CAÇADA EM ÁFRICA – 4

Cabeçalho O PREDADOR

REGRESSO A CASA

A história de Walter Palmer, afortunadamente para ele, não acaba aqui… Podia ter morrido nas garras e nos dentes do leão, mas a sua boa estrela tinha-o premiado com a sorte grande, nesse dia. O felino não estava com fome e como Palmer, apesar de transido de medo, teve o bom senso de se fingir de morto, a fera acabou por deixá-lo em paz, depois de o farejar longamente, grunhindo baixinho como para manifestar o seu mau-humor.

Quando viu, pelo canto do olho, o majestoso leão afastar-se em passos lentos, seguindo o mesmo trilho iluminado pelo luar por onde viera, e desaparecer na espessura da selva, Palmer sentiu uma onda de alívio tão grande que até as lágrimas lhe vieram aos olhos. Nunca estivera tão perto da morte!…

Ferido e combalido, esvaindo-se em sangue e cheio de tremuras por causa do frio da noite, como se a temperatura tivesse descido muitos graus, pegou na carabina, caída perto do sítio onde o leão o atacara, e arrastou-se como pôde até ao sopé da colina. Depois, escondeu-se entre a erva alta, rezando para que os outros habitantes das redondezas, com instintos mais ferozes, não o encontrassem naquele estado.

Acabou por sucumbir ao cansaço e às dores que sentia no braço mordido pelo leão e adormeceu, antes do sol raiar de novo sobre o lago. Quando acordou, em pleno dia, sentia-se ainda mais exangue, com o cérebro meio toldado pelas recordações da terrível noite por que passara. Mas não tardou a raciocinar que se ficasse ali não teria muitas hipóteses de sobreviver à noite seguinte, quando os grandes carnívoros regressassem ao lago para matar a sede. Era só uma questão de tempo…

Como não conhecia o caminho de regresso, andou em círculo, durante muitas horas, completamente desorientado, receando que a sorte o abandonasse e que outro felino viesse ao seu encontro. Mas a sua boa estrela continuava a ampará-lo porque, como na jornada da véspera, quando viajara em companhia de Van Helsing, através do parque, não avistou nenhum animal. Até os herbívoros pareciam ter-se sumido no interior da selva.

Cerca do meio-dia, prestes a sucumbir outra vez ao cansaço e martirizado pelo calor (a temperatura já devia rondar os 50 graus!), ouviu bruscamente um ruído insólito, que crescia de minuto a minuto, e compreendeu, instantes depois, com um sobressalto de esperança, que a salvação podia estar perto. O que lhe parecera, de início, o eco de uma trovoada, era o ruído do motor de um Land-Rover descapotável que rolava numa pista próxima, entre espessas nuvens de poeira.

Palmer soltou um grito estrangulado, como o de um náufrago prestes a afogar-se, e esbracejou freneticamente, com as poucas forças que lhe restavam, tentando chamar a atenção dos ocupantes do veículo — que felizmente não era o de Van Helsing, o homem que o traíra, deixando-o à beira da morte. No meio da sua agitação, nem sequer se lembrou de disparar uma salva de tiros.

Mas na savana o olhar atinge grandes distâncias e Walter Palmer foi imediatamente avistado. O Land-Rover mudou de rumo e dirigiu-se ao seu encontro, avançando aos solavancos por um trilho sinuoso, entre a erva baixa.

Poucas horas depois, Palmer estava outra vez na presença de Van Helsing e atirava-lhe à cara uma chusma de insultos, acusando-o de ser um facínora e reclamando a devolução do dinheiro que pagara por aquela caçada “infernal”. O guia, impávido e sereno, limitou-se a mostrar-lhe uma cópia do contrato com a sua assinatura, apontando as tais letrinhas quase minúsculas que lhe tinham passado despercebidas e que diziam textualmente:

“No caso do nosso cliente não acatar as instruções e as ordens que lhe forem dadas pelo superintendente do parque, fica inteiramente sujeito às consequências desse comportamento. Nenhum dos nossos elementos poderá ser responsabilizado pelos danos que um caçador imprevidente vier a sofrer, em contacto com os animais mais perigosos”.

— Isto é bem claro! Você desobedeceu-me, pondo em risco a sua vida e a minha… caso eu quisesse intervir. Nem o melhor caçador do mundo ousaria enfrentar um leão a pé firme, como se fosse toureá-lo! E, ainda por cima, em plena noite! Só um louco faria isso… e você é louco, Palmer! Um louco perigoso!

Por mais que Palmer barafustasse, chamando-lhe outros nomes ainda mais pejorativos, Van Helsing não lhe deu ouvidos e acabou por recambiá-lo para Maputo, sem lhe pedir desculpa, depois de um curativo rápido aos seus ferimentos.

A viatura que o conduziu transportava também as suas bagagens. Palmer suspirou de alívio e de contentamento quando voltou a avistar as populosas avenidas de Maputo, cheias de árvores floridas e de pacíficos transeuntes, e pediu que o deixassem num hotel.

— Tenho ordem para o levar ao hospital — disse o condutor. Mas Palmer insistiu que queria ficar no hotel e o carro saiu da faixa de rodagem, entrando noutra avenida.

— Mr. Van Helsing não vai ficar contente! — retorquiu o condutor, um rapaz negro de cara jovial, meneando a cabeça, em jeito de protesto. — Ele gosta que cumpram as suas ordens.

