O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 3

EPÍLOGO (QUE ERA PARA SER UMA INTRODUÇÃO)

Em Janeiro de 2003, fui convidado pelas Edições Asa (que ainda não pertenciam ao Grupo Leya) para coordenar um livro dedicado a Vasco Granja, nome emblemático da comunicação social portuguesa nos últimos decénios do século passado, figura incontornável de programas de televisão e de colóquios, exposições e festivais de Banda Desenhada, que se realizaram, nessa época, um pouco por toda a Europa.

Granja livroPioneiro de uma abordagem mais intelectual à Narração Figurativa, 9ª Arte ou Banda Desenhada (termo que foi o primeiro a intro- duzir no nosso léxico), como se convencionou chamar, desde então, às tradicionais histórias aos quadradinhos, Vasco Granja foi alvo, nesse livro, de especial homenagem por diversos autores de BD, entre os mais notáveis do nosso meio, alguns dos quais (a maioria, aliás) ilustraram guiões escritos por mim, em que ele, Vasco, era a personagem principal.

Conseguimos reunir uma numerosa equipa — 14 desenhadores! —, mas outros ficaram de fora por razões várias que os impediram de aceitar o nosso convite. Uma delas foi a falta de tempo, por estarem ocupados com outros trabalhos. Tive, assim, de abandonar, com muita pena, algumas ideias já postas em prática e que eram destinadas a desenhadores específicos, aqueles que me pareciam ter mais aptidões ou predisposição para as ilustrar. O conto humorístico que publicámos neste blogue, com o título supra, em honra de outra grande personalidade da BD portuguesa, foi inspirado numa dessas ideias que não passaram do esboço de um guião.

A recente morte de Mário do Rosário — uma das figuras que participavam nessa história, ao lado de Vasco Granja e de outros ilustres comparsas — despertou-me memórias adormecidas e o desejo de construir uma narrativa, refazendo um tema que, há treze anos, não cheguei a concluir para ser transformado em imagens. Espero que o resultado, tanto tempo depois, seja digno da pequena homenagem que quisemos prestar a quatro grandes pioneiros da BD portuguesa, e em particular àquele cuja obra, como director e editor da emblemática 2ª série d’O Falcão, marcou também uma época.

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8 thoughts on “O “RALLY” DOS QUATRO MAGNÍFICOS – 3

  1. Amigo Jorge Magalhães,
    Não sabe o quanto me diverti ao ler esta reportagem, que eu desconhecia por completo!
    Fazer-se uma corrida entre os directores das 4 maiores revistas de banda desenhada da época é coisa que merece distinção pois, provavelmente, nunca mais se irá repetir, mais que não seja pelo facto de já não haver uma única revista portuguesa nas bancas, quanto mais quatro!
    Não percebi de quem é o texto (terá sido seu?) mas está cheio de humor e ironia, tornando a sua leitura num autêntico prazer. Principalmente porque o texto foca aspectos da personalidade de cada um dos intervenientes na corrida que os identificam de imediato: as gravatas espampanantes do Granja, por exemplo, ou a sua colecção de revistas autografadas que provocam excesso de peso à viatura (sabendo nós que o Granja era magríssimo!,,,) são um pormenor absolutamente delicioso.
    Foi pena não ter conseguido incluir esta história nesse álbum/homenagem ao Granja pois tenho a certeza que seria uma das de maior sucesso…
    Se algum dia pensar ainda em trabalhar este tema e precisar de um desenhador, pode contar com os meus humildes préstimos. Dava-me mesmo muito prazer desenhar esta história, embora eu pense que talvez o José Ruy (que conheceu, certamente, muito bem todas estas personalidades bedéfilas) estivesse mais talhado para se abalançar a isso…
    Obrigado por ter partilhado connosco esta preciosidade.

