A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 7

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

Enquanto os bairros cantarem / Enquanto houver arraiais / Enquanto houver Santo António / Lisboa não morre mais.

Pisca pisca nº 6 - 1777Figura incontornável da Igreja portuguesa (e de outros países) no século XIII, Fernando de Bulhões, nome com que foi baptizado em Lisboa, no ano do seu nascimento: 1195 (segundo a crença geral, rei- nava então D. Sancho I, O Povoador), continua a ser um dos Santos mais venerados da Idade Média, com uma aura mística e profana que se enraizou de tal modo na tradição popular que esta quase esqueceu as suas virtudes militares — de origem póstuma, efeito do alistamento, séculos depois, em vários regimentos de Portugal e Brasil — e a sua profunda sabedoria escolástica, transformando-o numa figura mais “terra a terra”, na imagem cândida do Santo milagreiro que dispensa prodigamente as suas bên- çãos aos pobres, às crianças e aos jovens casais.

De acordo com a tradição, que remonta a 1958, é na véspera do dia 13 de Junho — aniversário da sua morte, em 1231, e feriado municipal em Lisboa e Cascais — que os noivos de Santo António “dão o nó”, juntando-se às marchas, cantigas e folguedos populares que animam até de madrugada muitos bairros lisboetas. E diz-se que, com a bênção do Santo, raros são os que não vivem juntos e felizes até ao fim da vida.

Pisca pisca nº 6 - 2778

Sto António Garcês  779Canonizado em 30 de Maio de 1232 pelo Papa Gregório IX (menos de um ano após a sua morte, uma das canonizações mais céleres da Igreja Católica), Santo António pregou também em França e Itália, onde viu aumentar a sua fama como taumaturgo e orador de rara erudição, tendo abraçado, ainda jovem, a Ordem dos Franciscanos, cujo fundador, S. Francisco de Assis, chegou a conhecer. As suas relíquias jazem em Pádua (outra cidade que o reivindica fervorosamente como padroeiro), numa basílica construída em sua honra.

Associando-nos aos festejos Antoninos — que são um dos eventos mais alegres e duradouros deste cálido mês de Junho, pairando desde há longas décadas na alma do povo, como o perfume dos manjericos e das sardinheiras —, apresentamos seguidamente duas curtas biografias assinadas por Baptista Mendes e Eugénio Silva, artistas de formação clássica que rechearam as páginas de revistas e álbuns com excelentes trabalhos de natureza didáctica e biográfica sobre alguns dos maiores vultos da nossa História.

Sto António Batista Mendes 1e 2Sto António Eugénio  Silva 1 e 2

Sto António cabeçalho Bento   784Estes breves, mas verídicos relatos da vida de Santo António foram extraídos, respectivamente, do Mundo de Aventuras nº 454, de 24/6/1982, e do livro escolar Lições de História Pátria (Porto Editora, 1967). Quanto à página que mais acima reproduzimos, com versos do Padre Moreira das Neves e ilustrações de Marcello de Morais, veio do Pisca-Pisca nº 6 (Junho de 1968).

A vinheta que se segue a essa página é uma ilustração de José Garcês, com texto de A. do Carmo Reis, publicada no 1º volume da História de Portugal em BD (Edições ASA, 1985).

Por último (e, neste caso, os últimos têm tanto valor como os primeiros), eis mais um tributo a Santo António, num episódio da série Histórias da Nossa História, publicado no Diabrete nº 128, de 12/6/1943, com desenhos de outro mestre da narração figurativa que também deu primazia, durante algum tempo, ao texto literário, dentro e fora das vinhetas.

Cidade de livres costumes, Lisboa não tardou a criar uma imagem mais brejeira do seu Santo casamenteiro: o fradinho malicioso e atrevido que pregava partidas às raparigas, roubando-lhes beijos e quebrando-lhes as bilhas quando iam à fonte, como risonhamente declaram os miúdos desta história, com o traço inconfundível de Fernando Bento.  

