COMO TINTIN APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS

O Papagaio nº 3 (Tom)Já não é novidade para ninguém que Portugal foi o primeiro país não francófono a traduzir as aventuras de Tintin, graças a uma feliz conjugação de gostos e de vontades, entre o Padre Abel Varzim, que frequentara no início dos anos 30 a Universidade de Lovaina, onde conheceu a obra de Hergé, e Adolfo Simões Müller, director da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença.

A influência de Abel Varzim foi decisiva na compra dos direitos de Tintin para Portugal, como comprova a sua correspondência trocada com Hergé, mas é igual- mente verdade que Simões Müller ficou tão interes- sado como ele na publicação das aventuras do juvenil repórter que tanta celeuma levantara com a sua viagem ao país dos Sovietes — a primeira de muitas, pois na pele de destemido aventureiro iria correr meio mundo e viver extraordinárias peripécias, defrontando sinistros inimigos e fazendo também inúmeros amigos, entre os quais alguns companheiros inseparáveis.

O Papagaio nº 15 (Tom)O Papagaio, como ficou honrosamente registado nos anais da BD portuguesa, era uma revista para miúdos com um assinalável conteúdo artístico e literário. Naquele tempo de “vacas magras” para a imprensa infantil, nenhuma outra revista do seu género, nomeadamente o Tic-Tac e O Senhor Doutor, conseguia rivalizar com o colorido, a graça e o primor gráfico e estético estampados em todas as suas páginas.

Era, na época, finais dos anos 30, um dos maiores encantos dos miúdos, mesmo daqueles que ainda não andavam na escola, e as mães, os pais, os amigos, os professores, aconselhavam vivamente a sua leitura, como útil e pedagógico instrumento de aprendizagem das primeiras letras (e primeiras artes). Muitos lares portugueses em que havia crianças tinham, naquele tempo, o lúdico hábito de comprar semanalmente O Papagaio, que era, na sua fase inicial, a revista infantil de maior tiragem e expansão.

Quando eu nasci, já O Mosquito reinava nas preferências da miudagem, que aprendera rapidamente a ler e achava O Papagaio caro demais para as suas modestas posses, pois custava 1$00, o dobro do que O Mosquito lhes oferecia em páginas recheadas de muito maior emoção. Enquanto que O Papagaio, de certa forma, representava a classe burguesa mais endinheirada, O Mosquito hasteava a bandeira dos mais pobres, dos mais humildes e necessitados. Democraticamente, acabaram todos por se juntar, por uma questão de interesses e de gostos, e O Mosquito tornou-se o campeão da popularidade, apesar de não ter nas suas páginas (bem mais modestas que as d’O Papagaio) um herói como Tintin.

O Papagaio (monografia)Mas voltando atrás, aos primeiros anos da minha infância, nunca esqueci os dias soalheiros passados a desfolhar um volume que a minha carinhosa madrinha me tinha oferecido e que eu alegremente, e sem grandes escrúpulos de consciência, “maltratei” tantas vezes que acabou por ficar num estado lastimoso. Era o primeiro volume d’O Papagaio, magnífica edição cartonada que se tornou uma valiosa raridade, e apesar dos danos que sofreu nas mãos de um garoto traquinas, com pouco mais de três anos, ainda hoje conservo o que dele resta.

Foi, sem dúvida, O Papagaio que despertou a minha ligação afectiva com os “bonecos” e as histórias aos quadradinhos, pois lembro-me perfeitamente de olhar maravilhado para alguns dos desenhos que enchiam de humor, encanto e fantasia as suas páginas, especialmente os de Thomaz de Mello (Tom) e José de Lemos, dois dos melhores colaboradores artísticos d’O Papagaio, cuja peculiar estilização gráfica despertou também as primeiras emoções estéticas noutros garotos da minha idade.

