THE HOUSE OF CORTO MALTESE

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“O marinheiro da BD ganhou casa no Cais do Sodré”

Artigo de Mara Gonçalves (Público, suplemento Fugas, em 6/8/2016)

“Hello! You are in the House of Corto Maltese. Who you are? You want to come to the discovery of the world of Corto Maltese? You are in Lisbona. Lisbona.”

Neste bar quase tudo se inspira nas aventuras da mítica personagem de banda desenhada criada por Hugo Pratt, desde o nome à decoração ou à carta de cocktails. Até este velho telefone, que nos interpela na casa de banho com uma voz entre o fantasmagórico e o vilanesco, definitivamente surreal.

“Rasputin, is you? Give me the letter I want. We need this map to discover the secret.”

A gravação, em loop contínuo, é a mais recente criação artística de Filipe Dias, o capitão-mor deste pequeno navio atracado desde o final do ano passado na Rua da Boavista, em Lisboa. “Não era aquele fã, mas sempre tive uma pequena paixão por esta personagem”, conta o designer de 42 anos. Daí que Corto Maltese — e o amigo e rival Rasputin — tenham sido a escolha natural quando quis homenagear os marinheiros que outrora navegavam pelas ruas do Cais do Sodré, aqui a dois passos, então bairro de prostitutas e má fama.

Um pouco por todo o espaço há, por isso, objectos que remetem para o universo dos barcos e das grandes aventuras pelo mundo e, claro, recortes das bandas desenhadas e colecções encadernadas das histórias criadas por Pratt, nos anos de 1970-90. Na parede, um mapa surge em destaque para assinalar as Viagens de Corto Maltese, mas, entretanto, “as pessoas começaram a pôr os países de onde vinham ou que tinham visitado”. Pioneses coloridos despontam do México, da Colômbia e do Brasil, do Mali, de França, Japão, Irão ou da Tailândia.

Na lista de bebidas, mais mundo. Runs, vodkas e gins chegam às prateleiras vindos dos quatro cantos do planeta. Só os vinhos são todos portugueses, maioritariamente do Alentejo e de Lisboa. Mas até aqui Filipe Dias procura ter, “por norma”, marcas “difíceis de encontrar noutros bares e que não sejam vendidas nas grandes superfícies comerciais”. E, depois, há cocktails com nomes inspirados no universo Corto Maltese, sempre feitos à base de rum, lima, mel e açúcar amarelo.

Corto Maltese no Cais do Sodré

Ainda está softly open — como se lê na porta envidraçada — e tudo manter-se-á “sempre em mudança”, da decoração às cartas de bebidas e de petiscos (há sempre algo para forrar o estômago, mas sem menu fixo, indo de fatias de pizza a conservas ou sandes de presunto). A ideia é criar um “espaço cool”, onde as pessoas possam vir “conhecer um pouco a história do comic”. Mas também “um pouco da história do bairro”. As duas homenagens misturam-se numa profusão de objectos antigos, colagens, pinturas, camadas, sobreposições e pormenores que se acumulam em cada recanto, num estilo descontraído e despretensioso.

“Queremos mostrar que, mesmo com pouco orçamento, é possível fazer uma homenagem aos sítios que estão a desaparecer em Lisboa e na Europa porque os novos senhorios compram [os espaços] e, sem saberem a história, fazem tudo de novo e completamente diferente daquilo que eram”, conta o responsável.

Os balcões vieram de casas vizinhas, os copos desemparelhados sentam-se em velhas mesas de costura (as máquinas foram cobertas de dourados ou rosa fúcsia e os carros de linhas substituídos por rolhas de cortiça), pequenas televisões transmitem filmes a preto e branco, há telefonias e máquinas registadoras de outros tempos. O bar é também uma espécie de showroom do trabalho da CortoMundo, empresa de design liderada por Filipe Dias, que criou algumas das peças transformadas. “Está tudo à venda, é uma questão de falarmos”, ri-se Filipe Dias.

Corto Maltese nunca passou por Portugal nas suas aventuras além-mar, mas Hugo Pratt viajou pelo país várias vezes. Numa entrevista ao Público, em 1992, o autor italiano, que viria a falecer três anos depois, defendeu que a capital lusa tinha “mudado muito”. “Antes, Lisboa era uma cidade cosmopolita, depois tornou-se uma cidade turística.” Portugal tinha-se tornado “um produto de postcard e folclore”. Nunca saberemos o que Pratt diria desta House of Corto Maltese, mas deixamos a imaginação fluir numa viagem no tempo da sua obra e do país, até a música nos embalar por outras paragens longínquas.

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