NOVOS DA BD PORTUGUESA (HÁ 36 ANOS) – 1

“ALUCINAÇÃO” – por CARLOS PLÁCIDO

MA 206Nos anos 70 e 80 do século passado, o Mundo de Aventuras (MA) — que ia, então, na sua 2ª série, iniciada em Outubro de 1973 — foi o maior dinamizador da BD portuguesa, ao abrir as suas páginas não só a autores já consagrados, como Vítor Péon, Baptista Mendes, António Barata, José Garcês, Fernando Bento, José Ruy, Artur Correia e outros com uma carreira em ascensão, como Vassalo Miranda e Catherine Labey, mas sobretudo oferecendo a primeira oportunidade a muitos novos e talentosos desenhadores — alguns dos quais viriam a fazer carreira, como Augusto Trigo, Zenetto, Palma, Luís Nunes, José Projecto, Luís Louro, Santos Costa, tanto na BD como noutras áreas, nomeadamente a ilustração e a publicidade. Outros, porém, apesar das potencialidades reve- ladas, não encontraram no meio as condições e o incentivo suficientes para desen- volverem uma actividade ligada à BD e às artes gráficas e “desapareceram” pelo caminho, dedicando-se, como é óbvio, a outras mais seguras e rentáveis profissões.

MA 556   639Ainda hoje, ao folhear esses números do Mundo de Aventuras, recordo, com uma pontinha de orgulho e nostalgia, os tempos áureos em que o MA (que coordenei, na sua última fase, entre Maio de 1974 e Janeiro de 1987) foi o trampolim e um banco de ensaio para uma geração de jovens candidatos a autores de BD, que puderam expressar as suas aptidões de forma livre, sem condicionalismos (a não ser o número limite de páginas, dez por cada história), numa das rubricas mais emblemáticas dessa fase da revista, a que dei o título “Novos da Banda Desenhada Portuguesa”.

Para a maior parte deles, foi não só a primeira vez que viram os seus trabalhos publicados, como também a primeira remuneração que receberam por essa actividade, pois registe-se que esses novos colaboradores também eram pagos, tal como os seus “colegas” com currículo profissional, embora logicamente a tabela destes se cifrasse por valores mais elevados. Alguns passaram mesmo, tempos depois, à categoria de colaboradores efectivos, realizando capas e histórias publicadas com maior destaque na revista.

MA 334 VINHETA     640Vem toda esta conversa a propósito da ideia que teve o nosso Gato Alfarrabista de “ressuscitar” algumas dessas obras surgidas há mais de três décadas no MA, pois poderemos assim contribuir, decerto, para um melhor conhecimento de uma faceta quase obscura da BD portuguesa — que se consubstanciou, em condições diferentes, no movimento imparável e renovador dos fanzines, visível ainda hoje, com maior expressão, nas redes informáticas (websites e webzines), mas que também continua a manter a sua tradicional matriz tipográfica.

Nessa rubrica “Novos da Banda Desenhada Portuguesa”, iniciada no nº 151, de 19/8/1976, um dos nomes que mais se distinguiram foi o de Carlos Plácido (que assinava Karluz Placydu), autor cuja imaginação fantasista, no limiar do surrealismo, criou histórias recheadas de referências simbólicas (sobretudo ao 25 de Abril), num estilo simultaneamente realista e abstracto, lírico e psicadélico, em que se destaca a densidade cromática do preto e branco, acentuada pelos tons aguarelados de algumas imagens, e a geometria harmónica das composições labirínticas.

Resta acrescentar que, transposta para a actualidade, esta história (dada à estampa no MA nº 239, de 18/5/1978) nada perderia do seu rico simbolismo libertário.

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