OS DOZE DE INGLATERRA – por E.T. Coelho (1)

Nos finais de 1950, O Mosquito — uma das mais antigas e famosas revistas da “época de ouro” da BD portuguesa — voltou a passar por profundas transformações, mudando de formato e aumentando o número de páginas (de oito para dezasseis), mas sem alteração do módico preço de 10 tostões (1 escudo), que mantinha simbolicamente há vários anos. O objectivo dessa mudança radical era continuar a atrair o interesse da rapaziada, oferecendo-lhe mais páginas e mais histórias pelo mesmo preço, embora o formato tivesse sido reduzido para metade, como na 2ª fase, publicada durante quase meia década — talvez a mais gloriosa da sua história —, entre Janeiro de 1942 e Dezembro de 1945.

A concorrência dos seus maiores rivais, como o Mundo de Aventuras (nascido pouco tempo antes, em Agosto de 1949) e o Diabrete (que já ia no 9º ano de publicação), foi, aliás, uma das razões mais fortes que ditaram essa decisão, largamente anunciada (e aplaudida pela esmagadora maioria dos leitores) nos últimos números do formato precedente, fazendo jus ao lema d’O Mosquito, tantas vezes repetido: Cada vez melhor!

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O principal colaborador artístico da revista continuava a ser Eduardo Teixeira Coelho, que deslumbrara a numerosa hoste dos seus juvenis admiradores com as magníficas adaptações de contos e novelas de Eça de Queirós publicadas pel’O Mosquito sem interrupção, desde o nº 1113: A Torre de D. Ramires (novela longa extraída do romance A Ilustre Casa de Ramires), O Defunto e O Suave Milagre.

12 Inglaterra Mosq 1280 704Histórias escritas por um dos maiores prosadores da língua portuguesa, que se transfiguraram, através do traço destro e harmonioso de outro extraordinário artista, numa obra-prima dos quadradinhos nacionais, digna até de chegar ao conhecimento de um público mais ecléctico e culturalmente mais amadurecido — como era o sonho de Raul Correia, grande promotor dessa fervorosa home- nagem ao insigne romancista que tanto admirava —, o que só viria a acontecer muitos anos depois, com a sua compilação em álbuns pelas editoras Vega e Futura.

No entanto, ao iniciar-se no nº 1201, de 27 de Dezembro de 1950, uma nova etapa, outra surpresa estava reservada aos leitores d’O Mosquito. Mas não foi o Eça que regressou às suas páginas, para mágoa de alguns — já contagiados pelo ritmo e pelo estilo lapidar da sua prosa —, embora E.T. Coelho continuasse presente, com outra excelente criação de ambiente histórico.

Tratava-se de uma narrativa com texto de Raul Correia, cujo enredo era baseado num tema conhecido de muitos jovens, sobretudo daqueles que já frequentavam o curso liceal, onde nas aulas de Português era obrigatória a leitura d’Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões que descreve, em estâncias imortais, alguns dos maiores feitos da nossa História.

12 Inglaterra Mosq 1288Inspirando-se na romântica e heróica gesta dos Doze de Inglaterra — um grupo de jovens cavaleiros da corte de D. João I, o Rei de Boa Memória, que foram a Inglaterra participar num torneio em defesa de doze damas injuriadas por membros da nobreza, mais rudes no tratamento cortês do que no manejo das armas, como ficou provado durante a liça, para glória dos doze mancebos portugueses, entre os quais se destacou a bravura de Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço —, E.T. Coelho produziu outra obra-prima de perfeita beleza, que infelizmente n’O Mosquito perdeu muitos dos seus atractivos por causa do formato reduzido da revista e, sobretudo, do aspecto gráfico das vinhetas, onde o texto cortava, por vezes, a margem inferior dos desenhos.

Ressalvados, porém, esses defeitos — além da publicação descontínua, devido aos frequentes atrasos de E.T. Coelho, ocupado com outras tarefas —, não há dúvida de que os leitores d’O Mosquito acompanharam sempre com grande entusiasmo o relato das façanhas do Magriço, que decidiu fazer uma longa viagem por terra com o seu escudeiro, pisando somente solo inglês 12 Inglaterra Mosq 1285 705(para se juntar aos outros cavaleiros embarcados, tempos antes, em Lisboa) depois de viver inúmeras e pitorescas aventuras.

Com mais de 100 páginas, impressas a duas cores e cujo lugar de honra foi, durante muitos números, o espaço central da revista, com legendas em rodapé que tinham o cunho fluente e emotivo da prosa de Raul Correia, “Os Doze de Inglaterra” constitui, como já referimos, um magnífico exemplo do deslumbrante estilo de E.T. Coelho, então no cume da sua evolução artística, iniciada cerca de oito anos antes nas páginas de revistas como O Senhor Doutor, o Engenhocas e O Mosquito.

12 Inglaterra Mosq 1287 706Uma obra que obteve grande êxito e ficou na história da BD portuguesa, digna, por todos os motivos, de ser apresentada às gerações actuais, numa nova e cuidada edição, sob os auspícios de outro grande nome das histórias aos quadradinhos, mestre José Ruy — que acompanhou grande parte da carreira de E.T. Coelho em Portugal, como amigo e colega de trabalho, e é um dos mais profundos conhecedores da sua obra — e de uma editora com notável projecção em várias áreas, nomea- damente na da Banda Desenhada: a Gradiva.

Brevemente, divulgaremos uma nota informativa de José Ruy, onde essa sensacional novidade, ou seja, a apresentação em álbum (a partir de provas originais) de “Os Doze de Inglaterra” — coincidindo, a título de expressiva homenagem, com o 80º aniversário d’O Mosquito, que ocorrerá no próximo mês de Janeiro —, é descrita e explicada com mais pormenores.

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