CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 7

Fernando Bento foi indiscutivelmente um dos maiores ilustradores da imprensa infanto-juvenil portuguesa do século passado, e nenhum o superou no domínio das artes decorativas e na poética e delicada fantasia com que, graças a esse especial talento, abordava os temas natalícios, tanto em capas do Diabrete como do Cavaleiro Andante.

Um bom exemplo da sua arte inconfundível — que sabia chegar ao coração dos leitores, representando não apenas motivos religiosos, como era de tradição, mas o próprio mundo infantil, onde vibrava todo o encanto e toda a alegria da quadra natalícia —, é esta capa do Diabrete nº 208, dedicada ao Natal de 1944, em que a graça esfuziante dos “bonecos” de Bento nos seduz de tal forma que quase parecem saltar da página.

Natal - Diabrete 208

Em 1944, eu ainda não lia o Diabrete (só dali a um ano tive quem me oferecesse alguns números, até a minha preferência se fixar n’O Mosquito), mas nunca me esqueci da inefável sensação que me provocavam as capas de Natal desenhadas por Fernando Bento (até 1950) e todas revelando a inspirada criatividade e fantasia que faziam do seu traço e das suas composições os mais originais de sempre, nas revistas infanto-juvenis que, à data, disputavam o ceptro da popularidade, como O Papagaio, o Diabrete e O Mosquito.

Natal - O documento chinês  336Este número do Diabrete, com 20 páginas de formato maior que o dos seus concorrentes, estava recheado de magníficas aventuras, como “A Ilha dos Vulcões”, “Herói Sem Nome”, “A Grande Proeza de Primo Villa” e (em separata) “O Documento Chinês”, todas com desenhos do mestre espanhol Emílio Freixas. No seu abundante sumário figura- vam ainda a novela de Jules Verne “Viagem ao Centro da Terra”, numa adaptação pri- morosamente ilustrada por Fernando Bento, as Aventuras do Agente Secreto X-9, dinâmica criação de Alex Raymond (que anos antes se estreara n’O Pirilau), e Béquinhas, Beiçudo & Barbaças, mirabolante e infindável folhetim em que o génio humorístico de Bento luzia como uma estrela de Natal!

Natal - Bequinhas, beiçudo e barbaças   337

Além das habituais rubricas de curiosidades e passatempos, também de amena leitura, como “Ver, Ouvir e Pasmar” e “Puxa pela Cabeça” (com o grande concurso do Natal), havia ainda espaço para uma peça de teatro com o título “O Natal do Papá Ausente” e um belo soneto de Adolfo Simões Müller, outra presença indispensável na revista, que dirigia com a experiência e o saber adquiridos n’O Papagaio, e cuja veia poética e literária tinha em Fernando Bento o mais perfeito colaborador artístico. A ambos deve, sem dúvida, o Diabrete o seu trajecto semeado de êxitos, sempre em aceso despique com O Mosquito, rivalidade que só terminaria em Dezembro de 1951, quando se encerrou um velho ciclo para começar um novo, com o nascimento do seu sucessor, o Cavaleiro Andante. E, então, foi O Mosquito que ficou a perder!

Natal - A última prenda do menino jesus338

A título de curiosidade, aqui têm mais um brinde desse número de Natal do Diabrete: o divertido e curioso jogo da Arca de Noé, também com “bonecos” de Fernando Bento, que fechava uma das melhores edições na ainda curta existência do “grande camaradão”.

Natal - Jogo Arca de Noé 1  339Natal - Jogo Arca de Noé 3    341

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CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 6

Natal - Papagaio 506

Capa da famosa revista infantil O Papagaio nº 506, de 21/12/1944, com uma inconfundível ilustração de Meco, nome com que ficou conhecido para a posteridade António Serra Alves Mendes, um dos maiores artistas no seu género, pai de outro grande vulto da BD e das artes gráficas portuguesas do nosso tempo: Zé Manel.

