A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 13

Título D FilipaFilipa de Lancastre, casa de Avis, Garcês

Em 25 de Julho de 1415, teve início a epopeia das conquistas e dos descobrimentos portugueses, com uma grande expedição militar chefiada por el-rei D. João I e pelo con- destável D. Nuno Álvares Pereira, cujo objectivo era desferir um rude golpe nas possessões islâmicas do Norte de África, arrebatando aos Mouros a rica e estratégica cidade de Ceuta.

Nessa heróica empresa, que culminou com a conquista da praça-forte um mês depois, em 22 de Agosto desse ano da graça de 1415, distinguiram-se, pela sua energia, capacidade de comando e bravura em combate, os jovens infantes D. Henrique e D. Duarte, o primeiro dos quais estava fadado para reger os destinos da escola de Sagres, a melhor escola de marinharia do mundo, e o segundo para suceder no trono ao Rei de Boa Memória. Tanto eles como seu irmão D. Pedro — que seria chamado “o das sete partidas” — foram armados cavaleiros pelo próprio pai, na mesquita de Ceuta consagrada, desde esse dia, à fé cristã.

a-conquista-de-ceuta-ca-104

Um dos episódios mais marcantes, mas talvez menos recordados, hoje em dia, dessa histórica epopeia — assinalada, 600 anos depois, como o primeiro marco da globalização que encurtou as distâncias entre os povos e acelerou a marcha do progresso económico e social —, é o que revela a profunda afeição que D. Filipa de Lencastre (a rainha mãe de virtuosos dotes e de costumes austeros, que muito Mário Domingues - Ceutacontribuiu para o bom nome e o exemplar reinado de D. João I) sentia pelos seus filhos, a quem quis entregar as espadas de cavaleiros antes da partida para Ceuta, apesar de ter caído ao leito, gravemente enferma.

Mário Domingues, um popular escritor do século XX, que produziu vários romances históricos com biografias de reis, príncipes, cavaleiros, navegadores, poetas, sacer- dotes, estadistas, generais, passando em revista os períodos mais gloriosos, mas também os mais obscuros da nossa monarquia, evocou este edificante episódio num capítulo do livro “Grandes Momentos da História de Portugal” (2º volume), editado em 1962 pela F.N.A.T. (Federação Portuguesa para a Alegria no Trabalho). Os outros são dedicados à tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques e ao cerco de Ormuz, em que se distinguiu Afonso de Albuquerque. Páginas da nossa História que atravessam cinco séculos!…

Filipa de Lancastre, Garcês 455Vítima da peste, causadora de inúmeras mortes, que grassava em Lisboa e adivinhando que o seu fim também estava próximo, D. Filipa quis dar o primeiro sinal aos seus filhos do glorioso futuro que os esperava, para bem do reino de Portugal, recomendando a Duarte, o primogénito e herdeiro do trono, que defendesse com toda a energia os seus súbditos e zelasse pelo cumpri- mento do direito e da justiça, a Pedro que estivesse sempre ao serviço das donas e das donzelas, e a Henrique, o mais novo dos três mancebos, mas também o mais audaz e sonhador, que protegesse “os senhores, cavaleiros fidalgos e escudeiros do reino, fazendo-lhes todas as mercês a que, por razão, tivessem direito”.

Depois, abençoou os filhos, entregando-lhes as três espadas que mandara forjar para aquele momento solene e com as quais seriam armados cavaleiros pelo rei, seu pai, na mesquita de Ceuta, após a conquista que transformou esta cidade marroquina no primeiro baluarte cristão do norte de África, inexpugnável durante séculos.

tira de Flipa a entregar espadas aos filhos

Mestre José Garcês — cujos trabalhos de inspiração (e fervor) nacionalista, o consagraram, ao longo de várias décadas, por mérito, experiência artística e conhecimentos didácticos, como um dos nossos autores de maior renome no campo da BD histórica — retratou a mesma cena num livro dedicado a D. Filipa de Lencastre (Edições Asa, 1987) e numa magnífica biografia aos quadradinhos do Infante D. Henrique, publicada no Camarada (2ª série), entre os nºs 8 e 25 do 3º ano (1960), com texto de António Manuel Couto Viana. Mais sucintamente, representou-a também no 2º volume da História de Portugal em BD, projecto nascido de uma parceria com o historiador António do Carmo Reis e patrocinado pela Asa, que lhe consagrou sucessivas edições, com retumbante êxito, a partir de 1985.

Filipa de Lancastre, Garcês 2 e 3

Também Eugénio Silva, outro nome consagrado da geração que recebeu o clássico testemunho dos mestres pioneiros da BD realista, como Garcês, Fernando Bento e Eduardo Teixeira Coelho, teve o condão de ilustrar com o seu traço suave e poético, em duas páginas inseridas no livro escolar para a 3ª classe “Lições de História Pátria”, a biografia da excelsa rainha nascida em Inglaterra, no ano de 1360, em cuja linhagem corria o nobre sangue dos Lencastres e dos Plantagenetas, e que veio para Portugal anos depois, ainda jovem, para contrair núpcias com D. João I. Desse enlace forjado pelo destino e pelas relações dinásticas entre velhos aliados, nasceria a “Ínclita Geração” que engrandeceu o nome de Portugal aos olhos da Europa e deu novos mundos ao mundo.

Filipa de Lancastre,Eugénio Silva 1 e 2

Filipa de Lancastre,bento diabrete 201- vinheta 463Por último, recordamos, com as devidas honras, outro grande vulto da cultura e das artes figurativas portuguesas do século XX, o saudoso mestre Fernando Bento, que também evocou a lição maternal de D. Filipa de Lencastre e a sua ilustre descendência, numa patriótica rubrica do Diabrete intitulada “Histórias da Nossa História”, com texto de Adolfo Simões Müller — à qual já aludimos diversas vezes neste blogue.

O episódio que seguidamente apresentamos, com o título “As Três Espadas”, foi publicado no nº 201 (4 de Novembro de 1944) do “grande camaradão” da juventude portuguesa, editado pela E.N.P. (Empresa Nacional de Publicidade), proprietária do Diário de Notícias e que, em 1952, se tornaria também editora do Cavaleiro Andante.

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