GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 2

O GAVIÃO DOS MARES (por Walter Booth)

Mosquito 176  004“O Gavião dos Mares” (Orphans of the Sea) é outra magnífica série do grande desenhador inglês Walter Booth, que o nosso amigo e faneditor José Pires está a reeditar no seu excelente Fandaventuras Especial. Já saíram os três primeiros volumes, abarcando a primeira longa parte desta monumental saga, oriunda do semanário inglês Puck, como outras séries do mestre inglês, e que se estreou em Portugal n’O Mosquito nº 176, de 25/5/1939, avultando entre as histórias de maior êxito dessa popular revista até ao nº 359, de 26/11/1942.

Mas, por causa da guerra e da dificuldade em obter o material proveniente dos países envolvidos no conflito, como era o caso da velha Inglaterra, houve muitas páginas de “O Gavião dos Mares” que não foram publicadas n’O Mosquito, tal como de outra heróica saga criada por Walter Booth, “O Capitão Meia-Noite”, que José Pires também está a reeditar no seu Fandaventuras, apresentando em ambas as páginas inéditas que os leitores d’O Mosquito foram privados de ler — embora não se apercebessem disso, quase sempre, devido à habilidade narrativa com que Raul Correia, que traduzia e adaptava as legendas didascálicas, compunha a acção dessas sequências incompletas.

Cada volume já publicado desta magnífica obra, com cerca de 70 páginas e impressão        em papel de boa gramagem, custa apenas 10 €. Como, por enquanto, a tiragem é limitada, aconselhamos todos os bedéfilos que apreciam as geniais criações de Walter Booth, e aqueles que terão interesse em conhecê-las, a não perderem esta oportunidade (porque, como diz o povo, amanhã pode ser tarde), contactando rapidamente José Pires pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt.

Gavião dos Mares - capa 1

A título informativo, transcrevemos seguidamente o editorial do 1º volume, em que José Pires explica as dificuldades encontradas na realização deste trabalho, feito com aqueles ingredientes indispensáveis que se chamam dedicação, paixão, entusiasmo, esforço e paciência, que misturados no mesmo cadinho com uma boa dose de habilidade (neste caso, informática) podem operar maravilhas. O resultado, para quem ler estes espectaculares volumes do Fandaventuras Especial, salta à vista!

Pag.-02

Pag.-04

«Recuperar a saga O Gavião dos Mares foi sempre um sonho que me acompanhou ao longo da vida. Tanto a mim como aos meus velhos amigos, leitores d’ O Mosquito, as peripécias movimentadas de dois jovens salvos de um naufrágio no Mar das Caraíbas pelo corsário britânico capitão Sir Richard Gray, fazem parte do nosso imaginário. Um desses meus amigos, um pouco mais velho do que eu, é um fanático da BD e possuidor de um espólio valioso e fenomenal, do qual fazem parte várias centenas de raros números de uma antiga revista juvenil inglesa onde a série foi publicada. Quando eu falei em editarmos O Gavião dos Mares na sua totalidade, ele anuiu de imediato e com o maior entusiasmo.

Porém, nas suas colecções faltavam cerca de cem páginas — precisamente as iniciais da série — e a úni­ca saída era recuperar aquelas que tinham sido publicadas n’O Mosquito. Mas a qualidade da sua impressão era deplorável e o confronto com as vinhetas recuperadas da versão original era abissal! O José Ruy explicou-me como a coisa se processava, pois o material vinha de Inglaterra, por via marítima, inserido numas chapas de vidro que depois eram transportadas para a pedra litográfica, nas oficinas onde se imprimia O Mosquito. Este pro­cesso fazia engrossar os traços de forma considerável e depois, como a impressão era deficiente, o resultado ficava menos feliz. Além disso, como se estava em plena guerra na Europa, muitas páginas acabaram por nunca cá chegar!

Pag.-012Pág.-032

Face a este problema, um dos meus amigos pediu aos seus conhecimentos ingleses que enviassem fotocópias das páginas que nos faltavam. Isso custou bem caro, pois eles precisaram de levar o material até onde ele pudesse ser processado, mas nem hesitámos. Porém, retirar as vinhetas de fotocópias é difícil porque tanto as cores como as redes são registadas igualmente a preto e branco, ainda que com menos intensidade. Mas valia a pena o esforço, pois mesmo assim a qualidade era consideravelmente melhor do que o material que fizéssemos a partir das páginas d’O Mosquito. O resultado é o que têm nas vossas mãos. Melhor parece-me muito difícil de atingir. Deu-me uma trabalheira diabólica mas tinha de ser. Ainda tentámos encontrar patrocínio para uma edição mais sofisticada, mas não deparámos com uma única entidade decidida a tomar conta do projecto. Daí a nossa reduzida e modesta edição em fanzine, a única que estava, de momento, ao nosso alcance.

