O REGRESSO DE ASTÉRIX

Regresso Astérix - 1

A maior distracção de Astérix e dos seus compatriotas gauleses é “malhar” nos invasores romanos, como ilustra a imagem supra, extraída do episódio O Grande Fosso. Todos os leitores sabem isso… e não dispensam uma boa cena de pancadaria, em que os legionários de Júlio César ficam sempre a perder. Ora, como as tradições devem ser respeitadas (idem na BD com heróis clássicos), será esse o tema da nova aventura de Astérix, O Papiro de César, que se prepara para aparecer nas bancas e repetir o êxito do álbum anterior, Astérix entre os Pictos, publicado em Outubro de 2013.

Com vontade de se reformar (coisa que também acontece aos desenhadores), o veterano Albert Uderzo confiou esse episódio a uma nova equipa, constituída por Jean-Yves Ferri (argumento) e Didier Conrad (desenhos), que se desempenharam airosamente da tarefa, merecendo rasgados elogios do público em geral e de muitos sectores da crítica. O que não significa que tenham agradado a todos…

Ferri & Conrad

Mas para primeira experiência de uma nova dupla criativa, numa série tão especial, cujo progenitor artístico ainda está vivo (o que não costuma ser muito frequente nos anais da BD), não pode dizer-se que o resultado tenha defraudado as expectativas.

É natural, portanto, que a curiosidade se mantenha e que a nova aventura de Astérix e Obélix, com estreia anunciada para o próximo mês de Outubro, já esteja a causar alvoroço nos media, como demonstra esta notícia vinda a lume no Público (suplemento Ípsilon), de 14 de Agosto p.p., que reproduzimos com a devida vénia.

Para não termos de refrear a nossa impaciência, a edição portuguesa, sob chancela da ASA, estará também à venda nessa altura. E com uma versão em mirandês, que já se tornou uma espécie de segunda língua pátria…

Regresso Astérix 2.

AS QUATRO ESTAÇÕES – 8

VIVAM AS FÉRIAS… EM BANDO!

As férias grandes, que encantam miúdos e graúdos, mas muito especialmente os mais novos, quando se vêem por uns tempos livres da escola e entregues aos prazeres dos passeios e das brincadeiras com os amigos, no campo ou na praia, são o tema destas duas ilustrações que serviram de capa ao Tintin belga, nos nºs 26 (14º ano), de 1/7/1959, e 27 (17º ano), de 3/7/1962, com a assinatura de dois grandes mestres da BD humorística: Albert Uderzo (que ainda não pensava em Astérix) e Berck (que ilustrava, com argumento de Goscinny, novas peripécias de Strapontin).

Aqui os recordamos e aos seus magníficos trabalhos, numa época em que as férias e o tempo estival pareciam mais compridos e mais alegres do que são hoje… Ou será impressão nossa, por já estarmos tão distantes da mocidade?

Férias grandes - Tintin 26 e 27

MAIS UM NÚMERO DA REVISTA DO CLUBE TEX PORTUGAL DISTRIBUÍDO AOS SEUS SÓCIOS

Clube Tex Portugal - revista nº 2

Já foi distribuída aos sócios a revista do Clube Tex Portugal na sua 2ª edição, que revela um acentuado progresso, mantendo o mesmo aliciante aspecto gráfico e apresentando-se agora com mais páginas (de 32 passou a 48) e com um “suculento” sumário, em que se destaca a homenagem aos 30 anos de carreira do consagrado autor Fabio Civitelli, dedicados quase inteiramente ao maior personagem da BD italiana e do western europeu: Tex Willer, o famoso ranger do Texas.

Clube Tex Portugal (emblema)Tema de um excelente prólogo e de uma exaustiva bibliografia crítica, trabalho assinado por Mário João Marques, que abrange doze páginas deste número, Civitelli já esteve presente em cinco festivais realizados em diferentes cidades portugueses (entre 2007 e 2012), e a sua simplicidade, bom-humor e simpatia ficaram na memória dos inúmeros admiradores que acorreram a esses eventos. Mas, a par da simpatia, Civitelli também é apreciado pelo seu enorme talento, pela perfeição estética e a inovação técnica, bem patentes no estilo elegante, dinâmico e meticuloso até aos mínimos detalhes, com que recria as figuras de Tex e dos seus pards e os míticos cenários do Oeste americano.Civitelli com as duas capas

Convidado a colaborar na revista do Clube Tex Portugal, com documentação referente à sua longa e prestigiosa carreira, Civitelli chegou mesmo a enviar duas ilustrações inéditas para a capa, ambas tão sugestivas que a direcção da revista não hesitou em aproveitá-las para a edição normal e para uma edição alternativa (esta com a capa impressa num fundo preto e branco), que está também à disposição dos sócios do Clube, podendo estes ficar gratuitamente com uma delas, pagando 10 euros pela outra.