    Um grande abraço
    Carlos Rico

  2. Muito obrigado também, amigo Carlos, por mais uma vez nos brindar com os seus comentários, de forma tão efusiva, dando-nos assim um precioso estímulo para o trabalho que humilde e pacientemente fazemos. Antes de mais, devo esclarecer, para que não haja confusões — como já fiz num texto à laia de epílogo ontem mesmo publicado —, que esta reportagem é da minha autoria e que a “corrida dos quatro magníficos” é puramente fictícia, tendo nascido apenas na minha mente de argumentista 🙂
    Há 13 anos, quando coordenei o livro da Asa dedicado ao Vasco Granja (que ainda estava vivo e de boa saúde, tendo-nos prestado uma valiosa colaboração), lembrei-me de criar uma série de histórias curtas em que ele seria o personagem principal, vivendo peripécias também fictícias, mas inspiradas nalgumas das facetas mais marcantes da sua carreira e da sua personalidade, ambas tão ricas e multifacetadas. Devo dizer-lhe que ele próprio gostou imenso da ideia e do resultado final (embora só o tenha apreciado quando o livro lhe chegou às mãos), pois o elenco de desenhadores que foram convidados para ilustrar essas histórias era do melhor que, na altura, se podia escolher, a começar no Augusto Trigo e a acabar no Carlos Roque, passando pelo José Ruy, pelo Pedro Massano, pelo José Garcês, pela Catherine Labey, pelo José Pires e outros ilustres artistas. Foram 14 desenhadores ao todo e 12 dessas histórias tiveram guiões meus. Fartei-me de “esgalhar” para esse livro, mas ainda hoje é um dos trabalhos que recordo com mais satisfação, sobretudo por ter sido realizado em tempo recorde, graças à boa vontade e ao empenho de todos que aceitaram colaborar no projecto.
    O episódio que passados todos estes anos transformei numa reportagem sobre a fantasiosa corrida entre os quatro representantes das principais revistas de BD publicadas em 1972, era destinado ao Artur Correia, mas acabou por ficar na “gaveta” porque o Artur estava cheio de trabalho e não podia assumir esse compromisso, sabendo que tinha um prazo relativamente curto para entregar a história. Com grande pena minha, acabei por desistir de acabar o guião, mas a ideia ficou-me sempre na cabeça e agora, quando ocorreu o falecimento de Mário do Rosário, resolvi concretizá-la sob a forma de um conto humorístico, que foi escrito em poucos dias, como preito de homenagem a um grande editor que deixou saudades entre os leitores d’O Falcão, sobretudo aqueles que se deliciaram com as aventuras do famoso Major Alvega.
    Devo confessar que o que me deu mais trabalho foi escolher os carros dos anos 50 condizentes com a personalidade dos condutores, mas creio que a escolha acabou por ser acertada. Os cabeçalhos do conto foram criados pela Catherine, que com o Photoshop faz sempre um bom trabalho. Eu limito-me a dar sugestões…
    Quanto à ideia que me propõe — e que acolho com grande prazer — de realizar uma história de BD sobre o tema, como era meu propósito inicial, só vejo um senão, amigo Carlos: quem é que irá publicá-la? Ainda por cima dedicada a quatro personagens que, infelizmente, pouca empatia despertarão aos leitores actuais, mesmo o Vasco Granja, que tantos programas fez para a TV. Mas vou pensar no assunto, ponderando hipóteses, porque me agradaria imenso colaborar consigo, como sabe, nem que fosse numa história curta.

    Um grande abraço,
    Jorge Magalhães

  3. Amigo Jorge,

    É claro que se percebe que esta corrida é fictícia, pelas situações rocambolescas nela descritas e pelas características muito bem caricaturadas de cada um dos intervenientes. O que eu não percebi é que o texto era de sua autoria pois fiquei convencido que o Correio da Tarde existia mesmo (embora eu nunca tivesse ouvido falar deste jornal, não conheço todos os que se publicam, como calcula…) e que algum jornalista – com veia humorística, já se vê – tivesse escrito este texto em jeito de homenagem ao Mário do Rosário. Enfim, uma confusão minha, com a qual já se deve ter rido bastante, tanto quanto eu já me ri depois de ler o seu comentário aqui em cima.
    Bem, mas o que mais me chamou a atenção – agora que sei que o texto é seu – é o humor que o Jorge empregou neste pequeno conto, algo pouco vulgar na sua obra (com algumas excepções pelo meio). Um humor delicioso para quem conhecia os personagens ou pelo menos as revistas (como era o meu caso) mas que, como você diz e bem, pouco dirá aos leitores de agora.
    Quando lhe falei em desenhar essa história não pensei sequer em publicar o trabalho – até por esses motivos. A minha ideia era mesmo fazer por fazer, sem compromisso de espécie alguma, apenas pelo gozo que nos daria ver este conto transformado numa pequena banda desenhada.
    Mas como ninguém gosta de “trabalhar para o boneco” (nunca melhor dito), é claro que seria óptimo publicar esse trabalho em algum lugar, nem que fosse nos nossos blogues…
    Fica a sugestão e sobre isso iremos, eventualmente, falando.