Gavião dos Mares - capa 2.

Gavião dos Mares - capa 3

Mas agora podemos publicar muitas dezenas de páginas que os leitores portugueses nunca viram e com uma qualidade que nos enche de legítimo orgulho. Agora é possível observar todos os requintes que o espantoso artista que foi Walter Booth pôs neste seu extraordinário trabalho, porventura aquele que mais o apaixonou, pois nele aparecem apenas duas páginas de mãos estranhas que, por serem inúteis, não publicaremos. Foram feitas apenas para alongar a história, coisa que era comum e mais frequente noutros seus geniais trabalhos, como o mundialmente famoso Rob the Rover ou o Capitão Moonlight.

V-6º--044

V 6º -067

Devido à sua extensão, esta série preencherá perto de meia dúzia de números como o presente, mas será qualquer coisa de extraordinário para os bedéfilos portugueses possuírem, para além de uma peça única em todo o mundo! Serão cerca de oitocentas páginas do melhor que os comics britânicos alguma vez produziram, durante os sete anos que a série demorou a ser publicada! Nem os ingleses poderão sequer aspirar a ter uma coisa destas! Parabéns, meus amigos!».       

POSTER-FANDAVENTURAS

Advertisements

8 thoughts on “GRANDES SÉRIES PARA (RE)LER E RECORDAR – 2

  1. Obrigado pelo comentário e pelo seu interesse. De facto, o José Pires, com a cumplicidade do Américo Coelho, que durante anos “importou” centenas de revistas inglesas antigas, tem feito um trabalho extraordinário na recuperação desses velhos “comics” ingleses. E parece que há um bom número de bedéfilos, mesmo sem terem lido “O Mosquito”, que ainda se interessam por estes temas.
    A iniciativa do Pires, com o “Fandaventuras”, tem o mérito de fazer luz, tantos anos volvidos, sobre o trabalho pioneiro de um autêntico mestre dos quadradinhos, Walter Booth, que na sua própria pátria tem permanecido na obscuridade, sem o reconhecimento que merece.
    Um abraço,
    Jorge Magalhães

  2. Já tinha lido a primeira parte desta sua peça sobre a recuperação de “O Gavião dos Mares” e fiquei convencido do seu interesse. Depois de ler esta segunda parte e a explicação do José Pires, tomei a decisão de adquirir toas as séries. Para isso, vou mandar-lhe um email, tal como o Jorge indicou na 1ª parte.
    Prezo muito o trabalho dos autores, mas prezo ainda mais quem, não sendo o autor original, trabalha na obra como um ourives na delicada peça de filigrana. Recuperar um trabalho que, nas qualidades de impressão e cor, como este saiu a público, não seria julgado possível. Agora, apresentar-se são e escorreito de imagem e leitura, é obra!
    Haja quem continue a defender grandes ilustradores da banda desenhada – sejam eles portugueses ou estrangeiros – pois que, pelas amostras de “pano” que se vêem publicadas por aí, ainda por cima com o rótulo de vanguardistas e sei lá mais o quê, a “fazenda” da Bd anda muito mal tratada, deficentemente considerada e pior consumida.

    Boa divulgação, esta.