Este número estava recheado de contos natalícios ilustrados por Meco, que era, desde há muito, um dos colaboradores mais activos e populares da revista, onde deixou marcas indeléveis do seu talento, sobretudo numa longa série de capas, mas também em alegres histórias aos quadradinhos, como as célebres “Aventuras da Família Patelhicas”.

Natal -  conto Natal e O Sonho da Bertini

Um neófito colega artístico deu também um “ar da sua graça” neste número, cabendo-lhe a honra de ilustrar as páginas centrais com uma alegoria dedicada ao Natal. Apesar de ser ainda menino e moço, com 14 anos espigadotes, a mão já afeita ao traço desempenhava-se bem dessas tarefas, preparando-o intensamente para uma longa e triunfante carreira que lhe abriria as páginas de muitas outras revistas infanto-juvenis portuguesas e as portas de grandes editoras. O seu nome (e assinatura): José Ruy Pinto.

Natal - presépio Ruy

Uma nota curiosa para os admiradores de Tim Tim, que nesta edição d’O Papagaio (onde era a figura mais destacada) vivia mais uma das suas empolgantes aventuras: “A Estrela Misteriosa”. Na última página, o jovem e intrépido repórter, à data ao serviço do Le Soir, dirigiu uma mensagem natalícia a todos os leitores do semanário que fora o primeiro, em Portugal, a publicar as suas proezas… e ainda por cima a cores.

Natal - Papagaio ccapa 506332

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 5

Natal - Faísca nº42

Esta capa, com um dos mais tradicionalistas temas de Natal, o Presépio, deve-se ao traço de António Barata, um artista que, apesar de muito subestimado, foi um dos melhores colaboradores de revistas infanto-juvenis como O Senhor Doutor (onde se estreou na técnica das histórias aos quadradinhos), O Papagaio e O Faísca. Se a sua produção não tivesse sido tão esparsa e irregular, devido a outras escolhas profissionais mais lucrativas, teria hoje certamente um lugar privilegiado nas crónicas da “época de ouro” da BD portuguesa, a par de Fernando Bento, E.T. Coelho e Vítor Péon, que foram seus contemporâneos, embora manifestassem outras influências e menos admiração (sobretudo os dois primeiros) por um estilo narrativo à maneira americana.

Foi n’O Faísca, onde criou as suas melhores obras (“Pedro, o Gavião”, “O Cavaleiro da Rainha”, “O Rei da Campina”), que António Barata conquistou o lugar a que tinha direito, consolidando o seu próprio estilo e evidenciando, cada vez mais, uma firmeza e maturidade de traço dignas de nota, a par de uma natural elegância (herança de Alex Raymond, um dos seus maiores mestres), como prova esta magnífica capa de Natal, publicada sem assinatura no nº 42, de 25/12/1943, com 12 páginas.

O natal de Branca de Neve + Florbela e Diabrete

Este número d’O Faísca — revista que teve existência relativamente efémera, pois não chegou ao 3º ano, devido à forte concorrência d’O Mosquito e do Diabrete — era dedicado por completo à quadra natalícia, como ilustram algumas festivas histórias inglesas, com o traço de bons (mas anónimos) desenhadores humorísticos, contos e passatempos vários e duas poéticas alegorias do director e editor Carlos Cascais, que se distinguiu também, pelos seus dotes literários, noutras publicações de maior nomeada, como O Papagaio.

Um desses poemas, com o título “Invocação”, lembrava o flagelo da guerra que, em pleno Natal de 1943, continuava a assolar várias nações europeias.

Natal - Invocation + Súplica de criança

A colorida contracapa — luxo reservado somente a duas páginas nesta edição de Natal, assim como nos números anteriores —, apresentava um curioso “brinde”, que colheu decerto o aplauso dos leitores, mas com evidente prejuízo da revista: dois postais de Boas Festas para recortar e colar em cartolina, pois podiam ser enviados pelo correio.

