A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

A BATALHA DE ALJUBARROTA E A ALA DOS NAMORADOS

DIABRETE 733Há algumas datas históricas que vale a pena recordar e celebrar, pelo que representam para a nossa identidade como nação secular, altiva e independente, mesmo quando não são (ou já deixaram de ser) feriados nacionais. Uma delas é a da batalha travada em Aljubarrota, no dia 14 de Agosto de 1385, entre as fracas hostes (mas o fraco fez-se forte, como cantou Camões) do Condestável D. Nuno Álvares Pereira e o imponente exército castelhano que, na mira de se apoderar do frágil reino governado por um jovem monarca — escolhido pelas Cortes, na qualidade de Mestre de Avis, para suceder a    D. Fernando —, entrara com grande alarde por terras da Beira, abrindo triunfalmente caminho até ao sul, no intuito de pôr cerco a Lisboa.

Nos nºs 734 a 785 do Diabrete (1950/51), Fernando Bento, então no auge do seu estilo pleno de fluidez, sobriedade e movimento, narrou de forma magnífica a vida e os feitos do Condestável, a cuja nobreza, patriotismo e valentia Portugal ficou a dever, nesses tempos heróicos e conturbados, a manutenção da sua independência.

DIABRETE 767 e 769

DIABRETE 770 e 771

Cav Andante 67Outro popular semanário juvenil, o Cavaleiro Andante, dirigido também por Adolfo Simões Müller, escritor e poeta de forte veia nacionalista, depois de ter dado à estampa no nº 67, de 11/4/1953, uma página magistralmente ilustrada por Fernando Bento, com estâncias d’Os Lusíadas alusivas à “incerta guerra” que “uns leva a defensão da própria terra, outros a esperança de ganhá-la”, voltou a assinalar essa gloriosa efeméride, apresentando nas páginas centrais do seu    nº 241, de 11/8/1956, um magnífico poster a cores, com a assinatura de José Manuel Soares, dedicado à maior vitória do Exército português contra um inimigo numérica e militarmente muito superior, mas que foi completamente destroçado pela bravura e tenacidade das nossas hostes e pela ardilosa estratégia do Condestável.

Cav. Andante 241

Ala dos namorados azulejo copyNesse mesmo número, o Cavaleiro Andante tinha em publicação o episódio histórico “A Ala dos Namorados”, baseado na obra homónima de António de Campos Júnior, cujo tema era a luta de um punhado de jovens patriotas — dos quais fazia parte o célebre Álvaro Coutinho, o “Magriço” — em defesa da independência, durante a crise de 1384/85 (depois das revoltas populares contra Leonor Teles e da morte do conde Andeiro), culminando na batalha de Aljubarrota, em que participaram a fina-flor da nobreza, a peonagem, besteiros e lanceiros endurecidos por muitos combates, e a juventude heróica que ardia no desejo de expulsar os castelhanos invasores.

Cav Andante 220   A obra de Campos Júnior foi adaptada por uma excelente dupla formada por Artur Varatojo e José Manuel Soares, que nas páginas do Cavaleiro Andante souberam retratar com emoção, fiéis ao espírito do romance (embora cometendo a proeza de condensar em 24 pranchas uma obra tão extensa), aquele que foi, no meio de inenarráveis sofrimentos e de graves ameaças externas — como o bloqueio naval do Tejo por uma poderosa frota castelhana, aliado à peste e à fome causadoras de inúmeras vítimas entre a população de Lisboa —, um dos períodos mais negros e, ao mesmo tempo, mais triunfantes e decisivos da História de Portugal.

Cav Andante 239 e 240

Cav Andante 241 e 242

Ant BD Portuguesa820Apresentada entre os nºs 218 e 249 do Cavaleiro Andante, com algumas páginas a cores e outras a preto e branco, “A Ala dos Namorados” foi reeditada em 1986 num volume da Antologia da BD Portuguesa (Editorial Futura), enriquecido com textos de Artur Varatojo e de Luiz Beira e uma magnífica capa de José Manuel Soares, reprodução de um quadro a óleo que este fecundo e versátil artista, nome consagrado da pintura e da “época de ouro” da BD portuguesa, expôs no Mosteiro da Batalha.

Em 1956, o Mundo de Aventuras — que no campo da BD histórica de produção nacional procurava tomar a dianteira ao seu rival Cavaleiro Andante — publicou também uma vida do Santo Condestável, em páginas com três vinhetas uniformes intercaladas por farta prosa, da lavra, ao que supomos, do seu director José de Oliveira Cosme, humorista, poeta, músico, homem da Rádio, tradutor e autor de livros de multifacetada espécie e colaborador de várias publicações infanto-juvenis, desde os anos 30, em que foi chefe de redacção do semanário O Senhor Doutor.

ma 375 830Os desenhos dessa narrativa ilustrada, dada à estampa nos nºs 374 a 385 do Mundo de Aventuras, eram da autoria de um dos melhores artistas da “casa”, o ainda jovem Carlos Alberto, cujo talento se espraiava já por colecções de cromos — como a famosa História de Portugal —, capas de livros e revistas, ilustrações de contos, histórias aos quadradinhos, traçando firmemente um assinalável percurso artístico que, mais tarde, se consumaria numa das artes mais nobres e consagradas, a Pintura, em que granjeou ainda maior reputação, com trabalhos que figuram em numerosas colecções nacionais e estrangeiras.

