ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 1

A PRIMEIRA CAPA DE CARLOS ROQUE

Trajan_s_columnHá objectos de arte que são únicos e possuem um valor inestimável, quase mítico, porque não podem ser reproduzidos, imitados ou copiados. Um quadro, uma escultura, uma tapeçaria, uma peça de porcelana ou de ourivesaria (como a Custódia de Belém), um monumento arquitectónico, um artefacto raro, simbolizam momentos supremos da criatividade humana e têm um valor real e estimativo que aumenta na razão directa da sua importância e longevidade — mas, ao contrário dos livros, dos filmes, das composições musicais e de outras manifestações do espírito humano, são destinados à contemplação e não à difusão, e perdem todo o seu valor (excepto o cultural) quando são copiados ou reproduzidos por outros meios, como a fotografia, a gravura, a serigrafia, o documentário, etc.

tapisserie de bayeux fragment (1)

A Banda Desenhada (BD), que também faz parte, muito justamente, do currículo das Artes e tem remotos antecedentes como a Coluna de Trajano e a Tapeçaria de Bayeux, é talvez o único meio de expressão em que se fundem harmoniosamente essas duas vertentes não complementares, difusão (ou dispersão) e contemplação — daí lhe chamarem também arte industrial —, pois pode ser multiplicada a partir da sua matriz, as pranchas originais, que se identificam, na essência, com os objectos raros, as obras de arte expostas em museus.

Carlos Roque - no MosquitoClaro que a BD, típico produto da cultura popular e da evolução da imprensa, expandida em álbuns, livros, revistas, fanzines e jornais — e agora também nas redes informáticas —, não se destinava a figurar nos museus e os seus originais não eram considerados como mais-valias artísticas, ideia que só se alterou quando a sua cotação comercial começou a atingir, nalguns casos emblemáticos (e o de Hergé serve de referência), cifras cada vez mais elevadas.

A própria qualidade efémera das pranchas, raramente conservadas em boas mãos (desde logo, nas dos seus próprios autores) e em condições de preservação idênticas às de outras obras artísticas, confere-lhes um estatuto diferente do de muitos ícones de valor cultural que pertencem à herança comum da humanidade, mesmo estando na posse de instituições e de coleccionadores particulares.

Mas todo este “arrazoado” veio a propósito de uma nova rubrica do Gato Alfarrabista, onde iremos apresentar alguns originais do nosso acervo ou que foram postos à nossa disposição pelos seus autores ou por outros felizes proprietários.

Carlos Roque - MA 282Para começar, aqui têm uma capa do Mundo de Aventuras (nº 282, 1ª série, de 6/1/1955) desenhada por Carlos Roque em moldes realistas, retratando um dos personagens apresentados nesse número da revista, o heróico Cavaleiro de Lagardère, que ganhou nova vida graças ao traço do exímio artista francês Jean Cézard, saltando das novelas de capa e espada de Paul Féval para as histórias aos quadradinhos, concretamente nas páginas do semanário Vaillant.

Este foi o primeiro trabalho profissional que Carlos Roque viu publicado — depois de breve passagem pelo “Cantinho dos Leitores” d’O Mosquito, onde Raul Correia lhe rendeu efusivos elogios —, tendo até servido de modelo para outras capas do Mundo de Aventuras, infelizmente nenhuma delas realizada pelo jovem desenhador, então com 18 anos.

Carlos Roque - LagardèreO estilo realista definiu curiosamente as primeiras orientações artísticas de Carlos Roque, que só anos mais tarde, ao operar uma grande reviravolta na sua carreira, se afirmou, em revistas portuguesas e franco-belgas, como um desenhador de notáveis recursos no género humorístico, autor de famosas e divertidas séries como Tropelias do Malaquias, O Cruzeiro do Caranguejo, Angélique e Wladymir.

Outro pormenor curioso a assinalar neste original, pertencente a Monique Roque (a quem agradecemos o seu empréstimo) e com as dimensões 36 x 47,5 cms, é o nº 278 não corresponder ao do Mundo de Aventuras onde foi reproduzido — o que nos leva a deduzir que a ilustração de Carlos Roque não terá sido encomendada para esse número… ou, então, ficou na “bicha” durante quatro semanas, por caprichos da programação.

carlos-roque-original

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2 thoughts on “ORIGINAIS E REPRODUÇÕES – 1

  1. É um pormenor interessante, a diferença entre o número apontado no original do Carlos Roque e o da impressão no Mundo de Aventuras que saiu para as bancas.
    Andei a pesquisar e encontrei o seguinte, no sítio da BD Portugal (que vende revistas antigas), que colocou a seguinte justificação no nº 277 (Estrela Negra) : “A folha da série Estrela Negra saiu com a antecipação de 3 números.”
    O nº de Natal de1954 (280) tem uma bonita capa de Gomes Ferreira e o número 283, dedicado a Casey Ruggles ( que o Jorge Magalhães levou, mais tarde, às páginas interiores do Mundo de Aventuras), tem capa desenhada por Filipe Figueirado, que também se encarregou da arte da capa do nº 281.
    Isto prova que havia um leque alargado de desenhadores que se encarregavam das capas.
    Carlos Roque dominava as duas versões artísticas: o traço realista, pormenorizado; o desenho humorístico, com as suas nuances e riqueza narrativa.
    Encontrei uma refeência interessante ao carlos Roque (naturalmente em inglês) no sítio da Lambiek
    http://www.lambiek.net/artists/r/roque_carlos.htm

    Um abraço
    Santos Costa

  2. Como bem refere, caro Amigo Santos Costa, essa época do “Mundo de Aventuras”, entre 1955 e 1956, foi um período de transição bastante interessante, que abriu as páginas da revista a um escol de jovens desenhadores, alguns ainda debutantes, como o Filipe de Figueiredo – que além de capas também fez histórias aos quadradinhos –, o Gomes Ferreira e outros. Mas a participação de alguns deles, como foi o caso do Carlos Roque, limitou-se a uma capa ou duas.
    Creio que o MA estava numa fase de experiências, depois da saída de Roussado Pinto e Vítor Péon, confiando numa nova equipa, em que já brilhava a grande altura o nome de Carlos Alberto, e tentando descobrir novos talentos.
    No caso de Carlos Roque, cujo traço já revelava uma certa maturidade no estilo realista – o que não deixa de ser curioso, tratando-se de um desenhador que acabou por fazer uma brilhante carreira no género humorístico –, foi pena o MA não lhe ter dado mais oportunidades… ou então foi ele que não as tentou aproveitar.
    Conheci muito bem o Carlos, até fomos amigos e companheiros de juventude, porque, nos anos 50, morávamos muito perto um do outro, em Lisboa, mas nunca o questionei sobre esse assunto. Ele não era muito falador sobre os primórdios da sua carreira, gostava mais de evocar a sua passagem pelo “Tintin” e pelo “Spirou”, como é natural, mas sei que tinha orgulho nessa capa que fez para o “Mundo de Aventuras”, pois este era, à época, um dos principais baluartes da nossa imprensa juvenil, só igualado, na concorrência, pelo “Cavaleiro Andante”. Bons tempos!
    Um abraço do
    Jorge Magalhães

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