Aliás, as contracapas d’O Faísca tornaram-se descartáveis, numa série de números, por causa das estampas de um concurso com o sugestivo tema Bandeiras de Portugal. O garrido aspecto dessas estampas, que deviam ser coladas numa caderneta, habilitando assim a uma bicicleta como grande prémio, acabaria por penalizar os coleccionadores… alguns deles ainda hoje à procura de exemplares com essa última folha.

Natal - CCapa Faísca nº 42   319

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 4

Natal - Diabrete 104 A320

No mesmo dia 26 de Dezembro de 1942 (ou talvez um pouco antes) em que surgiu nas bancas o número de Natal d’O Mosquito — a que já fizemos referência num post anterior, como pode ser visto aqui —, os ardinas apregoavam também alegremente o nº 104 do Diabrete, que exibia uma magnífica capa desenhada por Fernando Bento, artista gráfico de traço ameno e desenvolto, cuja mestria era capaz de encher as páginas da revista com as mais vibrantes e inspiradas criações.

De facto, além da capa onde as figuras do Presépio, de grande beleza formal (e outras menos sacras), emolduravam um “educativo” poema de Adolfo Simões Müller — brilhante escritor e pedagogo que exercia as funções de director do Diabrete —, Bento teve ainda a seu cargo a ilustração de novos capítulos de Miguel Strogoff, HQ em tiras, com extensas legendas didascálicas, extraída da famosa novela de Jules Verne, e de Béquinhas, Beiçudo & Barbaças, hilariante série cómica cuja longevidade (pois já ia no 104º episódio) era mais uma prova do versátil engenho de um artista multifacetado.

Natal - Bequinhas  325

Apesar do Diabrete só ter oito páginas (mas de formato muito maior que as d’O Mosquito), o afanoso pincel de Bento ilustrou também um conto de Fidalgo dos Santos, “Taon, o Leão Perdido”, que já vinha de números anteriores, e até uma rubrica de curiosidades intitulada “Calendário da História”. Um extraordinário obreiro, sem mãos a medir, cujo talento se espraiava por outras publicações da mais variada índole.

Natal - tarzan diabrete326

Nesse número, o Diabrete continuava a publicar duas famosas séries estrangeiras que nenhum leitor (ou leitora) entusiasta podia perder: as exóticas e trepidantes aventuras do hercúleo rei da selva que Edgar Rice Burroughs baptizou com o nome de Tarzan, na versão em quadradinhos mais realista e dinâmica de sempre, realizada pelo mestre da anatomia e do movimento Burne Hogarth; e as Tropelias do Trovão e do Relâmpago, fantasista cognome para Quick e Flupke, dois ladinos garotos belgas, oriundos do típico bairro de Marolles, em Bruxelas, com os quais o Diabrete, impedido de publicar as aventuras de Tintin (que eram, nessa altura, exclusivo d’O Papagaio) quis aumentar a sua popularidade e o seu prestígio, apresentando outra emblemática criação de Hergé — forma inteligente de manter na sua órbita um dos maiores autores da BD europeia, à espera de que um dia (como, aliás, aconteceu) Tintin viesse também parar às suas páginas.

Natal - Trovão e Relâmpago

JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 10

PIRATAS DO AR (O primeiro “voo” de José Ruy)

O Papagaio 510  298Começamos hoje a apresentar algumas das primeiras histórias de José Ruy publicadas n’O Papagaio, a popular revista infantil dirigida, nessa época, pelo Dr. Artur Bivar, onde o artista se estreou de forma auspiciosa aos 14 anos, ilustrando contos (alguns da sua própria lavra), capas e rubricas várias até à apresentação no nº 511 (23 de Janeiro de 1945) da sua primeira história aos quadradinhos, com o título “Piratas do Ar”, que, depois de obtido o seu consentimento, recuperámos das páginas d’O Papagaio.