Sto António Bento 1   782Sto António Bento 2

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 6

1º de Dezembro ilustração J Antunes 2

Embora oficialmente o 1º de Dezembro tenha deixado de ser feriado, a partir deste ano, não deve cair no esquecimento uma data que está associada a um dos maiores acontecimentos da História de Portugal: O Último Conjurado  277a reconquista da independência em 1640, depois de 60 anos de domínio espanhol. Uma data com este significado merecia continuar a ser assinalada em celebrações oficiais, tal como aconteceu no passado, mesmo durante um regime que aboliu a monarquia e os seus símbolos, mas não a memória dos feitos que forjaram, ao longo dos séculos, a identidade e o futuro de Portugal entre as outras nações europeias. Memória que continua viva na nossa literatura, como atesta o romance que acabei de ler, de uma nova e inspirada autora, Isabel Ricardo, com o título “O Último Conjurado” (Planeta Editora, 1ª edição: Março de 2008, capa: José Laranjeira; ilustrações: Carlos Alberto Santos).

Bento - Diabrete 138Depois de D. Afonso Henriques, que talhou a golpes de montante, contra os sarracenos e o partido de sua mãe, D. Teresa, as primitivas fronteiras de um novo reino cristão; da revolta popular de 1384, contra a tibieza do rei D. Fernando e os desmandos de sua mulher Leonor Teles, que lhe sucedeu no trono, até ser expulsa pelo Mestre de Avis, futuro rei D. João I, e por Nuno Álvares Pereira, futuro Condestável; da grande vitória de Aljubarrota, que viu nascer a aurora de uma nova e radiosa era, liberta do jugo castelhano; da herança Henriquina, prosseguida por D. João II e por D. Manuel, que levou as nossas naus e os nossos marinheiros a todos os cantos do mundo; dos faustos da Índia e do Brasil, e dos escravos de África, que alimentaram a riqueza e a ambição de uma nova aristocracia, devassa e absolutista; do heróico desvario de um jovem rei, que sacrificou a fina-flor da sua cavalaria e a liberdade da pátria a um ideal impossível, como um Galaaz perdido num areal de ilusões — depois de tantas lutas e de tantos sacrifícios, de tantas décadas de esplendor e de glória, no convénio das nações mais poderosas da Europa, Portugal caiu nas malhas de um humilhante cativeiro, sob o pesado ceptro de um império cujo domínio se estendia a dois continentes.

Bento - Diabrete 566Reconquistar a liberdade, para os conjurados do 1º de Dezembro de 1640, foi um acto patriótico, cheio de abnegação e de fé, em que empenharam a vida, a família, os bens e a honra, uma missão cujos lances eram incertos e arriscados, pois nem o rei que queriam pôr no trono, o Duque de Bragança, lhes prometera lealdade absoluta. Mas tal como o Mestre de Avis, quando entrou no paço da rainha para matar o conde Andeiro, também eles não hesitaram em invadir o palácio da Duquesa de Mântua, dar-lhe voz de prisão e atirar por uma janela o traidor Miguel de Vasconcelos. O futuro estava traçado e o preço da nova liberdade custaria a Portugal, como no tempo de D. João I, um duro esforço de guerra, até finalmente os tercios filipinos regressarem à fronteira de Badajoz, vergados sob o peso da derrota, e outros estados europeus, incluindo o Vaticano, esquecerem as suas alianças com Espanha, reconhecendo como legítima a subida ao trono de D. João IV.

A banda desenhada de fundo histórico — um dos temas que pretendemos continuar a abordar neste blogue — não omitiu a evocação desse episódio, mesmo durante as longas trevas da ditadura salazarista, que, durante 40 anos, também cerceou direitos, liberdades e garantias, como no tempo da dominação filipina.

