JOSÉ RUY – A PAIXÃO DO DESENHO – 8

«RAPTORES» – Curiosidades tipográficas – por JOSÉ RUY

(O processo que criei para fazer as cores das histórias n’O Papagaio, depois deste ter sido incluído, como suplemento, na Flama).

Papagaio 684Quando O Papagaio era uma revista autónoma em relação à edição, as capas e as páginas centrais eram impressas pelo processo litográfico a quatro cores, na Litografia Sales, e o resto do interior em tipografia, na Renascença Gráfica. Na parte tipográfica, as ilustrações eram reproduzidas em zinco- gravura, portanto com o desenho a traço, sem sobreposição de qualquer cor.

A partir da transformação desta revista infanto-juvenil num suplemento da Flama, a sua impressão passou a ser tipográfica, embora a revista-mãe tivesse as capas em rotogravura, bem como as páginas centrais.

Mas aqui beneficiávamos de uma cor sobreposta nos desenhos a preto. Essa cor podia ser feita com esbatidos, em aguarela, mas obrigava a que a reprodução fosse em fotogravura, mais cara que as zincogravuras, traço e cheios, sem esbatidos. A empresa impunha-nos que fizéssemos as cores só para zincogravura, por uma questão económica.

Para obter os mesmos efeitos, imaginei um processo para conseguir as meias-tintas sem a necessidade de usar a fotogravura.

José Ruy - Trama examploPedi que a oficina fizesse uma gravura de trama (rede) larga, com a dimensão de 14×48 cm (que era a medida que usava nas tiras das histórias em quadradinhos) e imprimisse em papel fino e acetinado que aguentasse a pintura com tinta-da-china e guache.

Coloquei a tira de papel com a trama impressa sobre o original da minha história, desenhado ao dobro, numa mesa de transparências, e apliquei guache branco para eliminar a rede onde era necessário (nas margens e certas zonas do desenho), pintando com tinta preta as manchas que pretendia ficassem em cor cheia.

José Ruy - Veleiro sequência 1 e 2José Ruy - Veleiro sequência 3 e 4

Vinheta de “Raptores”. O desenho da cor é feito a preto e só na máquina de impressão aparece a cor desejada.

Quando o desenho reduzia, a rede ficava mais fina, obtendo o efeito que aparece na reprodução. Tínhamos, assim, uma meia-tinta e uma cor cheia contornando os desenhos, sem ser necessário usar a fotogravura.

 O meu colega e amigo Vítor Silva, que também publicava histórias e ilustrações, gostou do processo e passou a usar essas tiras que a gráfica imprimia em grandes porções. Ainda conservo uma boa quantidade, que sobrou depois do suplemento ter acabado.

Quando idealizei desenhar as «Lendas Japonesas» traduzidas por Wenceslau de Moraes, pensei em conseguir um efeito melhor, e em vez da meia-tinta uniforme, procurei fazer mesmo esbatidos em dégradé, além das manchas de cor cheia. Experimentei usar papel Fabriano de grão muito largo, que sobrepus à mesma nos desenhos a tinta-da-china, sobre a mesa de transparências, e apliquei lápis litográfico, que tem uma grande intensidade de negro. Com mais ou menos pressão sobre o papel obtive o efeito que se pode ver na impressão. Com a redução, o granitado transformou-se em grão fino e a gravura continuou à mesma a ser feita em zincogravura e não fotogravura.

José Ruy (Junho 2013)

pequeno bonzo sequência

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