Apesar do texto ingénuo, da caligrafia irregular e do traço ainda débil e inseguro, revelando fraquezas que o juvenil autor, como é natural, ainda não estava apto a superar, já se vislumbrava nessa precoce (e ambiciosa) experiência um somatório de valores positivos que iriam marcar futuramente a carreira de José Ruy: o realismo, o equilíbrio da forma, as composições dinâmicas, a desenvoltura gráfica, o sentido da planificação — que até foge ao normal nesta primeira HQ, recheada de efeitos estruturais, num alarde de inventiva e modernismo, que não só embelezam as pranchas e agilizam a acção, como dão mais realce a algumas cenas e fluidez à sequência narrativa. Para os leitores d‘O Papagaio, apesar de habituados às trepidantes aventuras de um repórter chamado Tintin, “Piratas do Ar” foi, sem dúvida, uma novidade.

Na sua estreia como autor de BD, germinava já o desejo de José Ruy — à semelhança dos seus primitivos heróis do espaço — de voar cada vez mais alto com as asas do talento e da imaginação, enfrentando, confiante, os desafios do futuro, nos céus da aventura e da fantasia gráfica. Desejo que, como todos sabemos, amplamente se realizou!

O Papagaio 514 e pirata 1Os Piratas do Ar 2 + 3Os Piratas do Ar 4 e 5Os Piratas do Ar 6 e 7Os Piratas do Ar 8   307

CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 3

Natal - Mosquito 366 308

Esta foi a primeira capa de Natal que Eduardo Teixeira Coelho (ETC) realizou para O Mosquito, pouco tempo depois de ter feito a sua estreia nas páginas da revista, em cujo quadro de colaboradores nacionais pontificara, até então, o traço linear e a veia humorística de António Cardoso Lopes Jr. (Tiotónio), salvo nas ilustrações inglesas com que, à falta de outras, se guarneciam os contos e as novelas de aventuras.

Natal - poema do Avozinho309Com a chegada de E. T. Coelho — depois de ter passado pel’O Senhor Doutor e pelo Engenhocas e Coisas Práticas, outra revista concebida e editada por Cardoso Lopes —, o aspecto gráfico d’O Mosquito (que adoptara novo formato a partir do nº 318) sofreu uma reviravolta total, começando pelos sugestivos e alegres cabeçalhos, renovados com frequência, depois da “normalização” seguida por Tiotónio, e pelas capas cheias de acção e movimento, quase sempre inspiradas nas histórias de texto que constituíam parte substancial do sumário — além dos respectivos títulos, das rubricas mais variadas, com curiosidades e passatempos, e dos poemas do Avôzinho (leia-se Raul Correia), ilustrados com poético e decorativo encanto, como o soneto que figurava neste número, a par da secção do correio.

Pode mesmo dizer-se que, sem as magníficas ilustrações de E. T. Coelho, o nº 366, comemorativo do Natal de 1942, seria mais um igual aos outros, embora recheado de excelentes séries inglesas, como O Capitão Ciclone e Ao Serviço da Lei, em que refulgia o talento de dois grandes ilustradores dessa velha escola, à época ainda anónimos: T. Heath Robinson e Hilda Boswell

Mas a “prenda” mais valiosa desta edição de Natal, a primeira de várias com capas de E.T. Coelho alusivas à quadra, foi, sem dúvida, o Presépio criado também pelo versátil artista, cuja primeira folha se publicava neste número, inaugurando uma série de construções de armar em que se destacavam a beleza e a perfeição de todas as figuras animadas pelo seu traço, em contraste com o estilo caricatural de Tiotónio ou com o rigor geométrico de Calvet de Magalhães (ambos autores, também, de várias construções).

Natal - presépio Coelho 1  310

Nos números seguintes, saíram as restantes folhas deste Presépio, sem dúvida um magnífico exemplo da pujança gráfica do jovem Eduardo Coelho (seu primeiro nome artístico), que nessa fase inicial da sua carreira de ilustrador dava ainda primazia, nas manchas e no contorno bem delineado das figuras, ao uso intensivo (e vigoroso) do pincel.