Papagaio 53Quando eu me encantava e divertia a folhear (e a recortar, colar e pintar) esse volume — cuja capa foi reproduzida num valioso trabalho monográfico de José Menezes, já com várias edições —, ainda não tinha tido nenhum contacto com a figura de Tintin, que só faria a sua entrada triunfal no nº 53 (2º volume) e era, então, um herói completamente desconhecido dos miúdos portugueses. Nenhum sabia a sua origem, nem o verdadeiro nome do seu autor. Verdade se diga que isso, para a maioria, não tinha importância, pois Tintin fora-lhes apresentado como um juvenil repórter e explorador português, cuja idade rondava os 15/16 anos, mas desem- poeirado, intrépido e capaz de se desenvencilhar como um adulto, em quaisquer circunstâncias.

Sendo um aventureiro de características tão independentes acabou por sair da esfera da ficção, tornando-se tão real como os outros heróis, de “carne e osso”, que a miudagem via no cinema. Portanto, não precisava de ter “pais”, nem bilhete de identidade, nem residência fixa, para ser credível como um herói d’O Papagaio que viajava por todo o mundo, um repórter de 1ª linha cujas crónicas eram publicadas em imagens, para lhes dar ainda maior realismo. Hergé e o director do Petit Vingtième contribuíram voluntariamente para essa dualidade, quando Tintin (em pessoa) desembarcou apoteoticamente na gare central de Bruxelas, regressado da sua famosa reportagem na União Soviética.

Papagaio 51A primeira aventura de Tintin em português estreou-se, como referimos, no nº 53 d’O Papagaio, dado à estampa em 16 de Abril de 1936, e foi também a primeira (coisa que não é novidade para ninguém) a ser publicada a cores no espaço europeu, o que agradou (como também se sabe) a Hergé, cada vez mais cordial no trato com Simões Müller.

Mas a primeira autêntica aparição de Tintin, com essa garrida paleta cromática que dava outro aspecto aos seus trajes de cowboy (visto que a aventura se desenrolava na América do Norte, em pleno país do famoso Al Capone), foi na capa do nº 51, de 2 do mesmo mês de Abril, onde já eram patentes as encrencas em que o nosso herói se ia meter.

A partir desse momento, mesmo sem abrir a boca, Tintin já começava a falar português, comportando-se até como um vulgar emigrante açoriano ou madeirense que tivesse demandado o Novo Mundo em busca da riqueza e das oportunidades que na sua terra escasseavam. E as suas aventuras continuaram a ser seguidas com entusiasmo pelos leitores d’O Papagaio, que viam nele um símbolo da coragem e do espírito nómada e aventureiro que tinham feito a grandeza lusíada noutras eras.

Papagaio 115 e 138Português de adopção, por obra do Padre Abel Varzim e de Adolfo Simões Müller, português ficou enquanto andou a saltitar de revista em revista, d’O Papagaio para o Diabrete e deste para o Cavaleiro Andante, depois para o Foguetão e o Zorro. Só mais tarde, com uma pequena mudança ortográfica no “registo civil” (à qual, a bem dizer, ninguém ligou importância) regressou às origens, recuperando o seu estatuto mítico de “cidadão universal”.

Papagaio 366 087

Nota: Agradecemos a Leonardo De Sá algumas correcções feitas a este texto (ver 1º parágrafo) e aconselhamos a leitura do seu comentário. A capa d’O Papagaio comemorativa do seu 7º aniversário (na imagem supra), é de um dos mais jovens e talentosos colaboradores desta revista, precocemente desaparecido: Güy Manuel.

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3 thoughts on “COMO TINTIN APRENDEU A FALAR PORTUGUÊS

  1. Caro Jorge: Óptimo artigo, como de costume. Passo a pequena gralha no nome próprio do Hergé, mas no entanto julgo que convinha sobretudo não repetir ou transmitir a falsa ideia (que se encontra noutros sítios) de que o Abel Varzim alguma vez teria frequentado ou conhecido o próprio Georges Remi, ou sequer se correspondia com ele. Claro que não foi esse o caso e isso está patente logo na primeira carta que lhe endereçou para se apresentar, um escasso mês apenas depois do começo da publicação d’O Papagaio, para explicar o que era a novel revista católica infantil e solicitar os direitos de reprodução da série, de preferência a preço reduzido, epístolas e detalhes que conhecemos graças à reprodução pelo holandês Jan Aarnout Boer em “De Avonturen van Kuifje in Portugal” (apesar da oposição dos herdeiros, viúva alegre e segundo marido…). Enfim, alguns exemplos de textos portugueses equivocados no que diz respeito ao assunto:
    http://www.dn.pt/artes/livros/interior/o-padre-abel-varzim-o-papagaio-e-as-cores–1672822.html
    http://tintinofilo.weebly.com/o-papagaio.html
    http://www.rtp.pt/noticias/cultura/tertulia-na-amadora-celebra-os-85-anos-de-tintin-personagem-de-banda-desenhada_n719913
    Na realidade, Abel Varzim conheceu quando estudante em Louvain apenas a “obra”, ou seja as próprias histórias do Tintin, através da versão original no Petit Vingtième, de que era assinante (nem menciona os primeiros álbuns da Casterman, porque claramente não os conhecia). E jamais se encontrou com o desenhador nem se correspondia de todo com ele, mas graças àquele contacto por carta — chamemos-lhe profissional — tivemos o Tintin em primazia em Portugal e ainda por cima em quadricromia! Já agora, antes da estreia nacional da própria história que menciona, no Tim-Tim na América do Norte no nº 53, a primeira menção ocorreu n’O papagaio num anúncio na separata do nº 49 e depois na capa do nº 51 da revista infantil O Papagaio, ligada à revista católica Renascença e não, como indica, à emissora Rádio Renascença que ainda nem sequer existia quando do aparecimento da publicação em 1935 — note que as emissões de rádio d’O Papagaio começaram por isso mesmo na Emissora Nacional. E talvez conviesse deixar explícito que é criação absolutamente portuguesa a excelente capa reproduzida no final do seu texto, relativa ao 7º aniversário, da autoria do talentoso Güy Manuel, já em final da malograda e meteórica carreira, cujo nome não está sequer indicado nas palavras-chave do post…

  2. Caro Leonardo,
    Obrigado pelo seu comentário, como sempre oportuno e concludente, ajudando a desfazer algumas confusões que, de facto, estão disseminadas por vários sítios (onde eu infelizmente tropecei). Ficam, pois, esclarecidas as relações (meramente profissionais) do padre Abel Varzim com Hergé, mas isso não invalida que este e Simões Müller tenham trocado alguma correspondência, de carácter mais pessoal.
    Não compreendo a sua alusão ao nº 51 d’O Papagaio, pois no post está bem patente a capa desse número, que é realmente aquela em que aparece pela primeira vez a figura de Tintin e a assinatura de Hergé. Infelizmente, não tenho a separata do nº 49, mas agradeço a sua informação, sempre útil para os tintinófilos mais fervorosos.
    A referência à “emissora católica Rádio Renascença” foi puro deslize meu, confundindo “Roma” com “Pavia”… Obrigado também pelo reparo. Quanto à capa d’O Papagaio assinada por Güy Manuel, reproduzi-a apenas a título de curiosidade, com a ideia de lhe dar mais tarde um destaque maior, assim como ao seu malogrado autor.
    Mas a sua nota a propósito é uma justa homenagem.
    Abraços,
    JM

  3. O reparo de LDS é importante pois essa confusão é habitual e assim fica o alerta (aconselhava-o também a indicar na parte final do post que a autoria do desenho final é de Guy Manuel) procurando na net encontrei um texto do jornal Público que refere esses contactos iniciais e que também usou como fonte a publicação “De Avonturen van Kuifje in Portugal” que deveria ser lançada em Portugal caso não houvesse os problemas com os direitos – – http://tintinemportugal.blogspot.pt/2012/11/centenario-de-herge-portugal-foi-o.html

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