OS REIS DO RISO – 1

QUANDO OS PROFESSORES FAZEM GREVE…

… O RESULTADO ESTÁ À VISTA! Podia ser esta a legenda da ilustração que mais abaixo vos apresentamos, uma das muitas e divertidas cenas com que Bob de Moor – que foi, como sabem, um dos mais próximos amigos e colaboradores de Hergé – animou as capas do Tintin belga, durante um largo período, chegando às vezes o seu estilo a confundir-se com   o do próprio Mestre.

Esta capa diz respeito ao Tintin nº 4, 5º ano, de 26/1/1950.

TINTIN LA CLASSE SANS MAÎTRE cover

Claro que no editorial desse número, com o título “La classe sans maître”, a “lição” era outra e fazia-se a apologia dos alunos bem comportados, através da curiosa história de um professor, numa pequena localidade suíça, que teve de ausentar-se da escola por motivos de força maior, mas em vez de escolher outro mestre para o substituir deixou uma carta aos seus discípulos, exortando-os a não seguir o exemplo dos mais estouvados, na sua ausência, e a aproveitar a liberdade que eles lhe dava para mostrarem que eram dignos dessa prova de confiança.

TINTIN LA CLASSE SANS MAÎTRE 2Segundo reza o texto, como podem ler na imagem (bastando fazer zoom com um click), os alunos da tal escola primária não fizeram “orelhas moucas” aos conselhos do seu professor e dedicaram-se com afinco ao estudo, mesmo sem vigilância externa, enquanto o mestre esteve ausente… ao contrário da indisciplinada turma que       Bob de Moor retratou com a sua veia humorística e a sua fértil fantasia, para gáudio dos leitores do Tintin.

Desenhador extremamente versátil, com algumas obras de cariz realista (como Conrad le Hardi e Cori le Moussaillon) cujo traço não desmerece comparado com o de Jacques Martin e outros autores da época, especialistas em temas históricos, Bob de Moor distinguiu-se sobretudo pela sua fidelidade à “linha clara” e ao estilo que cultivou no convívio e na aprendizagem com Hergé e do qual brotaram criações delirantes como L’Enigmatique Monsieur Barelli, Les Aventures du Professeur Tric e Pirates d’Eau Douce.

Bob de Moor no seu estúdiorCom esse estilo mimético, consagrou-se    à tarefa de actualizar os cenários e o aspecto dos personagens nalgumas aventuras de Tintin que redesenhou a pedido de Hergé, como L’Ile Noire”, por exemplo. E foi também o braço direito do Mestre de Bruxelas em episódios que se tornaram míticos como “On a Marché Sur la Lune” e “Coke en Stock”.

As rocambolescas aventuras, em tom semi-realista, do “misterioso” Senhor Barelli, que nasceram no Tintin belga        nº 30 (5º ano), de 27/7/1950, foram publicadas em álbum pela Bertrand (Barelli e os Agentes Secretos) e pelo Tintin, da mesma editora, depois de uma fugaz aparição no Flecha nos 12 a 37 (1954-55), pequeno semanário dirigido por Roussado Pinto, que teve vida breve e deixou quase todas as suas histórias incompletas. Nessa estreia, Barelli mudou de nome, transformando-se no Senhor Barrelas!

TINTIN E PAG. Nº 30

Flecha 12 e 13

E já que estamos em “maré” de professores, aqui têm uma página de Les Aventures du Professeur Tric… série bem divertida, por sinal, criada em 1950 e constituída geralmente por gags curtos, mas que também teve episódios com mais fôlego, em que a comicidade deste personagem um pouco excêntrico e amigo da natureza atingiu o ponto mais alto.

TINTIN -aventures du prof Tric1

Algumas dessas peripécias deleitaram também os leitores do Cavaleiro Andante, onde o Professor Tric foi baptizado com o nome de Sr. Pantaleão, fazendo boa figura ao lado de uma destemida pandilha de estudantes e do Professor Ideias, um extravagante inventor ainda mais “lunático” do que o seu famoso colega Professor Tournesol.

CA 111 E 121

CA 135 E 139

CA 203 e Natal acidentado

E eis mais duas páginas com o traço de Bob de Moor, extraídas da história “Piratas de Água Doce”, outra divertida criação do grande artista flamengo, que o Cavaleiro Andante publicou entre os nºs 479 e 494 (1961).

CA Piratas de Água doce 1 e 2

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4 thoughts on “OS REIS DO RISO – 1

  1. Caro amigo, mesmo não sendo um admirador do desenho de Hergé e Bob de Moor, tenho que agradecer mais uma vez a informação que é apresentada neste seu post. Abraço, Paulo Pereira

  2. O estilo de Bob de Moor é muito parecido com o de Hergé, fruto da sua longa e intensa colaboração com o criador de Tintin. Talvez por isso viveu um pouco na “sombra” do mestre, embora a sua carreira a solo não tivesse ficado interrompida, como procurámos exemplificar neste texto. Depois da morte de Hergé, voltou a dedicar-se a alguns dos seus personagens, como Barelli e Cori, e animou também as peripécias de Balthazar, que por cá apareceram no Tintin da Bertrand.
    Agradecemos os seus comentários, sempre positivos, mesmo quando não alinha com os nossos gostos e preferências.
    Um abraço do
    Jorge Magalhães

    • Mas tenho que confessar uma coisa. Sendo um admirador e colecionador quase ao nível da obsessão de B & M, muito tenho que agradecer a Bob de Moor pois foi ele que terminou as três formulas do Prof. Sato. Em relação ao Hergé, foi o sua personagem Tintin e milou que me acompanharam na minha infância. Um dos meus primeiros álbuns, oferecido pelo meu pai que o comprou num alfarrabista da Rua da Madalena em Lisboa, foi o Tintin au Congo em francês. Ainda hoje tenho esse álbum que foi redecorado com algumas anotações, vulgo riscos e outros, nas margens das paginas. Portando quando referi não ser um admirador tem a ver com o facto de ao longo da vida se ir acumulando uma serie de informação sobre novos ilustradores que nos fazem observar a arte de outro modo. Em qualquer dos casos sinto sempre algum frenesim e uma grande saudade quando volto a folhear todos esses álbuns do Tintin e encontro memorias muitas gráficas. Ainda hoje a Servia e os Balcãs são os do Ceptro de Otokar . Abraço Paulo Pereira. p.s. durante mais de 17 anos tive como companhia uma cadela com nome Milou…era inevitavel

  3. Tem toda a razão. Com o tempo, as nossas perspectivas e conhecimentos evoluem e passamos a encarar de maneira diferente determinados objectos, livros, quadros, álbuns de BD e outras obras de arte. Nem os filmes escapam a essa perspectiva crítica. Mas num recanto da memória persistem sempre sensações que nos devolvem de vez em quando a magia da infância e o encanto das primeiras leituras, dos primeiros entusiasmos, dos primeiros “amores” literários e artísticos. Eu também gosto de reler, uma vez por outra, os Lucky Luke, os Astérix, os Tintin, os Blake e Mortimer, os Valérian, os Bernard Prince, e todos me remetem para essas memórias “gráficas” de outros tempos, envoltas num manto diáfano de nostalgia que nos ajuda a resistir à usura do tempo. Mas já não me trazem surpresas, porque os conheço quase de cor….
    Abraços,
    Jorge Magalhães

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