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CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 2

Natal Mosquito nº 101   294

Com esta capa, O Mosquito celebrou o seu segundo número natalício, em 16/12/1937. A imagem do Pai Natal e dos seus minúsculos companheiros era baseada numa ilustração do humorista espanhol Arturo Moreno, publicada na revista infantil Pocholo (Natal de 1936).

2013-12-05 22.29.48O arranjo gráfico devia-se a António Cardoso Lopes Jr., o célebre Tiotónio, director artístico d’O Mosquito e criador das impagáveis figuras do Zé Pacóvio e Grilinho, dois “saloios” na tradição dos tipos populares de Rafael Bordalo Pinheiro. Na capa, vêem-se outros heróis da revista, como o Cão Top, de Cabrero Arnal, outro magnífico desenhador espanhol, D. Triquetraque, caçador de feras,  de A. Moreno, e o Capitão Bill, junto da sua equipagem, personagens de origem inglesa criados pelo mestre Roy Wilson (e aqui retocados pelo traço de Tiotónio).

Recorde-se que o segundo director e fundador d’O Mosquito era Raul Correia, prolífico autor de novelas de aventuras (e tradutor de todas as legendas das histórias aos quadradinhos), que assinava também, com o pseudónimo de Avôzinho, uma poética coluna, em prosa e em verso, que lhe granjeou o afecto e a admiração de milhares de leitores assíduos (muitos dos quais nunca descobriram a identidade desse bondoso avô imaginário).

Natal Mosquito + poema avozinho

No presente número de Natal, o seu estro poético brilhava com especial fulgor em dois trabalhos alusivos à quadra, como impunha a tradição, nesses tempos em que o texto ainda tinha primazia sobre a imagem: o belo poema “Noite de Natal” e o conto “A Oração das Lágrimas”, que deve ter deixado muitos garotos — pelo menos aqueles que já sabiam ler — com os olhos repassados (de lágrimas) de emoção.

Na contracapa desse número, bem recheado de histórias inglesas, como Pelo Mundo Fora (de Walter Booth) e O Capitão Bill, o Grumete Bell e o Cozinheiro Ball (de Roy Wilson), O Mosquito anunciava o seu “presente” de Natal: um álbum a cores com a história completa, desenhada por Arturo Moreno, “Ponto Negro, Cavaleiro Andante” (Punto Negro en el País del Juego), também oriunda do Pocholo — obra-prima do surrealismo poético em quadradinhos, plena de inventiva, humor e fantasia, que tinha como protagonista um borrão de tinta transformado em destemido herói de papel. A sua figura surgia também na capa d’O Mosquito, em jeito de reclamo (outra boa ideia do Tiotónio).

Foi uma das muitas personagens — tanto na BD como no cinema animado — que consagraram Arturo Moreno Salvador (1909-1993) como um dos mais criativos e prolíficos autores humorísticos espanhóis da sua geração.

Natal Mosquito nº 101 contracapa295Outro presente que encantou todos os leitores, sobretudo os mais entusiastas das construções de armar — que nessa época, à falta de outros entretenimentos, eram o regalo da miudagem, sempre ávida de novidades e passatempos, mesmo os de papel —, foi a separata inserida neste número, com as três partes (ou planos) de um pitoresco Presépio desenhado por Rocha Vieira, colaborador eventual d’O Mosquito, mas copioso ilustrador no Tic-Tac e noutras revistas infanto-juvenis, onde deixou obra de vulto.

Aqui têm também essa bela separata colorida, graças aos bons préstimos do nosso amigo Carlos Gonçalves, a quem agradecemos, mais uma vez, a sua preciosa colaboração.

