CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 3

MAIS UMA RONDA PELO “PISCA-PISCA”

PISCA-PISCA - 1Aqui têm, caros internautas que regularmente nos visitam, mais uma série de capas do Pisca-Pisca, excelente mensário juvenil que se publicou entre Janeiro de 1968 e Dezembro de 1970, num total de 33 números, sob a direcção de Álvaro Parreira, que foi também um dos directores da 2ª série do Camarada, revista editada e distribuída pela Mocidade Portuguesa (MP), uma organização juvenil para- militar que ficou para a História como um dos símbolos do regime salazarista e da doutrina do Estado Novo.

À primeira análise, o Pisca-Pisca parece imbuído pelo mesmo espírito nacio- nalista, mas de uma forma mais discreta, mais sintonizada com a cultura do que com a política, como poderá constatar quem percorrer os seus números com atenção. As alusões ao regime e às campanhas cívicas e “patrióticas” da MP eram, quanto muito, subliminares. Os tempos, aliás, tinham mudado e, mesmo com Marcello Caetano na cadeira do poder, pressentia-se já o fim da ditadura…

PISCA-PISCA - 6 e 9

Neste conjunto de capas que hoje oferecemos à vossa curiosidade, figuram os traços, facilmente reconhecíveis, de três grandes ilustradores portugueses, cada um com obras de vulto no seu género (e que não olvidaram também a Banda Desenhada): José Antunes (nºs 1, 6 e 9), Eugénio Silva (nºs 25 e 29) e Carlos Alberto (nºs 30 e 33).

No nº 6 (Junho de 1968), o destaque foi dado a uma biografia de Camões em “quadrinhos”, narrando sumariamente, pelo traço de Fernand Cheneval, desenhador oriundo do Tintin belga, a epopeia poética e aventurosa de um dos maiores heróis da nossa História. Lembro-me bem de que este foi o primeiro número do Pisca-Pisca que me veio parar às mãos, quando eu e a minha família ainda vivíamos em Angola.

PISCA-PISCA - 25 e 29

A capa do nº 29 (Julho de 1970) exibe um belo exemplo do talento pictórico e figurativo de Eugénio Silva, um dos artistas gráficos mais em foco no Pisca-Pisca, que, no sumário desse mesmo número, brindou os leitores da revista com uma magnífica (e verídica) história de aventuras juvenis, em BD, intitulada “A Gruta dos Três Irmãos”.

Quanto a Carlos Alberto Santos, o mais realista de todos os desenhadores do Pisca-Pisca, distinguiu-se pelas suas composições sobre temas históricos (entre elas, uma HQ dedicada a Vasco da Gama), fazendo gala de um estilo robusto e vigoroso, de grande apuro estético e documental, a par de excepcionais aptidões como artista plástico.

PISCA-PISCA - 30 e 33

PISCA-PISCA - IZNOGOUD621Foi devido à valiosa colaboração literária e artística de numerosos autores portugueses e estrangeiros que o Pisca-Pisca, apesar de não ter conseguido ultrapassar algumas barreiras — resistindo precariamente à concor- rência de revistas com periodicidade semanal e menos preocupações de ordem didáctica, ou seja, com outros atractivos comerciais, como o Tintin e o veterano Mundo de Aventuras —, deixou uma agradável (e indelével) recordação entre alguns leitores desse tempo.

Especialmente por ter apresentado em estreia nas suas páginas, como já referimos noutro post (ver aqui), uma das séries mais hilariantes criadas pela fértil imaginação de René Goscinny, com desenhos de Tabary: “O Califa [de Bagdad] e o Grão-Vizir”, magistral sucessão de episódios curtos, onde, num ritmo frenético, como era timbre de Goscinny, assistimos às desgraças do maquiavélico e patético Iznogoud, cujos sinistros planos esbarram sempre em dois obstáculos incontornáveis: a candura e a boa-fé do rival que sonha destronar por todos os meios ao seu alcance.

 

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6 thoughts on “CAPAS QUE ENCHEM O OLHO – 3

  1. Bem verdade…É uma bela revista que tembém incluia inúmeras histórias e pequenos contos com muitas e belas ilustrações de muitos autores portugueses, desde Carlos Antunes, José Ruy e Zé Manel, entre outros. Felizmente tenho a colecção completa e é uma revista que gosto de rever e apreciar.

  2. Obrigado pelo comentário, amigo Letrée. Eu também nutro especial apreço pelo Pisca-Pisca, revista que comecei a coleccionar quando ainda residia e trabalhava em Angola, porque, felizmente, também era distribuída naquele território ultramarino, embora com muitos meses de atraso. Cheguei mesmo a colaborar com um conto no último número.
    Além das hilariantes peripécias de Iznogoud, quanto a mim uma das melhores séries criadas por Goscinny, também me encantavam no Pisca-Pisca as magníficas ilustrações de muitos autores portugueses — escolhidos entre os melhores daquela época —, bem como os contos, as páginas de passatempos, os artigos sobre temas históricos e didácticos — dos quais destaco uma rubrica dedicada aos trajes da Antiguidade, com primorosas ilustrações de Eugénio Silva —, as histórias em “quadrinhos”, como eram designadas na revista, por grandes desenhadores portugueses e franco-belgas, o critério cultural e recreativo homogeneamente doseado que norteava o conteúdo de todos os números, mas que acabou por não alcançar os seus objectivos, por falta de maior projecção de um projecto que estava obviamente adiantado em relação ao seu tempo.
    Tencionamos fazer outros périplos pelo excelente sumário do Pisca-Pisca, pois é um autêntico manancial de assuntos que poderão interessar os visitantes do nosso blogue, valorizando-o cada vez mais. E dessa forma estaremos também a homenagear os excelentes artistas que colaboraram naquela revista.

  3. Caro Jorge Magalhães
    Muito bom trabalho dedicado à revista Pisca-Pisca, que bem merece a análise de um profundo conhecedor das publicações portuguesas de BD, como é o caso do “Gato Alfarrabista”.

    Abraço,
    G.L.

  4. Obrigado, caro Geraldes Lino, pelo teu comentário, que revela não só um grande interesse pelo Pisca-Pisca, revista que também deves ter coleccionado, mas, o que muito nos lisonjeia, a atenção que dedicas ao nosso blogue.
    Espero que continues a visitá-lo com frequência, embora nem todos os assuntos tenham o mesmo interesse (há que reconhecê-lo), tal como eu acompanho assiduamente o teu veterano e magnífico blogue, que tem sido e continuará a ser, certamente, um precioso manancial de informações para todos os bedéfilos da nova e da velha guarda.

    Um abraço amigo do
    Jorge Magalhães

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