    Grande abraço
    Carlos Rico

  4. Amigo Carlos,

    Não é para me gabar, mas já fiz alguns trabalhos humorísticos, que estão publicados não só no livro do Vasco Granja (com o Trigo e sua filha Irene, o Estrompa, o Zé Pires, o Carlos Roque) como noutras edições… mas o modelo escolhido foram sempre as histórias curtas.
    É bem provável que possamos, nós os dois, conjugar vontades para transformar este conto numa pequena HQ cómica, com os mesmos personagens e os mesmos ingredientes. Mas seria interessante ter hipóteses de a publicar numa revista, mesmo que à partida essa possibilidade esteja assegurada nos nossos blogues.
    Há 13 anos cheguei a escrever muitos diálogos da história, mas como o projecto não foi avante não os passei ao computador, e agora, passado tanto tempo, lembro-me lá do sítio onde guardei essas folhinhas de papel (se é que as guardei). Portanto, teria de reescrever tudo, embora o conto possa servir de “muleta” e ponto de partida. Fica a ideia no “ar”… e logo se verá!
    Quanto à sua confusão :-), congratulo-me por ter sido tão convincente ao ponto de fazer passar por “verdadeiro” o jornal (cujo nome foi inspirado no “Correio da Manhã”) que publicou essa reportagem fictícia. Se calhar, outros que a leram pensaram o mesmo… antes de eu ter publicado a 3ª parte com o epílogo, em que explicava tudo, precisamente para desfazer “confusões” 🙂
    Devo dizer que me deu muito gozo escrever este conto, numa modesta homenagem ao Mário do Rosário (que há 13 anos teria certamente gostado de ler uma história em que era um dos protagonistas) e a três outros grandes nomes da BD portuguesa (todos infelizmente já desaparecidos). Note-se, amigo Carlos, que em 1972 existiam uma data de revistas do género, embora o “Mundo de Aventuras”, o “Tintin”, o “Jornal do Cuto” e “O Falcão” fossem, sem dúvida, as mais carismáticas. Creio que, nessa época, já se publicava o “Jacto”, que era também uma boa revista. Quanto às de pequeno formato, como “O Falcão” (2ª série), essas proliferavam como cogumelos, a maior parte saídas da “forja” da Agência Portuguesa de Revistas, onde eu ainda não trabalhava, porque só no ano seguinte regressei de Angola. Bons e saudosos tempos, pelo menos no que tocava aos heróis, aos autores e aos editores de histórias aos quadradinhos!…

    Um grande abraço,
    Jorge Magalhães

  5. “Banda Desenhada (termo que foi o primeiro a introduzir no nosso léxico)” é uma ideia que continua a ser repetida e que não corresponde à verdade: localizei exemplos anteriores a ter começado sequer a escrever sobre o tema que provam que o Vasco Granja não foi o primeiro a utilizar o galicismo em Portugal. Terá sido antes (apenas) aquele que divulgou a expressão, e que acabou por se impor.

  6. Caro Leo,
    Obrigado pelo comentário e pela “achega” num assunto com interesse e de certa forma controverso, pois a verdade é que esses antecessores de Vasco Granja no uso do galicismo Banda Desenhada não foram citados, com o devido destaque, em trabalhos posteriores sobre o tema. Ou seja, nunca foi dada grande importância a esses exemplos. Corrija-me se estiver enganado…
    Portanto, o Vasco Granja, pelo uso sistemático (e quase “doutrinário”) que fez da expressão, em vários meios de comunicação social, é o que surge naturalmente vinculado a ela. Além disso, era, como sabemos, o que tinha mais contactos com o grupo de teóricos e divulgadores franceses que foram responsáveis pela criação do termo… o que quer dizer que estava mais ao corrente da sua origem e do seu significado do que os outros especialistas portugueses, de quem hoje poucos se lembram.
    Abraços,
    JM

