RECORDANDO O “MUNDO DE AVENTURAS”

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Mundo de Aventuras nº 5Celebra-se hoje uma das datas mais importantes da BD portuguesa, o nascimento há 66 anos do Mundo de Aventuras — “a primeira e única revista juvenil portuguesa em moldes essencialmente americanos, com as mais modernas e trepidantes aventuras, de palpitante interesse e dinamismo, escritas e desenhadas pelos nomes mais famosos da literatura [sic] do género, no novo continente” (como se pode ler na capa do seu nº 5, datado de 15 de Setembro de 1949). Curiosamente, o termo literatura era, nessa época, aplicado também às histórias aos quadradinhos.

O Mundo de Aventuras foi (e ainda é) uma das mais famosas publicações da nossa imprensa juvenil, que competiu ma-437-584com dois rivais de peso, o Diabrete e O Mosquito, na altura do seu lançamento e, mais tarde, com o Cavaleiro Andante, acabando por dominar o mercado, nos anos 60, graças à pujança editorial da empresa a que estava ligado, a Agência Portuguesa de Revistas. No início da década seguinte, pouco antes do 25 de Abril, passou por novas transformações, voltando ao nº 1 para encetar uma 2ª série (erradamente designada, à partida, como 5ª série), que durou até ao declínio desse grande império editorial, em finais dos anos 80.

MA especial 16Sorteou valiosos brin- des, publicou separatas com ídolos do desporto e da canção (e até Presidentes da República), e pelos seus diversos figurinos (incluindo uma edição especial, com 31 números, dois almanaques e um número extra dedicado à figura épica de Camões) desfilaram, semanalmente, os mais célebres heróis de linhagem norte-americana, oriun- dos das tiras diárias publicadas nos jornais — que se moldaram ao formato revista e se enraizaram também no imaginário dos jovens lusitanos, destronando os seus mais directos concorrentes europeus (como Cuto Tintin, que eram as mais-valias d’O Mosquito e do Diabrete).

Seguidamente, para fazer face à concorrência do Cavaleiro Andante, surgiram muitas outras personagens, criadas por autores de várias procedências, italianos, franceses, ingleses, holandeses, espanhóis, mas sobretudo franco-belgas, na última série (talvez a mais ecléctica). E o próprio Cuto ressurgiu em novos episódios, a partir de 1953.

MA 454Mas o maior património do Mundo de Aventuras são alguns dos nomes mais ilustres da BD portuguesa, como José de Oliveira Cosme, Roussado Pinto, Vítor Péon, Carlos Alberto, José Antunes, José Manuel Soares, José Baptista, Vítor Mesquita, Baptista Mendes, Orlando Marques, Raul Correia, Lúcio Cardador, José Garcês, José Ruy, E.T. Coelho, Fernando Bento, Artur Correia, Catherine Labey, Augusto Trigo e outros. Na 2ª série, o MA abriu também as suas páginas, com a rubrica “Novos da BD Portuguesa”, a muitos autores jovens, alguns dos quais viriam a ter notoriedade artística, como Luís Louro, Tozé Simões, Fernando Jorge Costa e Luís Nunes.

Depois de passar a sair quinzenalmente, na última e atribulada etapa da sua existência — de que fui testemunha “privilegiada”, no pior sentido do termo, como coordenador —, o fim chegou em 15 de Janeiro de 1987,MA nº 589 com o nº 589 (aliás, 1841, no somatório das duas séries), preenchido por uma história policial de origem inglesa, em vários episódios, ilustrada por Vítor Péon — um dos mais carismáticos colaboradores do MA na sua 1ª série, criador (juntamente com Roussado Pinto) do famoso cowboy com um nome índio, Tomahawk Tom —, o que parece um final quase simbólico!

28 anos depois, o título e a assombrosa carreira do Mundo de Aventuras (quase quatro décadas de publicação inin- terrupta!) merecem ainda ser recordados pela sua imensa legião de leitores e pelos bedéfilos das novas gerações.

