JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 3

Na terceira parte desta retrospectiva dedicada à memória e à obra do nosso querido            amigo José Baptista (Jobat), apresentamos o segundo e último episódio da sua única série policial, publicado no Mundo de Aventuras nos 452 a 461, entre 17/4 e 19/6/1958.

Jobat - 9ª Arte - Anuncio P&B452Como frisámos anteriormente, Luís Vilar, o audaz protagonista desta aventura, em que procura deslindar “Um Caso de Contrabando”, tem agora outra ocupação profissional, passando de detective a repórter jornalístico e fazendo do seu novo papel um meio eficaz para combater o crime, sem recorrer a armas de fogo, como no caso anterior, “O Fim da Quadrilha”, mas voltando a fazer bom uso dos punhos. A completa reviravolta na identidade deste curioso personagem (com uma profissão pouco comum no historial da BD portuguesa) não chegou a ser explicada por José Baptista nas notas que escreveu sobre os cenários reais onde localizou esse episódio — a cidade algarvia de Loulé, de onde era oriundo —, quando se decidiu também a reeditá-lo na rubrica “9ª Arte”, que criou no jornal O Louletano (entretanto, já desaparecido).

Divulgamos hoje um excerto do seu artigo, juntamente com as primeiras páginas de “Um Caso de Contrabando”, tal como saíram (a cores) no Mundo de Aventuras, visto o episódio (retocado em parte por Jobat) ter ficado incompleto n’O Louletano, cujo último número apareceu nas bancas em 27/7/2012.

Jobat - 9ª Arte - Páginas esquecidas451«O tempo, esse imperceptível eterno presente, fugaz e volátil como o fumo que se evola de distraído cigarro entre os dedos, passa rápido, invisível e sorrateiro sobre os nossos sonhos, ale­grias e tristezas, inclusive sobre aquilo que profissionalmente produzimos, de tal maneira o ocultando sob a patine do passado que muito do que fizemos quase o ignoramos ou esquecemos. Esta pseudo introspecção filosófica — se sem pretensões assim a podemos classificar —, surge a propósito da série que hoje damos à estampa, nesta página e rubrica: uma velhinha BD, com o per­sonagem Luís Vilar, de minha autoria, publicada no já longínquo ano de 1958 na revista juvenil “Mundo de Aventuras”.

É relutantemente que a publico, tal como o anterior episódio, há semanas atrás, por insistência do velho amigo e colaborador Jorge Magalhães, e isto por razões várias, a primeira das quais, por eu ser o coordenador desta página e poder parecer pretensão minha dar primazia aos meus trabalhos, o que de todo não corresponde ao meu intento; depois, pela antiguidade e ingenuidade da série, tanto na trama como na execução, aceitável nessa época, na tentativa de criar um personagem, algo a que todos os ilustradores aspiram, mas que ficou pelos dois episódios publicados. Só a argumentação desse querido amigo, justa quanto baste, me demoveu da intenção de não a publicar.

Ao analisar a época, ambiente e recordações interligadas com a feitura desta BD, ressaltam elementos curiosos, quiçá biográficos, nunca antes relatados, que é útil referir para que não fiquem de todo no esquecimento. O meu amor atávico pela terra madrasta onde nasci, está indelevelmente manifestado, subtilmente oculto, nalgumas vinhetas desta história.

Jobat - Luis Vilar anúncio 444Não será por acaso — para quem atento acompanhar o seu desenrolar — o local de destino escolhido pelo jornalista na gare da Estação de Sul e Sueste, nessa altura o ponto de embarque rumo ao Algarve, para iniciar a sua investigação, inserido na última vinheta da página 2. Nem tão pouco o encontro com alguém, neste caso um fortuito “João Carlos” — que não poderia, por óbvios motivos, chamar-se José Batista —, também com destino a Loulé (1a vinheta da pág. 3), bem como a frase dita quando salta para o barco (vinheta 5 da mesma página). Ainda hoje conservo esse rolo, bom para transporte de originais, como recordação — não sei se dessa história, se desse tempo… ou de mim.

Era comum, nessa altura, alguns amantes da pesca estarem de cana em riste no cais de embarque (vinheta 6). Na pág. 5 (3a vinheta da 2a tira), há uma referência desgarrada a um “Tista”, diminutivo que comummente utilizavam, referindo-se a mim, e na 1a vinheta da 3a tira, uma chaminé rústica caracte­riza genericamente o Algarve, apenas por não possuir fotos de Loulé quan­do desenhei essa página».

Jobat - Luis Vilar 1  e 2

Jobat - Luis Vilar 3 e 4

Jobat - Luis Vilar 5  e capa MA

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

RETROSPECTIVA – 2

Prosseguindo esta retrospectiva integrada num ciclo de homenagem a José Baptista, um dos nossos maiores desenhadores e autores de BD, apresentamos hoje outro dos seus primeiros trabalhos, mas de um género muito diferente daquele com que fez a sua estreia, há cerca de 55 anos.