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CAPAS E NÚMEROS DE NATAL – 1

O Natal foi sempre, em todas as épocas, motivo festivo e tema obrigatório para os ilustradores dos jornais infanto-juvenis, que nessa quadra evocativa e poética deram largas à sua inspiração, como demonstra esta breve antologia de capas alegóricas, englobando algumas das principais revistas portuguesas de BD do século XX e um punhado dos seus mais prestigiosos colaboradores nacionais, que irão até ao Natal desfilar no nosso blogue.

Um pequeno tesouro que se desfruta com renovado (e demorado) prazer, tal é a beleza iconográfica, a fantasia artística, o sentido recreativo e espiritual, a harmonia do conjunto, contidos em imagens cujo colorido o tempo ainda não logrou esbater.

Capa Natal TIC-TAC  1933288

Capa do 1º número de Natal do Tic-Tac, 2ª série (24-12-1933), assinada por Raquel [Roque Gameiro], uma das maiores ilustradoras portuguesas do século passado, com obra extensa e singular, de rara sensibilidade, mormente em publicações infanto-juvenis, e que também se notabilizou nas artes plásticas, como seu pai Alfredo Roque Gameiro.

O Tic-Tac era dirigido, nessa fase, por João Vicente Sampaio e tinha como editor outro célebre artista da Amadora, António Cardoso Lopes (Tiotónio), que no início de 1936 se abalançou a projecto ainda de maior vulto, criando uma das mais emblemáticas revistas da história da BD portuguesa: O Mosquito.

Natal -O testamento do perú

Nesse número do Tic-Tac, com 16 páginas, em que os temas natalícios tinham a primazia, destaque para o conto de Ana de Castro Osório, “Uma História do Natal”, com ilustrações de Pinto de Magalhães (Filho), e a narrativa humorística “O Testamento do Peru”, original de Luís Ferreira (Tio Luís) e ilustrada por Tiotónio, que também fez as honras da contracapa, com novas peripécias do seu conhecido personagem Zé Pacóvio… por causa de um peru recheado que o fez ver a lua e as estrelas!

Natal -O perú velho

Em suma, um número de Natal também bem “recheado” de nomes célebres e de amenas propostas de leitura, entre as quais um novo episódio da mais empolgante série de aventuras desse tempo, Pelo Mundo Fora (Rob the Rover), com desenhos de um grande pioneiro da BD inglesa: Walter Booth.

A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 6

1º de Dezembro ilustração J Antunes 2

Embora oficialmente o 1º de Dezembro tenha deixado de ser feriado, a partir deste ano, não deve cair no esquecimento uma data que está associada a um dos maiores acontecimentos da História de Portugal: O Último Conjurado  277a reconquista da independência em 1640, depois de 60 anos de domínio espanhol. Uma data com este significado merecia continuar a ser assinalada em celebrações oficiais, tal como aconteceu no passado, mesmo durante um regime que aboliu a monarquia e os seus símbolos, mas não a memória dos feitos que forjaram, ao longo dos séculos, a identidade e o futuro de Portugal entre as outras nações europeias. Memória que continua viva na nossa literatura, como atesta o romance que acabei de ler, de uma nova e inspirada autora, Isabel Ricardo, com o título “O Último Conjurado” (Planeta Editora, 1ª edição: Março de 2008, capa: José Laranjeira; ilustrações: Carlos Alberto Santos).

