CAÇADA EM ÁFRICA – 2

Cabeçalho O PREDADOR

A LINHA VERMELHA

Walter Palmer tinha boas relações, uma fé cega nos seus recursos e uma profissão que lhe permitira enriquecer rapidamente.

Obcecado pelo seu instinto venatório e pelas promessas que fizera a Brenda, para lhe provar que era um grande caçador, não descansou até organizar um novo safari. Dessa vez, conquistou mesmo um troféu… uma cabeça empalhada de leão (parecido com o velho Cecil), que se via à légua não ser verdadeira.

A proeza também não lhe provocou a mesma emoção, como se a febre da caça grossa já não lhe esquentasse o cérebro. Correra tudo bem, o monitor só interviera no último segundo, para salvar o leão, mas Walter Palmer não estava satisfeito. No fim de contas, tudo aquilo fazia parte de um jogo…

Queria ter um troféu a sério… embora soubesse que isso era um desejo quase irrealizável, num mundo onde escasseavam as espécies selvagens e as leis da caça tinham sido severamente restringidas. Todos os países do continente negro protegiam agora a sua diminuta fauna, perseguindo sem tréguas os caçadores furtivos… que eram a espécie em vias de extinção. Nem mesmo os homens mais ricos do planeta podiam infringir essas leis, furando a barreira proteccionista. Só lhes restavam as caçadas virtuais.

Mas seria mesmo assim? Certo dia, Walter Palmer ouviu falar de uma organização clandestina que podia proporcionar-lhe o raro prazer de uma caçada a sério… embora por um preço dez vezes superior ao de um safari virtual.

Palmer era um homem teimoso, que nunca desistia dos seus projectos. Contratou detectives, pagou a informadores, para descobrir o rasto secreto dessa misteriosa organização. Não conseguiu os seus intentos, apesar de ter gasto muito dinheiro… e sentiu-se tão desanimado que até pensou em desistir para sempre da sua maior paixão.

Nunca lhe passou pela cabeça que o dinheiro deixa rasto e que pode atrair aqueles que, à primeira tentativa, preferem recusá-lo. Chegou, por isso, o dia em que Walter Palmer teve a maior surpresa da sua vida, quando foi contactado, através de um velho amigo, também caçador, por essa misteriosa organização.

— São pessoas de confiança, Walter — disse-lhe o amigo. — Podem realizar safaris em qualquer parte do mundo, com animais que é proibido caçar… mas querem ser bem pagos, porque têm de fazer muitos subornos.

— Bem sabes — respondeu Palmer — que o dinheiro para mim não conta. Pagarei o que for preciso para caçar um animal de grande porte… de preferência um tigre ou um leão! Infelizmente, já não há elefantes!

— É verdade, Walter… Só nos Jardins Zoológicos!

Duas semanas depois, Walter Palmer voava para Moçambique, um país onde nunca estivera. Desta vez, Brenda e os seus amigos não o acompanhavam, porque um grupo numeroso de turistas atrai mais atenções.

Não teve quaisquer problemas com as autoridades aduaneiras, embora trouxesse armas de caça na bagagem. Moçambique também realizava caçadas virtuais… desde que os interessados pagassem bem.

Palmer ficou com a sensação de que naquele país o dinheiro podia abrir todas as portas, porque ninguém lhe fez perguntas do género: “Em que região vai caçar?” ou “Quanto tempo fica em Moçambique?”

À sua espera, no aeroporto, estava um simpático homem negro que falava bem inglês e que, mal acabaram as formalidades do desembarque, o conduziu até uma limousine, que arrancou velozmente pelas avenidas de Maputo até se perderem de vista os seus imponentes arranha-céus de estilo europeu. Palmer, que queria apreciar a paisagem, aceitara de bom grado aquele meio de transporte, em vez de um helicóptero que o levaria ao seu destino em poucas horas.

Para ele, o principal atractivo dessa nova experiência, que tão ardentemente ambicionava, não era apenas o de viver uma caçada a sério, mas também o de experimentar a sensação de regressar ao passado, num cenário onde a natureza ainda parecia virgem e intocável, sem a tecnologia dos parques onde se realizavam caçadas virtuais.  