Talvez por ter renunciado cedo à BD, Carlos Alberto não se considera um desenhador como muitos outros, embora reconheça que ficou a dever à narração figurativa (também chamada 9ª Arte) a experiência, o rigor e os conhecimentos — a composição das cenas e o movimento das figuras, por exemplo — que lhe permitiram fazer um certo tipo de pintura.

ma 383e 384

Um dos Quadros da História de Portugal, realização de Carlos Alberto (com o pseudónimo de M. Gustavo), que o Jornal do Cuto publicou em separata no nº 34, de 23/2/1972, retrata de forma intensamente realista o desfecho da batalha de Aljubarrota, com el-rei D. João prostrado pela fadiga e pela emoção da vitória, diante do estandarte castelhano que Antão Vasques, um dos bravos oficiais das suas hostes, lhe veio depor aos pés.

Jornal Cuto 34Outros nomes ilustres da BD portuguesa, como Vítor Péon, José Garcês, José Ruy, José Antunes e Artur Correia (este em registo obviamente humorístico), também evocaram os feitos de Nuno Álvares Pereira e, em particular, a batalha de Aljubarrota, mas reservamos alguns desses trabalhos, dispersos em revistas e álbuns, para um próximo post.

Queremos, porém, num preito à memória do saudoso Mestre Vítor Péon, apresentar, como condigno remate deste artigo, a sua vigorosa reconstituição da célebre batalha, tal como foi publicada, com uma nova página, no Mundo de Aventuras nº 358 (2ª série), de 14/8/1980. A versão original pode ler-se no Tintin nº 2 (1º ano), de 8/6/1968.

ma 358 - 1 e 2

ma 358 - 3 e 4

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7 thoughts on “A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 2

  1. Amigo Jorge Magalhães:
    Parabéns por este soberbo “post” que, de entre os muitos que já nos deu a conhecer no “Gato Alfarrabista”, é, para mim, sem dúvida, dos mais interessantes. A Batalha de Aljubarrota foi sempre um episódio da História de Portugal que me fascinou e vê-lo contado através da Banda Desenhada torna-o ainda mais fascinante. Como se não bastasse o seu belo texto (carregado de detalhes e apartes muito a propósito), as imagens que o acompanham (certamente trabalhadas minuciosamente pela Catherine) valorizam imenso a sua pesquisa e deixam-nos com “água na boca” para o(s) próximo(s) “post(s)” sobre esta temática.
    Grande abraço.
    Carlos Rico

    • Caro Amigo Carlos Rico,
      Muito obrigado pelo seu comentário e pelos elogios a este “post”, mas devo confessar que foi um dos que nos deu mais “água pela barba” (para usar uma expressão conhecida, mas ressalvando o facto de que a Catherine não tem nada a ver com as mulheres barbudas do circo!). Ontem, a altas horas da madrugada, ainda estávamos às voltas com ele e, por causa do cansaço e do afã de querer divulgá-lo na altura certa – ou seja, no próprio dia 14 de Agosto – acabei por deixar passar algumas coisas que não estavam bem, como por exemplo duas páginas trocadas na história do Carlos Alberto (o que já foi corrigido) e outros pequenos pormenores, já também melhor alinhavados.
      Como os assuntos históricos e a sua relação com a BD (a nossa, entenda-se) têm sempre “pano para mangas”, haverá mais alguns “posts”, assim o espero, dedicados à figura do Santo Condestável, que na BD venceu batalhas até a fazer humor!…
      Um grande abraço do
      Jorge Magalhães

  2. Caríssimo Jorge Magalhães
    Excelente texto, naturalmente aprimorado por quem sabe expor sem se alongar demasiado, e complementado pela escolha e tratamento das imagens, perfeitamente elucidativas e determinantes para aquilatar os pormenores de cada trabalho.
    Eu, que sou um fanático do papel impresso, acho que esta peça merecia ser apresentada nessa base, porventura numa revista que está a faltar em Portugal.
    Sobre os autores, cuja obra ora se refere, está tudo dito na contemplação do desenho, dos enquadramentos e sobre a arte final, pese embora não terem sido bafejados, ao tempo, com a parafernália técnica e gráfica que hoje beneficiam os trabalhos editados.
    Nesta mostra, naturalmente de âmbito limitado e esclarecedor, ressaltam os pormenores da refrega, as armas, o rigoroso pormenor histórico, o traço impressionante dos verdadeiros valores da arte do desenho e da sua narrativa que vulgarmente passámos a tratar por BD.
    Possuo o álbum da Futura, edição de 1985, com trabalho de José Manuel Soares (que fez doação de pinturas suas a um município aqui cerca – Mêda), álbum que se encontra dividido entre “A Ala dos Namorados” , com texto de Varatojo, e “De Angola à Contracosta”, adaptação de “viagem aventurosa de capelo e Ivens”.
    Um grande abraço
    Santos Costa