  7. Caro Jorge,
    Tem razão quando diz que os antecessores de Vasco Granja no uso do galicismo “banda desenhada” não foram citados, em textos de investigação, nem com destaque nem aliás de forma nenhuma. Mas como sabe a pesquisa não pára, pelo menos para alguns de nós, mesmo em assuntos que julgávamos resolvidos, quanto mais naqueles onde havia dúvidas.
    E acontece que havia mesmo incertezas em relação à introdução da expressão, sendo que nem tudo está ainda claro. Lembro-me de ter falado bastante desta questão com o nosso falecido amigo José Antunes, que mais do que eu viveu a época dos anos sessenta e estava no “meio” gráfico, e que tinha imensas dúvidas que tivesse sido o Vasco quem teria importado a expressão cá para as nossas bandas! E até alvitrou pelo menos uma pessoa que poderia ter sido o verdadeiro responsável, só que faltavam provas. Podemos falar disto com mais detalhe, claro está, mas em modo private…
    Por causa justamente das dúvidas, não fui peremptório em afirmar nem infirmar que tivesse ou não sido ele o responsável pela referida estreia, nomeadamente no meu “Dicionário Universal da Banda Desenhada” e, no verbete referente à própria expressão, apenas indiquei como *exemplo* o primeiro artigo do Vasco, onde obviamente já a utilizava.
    Como já disse e confirmo, é certo que o Vasco Granja adoptou logo a expressão e passou a utilizá-la sistematicamente nos muitos artigos sobre BD que escrevia, adaptava ou traduzia (apesar de ter chamado ao seu próprio fanzine “Quadrinhos”, mais outro termo estrangeirado…). E era efectivamente nessa altura — segunda metade da década de 60, primeira de 70 — aquele que tinha mais contactos com os teóricos e divulgadores franceses. Até aí tudo certo.
    Por outro lado, note que a expressão original “bande(s) dessinées(s)” *não* foi criada por nenhum desses teóricos ou divulgadores franceses dos anos sessenta (responsáveis, sim, pela invenção da expressão “neuvième art” para designar a BD). Conhecemos e está bastante bem documentada a sua existência e utilização em França (e países francófonos) desde a década de 1930. A sua criação tem sido imputada a Paul Winkler, o patrão da agência de distribuição Opera Mundi. E mesmo nisso há algumas dúvidas, sigh! Em todo o caso era uma espécie de tradução de “comic strip”.

  8. Caro Leonardo,
    Eu compreendo e aceito (por experiência própria) que em diversas matérias existam muitas dúvidas, sobretudo quando estão em causa nomes e datas, mas neste caso, pelo menos até agora, sempre se admitiu publicamente que a expressão “banda desenhada” tinha sido introduzida em Portugal pelo Vasco Granja. Ele próprio o afirmava categoricamente, sem esconder o seu orgulho, o que me parece uma atitude natural…
    Cito o que você escreveu em dois verbetes do seu excelente e incontornável “Dicionário Universal da Banda Desenhada” (infelizmente há muito esgotado): pág. 19 – Banda Desenhada: galicismo referente às histórias por imagens, introduzido em Portugal na segunda metade dos anos 1960 (artigo “O Mundo Maravilhoso da Banda Desenhada” por Vasco Granja, no jornal Diário Popular, de 19 de Novembro de 1966) […]; pág. 78 – […] No campo do fandom da banda desenhada, que os anglófonos também designam por comicdom, Portugal seguiu o movimento mundial, especialmente aquilo que se passava justamente em França desde o início dos anos 1960, e os primeiros artigos com alguma regularidade na imprensa começaram em meados dessa década, assim como depois na edição nacional da revista Tintin, impondo também a própria expressão banda desenhada, sobretudo por obra de divulgadores como Vasco Granja […].
    Cito também uma passagem do seu artigo “O Mundo Maravilhoso de Vasco Granja” (que belo título) dado à estampa no livro das Edições Asa, já aqui mencionado: pág. 8 – […] Por meio das suas amizades no cinema de animação tomou contacto mais próximo com o universo das histórias aos quadradinhos, movimento que despontava então na Europa. No jornal Diário Popular de 19 de Novembro de 1966, surgiu o seu texto “O Mundo Maravilhoso da Banda Desenhada”, onde introduziu a própria expressão francófona na língua portuguesa […].
    Quando os dois livros saíram (2010 e 2003, respectivamente), parece, pelos textos citados, que havia poucas dúvidas quanto à “paternidade” do galicismo “banda desenhada”… É claro que, perante uma opinião tão abalizada como a sua, não me recuso a admitir que tenham surgido, entretanto, novos indícios de utilização do termo antes da data atribuída a Vasco Granja. Mas que ecos tiveram, então, essas referências? Nenhuns…
    Venha quem vier (a mero título de curiosidade), isso em nada modificará o que é óbvio. Foi o Vasco, com o sistemático e convincente uso da expressão, que a radicou no léxico e no imaginário dos amantes das histórias por imagens (e do público em geral). Eu próprio a utilizei, como sabe, em artigos publicados em Luanda, nos finais dos anos 1960 (ainda sem conhecer o artigo do Diário Popular, pois vários jornais da metrópole não chegavam a Angola, a não ser por assinatura). E para o bem ou para o mal, esse termo assim ficou, substituindo uma expressão mais “legítima” e genuína, que nenhum “puto” dos anos 40 ou 50 desconhecia, porque não foi inventada por nenhum teórico mas por eles próprios…
    Olhe que este tema até dava um artigo alargado e com bastante interesse – a assinalar a efeméride, em Novembro próximo, de 50 anos decorridos sobre o “nascimento” em Portugal da expressão “banda desenhada”… ou a corrigir essa data.

    Um abraço,
    JM

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