 

4 thoughts on “RECORDANDO O “MUNDO DE AVENTURAS”

  1. Caro Jorge Magalhães, deixe que lhe diga que esta sua prosa reflecte a mesma alegria, e felicidade que eu sentia quando o meu pai entrava em casa com o semanal Mundo de Aventuras. Poder ainda hoje folhear esta revista é como viajar no tempo e sentir esses gloriosos dias de encantamento. Tinha vontade de escrever, escrever, escrever sobre este seu artigo que me trás imensas recordações… em especial do meu pai, eterno leitor de BD, mas como tudo na vida devemos ser sucintos, e deixar espaço para todos os outros amigos do Gato Alfarrabista. Abraço e saudações bedéfilas.

  2. Falar do “Mundo de Aventuras” é também, para mim, voltar ao passado e recordar todo um trajecto de vida, praticamente desde o 1º ano do liceu até à maturidade, pois acompanhei quase sempre esta revista, assim como outras que se publicaram nessa autêntica época dourada, em que a BD preenchia boa parte dos meus ócios.
    Também guardo muitas memórias de amigos e parentes que partilhavam comigo esse prazer. Tive um tio que comprava sempre, às quintas-feiras, o “Mundo de Aventuras” e que me deixava lê-lo mesmo antes de o levar para casa. Por fim, passou a comprar dois exemplares para me oferecer um deles. Jamais esqueci esse gesto de carinho!
    Em Angola, onde vivi largos anos, depois de me casar, o MA continuou a fazer-me companhia, embora tivesse de esperar seis meses, em relação à sua data de saída na metrópole. Quando vinha de férias a Portugal um dos meus primeiros desejos era comprar os números atrasados para pôr a leitura em dia. Bons tempos!…
    Como não tinha toda a colecção, ia também à procura de números antigos nos alfarrabistas e assim, pouco a pouco, fui colmatando as minhas faltas. Nessa época, anos 70, o “Mundo de Aventuras” (1ª série) era ainda mais procurado do que “O Mosquito” e o “Cavaleiro Andante”, o que se reflectia na sua cotação. Mais tarde, foi o contrário… e creio que ainda assim é. Mas para mim recordar (e reler) “O Mosquito” é também prestar homenagem ao “Mundo de Aventuras” e a outras revistas que foram companheiras dilectas da minha juventude e influenciaram, sem dúvida, a escolha profissional que acabei por fazer, num momento crucial da minha vida.
    Um abraço de amizade e boas leituras.
    Jorge Magalhães

  3. Amigo Jorge Magalhães,
    É escusado dizer-lhe que este post mexeu muito comigo. Já sabe que o MA sempre foi a minha revista de eleição, em parte porque “não fui a tempo” de apanhar a época do Mosquito, Diabrete e Cavaleiro Andante, mas, por outro lado, devido à reconhecida qualidade da revista (recorde-se que o MA se publicava numa altura em que os quiosques fervilhavam com publicações BD como o Jornal do Cuto, Tarzan, Korak, Falcão, etc, embora sem a mesma “mística” do MA, na minha opinião).
    Tal como o Paulo Pereira, também não me quero demorar muito (e acredite que não é por falta de assunto) no meu comentário mas como esta revista me trás muitas recordações, não quero deixar de partilhar o modo como tomei contacto com o MA pela primeira vez.
    Naquela altura – princípio dos anos 70 – eu era um miúdo que adorava desenhar e devorava livros, em especial os que continham ilustrações vistosas e coloridas.
    A primeira revista de banda desenhada que tive foi um número do Tio Patinhas, que me foi oferecido por uma tia minha, onde entravam os Irmãos Metralha como vilões.
    A partir daí, a banda desenhada entrou na minha vida, através de outras publicações da Disney e da Hanna-Barbera. Só um pouco mais tarde tomei contacto com o MA.
    Eu tinha um tio e um primo, mais velhos do que eu, que coleccionavam o MA (e também, em menor escala, o Condor, Condor Popular, Ciclone, Guerra, Policial, Selecções MA, Xerife, e outros). Esse tio e esse primo acabaram por casar e deixaram para trás a colecção de revistas, encaixotadas. Um dia, durante uma visita a casa da minha tia-avó, dei com algumas caixas cheias de revistas. Fiquei horas a folhear, a ler e a admirar as belas capas que o Carlos Alberto fazia para o MA. Aos poucos, a minha tia e a minha avó foram-me dando as revistas que ainda hoje guardo religiosamente na minha colecção.
    Os meus heróis preferidos? Eram todos. Cada um à sua maneira tinham um encanto muito próprio. Mas havia especial predilecção por alguns como o Fantasma, Mandrake, Kit Carson, Príncipe Valente, Tim Tyler, Matt Dillon, Cisco Kid, Garra de Aço, Jeff Arnold, Red Ryder, Rip Kirby… Belas recordações…
    Uma nota final apenas para lhe apontar um reparo: na lista de nomes que enumera como património do MA tem de incluir o seu. Sei que não o fez por modéstia mas é da mais elementar justiça que o seu nome seja relembrado como um dos mais importantes que passou pelo MA, pelo trabalho notável que fez à frente da revista (aliás, como fez com outras como as Selecções BD, por exemplo), O seu a seu dono!

    Um grande abraço

  4. Amigo Carlos,
    Sabe muito bem como aprecio as suas conversas (e este comentário só tem o defeito de não ser “ao vivo”), pelo que elas representam de cumplicidade, de memórias, de gostos e de ideais recíprocos (apesar da nossa diferença de idades), e do amor a uma Arte que fez desabrochar o seu talento e o seu espírito criativo, um talento que muitos bedéfilos conhecem e apreciam.
    Há sempre um momento na vida em que surge algo que nos toca e emociona profundamente, ao ponto de isso poder definir, de certa forma, os nossos próprios destinos… como no seu caso e de tantos outros desenhadores e artistas que conheço. Não será imodéstia da minha parte dizer que comigo se passou também o mesmo, embora numa escala muito inferior, porque não sou artista, com grande pena minha. Em miúdo gostava de rabiscar desenhos e de contar histórias, imitando os autores de banda desenhada que tanto admirava. Mas o meu incipiente talento artístico não foi mais além… Felizmente que hoje não há vestígios desses rabiscos, para não me fazerem corar de vergonha! É verdade que continuei a escrever, mas sem que isso se transformasse numa carreira a sério.
    O seu vívido testemunho, a propósito do aniversário do “Mundo de Aventuras”, é mais uma prova de que o MA dos anos 70 conseguiu também chegar ao coração de milhares de leitores (nessa época, a tiragem rondava os 20.000 exemplares), o que me regozija muito mais, devo confessar, do que algumas coisas que fiz posteriormente. Só tenho pena, amigo Carlos, de não o ter conhecido nessa altura, mas você era ainda muito novinho e talvez não tivesse podido juntar-se à grande comunidade de leitores “dos 17 aos 70 anos” que se reunia mensalmente nos convívios do MA, realizados em várias localidades, de norte a sul do país. Nunca chegámos a ir a Moura, mas estivemos em Évora diversas vezes – ou seja, uma vez por ano — e noutras localidades do Alentejo e do Algarve.
    Quanto ao seu amável “reparo”, penso que a notoriedade e o reconhecimento público devem recair em quem é mais digno deles, neste caso os artistas e outros colaboradores que pelo seu mérito fizeram do MA uma das mais populares revistas de referência da BD portuguesa, cuja “mística” (como você bem diz) contagiou gerações e se fixou de tal modo no imaginário colectivo que até foi tema musical de uma banda rock. Quando eu peguei nas rédeas desse destino, o MA já tinha inscrito o seu nome a letras de ouro na história da BD portuguesa. Eu limitei-me a ser uma espécie de fiel depositário de um precioso legado, procurando honrá-lo e valorizá-lo da melhor forma que sabia e podia (porque nesse tempo havia muitas limitações…), por respeito aos leitores e às figuras ilustres que me tinham precedido – entre elas Roussado Pinto, que tive a felicidade de conhecer e de quem ouvi muitos conselhos, assim como outro querido amigo e grande Artista, Vitor Péon, com quem privei intensamente e que continuo a venerar e a recordar com imensa saudade.
    Posso afirmar, sem falsa modéstia, mas até com enorme contentamento pelo trabalho desenvolvido nesses 13 anos, que fui um mero instrumento ao serviço de uma emblemática revista, e seria estultícia comparar os meus humildes pergaminhos aos daqueles que figuram, por mérito próprio, no glorioso panteão do MA e da 9ª Arte portuguesa. Ou seja, todos os que mencionei e mais alguns… porque Mário de Aguiar e António Dias, os homens que estiveram na génese do MA, que o criaram e ampararam nos primeiros decénios de vida, também merecem um lugar nessa honrosa galeria.

    Um grande abraço,
    JM

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