REPORTAGEM DO GRANDE ENCONTRO NO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA

Nota prévia: na impossibilidade, que humildemente reconhecemos, de melhor descrever o memorável evento levado a efeito pelo CPBD na sua nova sede, em 15 do corrente mês de Outubro — com uma palestra proferida por um ilustre convidado, o Dr. António Mega Ferreira, e a inauguração simultânea de três magníficas exposições (que os visitantes do Festival da Amadora também não devem perder) —, transcrevemos, com muita admiração e amizade, o expressivo texto do Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, publicado no seu blogue Largo dos Correios, que continua a ser um sítio de paragem obrigatória e prolongada, nas nossas frequentes rondas pela Internet.

A curiosa foto-montagem que documenta o aludido evento é também obra do Professor Martinó, mas infelizmente, por razões de espaço, já conhecidas dos nossos visitantes habituais, não podemos apresentá-la na íntegra, remetendo-os, por isso, para o Largo dos Correios (https://largodoscorreios.wordpress.com/2016/10/19/cpbd-quatro-em-um/) e para A Montra dos Livros (https://amontradoslivros.wordpress.com/2016/10/26/reportagem-do-grande-encontro-no-clube-portugues-de-banda-desenhada/), onde foi reproduzida a reportagem que Luiz Beira fez para o seu blogue BDBD.

CPBD – Quatro em um!

por António Martinó

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Na tarde do passado sábado cumpriu-se o anunciado programa organizado pelo Clube Português de Banda Desenhada na sua sede da Amadora. E creio que o comentário pessoal que se impõe à partida é a recomendação aos dirigentes para que dotem as instalações de maior abundância de cadeiras a fim de que todos os assistentes possam ter lugar sentado…

Esta é uma ligeira e simpática ironia que, no entanto, reflecte com rigor o êxito da iniciativa. Nunca tinha visto tanta gente interessada na sede, incluindo talvez o próprio dia festivo da inauguração.

A verdade é que a oferta programada era aliciante, com três exposições e um colóquio, quase um festival…

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Diversificado por diversas salas, o espaço dedicado à Star Wars (Guerra da Estrelas) contém uma panóplia muito variada de produtos relacionados com o autêntico mito em que a série se foi tornando ao longo dos anos. As figuras dos heróis, os cromos coleccionáveis de caderneta, os brinquedos, os jogos e as colecções de revistas e álbuns ocupam uma parte considerável da mostra, que integra expositores horizontais e painéis nas paredes. Confesso que não sou propriamente um fã do tema, pelo que me impressionou sobretudo a variedade apresentada e a atenção a esta dedicada.

Já quanto à exposição organizada com pretexto no ABC-zinho foi bem maior o meu interesse, até porque um armário cheio de fragmentos desses jornais, nas suas várias séries, constituiu um dos encantos da minha velha casa de infância e juventude portalegrense. Nomes e obras dos seus maiores criadores nacionais, e tantos foram, Cottinelli Telmo, Henrique Marques Júnior, Ana de Castro Osório, Stuart Carvalhais, Rocha Vieira, Emérico Nunes, Carlos Botelho, Ilberino dos Santos, Amélia Pai da Vida, António Cardoso Lopes, Filipe Rei e outros, preenchem o fascinante conteúdo de várias das páginas expostas, numa interessante e completa retrospectiva. Mas também alguns criadores estrangeiros como Alain Saint-Ogan, George Edward, A. B. Payne e Louis Forton, sobretudo, estão ali representados.

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Num magnífico e oportuno complemento às páginas do jornal, estão ainda expostas três construções de armar, devidamente montadas em três dimensões: um teatrinho de brincar (a sério!), um hidroavião e um presépio. Fica assim muito bem documentada a riqueza das separatas então divulgadas.

O ABC-zinho desempenhou nos tempos pioneiros da crónica dos quadradinhos nacionais um relevante papel que o CPBD em boa hora agora recordou, quando se aproxima a efeméride do seu centenário.

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Mas a exposição rainha é a dedicada a Fernando Bento, um dos maiores criadores nacionais de banda desenhada portuguesa de todos os tempos. O seu papel dominante em jornais como o Diabrete e o Cavaleiro Andante, sobretudo, marcou-lhe um lugar incontornável na galeria das referências da nossa 9.ª Arte.

A inestimável cumplicidade da sua viúva, D. Arlete Bento, gentilmente presente, permitiu ao CPBD a apresentação de algumas dezenas de preciosos originais do autor, quase todos relativos à vastíssima produção publicada no Cavaleiro Andante e também no Diabrete, páginas ou pranchas de diversas aventuras originais ou adaptadas, assim como capas e cromos. Também alguns dos álbuns mais representativos e volumes ilustrados pelo mestre figuram nessa exposição bastante significativa, reveladora da sua arte muito expressiva. Verdadeiras obras-primas dos quadradinhos estão ali representadas. 

Tive a imensa ventura de, pelos anos 80 e a pretexto das primeiras realizações públicas do CPBD na antiga FIL, conhecer e privar com Fernando Bento. A sua extraordinária qualidade como criador de quadradinhos tinha uma contrapartida personalizada nas suas naturais modéstia e afabilidade. Guardo com carinho as preciosas dedicatórias com que enriqueceu o meu espólio de álbuns e outras memórias da BD, onde destaco o incontornável Beau Geste.

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Só por si, este trio de exposições seria bastante para marcar um dia inesquecível na crónica de um Clube agora renascido, com imparável dinamismo. Mas a tarde não se resumiu a este brilhante acervo cultural.

Convidado para o efeito, pontualmente compareceu o dr. António Mega Ferreira. Na sequência da série de depoimentos de ilustres personalidades de reconhecido destaque nacional na vida social, política e cultural, em boa hora iniciada com o dr. Guilherme d’Oliveira Martins, coube agora a oportunidade do cidadão a quem se devem, entre muitos outros notáveis desempenhos, a organização da EXPO’98 e as presidências do Oceanário de Lisboa e do Centro Cultural de Belém.

Mega Ferreira começou por se considerar um vulgar apreciador dos quadradinhos, sem direito a qualquer especial menção. Pura ilusão pois à medida que o seu aliciante discurso, espontâneo e cativante, se foi desenrolando e “aquecendo”, o que revelou foi uma invulgar sensibilidade e aproximação à banda desenhada do seu tempo, incluindo a actualidade. O Cavaleiro Andante e Fernando Bento, que constituíam a atmosfera de uma sala tornada quase mágica e irreal por aquele afectuoso desfilar de memórias, ganharam vida própria.

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O invulgar jornalista e laureado escritor revelou-se ali como um contista oral de primeira água, deslumbrando os atentos ouvintes que, repito, excederam os lugares sentados disponíveis.

Uma tarde invulgar e um pleno êxito ali aconteceram no passado sábado na Amadora, capital portuguesa da Banda Desenhada, título que ficou amplamente confirmado. Os membros do CPBD a quem se deveu a arrojada iniciativa, nomeadamente Carlos Gonçalves, Geraldes Lino, Moreno Martins, João Manuel Mimoso e outros que porventura omito e por isso me desculpo, estão de parabéns. O numeroso e valioso conjunto dos interessados presentes avalizou o valor do excepcional evento e terá servido de reconhecimento, gratidão e estímulo para as aventuras a continuar no próximo número…

                                                                                           António Martinó de Azevedo Coutinho

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