VASCO GRANJA, JOSÉ RUY E O 25 DE ABRIL

Em 2003, durante uma série de homenagens a Vasco Granja, uma das figuras mais populares e carismáticas da BD portuguesa no último quartel do século XX, as Edições ASA convidaram-me para coordenar um livro sobre a vida e a obra daquele que ficou conhecido, entre os mais jovens espectadores da RTP, pela alcunha pitoresca de “pai da Pantera Cor-de-Rosa”, embora tivesse sido, pela sua militância cultural, cívica e política, ao longo de várias décadas, muito mais do que apresentador de um célebre programa de televisão.

Vasco Granja  e o 25 de Abril  foto191 Explorando múltiplos aspectos da ecléctica personalidade de Vasco Granja, essa monografia, com o título “Uma Vida… 1000 Imagens”, reuniu um elenco de destacados desenhadores que criaram várias histórias, com argumentos meus, em que Vasco Granja (ou o seu alter ego) se transformava também num herói de BD. Tive assim, sob esse grato pretexto, a oportunidade de trabalhar, pela primeira vez, com alguns artistas que há muito admirava (e ainda admiro), e ao mesmo tempo de prolongar a homenagem num registo mais divertido e fantasista ou numa dimensão mais onírica — ainda que biográfica, sob certos aspectos —, a que resolvi chamar, parafraseando livremente o mítico Moebius,   “A Garagem Aberta de Vasco Granja”.

O resultado excedeu as minhas expectativas, menos por mérito pessoal do que graças ao talento dos desenhadores envolvidos nesse projecto (apesar da opinião pouco abonatória de certo crítico da altura, cujo nome me dispenso de citar); e o mais importante é que Vasco Granja se reviu com gosto nessas amenas caricaturas, em que, a par dos elementos de pura ficção, se espelhavam algumas facetas do seu carácter profundamente humanista e também vários percursos da sua carreira atribulada, entre ofícios e campanhas, tanto culturais como políticas, a que dedicou, com paixão e coragem, grande parte da sua vida.

Vasco Granja  e o 25 de Abril  1 192 Na história curta que a seguir apresentamos, e que assinala a minha primeira colaboração, como argumentista, com Mestre José Ruy, a ideia foi relacionar o papel de pioneiro de Vasco Granja na área dos fanzines de banda desenhada (entre outras) com a faceta bem conhecida de resistente anti-fascista, que nunca baixou os braços, antes do 25 de Abril, em defesa das suas convicções. E, como a muitos outros, isso valeu-lhe ser perseguido pela Pide e preso várias vezes, por motivos quase irrisórios, como o de se dedicar a actividades cineclubistas ligadas ao cinema dos países da então chamada “Cortina de Ferro”.

É claro que nesta história, ilustrada a preceito por José Ruy, com uma noção detalhista, como é seu timbre, dos lugares e das personagens, que se transfiguram em imagens reais, arrancadas ao quotidiano — mesmo quando trabalha em temas históricos, como a “Peregrinação” ou “Porto Bonvento” —, o objectivo era pôr a nu e a ridículo os métodos da polícia política, num tempo em que todos os cidadãos eram suspeitos e a desconfiança dos sicários do regime, relativamente aos que mantinham sob mais apertada vigilância, atingia, por vezes, as raias do absurdo.

O nome da tipografia “clandestina” que dá o título à história foi inspirado pelo de um oficial do mesmo ofício, com quem trabalhei durante muitos anos, no tempo (que me parece já tão distante) em que tinha a meu cargo o Mundo de Aventuras.

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