OS HOMENS E A HISTÓRIA – 2

A BATALHA DE IWO JIMA (1)

Uma nota prévia: é obrigatório agradecer a António Martinó Coutinho a citação que fez desta célebre batalha, com o brilhantismo a que já nos habituou, no seu blogue Largo dos Correios, pois despertou-me algumas recordações mais íntimas e saudosistas, dando-me a ideia de escrever este artigo (em duas partes), em que também evoco uma sala de cinema que já não existe.

Iwo Jima antes da invasão (Fev. 1945)Entre a madrugada de 19 de Fevereiro e a tarde de 25 de Março de 1945, travou-se numa pequena ilha do Pacífico, ainda em poder dos Japoneses (imagem à esquerda), uma das mais violentas batalhas da 2ª Guerra Mundial, que escreveu “com sangue, suor e lágrimas” um dos capítulos finais desse sangrento conflito entre as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e os Aliados (com a grande coligação formada pelos exércitos da Grã-Bretanha, da França livre, do Canadá e dos Estados Unidos da América, além de outros países do hemisfério ocidental, e da Austrália, que também enviaram tropas para o campo de batalha).

batalha de Iwo Jima - 1_Iwo_JimaNo dia 23 de Fevereiro, após uma lenta e difícil progressão no terreno, com inúmeras baixas causadas pela poderosa artilharia inimiga, os invasores conseguiram finalmente vencer a tenaz resistência dos soldados nipónicos entrincheirados no monte Suribachi, onde a bandeira dos Estados Unidos foi hasteada por um grupo de marines, num momento histórico (e mítico) registado para a posteridade pelo repórter fotográfico Joe Rosenthal, da Associated Press… embora se diga que essa cena foi uma repetição — para fotógrafo ver — do verdadeiro climax da primeira vitória, ocorrido momentos antes e com outros protagonistas, que não passaram à História.

Bandeira dos Marines no Monte SuribachiA batalha, porém, não acabou ali, pois a ilha era uma formidável fortaleza, recheada de bunkers e de túneis subterrâneos, autênticos labirintos, quase impenetráveis, com mais de 18 kms de comprimento, de onde foi muito difícil desalojar os últimos defensores da guarnição, comandada pelo general Kuribayashi e decidida a com- bater até à morte, sacrificando-se pela pátria em perigo.

Esta formidável e sangrenta epopeia teve reflexos quase imediatos na máquina de propaganda de Hollywood — uma das mais eficazes ao serviço da mística patriótica e triunfante da Casa Branca, onde o vigoroso Harry Truman sucedera ao carismático, Sands of Iwo Jima - postermas aleijado, Franklin D. Roosevelt — e não tardou muito (quatro anos somente, após o fim da guerra) que corresse nas telas uma espectacular produção, com o título Sands of Iwo Jima (em português, Inferno de Iwo Jima), realizada pelo veterano Allan Dwan e com outro grande nome do cinema americano à cabeça do elenco: John Wayne, cuja interpretação foi nomeada para o Óscar de melhor actor. Nesse filme, participaram também, em pequenos papéis, alguns sobreviventes da épica batalha. A própria bandeira utilizada nas filmagens foi a que os marines hastearam triunfalmente no Monte Suribachi e que ainda hoje é uma preciosa relíquia, guardada no Museu Nacional dos Fuzileiros em Quântico (Estado da Virgínia).

 

 SAUDADES DO ROYAL CINE

Cinema Royal (1977)

Royal Cine (vista interior)Ainda me lembro do entusiasmo com que assisti à projecção deste filme, alguns anos depois, num cinema de reprise do bairro da Graça, o Royal Cine, onde passei muitos momentos felizes da minha juventude, vivendo intensamente o esplendor do cinema, não só na tela como no próprio ambiente dessa magnífica sala de espectáculos — com uma fachada imponente, obra do arquitecto Norte Júnior, a lembrar um templo egípcio —, que chegou a ser considerada “o mais elegante cinema de Lisboa”, com 900 lugares, e foi, aliás, a primeira em todo o país a dispor de equipamento para projecção de filmes sonoros (na foto supra, sob o título, aspecto da frontaria do Royal Cine em 1977, já muito degradada, e na seguinte vista geral do balcão e da plateia; em baixo, plantas da vasta sala e anúncio da histórica inauguração do cinema sonoro em Portugal, com o filme “Sombras Brancas nos Mares do Sul”).

Cine Royal - balcão+plateiaRoyal CineSombras nos Mares do Sulo cinem sonoro em Portugal

Fachada do Royal CineActualmente, este autêntico e venerável templo da 7ª Arte, inaugurado em 26-12-1929, está reduzido à triste condição de super-mercado da cadeia Pingo Doce (passe a publicidade), pois como tantos outros não resistiu à passagem do tempo e à implantação de novas “modas”, gostos e mentalidades, que tornaram obsoleto o ritual (fascinante) de ir ao cinema com a família, a namorada ou os amigos. No “meu” tempo, isto é, há 50 e tal anos, ainda se podia saborear o prazer de passear nos largos salões, de cavaquear, durante os intervalos (que não tinham menos de 15 minutos), bebericando um café e fumando sem pressas um cigarro, de ver descerrar-se, com um suave rangido, as enormes cortinas antes do ecrã se iluminar com imagens oníricas, atraindo-nos para uma faixa brilhante que, tal como um tapete mágico das “Mil e Uma Noites”, nos arrastava para outra dimensão, durante um curto intermezzo de duas horas, sem que, na realidade, déssemos conta disso…

Royal Cine (2010)

Monte Suribachi - 23-2-1945E agora, como nas sessões duplas que antigamente nos atraíam a estes velhos, mas sofisticados cinemas de bairro, cai o pano para mais um intervalo. Voltaremos a “abrir a cortina”, dentro em breve, para falar também de banda desenhada, a propósito do mesmo tema — a batalha de Iwo Jima. Até para ficarmos mais sintonizados com a duração real dos combates, que só terminaram na pequena e desolada ilha, coberta de areia misturada com cinzas vulcânicas, 35 dias após o início da invasão, com a tomada dos aeroportos, vitais para os “corredores” aéreos por onde os bombardeiros norte-americanos iriam desencadear a última grande ofensiva contra o Império do Sol Nascente, transportando no seu bojo o mais mortífero dos inventos bélicos: a bomba atómica.

Embora, importa sublinhar, a imagem que ficou na memória colectiva, como um sinal (prematuro) de vitória, fosse a registada por Joe Rosenthal, com os seis marines a levantarem bem alto a bandeira americana no cume do Monte Suribachi. O autor de um memorial existente nos arredores de Washington cinzelou, na robusta beleza do bronze, o esforço e a euforia desses homens (metade dos quais não regressaria a casa), cujo gesto ficou para a História… ao contrário dos outros, dos “soldados desconhecidos” que, como reza a “lenda”, foram os primeiros a realizar o simbólico acto, depois de uma luta titânica nas infernais areias de Iwo Jima (nome que significa ilha do enxofre).

US_Marine_Corps_War_Memorial_(Iwo_Jima_Monument)_near_Washington_DC

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