se apoderar do frágil reino governado por um jovem monarca — escolhido pelas Cortes, na qualidade de Mestre de Avis, para suceder a    D. Fernando —, entrara com grande alarde por terras da Beira, abrindo triunfalmente caminho até ao sul, no intuito de pôr cerco a Lisboa.

Nos nºs 734 a 785 do Diabrete (1950/51), Fernando Bento, então no auge do seu estilo pleno de fluidez, sobriedade e movimento, narrou de forma magnífica a vida e os feitos do Condestável, a cuja nobreza, patriotismo e valentia Portugal ficou a dever, nesses tempos heróicos e conturbados, a manutenção da sua independência.

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Cav Andante 67Outro popular semanário juvenil, o Cavaleiro Andante, dirigido também por Adolfo Simões Müller, escritor e poeta de forte veia nacionalista, depois de ter dado à estampa no nº 67, de 11/4/1953, uma página magistralmente ilustrada por Fernando Bento, com estâncias d’Os Lusíadas alusivas à “incerta guerra” que “uns leva a defensão da própria terra, outros a esperança de ganhá-la”, voltou a assinalar essa gloriosa efeméride, apresentando nas páginas centrais do seu    nº 241, de 11/8/1956, um magnífico poster a cores, com a assinatura de José Manuel Soares, dedicado à maior vitória do Exército português contra um inimigo numérica e militarmente muito superior, mas que foi completamente destroçado pela bravura e tenacidade das nossas hostes e pela ardilosa estratégia do Condestável.

Cav. Andante 241

Ala dos namorados azulejo copyNesse mesmo número, o Cavaleiro Andante tinha em publicação o episódio histórico “A Ala dos Namorados”, baseado na obra homónima de António de Campos Júnior, cujo tema era a luta de um punhado de jovens patriotas — dos quais fazia parte o célebre Álvaro Coutinho, o “Magriço” — em defesa da independência, durante a crise de 1384/85 (depois das revoltas populares contra Leonor Teles e da morte do conde Andeiro), culminando na batalha de Aljubarrota, em que participaram a fina-flor da nobreza, a peonagem, besteiros e lanceiros endurecidos por muitos combates, e a juventude heróica que ardia no desejo de expulsar os castelhanos invasores.

Cav Andante 220   A obra de Campos Júnior foi adaptada por uma excelente dupla formada por Artur Varatojo e José Manuel Soares, que nas páginas do Cavaleiro Andante souberam retratar com emoção, fiéis ao espírito do romance (embora cometendo a proeza de condensar em 24 pranchas uma obra tão extensa), aquele que foi, no meio de inenarráveis sofrimentos e de graves ameaças externas — como o bloqueio naval do Tejo por uma poderosa frota castelhana, aliado à peste e à fome causadoras de inúmeras vítimas entre a população de Lisboa —, um dos períodos mais negros e, ao mesmo tempo, mais triunfantes e decisivos da História de Portugal.

Cav Andante 239 e 240

Cav Andante 241 e 242

Ant BD Portuguesa820Apresentada entre os nºs 218 e 249 do Cavaleiro Andante, com algumas páginas a cores e outras a preto e branco, “A Ala dos Namorados” foi reeditada em 1986 num volume da Antologia da BD Portuguesa (Editorial Futura), enriquecido com textos de Artur Varatojo e de Luiz Beira e uma magnífica capa de José Manuel Soares, reprodução de um quadro a óleo que este fecundo e versátil artista, nome consagrado da pintura e da “época de ouro” da BD portuguesa, expôs no Mosteiro da Batalha.

Em 1956, o Mundo de Aventuras — que no campo da BD histórica de produção nacional procurava tomar a dianteira ao seu rival Cavaleiro Andante — publicou também uma vida do Santo Condestável, em páginas com três vinhetas uniformes intercaladas por farta prosa, da lavra, ao que supomos, do seu director José de Oliveira Cosme, humorista, poeta, músico, homem da Rádio, tradutor e autor de livros de multifacetada espécie e colaborador de várias publicações infanto-juvenis, desde os anos 30, em que foi chefe de redacção do semanário O Senhor Doutor.

ma 375 830Os desenhos dessa narrativa ilustrada, dada à estampa nos nºs 374 a 385 do Mundo de Aventuras, eram da autoria de um dos melhores artistas da “casa”, o ainda jovem Carlos Alberto, cujo talento se espraiava já por colecções de cromos — como a famosa História de Portugal —, capas de livros e revistas, ilustrações de contos, histórias aos quadradinhos, traçando firmemente um assinalável percurso artístico que, mais tarde, se consumaria numa das artes mais nobres e consagradas, a Pintura, em que granjeou ainda maior reputação, com trabalhos que figuram em numerosas colecções nacionais e estrangeiras.

Talvez por ter renunciado cedo à BD, Carlos Alberto não se considera um desenhador como muitos outros, embora reconheça que ficou a dever à narração figurativa (também chamada 9ª Arte) a experiência, o rigor e os conhecimentos — a composição das cenas e o movimento das figuras, por exemplo — que lhe permitiram fazer um certo tipo de pintura.

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Um dos Quadros da História de Portugal, realização de Carlos Alberto (com o pseudónimo de M. Gustavo), que o Jornal do Cuto publicou em separata no nº 34, de 23/2/1972, retrata de forma intensamente realista o desfecho da batalha de Aljubarrota, com el-rei D. João prostrado pela fadiga e pela emoção da vitória, diante do estandarte castelhano que Antão Vasques, um dos bravos oficiais das suas hostes, lhe veio depor aos pés.

Jornal Cuto 34Outros nomes ilustres da BD portuguesa, como Vítor Péon, José Garcês, José Ruy, José Antunes e Artur Correia (este em registo obviamente humorístico), também evocaram os feitos de Nuno Álvares Pereira e, em particular, a batalha de Aljubarrota, mas reservamos alguns desses trabalhos, dispersos em revistas e álbuns, para um próximo post.

Queremos, porém, num preito à memória do saudoso Mestre Vítor Péon, apresentar, como condigno remate deste artigo, a sua vigorosa reconstituição da célebre batalha, tal como foi publicada, com uma nova página, no Mundo de Aventuras nº 358 (2ª série), de 14/8/1980. A versão original pode ler-se no Tintin nº 2 (1º ano), de 8/6/1968.

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