A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 1

Capa TintinPor curioso ou invulgar que pareça, o facto é que vários desenhadores estrangeiros, uns mais conhecidos do que outros (ou absolutamente anónimos), já abordaram temas da nossa História Pátria, sobretudo os belgas — como, por exemplo, Fred Funcken, Fernand Cheneval, Jean Torton, Eddy Paape, Felicísimo Coria —, mas também artistas italianos, franceses, espanhóis, mexicanos (entre aqueles que conheço), com especial predilecção pelas figuras mais carismáticas do nosso passado: Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães, Bartolomeu Dias, Infante D. Henrique, Infante Santo, Luís de Camões, Inês de Castro, Bartolomeu de Gusmão, Gago Coutinho e Sacadura Cabral, etc.

Algumas dessas histórias, com poucas páginas e de cariz eminentemente documental e biográfico (mas de leitura amena e instrutiva, vertente que também se deve enaltecer, pois é uma das melhores formas de divulgação histórica, científica e de outros tópicos), surgiram entre nós no Tintin, no Pisca-Pisca e no Mundo de Aventuras (2ª série), com a assinatura de conceituados mestres da BD europeia, como os que atrás citámos, colaboradores habituais do Tintin e do Spirou belgas, onde a tradição das histórias curtas de cariz biográfico perdurou durante muitos anos.

21887_138184_3 copyO seu inegável sucesso ficou   a dever-se, nomeadamente,    à famosa série “Les Belles Histoires de l’oncle Paul”, iniciada em 1951 no Spirou, por Jean-Michel Charlier e Eddy Paape, e retomada  por Octave Joly e uma legião de desenhadores, na sua maioria belgas, muitos dos quais fizeram aí o seu tirocínio, antes de se abalançarem a outros (e mais largos) voos.

Nesta nova rubrica do Gato Alfarrabista, tencionamos divulgar alguns desses episódios oriundos do Tintin e do Spirou, já publicados ou ainda inéditos entre nós, começando por uma das “belles histoires de l’oncle Paul”, dedicada àquele que é um dos símbolos máximos da nossa identidade humanística, social e cultural como nação independente e secular: Luís de Camões (ou Luis de Camoëns, em francês e castelhano).

Los Lusiadas431No caso do autor d’Os Lusíadas, a sua obra que ganhou projecção universal também foi adaptada à BD por desenhadores portugueses (José Ruy), italo-brasileiros (Nico Rosso) e mexicanos (Juan Manuel Campos). E deve haver mais…

Resta acrescentar que George Langlais (Gal) é o nome do desenhador da curta biografia que a seguir apresentamos, “Camoëns, le poète soldat”, publicada no Spirou nº 853, de 19 de Agosto de 1954, e até hoje inédita entre nós.

Pormenor curioso: nesta versão, Camões não usa a venda no olho direito, como é vulgarmente retratado, embora o desenhador (e o anónimo argumentista) não se tenham esquecido de referir o incidente bélico em que o nosso vate perdeu essa vista. Distracção ou simplesmente falta de rigor?

Camões, le poète soldat - 1 e 2

Camões, le poète soldat - 3 e 4

6 thoughts on “A HISTÓRIA DE PORTUGAL EM BD – 1

  1. Meu caro Jorge Magalhães,
    Conforme prometido, estou a começar a ler o seu blogue com um enorme interesse, porque o mesmo será dizer que estou a tirar um verdadeiro curso de BD. É que aqui foca-se de tudo um pouco, aqui fala-se de livros, de relíquias, de coleções, de um enorme amor e paixão por palavras e imagens. Relativamente a este tema de marcos da nossa História tratados na BD, estas suas linhas fizeram-me recuar no tempo e recordar-me que tenho na minha modesta bedeteca alguns episódios marcantes da nossa “saga” tratados pela 9ª Arte. Lembro-me de alguns episódios no Mundo de Aventuras, sem recordar-me agora ao certo quais, e no Pisca Pisca, um episódio penso que dedicado a Fernão de Magalhães.
    Enfim, adorei esta sua primeira aula.
    Voltarei
    Um abraço
    Mário João Marques