Camarada 128Pela mão de quatro grandes ilustradores, Fernando Bento (no Diabrete nºs 138, de 21/8/1943, e 566, de 1/12/1948), António Vaz Pereira (no Camarada nº 128, 1ª série, de 2/12/1950), José Antunes (no Camarada nº 24,    2ª série, de 30/11/1963) e José Garcês (na sua grandiosa História de Portugal, Asa, 1988), mostramos neste artigo como a BD portuguesa soube prestar homenagem aos heróis da independência e ao 1º de Dezembro, que atravessou mais de três séculos de História sem que nenhum governo, absolutista ou liberal, monárquico ou republicano, se tivesse lembrado, até hoje, de o suprimir do calendário dos mais importantes festejos nacionais.

Hist]oria de Zé Antunes

hist Portugal em BDFeriado ou não, o que importa é que, tal como fizeram alguns dos nossos mais talentosos autores de BD, há muitos anos e em épocas diferentes (antes e depois do 25 de Abril), o dia da Restauração continue a ser recordado como símbolo do amor à liberdade e da coragem de um povo que nunca se resignou a viver sob o jugo de estrangeiros ou de traidores à Pátria.

E aqui têm, a terminar a nossa breve resenha,      um excerto do capítulo que José Garcês e A. do Carmo Reis, com a perfeição artística e o rigor histórico que caracterizam os seus trabalhos, dedicaram a este feito glorioso, no álbum intitulado “A Restauração da Independência”       (3º volume da História de Portugal em BD).hist Portugal em BD - pag 1hist Portugal em BD - pag 3 e 4hist Portugal em BD - pag 5 e 6 Nota: agradecemos a preciosa e célere colaboração de Carlos Gonçalves, que nos proporcionou as duas páginas da história de José Antunes, publicada no Camarada.

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 5

OUTRA VEZ FÁTIMA

Ao que recentemente apurámos, com base numa informação de Carlos Gonçalves, estudioso e coleccionador com profundos conhecimentos sobre a BD portuguesa e brasileira, o álbum Notre-Dame de Fatima, com texto de Agnès Richomme e desenhos de Robert Rigot (a que fizemos referência num post anterior que pode ser visto aqui), foi o segundo de temática mariana realizado por estes autores. O primeiro teve honras de edição portuguesa em 1954 (Ano Mariano), pelo Secretariado Nacional de Catequese, com o título Nossa Mãe, Nossa Rainha (A Vida de Nossa Senhora), mas só na parte final relatava os milagres e as aparições de Fátima. Trata-se do nº 2 da colecção Belles Histoires et Belles Vies, publicado pela primeira vez em 1949, com o título La Belle Vie de Notre-Dame (informação de Leonardo De Sá), mais tarde abreviado para Marie de Nazareth.

Rigot capa e página

Carlos Gonçalves, a quem expressamos, mais uma vez, o nosso reconhecimento, enviou-nos também duas páginas da história publicada na colecção brasileira Série Sagrada, da Ebal (série normal e série especial), com sugestivas capas de António Euzebio e Monteiro Filho (respectivamente), já apresentadas nesta rubrica. Infelizmente, continuamos a desconhecer o autor dos desenhos, embora possa tratar-se, como sugeriu Carlos Gonçalves, de um dos artistas referidos: Monteiro Filho. Aqui fica o registo.

Coleção serie sagrada

img489Outra interessantíssima versão de que Carlos Gonçalves nos deu conhecimento surgiu em 1952 no livrinho Fátima Para os Vossos Filhos, escrito em verso por Rui Santos, com imagens de um dos nossos mais talentosos ilustradores infantis, o saudoso Méco, de seu nome António Serra Alves Mendes, pai de outro artista que lhe seguiu com sucesso os passos: Zé Manel.

Não se trata de uma história aos quadradinhos (embora com vinhetas sequenciais), mas poder apreciar um trabalho raro de Méco, numa das áreas em que mais se distinguiu, a ilustração para crianças, com toda a singeleza e prazenteiro encanto que caracteriza o seu estilo, é motivo suficiente para o incluirmos nesta lista.