No dia seguinte, após uma viagem calma por boas estradas, com algumas paragens em pequenas localidades para comer e desentorpecer as pernas, chegaram a uma zona onde se erguia um aldeamento turístico e um enorme parque, cercado por altas vedações, aparentemente electrificadas. Nalgumas guaritas avistavam-se homens armados.

— Chegámos ao nosso destino, Mr. Palmer — disse o motorista, abrindo a porta do lado do passageiro, para que este saísse. — A partir de agora, será nosso hóspede durante dois dias. Desejo-lhe boa sorte!

Antes que Palmer tivesse tempo de abrir a boca, a viatura arrancou bruscamente, deu a volta a uma rotunda fronteira ao parque, com um chiar de pneus, e desapareceu numa nuvem de poeira, pelo mesmo caminho por onde viera.

Palmer ficou especado diante da porta do recinto, com a bagagem aos seus pés, mas não teve de esperar muito tempo. O grande e sólido portão abriu-se e um homem armado aproximou-se dele. Era branco e parecia ter quase dois metros de altura.

— Bem-vindo a Chitengo, Mr. Palmer! Sou Van Helsing, o seu futuro guia. Espero que tenha uma estadia agradável nas nossas instalações, equipadas com todo o conforto, como os melhores hotéis de Maputo. Venha comigo e não se preocupe com as suas bagagens. Os meus auxiliares tratarão de tudo…

Nas horas seguintes, Van Helsing mostrou-se também uma boa companhia, apesar dos seus modos rudes com os negros que trabalhavam no parque, da sua tez tisnada pelo sol que lhe dava um aspecto de mestiço, do seu curioso nome e de um brilho ameaçador no olhar quando alguma coisa não corria bem… lembrando o fulgor selvagem de uma leoa ou de um leopardo, prestes a desferir o bote. Mas Palmer, encantado com a hospitalidade do seu novo guia, não reparou nisso.

Depois de uma noite tranquila, em que sonhou com Brenda e com o troféu real que levaria para casa, a cabeça de um belo leão de juba negra — como Cecil, a velha mascote da reserva de Hwange, que gostaria de ter “caçado” —, acordou na manhã seguinte com um redobrado entusiasmo, pois tudo lhe parecia correr agora à medida dos seus desejos.

Partiram num Land-Rover, depois do almoço, e enquanto guiava por pistas de terra batida rodeadas de vegetação, onde não se avistava um único animal selvagem, com grande desapontamento de Palmer, Van Helsing explicou-lhe os procedimentos a adoptar quando se encontrasse frente a frente com a sua presa.

— Pode ficar tranquilo, porque eu estarei sempre ao pé de si. O primeiro tiro é seu, mas se falhar intervirei a tempo. Numa caçada a sério, convém não esquecer as regras básicas. Antes de mais, não ter medo… porque os animais pressentem a fraqueza, mesmo num ser humano. Se hesitar, tolhido pela cobardia — e o tom de voz de Van Helsing pareceu modificar-se, como se quisesse frisar ironicamente esta palavra —, não terá tempo para evitar a investida do animal… a menos que eu consiga detê-lo!

— Não sou cobarde, nem vim de tão longe para desperdiçar esta oportunidade… mas confio em si, se algo correr mal. Espero não fazer este safari em vão, porque quero regressar a casa com o troféu que prometi à minha esposa.

— Não se esqueça de que a sua vida é mais importante do que um troféu. Mantenha a calma e esteja atento às minhas instruções. Sou eu que oriento a caçada. Eu é que escolho o local e a presa!

— Bem sei, Van Helsing. Quando assinei o contrato, garantiram-me que você era um homem experiente e de confiança, embora não quisessem dizer-me o seu nome.

O outro riu alto, abafando por momentos o ruído do motor.

— Nesta profissão, o segredo é a alma do negócio. Movo-me à vontade em Moçambique porque ninguém conhece o meu verdadeiro nome. E muito menos no estrangeiro… Adivinhe lá onde é que fui buscar este?

— Talvez a um romance de Bram Stoker, não? — respondeu Palmer, rindo-se também. — A ideia não foi má…

O carro continuou a rodar pelas pistas poeirentas, sem que nenhum animal aparecesse no horizonte, até chegarem a uma vasta planura, rodeada de colinas verdejantes, onde a superfície tranquila de um lago se estendia a perder de vista.