    • Caro Mário João Marques,
      Muito obrigado pelo seu comentário, que objectivamente destaca alguns dos propósitos que enformam o lema deste blogue, como um repositório de imagens, de textos, de criatividade, de relíquias culturais e artísticas que importa não deixar no esquecimento, confinadas, entre as “teias de aranha” da indiferença e do egoísmo, nas estantes de algumas bibliotecas (públicas e particulares) e nos “cofres fortes” dos coleccionadores mais avaros (que felizmente são poucos!). Graças à Net e à sua vasta rede de contactos, muitos conhecimentos podem ser agora partilhados e muitas imagens reveladas, tal como eram na sua matriz original. E outros aficionados se dedicam também a esta meritória e útil tarefa, com a mesma paixão pela nossa cultura popular e o sentimento de dever cumprido, numa cruzada que se debate ainda com muitas lacunas, atrasos e dificuldades.
      Quanto aos episódios sobre figuras e marcos da nossa História, tentaremos reproduzir algumas páginas inéditas publicadas em revistas estrangeiras, como o “Tintin” e o “Spirou”, e outras já do conhecimento do nosso público, mas de uma geração mais velha, aquela que ainda teve a sorte e o privilégio de ler revistas de BD como o “Mundo de Aventuras”, o “Tintin”, o “Jacto”, o “Jornal do Cuto”, o “Pisca-Pisca”, o “Condor” e outras mais que seria longo e fastidioso enunciar aqui. Bons tempos esses!
      Um grande abraço do
      Jorge Magalhães

  2. Caríssimo Jorge Magalhães

    Este é um tema muito interessante, dado que mostra a face da moeda onde a “coisa nossa” é abordada na BD por autores estrangeiros. De tanto interesse, irei rebuscar nas gavetas e prateleiras das revistas alguns destes considerados trabalhos, muitos dos quais passam de lado aos próprios portugueses.
    Como só agora li o texto, lembro-me ( de memória instantânea), um trabalho sobre o 25 de Abril, publicado na revista À Suívre.
    Como bem disse o Mário no comentário anterior, aqui “fala-se de livros, de relíquias, de colecções (eu ainda escrevo segundo o anterior acordo ortográfico), de um enorme amor e paixão por palavras e imagens”. É certo. Aqui, paulatinamente, lavra-se um registo de Banda Desenhada, numa atitude que eu considero, no âmbito cultural, como eficiente serviço público. E é aqui que, com todas as probabilidades de serviço feito, muitos enciclopedistas, estudiosos e divulgadores da matéria virão certamente, mais tarde, colher estes valiosos subsídios para as suas obras; espero então que, pelo menos, tenham a honestidade de indicar esta fonte de recolha.
    Um grande abraço
    Santos Costa

    • De facto, Amigo Santos Costa, este é um tema aliciante, que nos permite apreciar outras versões e outras abordagens – às vezes não muito correctas, mas pelo menos interessantes do ponto de vista artístico – de temas e personagens da nossa História. Agradeço as suas informações, que serão bastante úteis para o prosseguimento desta rubrica. Lembro-me vagamente dessa história sobre o 25 de Abril publicada no (À) Suivre, mas já não tenho nenhum número desta revista, de que me desfiz em tempos, por falta de espaço, limitando-me a conservar alguns álbuns posteriormente editados com episódios que nela tinham saído. Mesmo meia dúzia de álbuns ocupam menos espaço do que dois ou três volumes encadernados…
      Obrigado também pelas suas gratificantes palavras de estímulo e compreensão. De certa forma, o que nós fazemos, nestas redomas culturais que são os blogues (de BD e não só), insere-se no âmbito de serviço público; mas, como sabe, a dispersão característica das redes informáticas torna mais difícil identificar as fontes, mesmo quando essa honesta intenção preside aos esforços dos tais estudiosos e divulgadores, o que muito raramente acontece.
      Um abraço, com sincera amizade, do
      Jorge Magalhães

  3. Óptima leitura para estes dias. Tempo de lembrar os nossos “homens” de outros tempos e lugares. Não conhecia estas adaptações feitas por autores estrangeiros. Mais uma vez obrigado pela informação e conhecimento partilhado. Abraço, Paulo Pereira

  4. Caro Paulo,
    A sua presença sempre assídua, como comentador deste blogue, muito nos satisfaz e esperamos continuar a dar-lhe motivos para se interessar pelos nossos temas. A História de Portugal vista por autores de BD estrangeiros é um deles, mas, num futuro mais ou menos próximo, apresentaremos também, dentro desta rubrica, alguns trabalhos de autores nacionais publicados, em épocas diversas, nalgumas das nossas mais emblemáticas revistas.
    Claro que, numa primeira fase, tencionamos dar prioridade às produções inéditas de desenhadores estrangeiros que são do nosso conhecimento, muitas das quais nunca foram divulgadas em qualquer revista ou blogue da especialidade. Nesse domínio, estaremos efectivamente a fazer um trabalho sem antecedentes – embora algumas histórias desses artistas já tenham sido publicadas em língua portuguesa, nomeadamente no “Mundo de Aventuras” –, para uma larga faixa de público.
    Abraços do
    Jorge Magalhães

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