Editorial revista nº 2Do variado sumário deste número, destacam-se ainda os artigos de um numeroso e valioso grupo de colaboradores (que tende, aliás, a aumentar): Júlio Schneider, Pedro Cleto, Sérgio Sousa, Carlos Gonçalves, Rui Cunha, António Lança-Guerreiro, Jorge Machado-Dias, Jorge Magalhães, José Carlos Francisco, além de dois “estreantes” italianos: Moreno Burattini e Italo Marucci. Mas talvez a parte mais “sumarenta”, a par das excelentes ilustrações de Fabio Civitelli, sejam os trabalhos inéditos de outros três notáveis artistas italianos: Corrado Mastantuono, Lúcio Filippucci e Andrea Venturi (autor, recorde-se, da capa do 1º número), que acederam também prontamente ao convite para participar nesta edição.

Tex por Corrado MastantuonoInfelizmente, no artigo dedicado a mestre Vítor Péon, o nosso autor de BD que criou mais westerns, com verdadeira paixão pelo género, algumas imagens — páginas completas, com a profusão de detalhes, a variedade de planos e a acção cinética que caracterizam o seu estilo — foram demasiado reduzidas. Geralmente, na maioria dos blogues podemos, com um toque do “rato”, ampliar as imagens, o que é impossível numa revista impressa. Só com uma lupa… Esperemos que erros como esse sejam corrigidos nos próximos números.

Pelos ecos já chegados à redacção, esta revista — cuja periodicidade deu também um grande salto, passando de anual a semestral — continua a fazer, com êxito, o seu percurso entre a comunidade de sócios do Clube Tex Portugal espalhada pelo mundo, mas também junto de muitos autores texianos e da própria SBE (Sergio Bonelli Editore), e tem sido um dos principais factores de divulgação, não só do nome e dos projectos do Clube, como do devotado afecto que os leitores portugueses nutrem, ainda hoje, pelo carismático herói do Oeste americano criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

Francesco Micoli com a revista do Clube Tex Portugal

Parabéns ao Clube Tex Portugal pelo seu dinamismo e por esta magnífica revista, dirigida por Mário João Marques e coordenada por José Carlos Francisco.

(Nota: as imagens que ilustram este texto foram extraídas, com a devida vénia, do Tex Willer Blog, cuja consulta recomendamos a todos os que quiserem aderir ao Clube Tex Portugal, pagando apenas uma jóia de 5 euros e uma quota mensal de 2 euros).    

O REGRESSO DE RIC HOCHET – 3

Ric Hochet 10 - Les Cinq Revenants

Tintin 18 - 1959Como já tivemos ocasião de referir, Ric Hochet estreou-se num curto episódio publicado em 30 de Março de 1955, no Tintin belga nº 13 (10º ano), episódio esse que entre nós foi dado à estampa no Cavaleiro Andante nº 183, de 2 de Julho de 1955. O pequeno ardina que apregoava a plenos pulmões o diário La Rafale (em português, A Rajada) estava prestes a descobrir a pista de um misterioso espião, revelando assim dotes de argúcia e de coragem que iriam guindá-lo a um lugar com que nunca sonhara: o de repórter do grande periódico onde trabalhavam alguns dos melhores jornalistas franceses, às ordens do chefe de redacção Bob Drumont.