— Chegámos ao ponto do rendez-vous. É aqui que todos os animais do parque vêm beber, os predadores e a caça. Neste local, as regras mudam e estabelecem-se tréguas provisórias. Mas essas tréguas não se aplicam a nós… Se quer apanhar um leão ou um leopardo, espere pela noite, Palmer, quando eles se aproximarem da água. O vento estará a nosso favor e haverá lua cheia. Condições ideais para uma caçada bem sucedida!

Van Helsing, que conhecia bem o terreno, designou o lugar onde se deveriam esconder, a poucos metros de distância do lago, junto de uma pequena elevação de terreno. A trilha que os animais, sobretudo os felinos, costumavam utilizar era bastante afastada, mas ao alcance de tiro. Palmer ficou satisfeito com o sítio e preparou-se para a longa espera, vendo a luz do dia desaparecer rapidamente no horizonte e as sombras da noite começarem a ser devassadas pelo pálido resplendor da lua.

A meio da noite, a selva encheu-se de ruídos, que trespassavam a folhagem como setas disparadas em várias direcções por atiradores ocultos. Mas em breve começaram a distinguir-se sombras que se moviam discretamente em direcção à água. Primeiro os herbívoros, com passos furtivos, agitando nervosamente as orelhas e revirando as negras pupilas onde se espelhava o brilho da lua. Bebiam em pequenos grupos, enquanto outros ficavam a vigiar, imóveis e rígidos como estátuas. Da espessura da selva vinha um concerto pouco harmónico de rugidos e de uivos, mas os herbívoros não abandonaram a margem do lago antes de saciar a sede.

Palmer sentiu o guia tocar-lhe num ombro e falar-lhe num tom sussurrante, com a boca colada ao seu ouvido.

— Chegou a hora dos carnívoros… Esteja atento, Palmer, porque é um espectáculo que não deve perder!

Palmer não precisava de recomendações nesse sentido, porque não o perderia por nada deste mundo. Os primeiros felinos surgiram no terreno iluminado pela lua, abeirando-se do lago sem pressas, num andar lento e coleante, que contrastava com os movimentos furtivos dos herbívoros. Dois leopardos, talvez macho e fêmea, que se afastaram quando um búfalo trotou pesadamente em direcção ao lago. Do seu esconderijo, os dois homens ouviram com nitidez o búfalo sorver o precioso líquido em grandes haustos, como se quisesse matar a sede com toda a água do lago.

Depois, a silhueta maciça onde o luar desenhava bizarros arabescos deu meia-volta e afastou-se, de cabeça baixa, olhando apenas o terreno que pisava.

— E agora? — perguntou Palmer, ciciando também ao ouvido do caçador boer. — Quando é que aparecem os leões?

Van Helsing não precisou de responder. De súbito, na orla da trilha por onde tinham desaparecido os dois leopardos, desenhou-se um vulto imponente, cuja majestade ofuscava a da própria natureza banhada pelo luar. Palmer arregalou os olhos porque nunca tinha visto um leão tão corpulento e com uma juba tão espessa a emoldurar um focinho que inspirava respeito, mesmo àquela distância. Nem mesmo Cecil lhe podia pedir meças!

Em passadas lentas, bamboleando o enorme corpo coberto de pelagem fulva, que a claridade do astro nocturno tornava ainda mais luzidia, o leão aproximou-se tranquila- mente da água, sem sequer olhar em volta, porque as margens do lago estavam desertas.

Baixou a cabeça e bebeu longamente, sorvendo também a água com ruído, como fizera o búfalo. Van Helsing soergueu-se e fez sinal a Palmer para o imitar.

— O leão está sozinho… Eis a sua presa, Palmer! É agora ou nunca!

O ouvido apurado do felino deu-lhe o sinal de alarme. Parando de beber, ergueu a cabeça e fitou a colina onde os dois homens estavam emboscados. Depois, começou a rosnar surdamente. Era, de facto, um magnífico exemplar e se a sua ferocidade igualasse a sua imponência, Palmer teria razões de sobra para desejar abatê-lo ao primeiro tiro.

