A QUINZENA CÓMICA – 1

OS REIS DA ANEDOTA POPULAR

Cara Alegre nº 6Assinalando com as devidas honras o nosso 400º post, iniciamos hoje uma nova rubrica humorística, de periodicidade quinzenal como o seu título indica, que apresentará material oriundo de uma das mais famosas revistas que, em meados do século passado, fizeram sorrir os portugueses, distraindo-os das preocupações do quotidiano e dos ditames de um regime opressivo que procurava controlar e cercear todas as liberdades — até a de fazer humor.

Passando muitas vezes entre as malhas da censura, o Cara Alegre, nascido em 10 de Janeiro de 1951, conseguiu tornar-se um símbolo da “resistência” dos humoristas portugueses, que, embora evitando tocar em assuntos mais delicados politicamente, souberam retratar a sociedade do Estado Novo com os seus defeitos, as suas vaidades, os seus costumes arreigadamente pequeno burgueses, mas também o seu espírito bairrista e popular, dando um saudável exemplo de maturidade cívica que faltou a outras áreas criativas.

Cara Alegre nº 13Como frisaram os editores do Cara Alegre, referindo-se aos 15 primeiros volumes da colecção quinzenal (do nº 1 ao 180), esta revista, dirigida por Nelson de Barros e que contou entre os seus principais capistas (para citarmos apenas esta faceta artística) com autores como Stuart Carvalhais (nos 24 primeiros números), José Viana, José Manuel Soares e Carlos Roque, era “uma verdadeira enciclopédia do humor contemporâneo, única em Portugal e rara no estrangeiro. Nessa série de números encontram-se 1300 artigos e contos humorísticos, 7500 desenhos, 10000 anedotas, tudo quanto em sete anos de melhor produziram os maiores humoristas do mundo, nas mais significativas expressões da sua arte. Adquirindo a nossa colecção, o leitor tem a certeza de levar para a sua estante, o riso ou — o que é melhor — os sorrisos do mundo, numa das fases mais perturbadas da sua existência”. Balanço positivo de uma carreira pautada pela originalidade…

Cara Alegre nº 18Parafraseando o Cara Alegre, abrimos a nossa primeira quinzena cómica com alguns chistes de Stuart Carvalhais e de outro expoente, não só da arte gráfica como do teatro, que foi José Viana. O seu humor castiço — em que se espelham também os sorrisos do mundo — evade-nos de uma realidade que continua a ser perturbadora (e hoje, talvez, ainda mais insólita), porque o mundo atravessa uma fase carregada de nuvens negras, das ameaças terroristas às incertezas das bolsas e dos mercados.

Embora tenhamos a televisão e a internet, cada vez mais presentes e dominadoras no nosso quotidiano, ganhando uma influência determinante em termos sociais que nenhum meio de comunicação teve até hoje, nem mesmo o cinema, a verdade é que o cenário à nossa volta é cada vez mais desolador. Cara Alegre 32Dantes empregava-se muito o ditado “rir é o melhor remédio”, mas hoje o humor anda pelas ruas da amargura e são raros os cartoonistas que ainda encontram espaço para as suas criações, porque já não há revistas como o Cara Alegre, o Can-Can, Os Ridículos, a Parada da Paródia, A Bomba ou o Riso Mundial.

Parece que a “apagada e vil tristeza” dos problemas económicos, sociais e políticos não nos deixa alternativa para uma boa e salutar gargalhada, à maneira dos velhos tempos em que o cidadão comum, apesar de todas as dificuldades e restrições que enfrentava no dia-a-dia, ainda era capaz de acalentar no seu espírito uma réstia de alegria, de fé e de esperança no futuro.

Cara Alegre 33 430Hoje, parece que tudo isso se consome em 24 horas e que é preciso “recarregar baterias”, depois de ouvirmos todas as más notícias na televisão, que pouco auguram de positivo para o nosso futuro próximo, e os discursos banais e estéreis dos políticos que nos (des)governam, numa eterna e despudorada “caça ao voto”. Já para não falar do que lemos nas redes sociais…

Com o liberalismo democrático que hoje impera em todos os media, o humor tornou-se dependente de uma fórmula única e exclusiva: a actualidade política e económica,Cara Alegre 56 431 o que limita naturalmente o seu campo de expressão. Os humoristas já não se inspiram na anedota popular (que era a eleita de Stuart), mas na máquina de propaganda mediática que condiciona as suas ideias. O sentimento deu lugar à razão…

Apetece-nos, por isso, recordar que rir sem entraves é o melhor remédio, em companhia — nesta Quinzena Cómica que pretende prestar-lhes homenagem — de alguns dos melhores humoristas que passaram pelas páginas, recheadas de jovialidade, bonomia e leveza de espírito, do saudoso e emblemático Cara Alegre.

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