Tintin 34 - 1959Ric Hochet viria também a tornar-se amigo e auxiliar (precioso, diga-se de passagem) do comissário de polícia Bourdon — cuja gentil sobrinha Nadine seria candidata a um lugar especial no seu coração — e a enfrentar formidáveis adversários, bandidos da pior espécie, com nomes sinistros como Le Bourreau (“O Carrasco”), e ligações, nalguns casos, a redes criminosas internacionais. Mas tudo isso só se tornaria realidade um pouco mais tarde, porque entretanto o jovem repórter passou fugazmente nas páginas do Tintin, onde viveu apenas algumas curtas peripécias, espaçadas no tempo (de 1955 a 1959) — como Enquete chez les “timbrés” e Ric Hochet contre l’Ombre, já com argumentos de André-Paul Duchâteau —, rodeado de campeões da popularidade como Tintin e Michel Vaillant, Blake e Mortimer, Pom e Teddy, Dan Cooper e Chick Bill.

Tintin 18 - 1954Esta última série era, aliás, a “coqueluche” de Tibet, o futuro criador de Ric Hochet, e uma das mais requisitadas pelos leitores da revista, que punham também no topo das suas preferências os heróis e os desenhadores de traços mais humorísticos. Tibet era já uma das vedetas do Tintin, embora ainda longe dos índices de popularidade que registaria com Ric Hochet. Poucos meses antes de dar vida ao jovem aspirante a repórter detective criou outra curta série, inti- tulada La Famille Petitoux, que o Cavaleiro Andante reproduziu nos nºs 132 e 149 (1954), com um nome menos estranho para os jovens lusitanos: A Família Castanheira.

Nessa época, meados dos anos 50, uma das décadas mais gloriosas no historial do popular semanário belga, Tibet tinha a cabeça cheia de projectos, mas o seu estilo de linhas quase caricaturais identificava-se sobretudo com a série que lhe abrira as portas do êxito, aquela em que figuravam o alegre cowboy Chick Bill e os seus patuscos companheiros Kid Ordinn, Dog Bull e Petit Caniche. Sintomaticamente, Tibet não quis que os traços fisionómicos da sua nova criação destoassem muito dos de Chick Bill, devido à similaridade de estilos, que só se alteraria quando Ric Hochet começou também a viver aventuras de longa duração, num registo mais realista e de acção mais trepidante, passando primeiro por uma curiosa fase de amadu- recimento, em moldes diferentes da BD. Veremos, muito em breve, como isso aconteceu…

Recordamos novamente que o jornal Público, em parceria com as Edições Asa, está a publicar uma colecção dedicada a Ric Hochet, que inclui vários álbuns inéditos em Portugal. Podem ler todas as notícias sobre essa colecção no blogue A Montra dos Livros.

FIGURAS E FACTOS QUE MUDARAM O MUNDO – 8

DUNLOP, O INVENTOR DA RODA PNEUMÁTICA

A garden hose provided John Dunlop with a smooth bicycle rideUm campeão chamado J. Agostinho 2

Nesta pré-época do futebol, em que todos os grandes clubes com aspirações a copiosas vitórias (e receitas) em futuros torneios tendem a contratar novos jogadores e a renovar as suas equipas técnicas, com vultuosas transferências de milhões de euros (como no mediático caso de Jorge Jesus), há outro desporto, de uma modalidade muito mais modesta (e mais antiga), que durante os longos e cálidos dias de Julho e Agosto chama também a atenção dos media e desperta o entusiasmo dos espectadores.

Claro que estamos a referir-nos ao ciclismo, cujas provas principais, como a Volta à França, a Volta à Itália, a Volta à Espanha e a nossa menos carismática Volta doméstica, já iniciaram o seu calendário, enchendo as estradas com o clássico e colorido espectáculo das longas filas de corredores, agrupados em pelotões compactos e em equipas que mal se distinguem umas das outras, numa homogénea mole humana que serpenteia pelas monótonas pistas de asfalto, plácida ou velozmente, com a natureza campestre e os cenários urbanos em pano de fundo. Lembrando-nos (sempre) um grande campeão português, Joaquim Agostinho, que mestre Fernando Bento, outro gigante, mas da arte e das histórias aos quadradinhos, retratou com o seu traço genial.

