A TRAGÉDIA DOS REFUGIADOS

O Gato Alfarrabista, embora sendo simplesmente um blogue dedicado à Banda Desenhada, não consegue alhear-se da tragédia dos refugiados — trazida uma vez mais ao lume das notícias com fotos chocantes de crianças afogadas —, e não achou nada melhor do que reproduzir, com a devida vénia, o texto do jovem Manuel, neto do nosso amigo Professor António Martinó de Azevedo Coutinho, publicado no seu excelente blogue «Largo dos Correios» (que seguimos sempre com grande interesse), há menos de 24 horas.

Queremos sublinhar a maturidade, perspicácia e eloquência deste jovem, digno herdeiro dos elevados princípios cívicos, éticos e morais que norteiam a sua família, empenhado, como militante activo da Amnistia Internacional, em alertar as consciências para a urgente acção de todas as entidades e dirigentes responsáveis, no sentido de se encontrar uma solução justa, séria e humanitária deste drama colectivo cada vez mais pungente — e que a Europa (responsável, em parte, pelas causas que o provocaram) não pode ignorar, voltando as costas à realidade ou erguendo barreiras contra os refugiados.

Fazemos nossas as palavras do Manuel Azevedo Coutinho, a quem enviamos um grande abraço, solidarizando-nos totalmente com o seu vibrante e lúcido depoimento… que é também um grito de indignação e de revolta contra aqueles que permitem, com a sua inércia, que estes dramas continuem a acontecer!

largo dos correios

Mais uma garfada numa vida de formiga…

manuel

O mundo abala, dia a dia, com o silêncio daqueles que no seu silêncio figuram as imagens de mortos, refugiados, sem abrigo, gente da nossa gente que, sem esperança e sem voz, fazem o que podem para sobreviver. A condição humana, a cada dia que passa, é crescentemente posta em causa das formas mais violentas, mais desumanas.

O cidadão europeu, comum, é confrontado dia a dia com esta realidade “longínqua”, famílias, idosos, crianças, adultos, no seu desespero. O longe acabou, esta realidade não é Africana, Asiática, esta realidade é Europeia, e está a bater-nos à porta. A solução tem de ser aplicada pelo continente Europeu.

Esta situação tem sido abordada pelos mais variados líderes europeus e nacionais. Num comportamento absolutamente vergonhoso, esses falam, falam, falam, vemo-los a arranjar uma solução? A resposta é não!

A extrema direita, em ascensão, fala-nos de uma praga que tem de ser expulsa do continente, um grupo de sanguessugas. A União Europeia nem fala, nada diz, numa apatia e passividade assustadoras. Um prémio Nobel da Paz não pode ficar indiferente a uma situação destas! Em Portugal, temos o nosso primeiro ministro IMG_2242imbuído da demagogia que tanto critica. Em época eleitoral, nada melhor que aproveitar para dizer: – Eu disse que temos de fazer melhor e Portugal também.

Parabéns, Dr. Passos Coelho, penso que qualquer ignorante já tinha chegado a essa conclusão.

Eu, enquanto cidadão português e europeu, sinto-me revoltado, porque este tipo de discurso não faz a diferença, o que faz a diferença são as acções, são medidas e propostas concretas, e isso eu não oiço, só ignorância, demagogia e apatia. Isto é inaceitável, estamos a falar de vidas humanas, estamos a falar de gente da nossa gente. Basta de inacção!

Outra situação é o tipo de acção que se aplica, o que se está a fazer é adiar o confronto com o problema originário deste caso. Estas pessoas não decidiram vir para a Europa porque lhes apeteceu, não! Estas pessoas vieram porque nos seus países vivem situações de pobreza, guerra, epidemias, esses são os grandes problemas, esses é que temos de resolver. Esqueçamos dívidas, lucros, receitas, PIB’S, taxas, impostos, todas essas economias que restringem a nossa acção. Estamos a falar de vidas humanas. De jovens como eu, de crianças como muitas que temos em casa ou ao nosso lado, estamos a falar de seres humanos. Se a nossa raça chegou aqui foi porque uniu a sua inteligência ao seu espírito colectivo. Falta isso nos dias de hoje. A ganância e o egocentrismo tomaram o ser humano e regem a sua acção. Ajamos com compaixão, com solidariedade.

Vivemos uma vida de movimentos pendulares, de rotina, de  stress, de turbilhão, uma vida sem vida para viver. Podemos assemelhá-la a uma vida de formiga, viver para trabalhar, trabalhar para sobreviver, viver para sobreviver, mas isso não nos retira o dever de agir nesta situação; quem nos governa não age, então temos nós, os indignados com esta situação, de agir! Da próxima vez que estiver a tomar a sua refeição e no noticiário aparecer uma notícia desta atrocidade não deixe passar, não dê a garfada seguinte da mesma maneira, reflicta, aja, porque este texto que eu escrevo pode não fazer a diferença, mas se todos escrevermos textos, falarmos, agirmos, o mundo muda, o mundo ouve!

A bola está do nosso lado, quem nos governa representa-nos, mas isso não nos retira o direito de ter uma voz activa, crítica deste caso.

 Manuel Azevedo Coutinho

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