JoBatA temática policial era uma das mais apreciadas pelos leitores do Mundo de Aventuras, onde campeavam vários detectives de ilustre estirpe, como Ruben Quirino (Rip Kirby), Kerry Drake, Nero Wolfe e Dick Tracy, embora nem todos tivessem a mesma quota de popularidade, devido a prolongadas ausências para partilharem outros espaços.

Com um traço vigoroso, em que avultavam as sombras densas e o recorte duro das formas, numa espécie de alto contraste do branco e negro, José Baptista parecia naturalmente dotado para esse tipo de histórias, que faziam apelo ao hiper-realismo e à acção violenta, inspirando-se nos filmes de gangsters que ainda empolgavam as audiências, como nos anos 30 e 40.

O género policial e os cenários realistas de fundo urbano e contemporâneo eram também do agrado de alguns jovens colaboradores do Mundo de Aventuras, como José Antunes, José Manuel Soares, Raul Cosme e Filipe Figueiredo, que foram buscar os seus modelos a séries americanas e espanholas; mas, no caso de Jobat, este preferiu apelar às suas próprias reminiscências, como comentou num artigo publicado na rubrica “9ª Arte” do jornal               O Louletano, a propósito da sua primeira obra do género, com um jornalista português chamado Luís Vilar, que gostava de agir como um detective privado em vez de ficar sentado à secretária, levando as suas reportagens até ao limite do risco pessoal e físico.

Condor Popular capa200Embora os assuntos históricos tivessem prevalecido na obra deste autor, deixando Luís Vilar num lugar secundário que não lhe permitiu romper o barreira do tempo, os dois episódios em que participou — um mais longo, com dez páginas, publicado em 1958 no Mundo de Aventuras nºs 452 a 461, e o outro, com oito páginas, inserido de forma discreta no Condor Popular nº 4, 20º volume —, mereceram um olhar mais atento de Jobat quando este, cedendo às minhas pressões (que não foram poucas), aceitou finalmente reeditá-los na citada rubrica “9ª Arte”.

Apresentamos hoje o segundo desses episódios (primeiro por ordem cronológica), que, de acordo com Jobat, foi publicado no primeiro trimestre de 1958, mas teve realização atribulada, com um intervalo de vários meses entre as primeiras e as últimas páginas.

Aliás, nesta história — que reproduzimos directamente do “velhinho” Condor Popular, com as cores originais, embora Jobat (sempre exigente em relação à qualidade) a tenha retocado por inteiro, aquando da publicação no jornal O Louletano,melhorando alguns pormenores e corrigindo defeitos de impressão —, Luís Vilar surge na pele de um detective com currículo especial, a quem a famosa Scotland Yard, ciente dos seus méritos (e dos seus métodos, filiados na escola dos “duros”, à boa maneira de Sam Spade e Lemmy Caution), encarrega de combater o crime nas ruas de Londres. Por que razão se tornou depois jornalista, é uma pergunta que ficou sem resposta…

Luis Vilar 1 et 2

Luis Vilar 3 et 4

Luis Vilar 5 et 6

Luis Vilar 7 et 8

JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

O ADEUS DE UM AMIGO

APR-1956 e 1963É com profundo pesar que voltamos a referir-nos ao falecimento, no dia 29 de Março, do nosso querido Amigo José Baptista, com quem privei ao longo de várias décadas, mantendo sempre um contacto muito próximo, sobretudo nestes últimos anos, desde que Jobat (acrónimo com que se distinguiu no mundo da BD) iniciou um novo marco da sua carreira no jornal O Louletano, em que criou a rubrica “9ª Arte – Memórias da Banda Desenhada”, publicada desde 30/3/2004 até 27/7/2012, num total de 233 páginas, e só interrompida por causa do brusco desaparecimento daquele quinzenário regional, atingido também pela crise.

Jobat capa MA Luis VilarTal como José Antunes, outro artista da mesma geração falecido em 2010, José Baptista afirmou-se como artista gráfico ainda muito jovem, depois de cursar a Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e começou gradualmente a exercer funções de responsabilidade na Agência Portuguesa de Revistas, onde coordenou, ilustrou e maquetizou diversos títulos, além de publicar no Mundo de Aventuras e na Colecção Audácia as suas primeiras histórias aos quadradinhos, com destaque para uma adaptação do conto “A Abóbada”, de Alexandre Herculano, e para as peripécias detectivescas de um irrequieto jornalista chamado Luís Vilar.

JobatUlisses e CamõesNo género histórico, um dos seus preferidos, brindou também os leitores com outros trabalhos de vulto, como a homérica odisseia de Ulisses, baseada no peplum (filme histórico italiano) dirigido por Mario Camerini, cujos personagens e cenários reproduziu com notável fidelidade, e uma primorosa biografia do nosso maior vate, “A Vida Apaixonada e Apaixonante de Camões”, publicada em 1972 no Diário Popular e posteriormente em álbum, numa versão com texto em francês de Michel Gérac.