Bicicletas primitivas 2Mas já pensaram nas voltas que deu o pequeno e veloz velocípede até se tornar o símbolo de um dos desportos mais populares do nosso tempo, embora nascido na agitada era da revolução industrial? Ao princípio, as bicicletas eram de madeira, pesadas e incómodas porque a sua tracção se fazia ainda sem pedais. Imaginem os desajeitados velocipedistas, de pés assentes no solo, impelindo-as com pequenos saltos! Só muito mais tarde, cerca de 1885, o novo veículo, depois de passar por profundas transformações, ganhou velocidade e ligeireza com um sistema de duas rodas do mesmo tamanho, substituindo os modelos anteriores com uma grande roda traseira (ou ainda mais bizarros, como o da imagem anexa), que permitiam ao seu ocupante equilibrar-se melhor no selim e passear orgulhosamente nas avenidas citadinas, entre cabriolés puxados por cavalos.

John Dunlop filhoMas os acidentes não estavam afastados, porque as rodas ainda eram pesadas (já não de madeira, mas metálicas, como o resto da estrutura), e qualquer pequeno obstáculo podia provocar quedas dolorosas. Por causa da trepidação e dos numerosos acidentes, as bicicletas — utilizadas cada vez mais pela classe média e pelo operariado, ao ponto de se tornarem um símbolo da sua ascensão social — ganharam mesmo um epíteto pejorativo: “boneshakers” — isto é, em sentido figurado, “quebra-ossos”.

Dunlop na sua bicicletaFoi então (1887) que surgiu, pela mão de um médico veterinário de espírito sagaz, nascido na Escócia e chamado John Boyd Dunlop (1840-1921), um invento que trans- formou por completo a bicicleta, tornando-a um veículo mais ligeiro, mais cómodo, mais robusto e mais seguro. Graças a uma ideia de génio — pneumáticos com ar comprimido revestindo as duas rodas —, Dunlop conseguiu ultrapassar uma das barreiras que impediam a humanidade de desenvolver novos e mais eficientes meios de transporte. Foi, como tantos outros sábios e inventores, alguns por mero acaso, um elo fundamental da meritória cadeia que põe em movimento as rodas do progresso e projecta a inteligência humana até aos patamares do futuro.

Leiam seguidamente a história do médico John Dunlop e do seu precioso invento, que o nosso bem conhecido Jean Graton, um dos maiores especialistas desportivos da Banda Desenhada europeia, narrou com o seu habitual estilo prático e bem documentado, em sequências dinâmicas e realistas, dadas à estampa no Tintin belga nº 22 (12º ano), de 29 de Maio de 1957, e n’O Falcão (1ª série) nº 67, de 24 de Março de 1960.

Dunlop 1   401Dunlop 2      402Dunlop 3         403Dunlop 4         404

 

IN MEMORIAM

RUI BANA E COSTA (1945-2015)

Leo e Bana costa

Outra infausta notícia acaba de chegar ao nosso conhecimento, por intermédio de Leonardo De Sá. Faleceu Rui Bana e Costa, velho amigo e companheiro frequente de muitas tertúlias, em especial a Tertúlia d’O Mosquito que se realiza anualmente, em meados de Janeiro, para comemorar o aniversário da revista mais popular da BD portuguesa.

Bana e Catarina LimaRui Bana e Costa, além de coleccionador “compulsivo”, sobretudo de BD americana e franco-belga, era também um profundo conhecedor e um grande entusiasta das nossas publicações infanto-juvenis, possuindo no seu acervo algumas autênticas preciosidades, como os dois (raríssimos) últimos números d’O Gafanhoto, revista editada por António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), em 1948-49, depois de abandonar a direcção d’O Mosquito, números esses que foram apreendidos pela censura antes de entrarem em circulação, devido a falhas no registo legal do título.

De humor sadio e espírito aberto e generoso, Bana e Costa estava sempre pronto a esclarecer dúvidas e a facultar todos os elementos e informações que lhe eram pedidos, pondo assim o seu vasto saber e a sua vasta bedeteca à disposição dos amigos bedéfilos. À sua memória prestamos uma singela e sentida homenagem, apresentando as nossas condolências à família enlutada. O funeral realiza-se hoje, às 14h30, no cemitério municipal de Camarate, onde o seu corpo será cremado.

LEI DA SELVA OU LEI DA SELVAJARIA HUMANA?