Bento - Diabrete 138Depois de D. Afonso Henriques, que talhou a golpes de montante, contra os sarracenos e o partido de sua mãe, D. Teresa, as primitivas fronteiras de um novo reino cristão; da revolta popular de 1384, contra a tibieza do rei D. Fernando e os desmandos de sua mulher Leonor Teles, que lhe sucedeu no trono, até ser expulsa pelo Mestre de Avis, futuro rei D. João I, e por Nuno Álvares Pereira, futuro Condestável; da grande vitória de Aljubarrota, que viu nascer a aurora de uma nova e radiosa era, liberta do jugo castelhano; da herança Henriquina, prosseguida por D. João II e por D. Manuel, que levou as nossas naus e os nossos marinheiros a todos os cantos do mundo; dos faustos da Índia e do Brasil, e dos escravos de África, que alimentaram a riqueza e a ambição de uma nova aristocracia, devassa e absolutista; do heróico desvario de um jovem rei, que sacrificou a fina-flor da sua cavalaria e a liberdade da pátria a um ideal impossível, como um Galaaz perdido num areal de ilusões — depois de tantas lutas e de tantos sacrifícios, de tantas décadas de esplendor e de glória, no convénio das nações mais poderosas da Europa, Portugal caiu nas malhas de um humilhante cativeiro, sob o pesado ceptro de um império cujo domínio se estendia a dois continentes.

Bento - Diabrete 566Reconquistar a liberdade, para os conjurados do 1º de Dezembro de 1640, foi um acto patriótico, cheio de abnegação e de fé, em que empenharam a vida, a família, os bens e a honra, uma missão cujos lances eram incertos e arriscados, pois nem o rei que queriam pôr no trono, o Duque de Bragança, lhes prometera lealdade absoluta. Mas tal como o Mestre de Avis, quando entrou no paço da rainha para matar o conde Andeiro, também eles não hesitaram em invadir o palácio da Duquesa de Mântua, dar-lhe voz de prisão e atirar por uma janela o traidor Miguel de Vasconcelos. O futuro estava traçado e o preço da nova liberdade custaria a Portugal, como no tempo de D. João I, um duro esforço de guerra, até finalmente os tercios filipinos regressarem à fronteira de Badajoz, vergados sob o peso da derrota, e outros estados europeus, incluindo o Vaticano, esquecerem as suas alianças com Espanha, reconhecendo como legítima a subida ao trono de D. João IV.

A banda desenhada de fundo histórico — um dos temas que pretendemos continuar a abordar neste blogue — não omitiu a evocação desse episódio, mesmo durante as longas trevas da ditadura salazarista, que, durante 40 anos, também cerceou direitos, liberdades e garantias, como no tempo da dominação filipina.

Camarada 128Pela mão de quatro grandes ilustradores, Fernando Bento (no Diabrete nºs 138, de 21/8/1943, e 566, de 1/12/1948), António Vaz Pereira (no Camarada nº 128, 1ª série, de 2/12/1950), José Antunes (no Camarada nº 24,    2ª série, de 30/11/1963) e José Garcês (na sua grandiosa História de Portugal, Asa, 1988), mostramos neste artigo como a BD portuguesa soube prestar homenagem aos heróis da independência e ao 1º de Dezembro, que atravessou mais de três séculos de História sem que nenhum governo, absolutista ou liberal, monárquico ou republicano, se tivesse lembrado, até hoje, de o suprimir do calendário dos mais importantes festejos nacionais.

Hist]oria de Zé Antunes

hist Portugal em BDFeriado ou não, o que importa é que, tal como fizeram alguns dos nossos mais talentosos autores de BD, há muitos anos e em épocas diferentes (antes e depois do 25 de Abril), o dia da Restauração continue a ser recordado como símbolo do amor à liberdade e da coragem de um povo que nunca se resignou a viver sob o jugo de estrangeiros ou de traidores à Pátria.

E aqui têm, a terminar a nossa breve resenha,      um excerto do capítulo que José Garcês e A. do Carmo Reis, com a perfeição artística e o rigor histórico que caracterizam os seus trabalhos, dedicaram a este feito glorioso, no álbum intitulado “A Restauração da Independência”       (3º volume da História de Portugal em BD).hist Portugal em BD - pag 1hist Portugal em BD - pag 3 e 4hist Portugal em BD - pag 5 e 6 Nota: agradecemos a preciosa e célere colaboração de Carlos Gonçalves, que nos proporcionou as duas páginas da história de José Antunes, publicada no Camarada.