Nascido em 1915 e falecido tragicamente em 1957, quando passeava de barco com o filho, Méco deixou magníficos exemplos da sua arte inconfundível em revistas tão carismáticas como O Papagaio (onde eu li, pela primeira vez, As Minas de Salomão, aventuras fantásticas transfiguradas pelo seu traço semi-caricatural), O Senhor Doutor e Joaninha.

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A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 4

FÁTIMA, TERRA ELEITA DE NOSSA SENHORA

Fátima - Notre-Dame de FatimaUm dos temas religiosos mais em foco na nossa história contemporânea e no seio da igreja católica — as aparições e os milagres de Fátima —, foi também objecto de muitas abordagens em álbuns e revistas de BD, de diversas procedências, merecendo especial relevo, pelo trabalho documental e artístico, a que foi dada à estampa, com texto de Agnès Richomme e desenhos do veterano Robert Rigot (1908-1998), na colecção das Editions Fleurus, Belles Histoires et Belles Vies, uma das mais célebres de temática religiosa em língua francesa.

Não é possível classificá-la, em rigor, como uma história aos quadradinhos, pois nessa colecção o texto tinha primazia sobre as imagens, que eram apenas quatro por página. No entanto, merece destaque a minúcia histórica do relato, com 164 vinhetas, e o apuro, a harmonia, a exactidão factual (até no retrato dos três pastorinhos) que caracterizam os desenhos de Robert Rigot, realçados pelos suaves tons em lavis. Segundo conseguimos apurar, a primeira edição deste álbum data de 1961.

Fátima - Notre-DAme de Fátima 1 e 2Fátima - Notre-Dame de Fatima - 3 e 4

Queremos também assinalar, pela sua novidade e raridade, algumas publicações de origem mexicana, entre as quais uma de produção mais recente (Abril de 2001), que ostenta o nº 66 da colecção Hombres y Héroes, da editorial Novedades, com capa de Francisco Samaniego e guião de Victor Manuel Yañez, realizado por um desenhador sem grandes credenciais, pelo menos por estas bandas, de seu nome Gregório Grande (note-se que o formato da revista até é bastante pequeno: 13 x 14,5 cms).

Notre-Dame de Fátima quadro

Fátima - Quien fuéNo México, país católico, o culto mariano também é seguido com devoção por milhões de fiéis, não sendo, pois, de admirar que tenhamos encontrado mais revistas, de várias editoras, com a história de Fátima, duas delas impressas a sépia, com argumento de Francisco Gurza e desenhos do mesmo artista, por sinal de bom nível, António Gutierrez, mas em colecções distintas: Biografias Selectas nº 127 (Abril de 1961), da Editorial Argumentos (Edar), e Quien Fue…? nºs 15 e 16 (Fevereiro de 1981), da Editorial Vid; a terceira, de aspecto mais modesto, com o selo da Editorial Pin-Pon, pertence à colecção Vidas Ejemplares y Milagros (nº 33, Maio de 1984) e tem guião de J. Santoyos e desenhos de Pedro Morales, cujos trabalhos também nunca chegaram ao continente europeu.

Fátima - Biografias Selectes capa e 1Fátima - Biografias Selectes 2 e 3Fátima - Vidas ejemplares - capa e 1

Noutro país, o Brasil, onde o catolicismo é a religião dominante, temos notícia de mais uma versão dos milagres de Fátima, publicada na revista Série Sagrada nº 2 (Outubro de 1953), da Ebal (Editora Brasil-América), com uma capa muito semelhante à da revista mexicana Quien Fue…?, mas não podemos fornecer mais pormenores sobre esta edição, porque nem o nosso gato conseguiu ainda encontrá-la cá em casa. A Ebal apresentou também a história dos pastorinhos, com uma capa diferente, na Série Sagrada Especial nº 1. Aqui ficam essas capas, retiradas do site guiaebal: http://guiaebal.com/index.htmlque recomendamos vivamente a todos os interessados pelas publicações desta antiga editora.

