A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 6

1º de Dezembro ilustração J Antunes 2

Embora oficialmente o 1º de Dezembro tenha deixado de ser feriado, a partir deste ano, não deve cair no esquecimento uma data que está associada a um dos maiores acontecimentos da História de Portugal: O Último Conjurado  277a reconquista da independência em 1640, depois de 60 anos de domínio espanhol. Uma data com este significado merecia continuar a ser assinalada em celebrações oficiais, tal como aconteceu no passado, mesmo durante um regime que aboliu a monarquia e os seus símbolos, mas não a memória dos feitos que forjaram, ao longo dos séculos, a identidade e o futuro de Portugal entre as outras nações europeias. Memória que continua viva na nossa literatura, como atesta o romance que acabei de ler, de uma nova e inspirada autora, Isabel Ricardo, com o título “O Último Conjurado” (Planeta Editora, 1ª edição: Março de 2008, capa: José Laranjeira; ilustrações: Carlos Alberto Santos).

Bento - Diabrete 138Depois de D. Afonso Henriques, que talhou a golpes de montante, contra os sarracenos e o partido de sua mãe, D. Teresa, as primitivas fronteiras de um novo reino cristão; da revolta popular de 1384, contra a tibieza do rei D. Fernando e os desmandos de sua mulher Leonor Teles, que lhe sucedeu no trono, até ser expulsa pelo Mestre de Avis, futuro rei D. João I, e por Nuno Álvares Pereira, futuro Condestável; da grande vitória de Aljubarrota, que viu nascer a aurora de uma nova e radiosa era, liberta do jugo castelhano; da herança Henriquina, prosseguida por D. João II e por D. Manuel, que levou as nossas naus e os nossos marinheiros a todos os cantos do mundo; dos faustos da Índia e do Brasil, e dos escravos de África, que alimentaram a riqueza e a ambição de uma nova aristocracia, devassa e absolutista; do heróico desvario de um jovem rei, que sacrificou a fina-flor da sua cavalaria e a liberdade da pátria a um ideal impossível, como um Galaaz perdido num areal de ilusões — depois de tantas lutas e de tantos sacrifícios, de tantas décadas de esplendor e de glória, no convénio das nações mais poderosas da Europa, Portugal caiu nas malhas de um humilhante cativeiro, sob o pesado ceptro de um império cujo domínio se estendia a dois continentes.

Bento - Diabrete 566Reconquistar a liberdade, para os conjurados do 1º de Dezembro de 1640, foi um acto patriótico, cheio de abnegação e de fé, em que empenharam a vida, a família, os bens e a honra, uma missão cujos lances eram incertos e arriscados, pois nem o rei que queriam pôr no trono, o Duque de Bragança, lhes prometera lealdade absoluta. Mas tal como o Mestre de Avis, quando entrou no paço da rainha para matar o conde Andeiro, também eles não hesitaram em invadir o palácio da Duquesa de Mântua, dar-lhe voz de prisão e atirar por uma janela o traidor Miguel de Vasconcelos. O futuro estava traçado e o preço da nova liberdade custaria a Portugal, como no tempo de D. João I, um duro esforço de guerra, até finalmente os tercios filipinos regressarem à fronteira de Badajoz, vergados sob o peso da derrota, e outros estados europeus, incluindo o Vaticano, esquecerem as suas alianças com Espanha, reconhecendo como legítima a subida ao trono de D. João IV.

A banda desenhada de fundo histórico — um dos temas que pretendemos continuar a abordar neste blogue — não omitiu a evocação desse episódio, mesmo durante as longas trevas da ditadura salazarista, que, durante 40 anos, também cerceou direitos, liberdades e garantias, como no tempo da dominação filipina.

Camarada 128Pela mão de quatro grandes ilustradores, Fernando Bento (no Diabrete nºs 138, de 21/8/1943, e 566, de 1/12/1948), António Vaz Pereira (no Camarada nº 128, 1ª série, de 2/12/1950), José Antunes (no Camarada nº 24,    2ª série, de 30/11/1963) e José Garcês (na sua grandiosa História de Portugal, Asa, 1988), mostramos neste artigo como a BD portuguesa soube prestar homenagem aos heróis da independência e ao 1º de Dezembro, que atravessou mais de três séculos de História sem que nenhum governo, absolutista ou liberal, monárquico ou republicano, se tivesse lembrado, até hoje, de o suprimir do calendário dos mais importantes festejos nacionais.

Hist]oria de Zé Antunes

hist Portugal em BDFeriado ou não, o que importa é que, tal como fizeram alguns dos nossos mais talentosos autores de BD, há muitos anos e em épocas diferentes (antes e depois do 25 de Abril), o dia da Restauração continue a ser recordado como símbolo do amor à liberdade e da coragem de um povo que nunca se resignou a viver sob o jugo de estrangeiros ou de traidores à Pátria.

E aqui têm, a terminar a nossa breve resenha,      um excerto do capítulo que José Garcês e A. do Carmo Reis, com a perfeição artística e o rigor histórico que caracterizam os seus trabalhos, dedicaram a este feito glorioso, no álbum intitulado “A Restauração da Independência”       (3º volume da História de Portugal em BD).hist Portugal em BD - pag 1hist Portugal em BD - pag 3 e 4hist Portugal em BD - pag 5 e 6 Nota: agradecemos a preciosa e célere colaboração de Carlos Gonçalves, que nos proporcionou as duas páginas da história de José Antunes, publicada no Camarada.

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2 thoughts on “A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 6

  1. Este blogue não é apenas um repositório de grandes obras de Banda Desenhada, é também um registo preferencial e apelativo da História de Portugal e da História Universal.
    Das obras citadas e reproduzidas com grande qualidade gráfica (mão de mestre no trabalho de computador), apenas tenho a HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD, da autoria de Carmo Reis e José Garcês, quatro volumes com caixa de arquivo que a minha mulher me ofereceu, com dedicatória dela, no Natal de 2001.
    Não posso dizer, como a anciã do anúncio televisivo, “que no meu tempo não havia…”, porque havia revistas de grande qualidade formativa, informativa e diversão. Não havia para mim, é certo, nesses primeiros anos escolares, dependente de uma bolsa onde o dinheiro era contado por moedas, da longitude e latitude dos lugares onde raramente chegavam à venda, mas estava ao dispor de quem podia adquirir e guardar estas preciosidades. Quando entrei no liceu, à custa da magra mesada, lá ia adquirindo a banda desenhada possível, a qual conservei pelo seu valor intrínseco e imaterial.
    Abraço
    Santos Costa

    • Caríssimo Santos Costa,
      Sempre senti, desde miúdo, um interesse quase atávico pela História de Portugal, por todos os livros, filmes e histórias aos quadradinhos relacionados com os grandes feitos dos heróis pátrios, e creio que esse interesse nasceu quando li n’O Mosquito a fascinante narração da viagem de Vasco da Gama à Índia, com o título “O Caminho do Oriente” e desenhos de um dos maiores mestres da BD portuguesa: E. T. Coelho. Os textos, também magníficos, eram de Raul Correia e eu embebia-me de tal modo nas peripécias dessa história que me lembro de passar alguns serões a lê-la, em voz alta, para uma senhora velhota que ia lá a casa e tinha a paciência de me ouvir sem um trejeito de enfado… tal era a ênfase e a vibração que eu punha na minha tarefa de narrador.
      Muitas décadas depois, essa obra com cerca de 300 páginas, que esteve em publicação n’O Mosquito durante mais de dois anos — quase o tempo real da viagem de Vasco da Gama —, foi reunida em seis volumes e reeditada pela Editorial Futura, sob a minha égide, como coordenador e revisor dos textos, que tiveram de levar algumas “tesouradas” para não taparem os desenhos de E.T. Coelho – missão, aliás, nada fácil e a que só me afoitei com a devida anuência de Raul Correia… que no final até gostou do resultado.
      Pois foi “O Caminho do Oriente” — essa obra-prima a que António Dias de Deus chamou “os Lusíadas da BD portuguesa” — que fez germinar a semente da minha paixão pela História, uma das disciplinas em que mais “marrava” no liceu e que me poderia ter proporcionado a escolha certa se, em vez de optar pelo estudo da matemática e da geografia (para conseguir a admissão à Escola Náutica), tivesse continuado a estudar aquilo de que mais gostava. Assim, fiquei a “ver navios”… embora tivesse experimentado, algumas vezes, e com muita satisfação, as viagens marítimas entre Angola e a metrópole (nome com que se designava, na gíria dos colonos africanos, este torrão europeu), que eu preferia às de avião, sem nunca ter enjoado a bordo! Foi uma pequena desforra por não ter conseguido entrar para a Escola Náutica.
      Abraços,
      Jorge Magalhães

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