Jobat e Luis FurtadoFoi sobretudo, durante a sua longa carreira, ilustrador de livros, revistas e colecções de cromos, e ainda chefe de redacção do Jornal do Cuto, onde deixou também vasta obra e nova homenagem ao génio épico do “Trinca-Fortes”, que lhe valeu alguns atritos com Mário de Aguiar, director da Agência Portuguesa de Revistas (APR), a quem não agradava a sua prestação para um concorrente — neste caso, a Portugal Press de Roussado Pinto.

Depois de ter saído da APR e de regressar ao Algarve, por causa da suspensão temporária do Jornal do Cuto, com a mágoa de quem deixa para trás 20 anos de dedicação absoluta a um mister em que fez muito de tudo, José Baptista porfiou noutras áreas profissionais, como artista cerâmico, professor de Educação Visual e desenhador da Câmara Municipal de Loulé, terra da sua naturalidade, onde viveu com a família desde 1976.

     Jobat Jornal do Cuto 22

  jobat Cuto camões088A paixão pelos quadradinhos, em especial pelos da época áurea da BD portuguesa, alimentada pelas leituras da infância, com O Mosquito e Eduardo Teixeira Coelho na primeira linha das suas preferências, acompanhou-o durante toda a vida, como ficou bem expresso nas valiosas crónicas e análises críticas que escreveu para a rubrica “9ª Arte”, o seu último e devotado tributo aos autores cujas obras mais admirava e que procurou, com raro escrúpulo gráfico, preservar no tempo e na memória dos bedéfilos da sua geração, mas sobretudo na dos leitores mais jovens.

Pela minha parte, jamais poderei esquecer um dilecto amigo que me deu os primeiros conselhos quando o conheci na redacção do Jornal do Cuto (pouco antes de me tornar colaborador da APR e responsável pelo Mundo de Aventuras) e que ficou, aliás, associado à minha estreia como contista, em 1959 (também no Mundo de Aventuras, do nº 491 ao 493), pois foi ele que ilustrou, com o expressivo e vigoroso traço que caracterizava o seu estilo, o meu primeiro trabalho literário publicado numa revista de banda desenhada: um conto do género faroeste, com o título “Terra Selvagem”. Em dois desses números (492 e 493), foi também o autor das capas.

Jobat Terra Selvagem

Jobat MA 492 e 493

Mesmo sem ainda nos conhecermos, não tenho dúvidas de que foi aí que começou uma bela amizade! A José Baptista devo também a foto que ilustra o cabeçalho deste Gato Alfarrabista, cujas letras desenhou parcialmente, com a colaboração de Catherine Labey.

Ainda mal refeitos da infausta notícia, já sentimos o enorme vazio que a sua perda irá irremediavelmente provocar no nosso espírito e no de todos aqueles que tiveram o privilégio de partilhar os seus sonhos, os seus afectos, as suas memórias, os seus conhecimentos e os seus conselhos… e de desfrutar, como eu — que falava com ele quase todas as semanas, às vezes até altas horas da noite —, o seu bom-humor, a sua gentileza, o seu espírito generoso e compreensivo, a sua permanente disponibilidade para com os amigos, o sorriso afável que lhe adoçava o rosto, como um cunho de simpatia, amizade e camaradagem que acalentará para sempre as nossas recordações.

Jobat no GuinchoQue a sua alma descanse em paz nas pradarias eternas onde floresce a herança de tantos mestres que lhe serviram de patronos e de guias, na grande jornada repleta de sonhos e de projectos artísticos que deram mais sentido e valor à sua vida.

Em homenagem ao talento deste veterano e ecléctico artista, vamos dedicar-lhe uma retrospectiva, iniciando-a com uma das suas primeiras histórias aos quadradinhos, como já tínhamos combinado com ele há algum tempo. Trata-se de “O Voto de Afonso Domingues”, narrativa sucintamente adaptada do conto “A Abóbada”, de Alexandre Jobat biografiaHerculano, com início em 2/1/1958, no Mundo de Aventuras nº 437, a par de uma pequena nota que fazia a apresentação “oficial” de José Baptista aos leitores daquele popular semanário, onde pontificavam outros valiosos colaboradores nacionais: Carlos Alberto Santos, José Antunes, José Manuel Soares, Raul Cosme, Luís Correia e Orlando Marques.

Nervo, rigor, poder descritivo, acutilância barroca do traço, são algumas das virtualidades estéticas desta história, que pode ombrear dignamente, quanto a mim, com outras adaptações de textos literários que abundam na BD portuguesa. Resta acrescentar que “O Voto de Afonso Domingues”, com oito páginas, terminou no Mundo de Aventuras nº 444, de 20/2/1958.

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RETROSPECTIVA – 1

Jobat Afonso Domingues 1 e 2

Jobat Afonso Domingues 3  e 4

Jobat Afonso Domingues 5 e 6

Jobat Afonso Domingues 7 e 8