Série Sagrada nº 2 e especial (Ebal)jpg Segundo Leonardo De Sá, a quem agradecemos a “dica” e as imagens (fornecidas há mais de três anos!), a desaparecida Editorial Campo Verde, com gráfica própria na Venda Nova, publicou em 1978 um pequeno álbum sobre esta temática, intitulado “O Milagre de Fátima”, com desenhos do prometedor estreante Duarte Gravato. Milagre de Fátima capa e page

Fátima Pisca-PiscaMas as versões que mais despertaram o meu interesse, apesar do seu reduzido número de páginas — à parte, bem entendido, a de E.T. Coelho, cujo texto me coube escrever, publicada em1985 pela Editorial Futura e reeditada em 2001 pela Meribérica —, foram as que surgiram nas páginas de duas das mais importantes revistas europeias, o Tintin e o Spirou, com a assinatura de dois grandes mestres da BD belga: Eddy Paape (1920-2012) e Fernand Cheneval (1918-1991). Enquanto que a primeira, “Le Soleil Danse à Fatima”, é ainda inédita entre nós, a segunda, “Fátima, Terre Élue de Notre-Dame”, com o sóbrio e esmerado traço de Cheneval — outro artista que se especializou no domínio das histórias curtas com temas documentais e didácticos —, foi publicada duas vezes em português, por intermédio do Pisca-Pisca nº 15 (Maio de 1969) e do Mundo de Aventuras nº 448, de 13-5-1982 (neste a preto e branco, com uma capa alegórica de Augusto Trigo).

Aqui têm ambas, nas respectivas versões integrais em francês, oriundas do Spirou nº 1252 (12-4-1962) e do Tintin nº 43, 18º ano (22-10-1963). Os argumentos, pela mesma ordem, são de Octave Joly e Yves Duval, nomes tão ilustres no meio bedéfilo franco-belga como os dos seus colaboradores artísticos. Resta ao nosso gato desejar a todos boa leitura!

Nota: um artigo muito interessante, com informações complementares sobre este tema, pode (e deve) ser lido no blogue BDBD:  http://bloguedebd.blogspot.pt

Fátima - Paape - 1 e 2Fátima - Paape - 3 e 4Fátima - Cheneval - 1 e 2Fátima - Cheneval - 3

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 3

A CONQUISTA DE CEUTA (por José Garcês)

Em 25 de Julho de 1415 (há quase 600 anos), teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses com uma grande expedição militar em que participaram os filhos de El-Rei D. João I, e cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

A conquista de Ceuta CA 104Nessa empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate,     os jovens infantes D. Henrique e     D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado a reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e   o segundo a suceder no trono ao rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

Recordando esta efeméride tão importante na história da expansão marítima e colonial portuguesa dos séculos XV e XVI, retirámos dos arquivos do passado uma página magnificamente ilustrada por Mestre José Garcês, que o Cavaleiro Andante — muito receptivo, nessa época, aos trabalhos de inspiração (e exaltação) histórica, em que Garcês, por mérito e experiência, já era um autor consagrado —, deu à estampa no nº 104, de 26 de Dezembro de 1953.

Anos depois, em 1960, Garcês realizou uma magnífica biografia do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano. Com um âmbito mais vasto, essa história, escrita por António Manuel Couto Viana, descrevia minuciosamente os preparativos da expedição a Ceuta, enaltecendo a heróica acção de D. Henrique nesse primeiro feito militar e nas empresas que se seguiram — apesar do desastre de Tânger, que quebrou o ânimo de D. Duarte e arrastou o Infante D. Fernando para o cativeiro, numa das horas mais negras da gesta dos portugueses em África.

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A Grande AventuraOs mesmos acontecimentos foram retratados por Garcês, de forma mais sucinta (se bem que com um enquadramento sócio-político mais rigoroso), no 2º volume da sua História de Portugal em BD, relevante projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com extraordinário êxito, a partir de 1985. Ainda hoje, Garcês encara essa obra como o ponto máximo da sua carreira de autor de BD, cimentada por uma sólida formação histórico-didáctica e artística.