    • Prezado Amigo Santos Costa,
      Agradeço também o seu extenso comentário, recheado de judiciosas apreciações sobre as imagens e o valor artístico destas histórias de outros tempos… em que, de facto, não havia a “parafernália” técnica e o primor gráfico que hoje deslumbram e criam ilusões a muita gente; mas em contrapartida tínhamos grandes artistas que trabalhavam com total humildade para um meio que respeitavam e para um público juvenil que os compensava do relativo anonimato e do isolamento a que estavam sujeitos, com o seu apreço, a sua fidelidade e o entusiástico acolhimento dispensado às revistas periódicas.
      Infelizmente o papel impresso tornou-se um suporte destinado quase em exclusivo, no actual panorama da BD, aos álbuns, “mangás” e “comic books”, pois as revistas de estilo europeu extinguiram-se na prática… o que confere à Net e à blogosfera um estatuto cada vez mais especial na divulgação e preservação de todo um património cultural e artístico que jaz no fundo da memória colectiva de várias gerações e cujos últimos vestígios estão hoje na posse de uma dúzia de entidades e de “fanáticos” coleccionadores (que talvez nem sejam tantos como isso).
      O álbum da Futura com “A Ala dos Namorados”, incluído na Antologia da BD portuguesa, foi coordenado por mim e legendado pela Catherine Labey. A produção dos fotolitos fez-se a partir dos próprios originais que José Manuel Soares, afortunadamente, ainda possuía. Por isso, a impressão ficou óptima, permitindo apreciar com total nitidez o magnífico e suave traço do artista, valorizado pela sua mestria no tratamento do claro-escuro (o que não deixa de chamar a atenção num pintor!). Como a 1ª história era relativamente curta, foi preciso complementá-la com a narrativa da viagem de Capelo e Ivens, também oriunda do Cavaleiro Andante, o que torna esse álbum ainda mais antológico.
      Tenho pena que a Antologia da BD Portuguesa e a Antologia da BD Clássica não tenham durado mais tempo, pois julgo que eram colecções imprescindíveis. Bons tempos!
      Um grande abraço do
      Jorge Magalhães s

      P.S. – Tive um pequeno problema técnico, daí o atraso na resposta ao seu comentário.

  3. Bom dia Jorge Magalhães, creio que quanto ao fantastico post agora publicado já Santos Costa e Carlos Rico disseram tudo. Tenho que salientar mais uma vez o trabalho de Fernando Bento no Diabrete e Cavaleiro Andante e a imponente ilustração de Carlos Alberto para o Jornal do Cuto. Uma autêntica obra prima, bem equlibrado e com uma luz e sombra que recorta de uma forma admiravel os corpos presentes. Tal como referiu a posição de el-rei D. João prostado e cansado da dura batalha revela o estado de uma nação, mas também a vontade de fazer mais e melhor. Um exemplo a seguir. À excepção do material do Mundo de Aventuras todo o resto posso nesta quinta-feira feriado admirar com mais atenção enquanto saboreio um café de final de tarde. Com este post já ganhei o dia. Grande Abraço Paulo Pereira

    • Peço-lhe também desculpa, caro Paulo, pela resposta um pouco tardia ao seu comentário, devido a um pequeno problema técnico. Congratulo-me por os nossos “posts” lhe continuarem a agradar e concordo com todas as apreciações que fez, porque de facto o trabalho de Fernando Bento no Diabrete e no Cavaleiro Andante é insuperável, mostrando a sua grande versatilidade e a permanente evolução do seu estilo, e Carlos Alberto deu-nos uma amostra, no Jornal do Cuto (e não só), das suas extraordinárias faculdades como pintor, um dos maiores, no seu género, de toda uma época, tanto a nível nacional como internacional… e bem o prova o êxito que as suas exposições têm alcançado em Portugal e no estrangeiro. Esta série de quadros da História de Portugal que ele realizou para o Jornal do Cuto (ideia que talvez tenha partido de Roussado Pinto, que escreveu os respectivos textos, como sabe) foi reeditada, anos depois, numa série de volumes pela editora Amigos do Livro, mas dessa vez com textos de Raul Correia. Creio que essa colecção, composta, julgo, por 4 volumes, apresenta alguns quadros inéditos, referentes aos últimos períodos da História de Portugal. Eu ando há muito tempo à procura dela…
      Quanto ao simbolismo daquela imagem, no final da batalha, ele é bem evidente e poderia aplicar-se aos dias de hoje, em que o nosso país continua a enfrentar muitas ameaças, mas agora de outra espécie e que requerem a união de todas as forças (o que não me parece fácil) contra adversários bem mais difíceis de vencer.
      Um abraço do
      Jorge Magalhães

      • Obrigado pela extensa e preciosa resposta(s). É também de salientar (coisa que já o fez) a iniciativa que a editora Futura teve no passado em reeditar todo aquele material, em especial o Português. Boas continuações.

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