Cecil the lion - 2

A notícia correu mundo, através da imprensa, da rádio, da televisão e das redes sociais, provocando a indignação dos defensores da natureza e dos direitos dos animais (mas não só). Também a Avaaz reagiu abertamente, alertando mais uma vez a opinião pública e a consciência dos líderes políticos mundiais para os perigos que ameaçam várias espécies à beira da extinção, por causa da caça furtiva e do comércio ilegal que grassam nalguns países africanos e asiáticos, cecil_640onde a corrupção e a falta de leis (e de meios) para protecção da natureza permitem que os caçadores e os traficantes continuem a exercer impunemente a sua nefanda actividade.

Mas o caso agora tão falado é ainda mais chocante: um dentista americano, pelos vistos bem sucedido na sua actividade profissional, pagou milhares de dólares para ter o “prazer” de matar um leão, que era um ex-libris e a principal atracção de um parque natural do Zimbabwe, visitado por turistas, fotógrafos e naturalistas de todo o mundo.

Exposição de troféus de caçaChamava-se Cecil esse leão, tinha coleira de identidade e era alvo das atenções do público e das equipas de vigilância da reserva de Hwange, que o consideravam dócil, quase inofensivo. Mas isso não o impediu de ser caçado e abatido, sem piedade, como rezam as notícias, pelo tal dentista milionário (já habituado a essas proezas), que merecia estar, agora, atrás das grades no Zimbabwe, à espera de julgamento pela sua acção “frívola e cruel” — como a baptizou Miguel Esteves Cardoso no Público —, mas já regressou aos Estados Unidos e à sua confortável vidinha de “respeitável” cidadão.

Este triste e ignóbil episódio, que nos faz ter vergonha dos nossos semelhantes (e são muitos) que não respeitam o direito à vida das outras espécies que povoam este planeta, fez-nos recordar uma excelente história aos quadradinhos publicada há muitas décadas no saudoso jornal O Mosquito, com ilustrações de um dos maiores artistas que já se distinguiram nessa modalidade: Eduardo Teixeira Coelho.

A Lei da Selva 1

Curiosamente, a história em causa, intitulada “A Lei da Selva”, tinha como protagonistas os animais selvagens da fauna africana, em especial os mais majestosos, feros e temidos de todos os felinos, que pelo seu porte imponente e pelos seus hábitos quase “aristocráticos” merecem estar no topo da realeza, à escala zoológica.

Lei da Selva 2       385Nesta grande aventura, que E.T. Coelho ilustrou de forma magnífica, demonstrando ser um mestre da arte figurativa e um profundo conhecedor da anatomia animal, são os leões que têm a primazia, nomeadamente uma jovem cria que escapou de morte certa, depois dos seus pais terem sido abatidos a tiro por um caçador. Sobrevivente, quase por milagre, de uma incrível odisseia — em que tem de arrostar inúmeros combates com os seus inimigos (que não são apenas as outras feras, mas também os Lei da Selva 3       386supersticiosos caçadores indígenas que não lhe dão tréguas) e contra as forças da natureza, ainda mais implacáveis e destruidoras, na sua fúria cega e sem limites —, esse leão acaba por ser um símbolo da coragem, da resistência e da vontade de viver, triunfando de todos os perigos e armadilhas, graças a uma lei ainda mais forte do que a lei da selva: a lei do instinto, da sobrevivência e do amor… ao acasalar pela primeira vez e ser pai de uma vigorosa ninhada que garantirá a preservação da sua indomável raça. Uma aventura cheia de peripécias dramáticas, de lutas sem fim, mas com um final feliz!

Jornal do Cuto 9         387Reeditada em 1971/72 no Jornal do Cuto, outra memorável publicação juvenil, dirigida por Roussado Pinto, esta história (em que merece também destaque o vigor literário das legendas de Raul Correia) será, em breve, apresentada no nosso blogue irmão O Voo d’O Mosquito, em homenagem aos seus dois carismáticos autores, a um tema que não perdeu actualidade e a uma das fases mais assinaláveis da incontornável carreira de E.T. Coelho n’O Mosquito.

Aguardem, pois, pelos primeiros episódios de “A Lei da Selva”, uma obra-prima que desenhadores como Emilio Freixas, Jesús Blasco, Jayme Cortez e José Ruy consi- deraram um caso excepcional de talento e inspiração, pela mestria gráfica patente em todas as suas páginas. Uma história que, no dizer de Roussado Pinto, era a preferida do próprio E.T. Coelho e que merecia já ter sido também reeditada em álbum, como outros grandes clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa.