OS HOMENS E A HISTÓRIA – 3

A SAGA DE LEIF ERIKSON

Leif Erikson descobre a América (quadro de Christian Krohg)

Apresentamos hoje mais um artigo que foi publicado, há algumas décadas, no desaparecido vespertino A Capital — com texto meu e uma ilustração de Augusto Trigo —, subordinado ao título Histórias da História, comum a essa série de artigos que dediquei a figuras e a factos heróicos do passado que estimularam a minha imaginação — como os relatos da aventurosa viagem de um destemido navegador Viking, Leif Erikson em retratode seu nome Leif Erikson, que pela primeira vez pisou solo americano e desbravou a orla de um continente desconhecido onde outros navegadores europeus, chefiados por Cristóvão Colombo (um nome bem mais célebre), só chegariam 500 anos depois.

Nem sempre a História faz justiça aos mais audazes pioneiros, àqueles que enfrentaram, em épocas remotas, os perigos dos oceanos e das longas travessias, sem bússolas, sem astrolábios e sem outros instrumentos de navegação, guiados apenas pela sua coragem e pelo seu ardente desejo de chegar cada vez mais longe, de sulcar mares desconhecidos, de avistar novas terras e descobrir imensas riquezas… mas cujos feitos, no caso de Leif Erikson (ou Leif-o-Feliz), ficaram obscuramente registados em sagas e canções nórdicas, escritas numa linguagem muito menos universal do que a de Homero.

Os Homens e a Histórias - cabeçalho

LEIF ERIKSON E O CONTINENTE MISTERIOSO

Texto: Jorge Magalhães ¤ Ilustração principal: Augusto Trigo

Leif Erikson (drakkar)Quatrocentos e noventa e dois anos antes de Cristovão Colombo, já a América do Norte era conhecida por um povo guerreiro da Europa Setentrional: os Vikings. Sabe-se hoje que foi Leif Erikson o primeiro navegador que explorou essas paragens, dando-lhes o nome de Vineland, isto é, “Terra dos Vinhedos”.

Leif era filho do norueguês Erik Rauda, por alcunha Erik-o-Ruivo (ou Erik-o-Vermelho), que com toda a sua família emigrou para a Islândia em meados do século X. Certo dia, Erik, que segundo rezam as crónicas era de índole violenta, matou alguns homens numa disputa com os vizinhos. O Althing, Supremo Tribunal Viking, condenou-o ao exílio perpétuo, expulsando-o da ilha. Num pequeno barco, Erik e os seus velejaram para Oeste, durante muitos dias. A audaciosa viagem terminou junto das costas da Gronelândia, onde Erik desembarcou e estabeleceu uma nova colónia, chamando a esse continente, onde os invernos eram tão rigorosos como na Islândia, “Terra Verde”, não se sabe por que motivo, talvez saudoso dos verdes fiordes do seu país natal.

Brattahlid, a nova colónia, prosperou, no entanto, graças às frequentes trocas comerciais com a Islândia. Aí, Leif cresceu, vigoroso e feliz, tornando-se um campeão em todas as provas de destreza e um hábil caçador. O pai ensinou-lhe a ciência de navegar e aos dezoito anos Leif manifestou o desejo de conhecer a Noruega, pátria dos audaciosos Vikings cujo sangue lhe corria nas veias. A travessia do Oceano não teve obstáculos para ele. Num mês apenas repetiu a proeza de Erik e apresentou-se em Trondheim, onde o velho rei Olaf tinha a sua corte, com um barco carregado de peles e de presentes.

Leif Erikson em bronzeO rei recebeu-o com satisfação e deu todo o seu apoio ao projecto de colonizar a Gronelândia, que segundo Leif garantia a pés juntos era “uma terra verde, imensa, com boas pastagens”. Muitos  súbditos de Olaf, seduzidos por essas promessas, prontificaram-se a segui-lo, levando com eles uma nova religião: o cristianismo. E uma grande frota de drakkars (barcos a remos compridos e de proas altas, com uma única vela) acompanhou a embarcação de Leif até à sua nova pátria. Entre eles, seguia também o do nobre Bjarni, comerciante e navegador, que se juntou a Leif ao largo da Islândia. Mas uma tempestade separou os navios, fazendo Bjarni perder a rota e navegar para sudoeste.

Quando chegaram ao porto de Erik-o-Ruivo, Leif, desolado, deu ao pai a notícia de que um dos membros da frota se perdera. Mas, algumas semanas depois, a vela de um drakkar surgiu no horizonte. Eram Bjarni e os seus valentes companheiros. Arrastados pelas correntes e pelos ventos contrários, impelidos pelas formidáveis barreiras de gelo, tinham navegado para muito longe, para terras desconhecidas. Bjarni não se atrevera a desembarcar, mas tais maravilhas disse dessas terras que bordejara de perto, que Leif, entusiasmado, pensou logo em explorá-las. Claro que um Viking como Erik-o-Ruivo tinha de aprovar o projecto do filho, embora na sua idade já não pudesse acompanhá-lo. E Leif partiu com trinta e cinco homens decididos, em busca do continente misterioso.

Leif Erikson - Trigo 597

Durante muitas semanas navegaram entre icebergs de esmagadora imponência. O barco foi assolado por violentas tempestades. Os homens passaram tormentos de toda a espécie. Por fim, avistaram terra. Mas esta era pedregosa, desolada, sem vegetação. Chamaram-lhe Helluland, a “Terra das Pedras Chatas”, e corajosamente prosseguiram a viagem. Já não tinham forças nem provisões para regressar. Se fracassassem, ficariam para sempre perdidos no oceano, até que os deuses fúnebres viessem cobrar o seu tributo. Por fim, um belo dia, avistaram dois extensos promontórios verdes, uma baía larga e bem abrigada.

Estátua de Leif Erikson em St. Paul, Minnesota (EUA)Havia ali mais árvores do que em toda a Gronelândia. Desembarcaram e Leif mandou cortar madeira para construírem casas. O inverno aproximava-se e Brattahlid estava muito longe. Como a caça era abundante e os rios fervilhavam de peixes, sobretudo salmões, resolveram ficar ali até à Primavera. Leif, sempre audaz e previdente, organizou quatro grupos com a missão de explorarem o interior.

Todos os Vikings regressaram na lua nova, com excepção de Tyrker, um marinheiro natural do país dos Francos, que tinha fama de imprudente e costumava separar-se dos seus companheiros. Mas Tyrker apareceu pouco depois, dando pulos de alegria, como se estivesse embriagado. Encontrara uvas, grandes extensões de vinhas rubras como os cabelos de Erik! E mostrava as mãos cheias de cachos, perante o olhar atónito dos que já o julgavam morto…

Esse dia em que os Vikings provaram o sabor de um novo fruto pertence à História e à Lenda. As Sagas dos rudes homens do Norte falam-nos dele. As Sagas cantadas pelos bardos (scalds) nas longas noites de inverno, quando o vento e a neve varriam as grandes florestas da Escânia e os telhados de Eastbygd, a capital do reino de Erik. A Saga Eyrbiggia, a Saga de Thorwald, de Karlsefni e das novas terras, nos distantes mares do sul.

Em memória da descoberta de Tyrker, Leif Erikson pôs àquela região o nome de Vineland. E na primavera seguinte, já refeito das provações da viagem, regressou à Gronelândia. Entusiasmado com o que ouviu, Thorwald, outro dos filhos de Erik, organizou uma nova frota e partiu na esteira do irmão. Thorwald, em cujas veias corria também sangue aventureiro, esperava navegar ainda mais longe e descobrir outras terras. Mas esta segunda expedição foi menos feliz. Num primeiro recontro com os “peles-vermelhas” (a quem os Vikings puseram o nome de Skraellings), Thorwald foi mortalmente ferido. Os seus homens sepultaram-no em Vineland e, temendo novos ataques dos selvagens e aguerridos Skraellings, apressaram-se a regressar à Gronelândia.

Leif Erikson - selos de S.Tomé e Príncipe e EUANão seria essa a última expedição Viking ao “País dos Vinhedos”. Mas nenhuma tentativa dos guerreiros do Norte para se fixarem naquela terra verdejante e de clima hospitaleiro foi bem sucedida, por causa da animosidade dos Skraellings e das disputas entre os seus próprios chefes, que não possuíam a fibra nem a capacidade organizadora de Leif Erikson.

Há provas, hoje, de que as Sagas Vikings, as Sagas que falam de Erik e dos seus filhos, de Bjarni e dos seus companheiros, são verdadeiras. Em Agosto de 1898, em Salém (EUA), um lavrador de origem sueca, Olaf Ohman, ao abater uma velha árvore, descobriu sob as suas raízes uma pedra onde estavam gravados estranhos sinais semelhantes à escrita rúnica. Um professor da Universidade de Minnesota conseguiu decifrá-los. Soube-se, assim, que no ano 1000 tinha passado por ali um grupo de Vikings em jornada de descoberta para o interior. Esses homens estavam a catorze dias de marcha dos seus barcos.

Estátua de Leif Erikson em Newport (EUA)Hoje, a “Pedra de Kensington”, como se tornou conhecida, constitui uma das mais preciosas relíquias do Museu Nacional de Washington. E não é o único vestígio arqueológico que confir- ma o que narram as Sagas. Desde 1964 (por decisão do presidente Lyndon B. Johnson), celebra-se nos Estados Unidos, a 9 de Outubro, o Leif Erikson’s Day, assinalando a chegada do primeiro europeu à América do Norte. Leif tornou-se um herói nacional, com estátuas por toda a parte!…

Desde tempos remotos que os caminhos marítimos foram desbravados por homens atraídos pelo desconhecido, em pequenas e frágeis embarcações dos mais diversos tipos. E as mais temerárias dessas viagens perdem-se na noite dos séculos, embelezadas quase sempre pelo mistério e pela lenda. Antes de Leif-o-Feliz, talvez os Fenícios de Hannon, os primeiros que ultrapassaram as Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), tenham descoberto o caminho das Américas. Antes dos Fenícios, quem sabe se os Atlantes, esse misterioso povo desaparecido, antepassado de muitas civilizações do continente americano.

Cristóvão Colombo, o Genovês, somente cinco séculos mais tarde repetiu o feito de um punhado de Vikings que, além de rudes navegadores, eram também poetas e tinham nos olhos e no coração o amor da aventura, dos mares revoltos e das terras desconhecidas que se erguiam além do horizonte!

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