Pegou na Winchester de longo alcance, que durante a espera pousara ao seu lado, ajustou com cuidado a mira telescópica e firmou os dedos no cano e no gatilho, encostando a coronha ao ombro direito. Ao seu lado, Van Helsing não desviava os olhos do vulto corpulento do leão, que se mexia, inquieto, continuando a soltar rugidos de ameaça, embora a distância não lhe permitisse ver os inimigos que pressentira pouco antes.

— Que raio! Isto não é o que eu esperava! — exclamou Palmer, com um repentino sobressalto de orgulho. — Você acha que eu vim a África, pela terceira vez, para matar um leão a esta distância? Que mérito é que há nisso? Se atirasse agora, daqui onde estamos, bem merecia que me chamassem cobarde!

Van Helsing fitou-o com espanto.

— Que disparate é esse? Ouça, homem, você não pode desafiar um leão daquele tamanho em campo aberto!

Palmer levantou-se, encostou a espingarda ao ombro e começou a descer a colina, sem olhar para o guia.

— Venha atrás de mim… Você tem obrigação de me proteger… Um de nós há-de matar aquele leão, mas o troféu será meu! Foi para isso que paguei uma fortuna, Van Helsing! Sou eu que tenho o direito de dirigir esta caçada!

Pensou em Brenda e um sorriso de triunfo contraiu-lhe os lábios, numa espécie de esgar sardónico e auto-complacente, que se regozijava com o seu próprio rompante, sem medir o perigo a que se expunha.

Mas Van Helsing ficou onde estava e nem sequer engatilhou a espingarda. Palmer julgou ouvir uma risada seca, enquanto se dirigia em passos lentos para o leão, que continuava imóvel, rosnando baixo, com a língua pendente e os longos caninos rebrilhando na luz alva do luar. Não parecia surpreendido com a presença do intruso.

— Você é louco, homem! Louco e imprudente! — gritou Van Helsing, numa voz entrecortada por uma série de pragas que Palmer não entendeu. — Devia ter lido melhor o contrato que assinou connosco… Nunca lhe disseram para prestar atenção às letras mais pequenas?

Pela primeira vez, ao encaminhar-se para o leão, Palmer hesitou. A fera olhava-o fixamente, sem denotar qualquer espécie de receio. Então, o caçador parou e mediu a distância que o separava do felino. Já não eram cem metros, nem cinquenta. Apenas alguns passos… Na sua temeridade, nascida de um impulso inconsciente de que já começava a arrepender-se, aproximara-se demasiado da presa. E as palavras do guia eram a constatação de que algo defraudara as suas expectativas… de que a caçada correra mal.  

Van Helsing voltou a romper o silêncio, mas a sua voz agora era quase estridente.  

— Nenhuma lei me obriga a protegê-lo, Palmer! Você está por sua conta e risco, porque atravessou a linha vermelha… Aqui o mais importante são os leões! Se o caçador pisar essa linha, deixamo-lo à mercê das feras, sem dó nem piedade! Ouviu bem, Palmer? Devia ter lido as entrelinhas do contrato!

Ouviu-se um rugido mais forte e o breve estampido de uma arma. Depois, um trotar leve e rápido e um grito abafado. Como uma cortina que se cerra devagar, o silêncio recaiu sobre o lago, cujas águas cintilavam suavemente na meia-luz projectada pela lua cheia.

Van Helsing, de espingarda em punho, desceu a colina, em passos lentos e cautelosos. O leão, que tinha os dentes fincados num braço de Walter Palmer, olhou para ele com indiferença, como se fosse mais um vulto indistinto nas sombras da noite. Van Helsing seguiu o seu caminho, até ao sítio onde ficara o Land-Rover. Nem uma só vez olhou para trás. O leão ia estar ocupado até de madrugada. Ninguém lhe disputaria a presa, a não ser as hienas, quando ele já tivesse saciado o seu apetite. Era assim a lei da selva…

O ruído do carro que se afastava quebrou o silêncio da noite. Walter Palmer, semi- -inconsciente, conseguiu perceber, pela primeira vez, que estava realmente sozinho.

FIM DA 2ª PARTE

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