— Pois diga-lhe que eu fui ao hospital e que os médicos me deram logo alta. O que eu quero é ver-me livre disto!

Horas depois, lavado, barbeado e vestido com roupas novas — e também já refeito dos seus ferimentos de pouca gravidade —, Walter Palmer dirigiu-se à esquadra central da polícia, onde contou o que lhe acontecera por culpa de Van Helsing, a quem acusou formalmente de tentativa de homicídio. Em Moçambique todos falavam inglês e o chefe da polícia ouviu-o com atenção, tomando notas num bloco de apontamentos, sem o interromper.

Depois, pediu-lhe que esperasse alguns minutos numa sala próxima. Palmer sabia que ele ia telefonar a alguém, talvez ao seu superior hierárquico, mas esperou pacientemente durante mais de uma hora. Por fim, a porta da sala abriu-se e um agente voltou a conduzi-lo ao gabinete onde fora atendido.

— Mr. Palmer, a sua história é inacreditável! — exclamou, sem rodeios, o chefe da polícia. — Não temos conhecimento de que se realizam caçadas proibidas em Moçambique… e nenhum hospital o atendeu, para tratar os seus alegados ferimentos. Portanto, para nós o senhor é um mentiroso e um visitante indesejável. Vamos cancelar o visto do seu passaporte, para que regresse imediatamente aos Estados Unidos…

A momentânea expressão de espanto de Walter Palmer deu lugar a um acesso de cólera.

— Os senhores estão a brincar comigo?! Eu quero processar Van Helsing pelo que fez, deixando-me à mercê de um leão! Nenhuma autoridade, nenhum tribunal, podem negar-me esse direito, nem aqui nem no Burundi!

O polícia cruzou os dedos, apoiando os cotovelos na beira da secretária, e respondeu, com uma fleuma quase britânica:

— Mr. Van Helsing é um cidadão respeitável, que cumpre rigorosamente as nossas leis. Estamos ao corrente de todas as suas actividades e podemos testemunhar, perante qualquer tribunal, que ele seria incapaz de cometer um acto tão condenável. O senhor quer convencer-me de que escapou miraculosamente ao ataque de um leão, depois de Van Helsing se ir embora?

— Ainda tenho as marcas dos seus dentes bem visíveis no meu braço. Quer que lho mostre? — retorquiu Walter Palmer, fazendo o gesto de arregaçar uma manga.

— Pode ter sido mordido por um cão… Todos sabem, Mr. Palmer, que os americanos têm a mania das grandezas!

— Isto é um escândalo! Uma afronta! O cúmulo da xenofobia! — vociferou Palmer, sem conter a irritação. — Parece-me que a justiça aqui não funciona!

O outro fuzilou-o com um olhar ameaçador e respondeu friamente:

— Mr. Palmer, o senhor tem seis horas para abandonar este país! Ordens superiores!

— Pode ter a certeza de que não perco o primeiro avião para os Estados Unidos… Nunca mais porei os pés em Moçambique! — volveu Palmer, rubro de cólera.

Menos de seis horas depois, estava a bordo de um aparelho das linhas aéreas moçam- bicanas, que levantou voo de Maputo, rumo a Nova Iorque, sobrevoando o Oceano Índico.

Mas as desventuras de Walter Palmer não acabaram naquele dia. Ao chegar a casa, foi recebido por uma Brenda lavada em lágrimas, que já sabia tudo o que lhe acontecera, pois Palmer telefonara-lhe durante o voo.

— Não suporto mais esta vida! Ainda te hei-de ver morto, por causa da tua estúpida paixão pela caça!

— Mas Brenda darling… eu só queria provar-te que sou um homem sem medo… para te orgulhares ainda mais de mim!

— De que me serve a tua coragem quando estiveres morto?! Que valia têm para uma viúva os troféus que o marido conquistou, arriscando a vida, para os pôr numa sala e exibir aos seus amigos? Não és um bravo, Walter, és um predador!

E Brenda rompeu num choro convulsivo. Era a primeira vez que Palmer a via naquele estado. Meses depois, estavam divorciados.

A vida seguiu o seu curso e Walter Palmer voltou a casar. Continuava a ser rico, apesar da fortuna que gastara com o divórcio (a “tímida” Brenda mostrara-se inflexível, exigindo tudo aquilo a que tinha direito), mas sentia-se acabrunhado porque nunca mais tivera coragem para se dedicar à caça, evitando até ler revistas e ver filmes sobre safaris virtuais.

A traumática experiência de Moçambique não lhe saía da memória. E o pior de tudo é que só possuía um troféu: a cabeça (falsa) de um leão que “matara” no Zimbabwe. Uma cabeça que nem sequer era a de Cecil, o leão mais famoso da reserva de Hwange, autêntica relíquia nacional, que já morrera de velhice.

Van Helsing também já não pisava terras africanas. Tinha partido para outras paragens, no Extremo Oriente, onde as caçadas (reais) ao tigre atraíam os homens mais ricos do mundo. Um verdadeiro “maná” para um guia experiente como ele. Palmer, que nunca mais lhe pôs a vista em cima, soube apenas que voltara a mudar de nome.

O mais irónico deste mirabolante caso é que talvez Van Helsing tenha passado a chamar-se “Drácula”… em honra de Bram Stoker!

FIM

 

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