Aqui ficam também essas páginas do álbum A Grande Aventura, que documentam o fervor com que o moço e valoroso infante D. Henrique, futuro duque de Viseu e grão-mestre da Ordem de Cristo, participou na cruzada por um reino maior, além das terras conhecidas e desconhecidas, dos areais do norte de África até aos cabos tormentosos que nenhum navegante se atrevera ainda a dobrar.

A Grande Aventura  1 + 2

A Grande Aventura  3 + 4

Aproveitamos esta ocasião para desejar a Mestre José Garcês, que celebrou há um mês       o seu aniversário, as maiores felicidades, associando-nos a todos os seus admiradores e amigos que ainda recordam os belos momentos que passaram a ler as suas histórias.

Lanças n'África + Sangue português+Sanceau

Sobre esta época da nossa História — primeira etapa da expansão ultramarina e das conquistas de praças-fortes aos inimigos tradicionais, os Mouros, que era mister combater por causa da sua religião e do comércio de especiarias com o Levante — há três livros que registei na memória e que se lêem como autênticos romances de aventuras: Lanças n’África e Sangue Português, antologias de contos de Henrique Lopes de Mendonça — um dos mais notáveis romancistas históricos do século passado e autor da letra do Hino Nacional —, e Os Portugueses em Marrocos, da escritora inglesa Elaine Sanceau, que viveu muito tempo no nosso país e dedicou várias obras ao império colonial português e às suas figuras mais importantes, sendo, por isso, muito elogiada (e condecorada) por Salazar.

Nota: Agradecemos, mais uma vez, a Carlos Gonçalves a sua amável colaboração, ao enviar-nos prontamente seis páginas do episódio publicado em 1960 no Camarada.

 

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

A BATALHA DE ALJUBARROTA E A ALA DOS NAMORADOS

DIABRETE 733Há algumas datas históricas que vale a pena recordar e celebrar, pelo que representam para a nossa identidade como nação secular, altiva e independente, mesmo quando não são (ou já deixaram de ser) feriados nacionais. Uma delas é a da batalha travada em Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, entre as fracas hostes (mas o fraco fez-se forte, como cantou Camões) do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o imponente exército castelhano que, na mira de se apoderar do frágil reino governado por um jovem monarca — escolhido pelas Cortes, na qualidade de Mestre de Avis, para suceder a    D. Fernando —, entrara com grande alarde por terras da Beira, abrindo triunfalmente caminho até ao sul, no intuito de pôr cerco a Lisboa.

Nos nºs 734 a 785 do Diabrete (1950/51), Fernando Bento, então no auge do seu estilo pleno de fluidez, sobriedade e movimento, narrou de forma magnífica a vida e os feitos do Condestável, a cuja nobreza, patriotismo e valentia Portugal ficou a dever, nesses tempos heróicos e conturbados, a manutenção da sua independência.

DIABRETE 767 e 769

DIABRETE 770 e 771

Cav Andante 67Outro popular semanário juvenil, o Cavaleiro Andante, dirigido também por Adolfo Simões Müller, escritor e poeta de forte veia nacionalista, depois de ter dado à estampa no nº 67, de 11/4/1953, uma página magistralmente ilustrada por Fernando Bento, com estâncias d’Os Lusíadas alusivas à “incerta guerra” que “uns leva a defensão da própria terra, outros a esperança de ganhá-la”, voltou a assinalar essa gloriosa efeméride, apresentando nas páginas centrais do seu    nº 241, de 11/8/1956, um magnífico poster a cores, com a assinatura de José Manuel Soares, dedicado à maior vitória do Exército português contra um inimigo numérica e militarmente muito superior, mas que foi completamente destroçado pela bravura e tenacidade das nossas hostes e pela ardilosa estratégia do Condestável.

Cav. Andante 241

Ala dos namorados azulejo copyNesse mesmo número, o Cavaleiro Andante tinha em publicação o episódio histórico “A Ala dos Namorados”, baseado na obra homónima de António de Campos Júnior, cujo tema era a luta de um punhado de jovens patriotas — dos quais fazia parte o célebre Álvaro Coutinho, o “Magriço” — em defesa da independência, durante a crise de 1384/85 (depois das revoltas populares contra Leonor Teles e da morte do conde Andeiro), culminando na batalha de Aljubarrota, em que participaram a fina-flor da nobreza, a peonagem, besteiros e lanceiros endurecidos por muitos combates, e a juventude heróica que ardia no desejo de expulsar os castelhanos invasores.

Cav Andante 220   A obra de Campos Júnior foi adaptada por uma excelente dupla formada por Artur Varatojo e José Manuel Soares, que nas páginas do Cavaleiro Andante souberam retratar com emoção, fiéis ao espírito do romance (embora cometendo a proeza de condensar em 24 pranchas uma obra tão extensa), aquele que foi, no meio de inenarráveis sofrimentos e de graves ameaças externas — como o bloqueio naval do Tejo por uma poderosa frota castelhana, aliado à peste e à fome causadoras de inúmeras vítimas entre a população de Lisboa —, um dos períodos mais negros e, ao mesmo tempo, mais triunfantes e decisivos da História de Portugal.

Cav Andante 239 e 240

Cav Andante 241 e 242

Ant BD Portuguesa820Apresentada entre os nºs 218 e 249 do Cavaleiro Andante, com algumas páginas a cores e outras a preto e branco, “A Ala dos Namorados” foi reeditada em 1986 num volume da Antologia da BD Portuguesa (Editorial Futura), enriquecido com textos de Artur Varatojo e de Luiz Beira e uma magnífica capa de José Manuel Soares, reprodução de um quadro a óleo que este fecundo e versátil artista, nome consagrado da pintura e da “época de ouro” da BD portuguesa, expôs no Mosteiro da Batalha.

Em 1956, o Mundo de Aventuras — que no campo da BD histórica de produção nacional procurava tomar a dianteira ao seu rival Cavaleiro Andante — publicou também uma vida do Santo Condestável, em páginas com três vinhetas uniformes intercaladas por farta prosa, da lavra, ao que supomos, do seu director José de Oliveira Cosme, humorista, poeta, músico, homem da Rádio, tradutor e autor de livros de multifacetada espécie e colaborador de várias publicações infanto-juvenis, desde os anos 30, em que foi chefe de redacção do semanário O Senhor Doutor.

ma 375 830Os desenhos dessa narrativa ilustrada, dada à estampa nos nºs 374 a 385 do Mundo de Aventuras, eram da autoria de um dos melhores artistas da “casa”, o ainda jovem Carlos Alberto, cujo talento se espraiava já por colecções de cromos — como a famosa História de Portugal —, capas de livros e revistas, ilustrações de contos, histórias aos quadradinhos, traçando firmemente um assinalável percurso artístico que, mais tarde, se consumaria numa das artes mais nobres e consagradas, a Pintura, em que granjeou ainda maior reputação, com trabalhos que figuram em numerosas colecções nacionais e estrangeiras.

Talvez por ter renunciado cedo à BD, Carlos Alberto não se considera um desenhador como muitos outros, embora reconheça que ficou a dever à narração figurativa (também chamada 9ª Arte) a experiência, o rigor e os conhecimentos — a composição das cenas e o movimento das figuras, por exemplo — que lhe permitiram fazer um certo tipo de pintura.

ma 383e 384

Um dos Quadros da História de Portugal, realização de Carlos Alberto (com o pseudónimo de M. Gustavo), que o Jornal do Cuto publicou em separata no nº 34, de 23/2/1972, retrata de forma intensamente realista o desfecho da batalha de Aljubarrota, com el-rei D. João prostrado pela fadiga e pela emoção da vitória, diante do estandarte castelhano que Antão Vasques, um dos bravos oficiais das suas hostes, lhe veio depor aos pés.

Jornal Cuto 34Outros nomes ilustres da BD portuguesa, como Vítor Péon, José Garcês, José Ruy, José Antunes e Artur Correia (este em registo obviamente humorístico), também evocaram os feitos de Nuno Álvares Pereira e, em particular, a batalha de Aljubarrota, mas reservamos alguns desses trabalhos, dispersos em revistas e álbuns, para um próximo post.

Queremos, porém, num preito à memória do saudoso Mestre Vítor Péon, apresentar, como condigno remate deste artigo, a sua vigorosa reconstituição da célebre batalha, tal como foi publicada, com uma nova página, no Mundo de Aventuras nº 358 (2ª série), de 14/8/1980. A versão original pode ler-se no Tintin nº 2 (1º ano), de 8/6/1968.

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A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 1

Capa TintinPor curioso ou invulgar que pareça, o facto é que vários desenhadores estrangeiros, uns mais conhecidos do que outros (ou absolutamente anónimos), já abordaram temas da nossa História Pátria, sobretudo os belgas — como, por exemplo, Fred Funcken, Fernand Cheneval, Jean Torton, Eddy Paape, Felicísimo Coria —, mas também artistas italianos, franceses, espanhóis, mexicanos (entre aqueles que conheço), com especial predilecção pelas figuras mais carismáticas do nosso passado: Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, Bartolomeu Dias, Infante D. Henrique, Infante Santo, Luís de Camões, Inês de Castro, Bartolomeu de Gusmão, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, etc.

Algumas dessas histórias, com poucas páginas e de cariz eminentemente documental e biográfico (mas de leitura amena e instrutiva, vertente que também se deve enaltecer, pois é uma das melhores formas de divulgação histórica, científica e de outros tópicos), surgiram entre nós no Tintin, no Pisca-Pisca e no Mundo de Aventuras (2ª série), com a assinatura de conceituados mestres da BD europeia, como os que atrás citámos, colaboradores habituais do Tintin e do Spirou belgas, onde a tradição das histórias curtas de cariz biográfico perdurou durante muitos anos.

21887_138184_3 copyO seu inegável sucesso ficou   a dever-se, nomeadamente,    à famosa série “Les Belles Histoires de l’oncle Paul”, iniciada em 1951 no Spirou, por Jean-Michel Charlier e Eddy Paape, e retomada  por Octave Joly e uma legião de desenhadores, na sua maioria belgas, muitos dos quais fizeram aí o seu tirocínio, antes de se abalançarem a outros (e mais largos) voos.

Nesta nova rubrica do Gato Alfarrabista, tencionamos divulgar alguns desses episódios oriundos do Tintin e do Spirou, já publicados ou ainda inéditos entre nós, começando por uma das “belles histoires de l’oncle Paul”, dedicada àquele que é um dos símbolos máximos da nossa identidade humanística, social e cultural como nação independente e secular: Luís de Camões (ou Luis de Camoëns, em francês e castelhano).

Los Lusiadas431No caso do autor d’Os Lusíadas, a sua obra que ganhou projecção universal também foi adaptada à BD por desenhadores portugueses (José Ruy), italo-brasileiros (Nico Rosso) e mexicanos (Juan Manuel Campos). E deve haver mais…

Resta acrescentar que George Langlais (Gal) é o nome do desenhador da curta biografia que a seguir apresentamos, “Camoëns, le poète soldat”, publicada no Spirou nº 853, de 19 de Agosto de 1954, e até hoje inédita entre nós.

Pormenor curioso: nesta versão, Camões não usa a venda no olho direito, como é vulgarmente retratado, embora o desenhador (e o anónimo argumentista) não se tenham esquecido de referir o incidente bélico em que o nosso vate perdeu essa vista. Distracção ou simplesmente falta de rigor?

Camões, le poète soldat - 1 e 2

Camões, le poète soldat - 3 e 4