“PECADOS” DA DEMOCRACIA

JOÃO AMARAL - FRED 226

Fred & Companhia é o título de uma rubrica que João Amaral, desenhador e argumentista de reconhecidos méritos, criou no seu blogue e que semanalmente, sob a forma de uma tira de BD, chega a todos os recantos da blogosfera, pois já são muitos os amigos e admiradores do Fred, um rapaz sem “papas na língua”, que sabe pensar pela própria cabeça e diz às vezes (ou quase sempre) coisas muito lúcidas. Isto é, um jovem adolescente, ainda quase um garoto, na pele de um filósofo!…

Luxemburgo (Abadia de St. Maurice)Ora, o comentário do Fred, nesta tira que reproduzimos com a devida vénia, postada por João Amaral no seu blogue, em 12 de Junho p.p., fez-nos oportunamente reflectir sobre as contradições e as injustiças — a que J. A. chama “pecados”, com toda a justeza — do sistema dito democrático em que vivemos.    

Basta ver o que se passa no Luxemburgo e em muitos outros países, cujos trabalhadores imigrantes contribuem para o respectivo PIB e para as finanças públicas, mas não têm direito de voto em eleições legislativas. E esse é — ou devia ser — um dos direitos fundamentais, um direito para todos, nas democracias europeias… que já assim se intitulavam quando as mulheres, ou seja, a maioria da população, ainda não podiam votar. Porquê? Porque, então, as mulheres viviam num isolamento imposto pela sua “inferior” condição feminina, sob a tutela dos maridos ou de outros poderes. Eram “estrangeiras”, sem direitos de cidadania, na própria terra onde tinham nascido. Um elo mais fraco, que só em tempos relativamente recentes, há menos de 100 anos, se tornou mais forte. Não foi, nem será o único… como a História repetidamente nos ensina… mas, para isso, foi preciso percorrer um longo caminho.

Em Portugal, o sufrágio feminino sem quaisquer restrições, excepto a obrigação de saber ler e escrever — o que excluía, de antemão, grande número de mulheres —, só foi oficialmente reconhecido em 1968! O analfabetismo que grassou, durante décadas, na sociedade portu- guesa e só começou a ser combatido com êxito depois do 25 de Abril de 1974, foi, de facto, um dos maiores obstáculos ao direito de voto das mulheres (e também de muitos homens). Depois da implantação da República, em 1910, surgiram associações feministas, representadas por per- sonalidades como Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo, cuja posição de destaque nos meios culturais e científicos (e na Maçonaria) lhes permitiu desafiar o sistema eleitoral vigente, apoiado até por muitos republicanos.

Carolina Ângelo (1878-1911), distinta médica cirurgiã, foi, aliás, a primeira sufragista nacional, num polémico processo que culminou com a aprovação do seu voto nas eleições de 28 de Maio de 1911 para a Assembleia Constituinte — como mestre José Ruy nos descreve num magnífico álbum dedicado a este grande vulto feminino da sociedade portuguesa do século XX. Mas a lei foi logo alterada no ano seguinte, concedendo apenas o direito de voto aos chefes de família do sexo masculino.

Carolina vai votar 1 e 3

Retomando o fio da nossa “conversa”, suscitada pelos comentários do Fred, parece-nos que o que se passou há pouco tempo no Luxemburgo, com um referendo que negou, mais uma vez, aos imigrantes (perfeitamente integrados na sua sociedade, como os portugueses) o direito de voto, reduzindo-os apenas à condição de massa trabalhadora, embora constituam quase 50% da população, é um absurdo tão anti-democrático que apetece dizer: “Então, se não os deixam participar na eleição do governo, vão à fava e amanhem-se pelos seus próprios meios! Façam vocês o trabalho que eles fazem! Prosperem sem a ajuda deles!”.

Pouco mais de 50% da população luxemburguesa precisa da outra metade para viver, mas não lhe quer conceder os mesmos direitos… proibindo até os seus filhos de falar a língua materna nas escolas. Pessoas que habitam e trabalham no mesmo território, sujeitas às mesmas leis e, no entanto, impedidas de intervir na sua aprovação. Acrópole no tempo de PériclesOs imigrantes de muitos países têm, hoje, de travar a mesma luta das corajosas femi- nistas do século passado.

Este absurdo “democrático” reme- te-nos — ressalvando embora, no caso vertente, as grandes distâncias entre os opostos — para o exemplo da antiga Grécia, citado a propósito pelo Fred, em que uma enorme legião de escravos e servos, sem quaisquer direitos, vivia quase como animais, esquecida, despre- zada até pelos próprios mentores da democracia. Homens de profundos pensamentos e elevados ideais, mas que reduziam também o mundo a uma nesga daquilo que viam (ou julgavam ver). Mesmo no “século de ouro” da Grécia, quando Atenas foi governada por Péricles, os plutocratas dominavam a sociedade, com total indiferença pelas mulheres e pelas classes mais baixas.

Ah, a democracia!… Sendo, genuinamente, um sistema político baseado nas aspirações de justiça, liberdade e igualdade social, parece, às vezes, uma das maiores mentiras inventadas pelos homens para enganarem e explorarem o seu semelhante!

Obrigado, Fred, por nos lembrares que “nem tudo o que luz é ouro”.

One thought on ““PECADOS” DA DEMOCRACIA

  1. Churchill
    “Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time.” (from a House of Commons speech on Nov. 11, 1947)

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