    Grande abraço
    Santos Costa

  3. A primeira parte desta série de artigos – pois haverá mais – foi sobre outra grande criação de Walter Booth, o “Capitão Meia-Noite”, que a saudosa revista O Mosquito também publicou, com grande êxito. Ambas surgiram pela 1ª vez na revista inglesa Puck, confirmando os extraordinários dotes de pioneiro, como desenhador de estilo realista, na temática de aventuras, daquele grande mestre inglês. Não são histórias do meu tempo, devo referir, embora me lembre de contemplar os “bonecos” do “Capitão Meia-Noite” já com um certo fascínio quando tive nas mãos os primeiros números d’O Mosquito, graças a um tio que também era coleccionador. Mas nessa altura ainda não sabia ler…
    Apesar do meu personagem preferido no Mosquito ser o Cuto, criação de outro grande mestre dos quadradinhos, o espanhol Jesús Blasco – porque esse, sim, era um herói do meu tempo –, comungo inteiramente do entusiasmo e da veneração do José Pires e do Américo Coelho por Walter Booth e por estas velhas séries inglesas, que vistas hoje à “lupa” ainda dão lições a muita gente sobre a arte de ilustrar histórias de forma sequencial, com o mesmo ritmo e dinamismo que encontramos noutras BD’s de formato mais moderno. Mas a ausência de balões, como era norma na BD inglesa daquela época, e até na de muitos outros países europeus, incluindo este pequeno torrão à beira-mar plantado, não prejudica a sua leitura, antes pelo contrário.
    Claro que hoje em dia, como muitos jovens já não têm o hábito nem o gosto de ler, estas histórias com mais de 70 anos parecem completamente desfasadas e, por isso, os seus autores nem sequer são lembrados, mesmo apesar da importância que tiveram como pioneiros de um meio de expressão que não teria chegado onde chegou sem o seu precioso contributo. E nesse aspecto dou-lhe inteira razão, caro amigo Santos Costa, porque se valoriza hoje muito a flanela de fraca qualidade, pondo de lado os bons tecidos de cores vivas e que resistem ao tempo. É óbvio que as modas evoluem tal como as sociedades, que as próprias formas de arte sofrem influências várias, numa constante mutação, que as gerações também pensam e sentem de maneira diferente, olhando o mundo através de um prisma cada vez mais bizarro… o que talvez nos ajude a compreender a diversidade de manifestações artísticas que proliferam por aí e a confusão reinante nos critérios com que se apreciam e rotulam certas obras pretensamente vanguardistas (uma galeria de “monos” em que, por vezes, a BD também faz triste figura). Mas adiante, porque não podemos generalizar ou tomar a parte pelo todo…
    Voltando a Walter Booth, sei que o Pires vai lançar ainda este mês o 3º volume do “Capitão Meia-Noite” e que em breve sairão mais alguns de outras séries, nomeadamente do “Gavião dos Mares” e da famosa saga do Submarplano, que foi outro dos grandes êxitos d’O Mosquito, integrada na extensa e movimentada série “Pelo Mundo Fora”, também de Walter Booth, que com o título de Rob the Rover inaugurou o primado das aventuras de cunho realista na BD de todo o mundo, ainda antes das séries americanas hoje mundialmente conhecidas. Ninguém poderá, por isso, tirar a Walter Booth o lugar de pioneiro num género (mais um) que floresceu pela primeira vez na imprensa inglesa – mas que, como não tinha balões, continua a ser ignorado e desdenhado pelos seus próprios compatriotas.

    Um abraço do
    Jorge Magalhães

  4. Caríssimo Jorge

    Soube pelo José Pires – com quem passei a trocar informações, depois de ter lido estas duas peças – que ele está a editar o Matt Marriott. Imagine, aquele Tony Weare que me influenciou nos rabiscos que mandei, como primeira obra a editar, e que o Amigo Jorge Magalhães publicou no Mundo de Aventuras nº 292; para mais, junto de um trabalho de Weare, cujo estilo eu tentava (tentava, apenas, e não passava disso) imitar. Ainda por cima, na revista onde o José de Matos Cruz abriu uma nota explicativa sobre a série de Weare.
    A uma boa notícia seguiu-se outra. Matt Marriott é imperdível.
    Como é bom haver blogues que tratam da divulgação e estudo da BD. Se não fosse o Jorge trazer esta novidade do Pires, eu não sabia da existência dos fanzines.
    Bem-haja.

    Um abraço
    Santos Costa

  5. Caríssimo Santos Costa,

    O seu entusiasmo e devoção por estas séries de outros tempos – que se tornaram clássicos incontornáveis – será profundamente motivador para o Pires, que faz os seus fanzines praticamente sozinho e por puro amor à Arte da BD. Aliás, o “Fandaventuras” foi criado por nós ambos na já distante década de 90 do século passado, assim como outros de boa memória, como o “Fandwestern” e “A Máquina do Tempo”… que tiveram o seu tempo e o seu êxito. Hoje é o Pires que prossegue sozinho, como um navegador solitário, e por isso merece todo o apoio que lhe possamos dar para que continue a sua viagem pelos oceanos da BD inglesa clássica, desconhecidos de muita gente.
    A propósito, na série Matt Marriott há alguns episódios inéditos, logo entre os primeiros, que o “Mundo de Aventuras”, por qualquer razão, decidiu não publicar, portanto a série fica ainda mais valorizada. E garanto-lhe que a edição, no geral, está magnífica, tencionando o Pires publicar a série toda. Eu tenho dado uma ajuda arranjando alguns episódios através dos meus contactos ingleses, outros foram reproduzidos de (boas) edições italianas, outros ainda recuperados pelo Pires, de forma quase milagrosa, a partir do MA e de outras revistas muito antigas.
    Quanto à divulgação deste novo fôlego faneditor do Pires, não é só o Gato Alfarrabista a fazê-lo, felizmente. Pode ver alguns posts muito interessantes neste blogue:

    http://bandasdesenhadas.wordpress.com/2013/09/19/fandaventuras-especial/

    Abraços do
    Jorge Magalhães

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s