JOSÉ BAPTISTA (JOBAT)

O ADEUS DE UM AMIGO

APR-1956 e 1963É com profundo pesar que voltamos a referir-nos ao falecimento, no dia 29 de Março, do nosso querido Amigo José Baptista, com quem privei ao longo de várias décadas, mantendo sempre um contacto muito próximo, sobretudo nestes últimos anos, desde que Jobat (acrónimo com que se distinguiu no mundo da BD) iniciou um novo marco da sua carreira no jornal O Louletano, em que criou a rubrica “9ª Arte – Memórias da Banda Desenhada”, publicada desde 30/3/2004 até 27/7/2012, num total de 233 páginas, e só interrompida por causa do brusco desaparecimento daquele quinzenário regional, atingido também pela crise.

Jobat capa MA Luis VilarTal como José Antunes, outro artista da mesma geração falecido em 2010, José Baptista afirmou-se como artista gráfico ainda muito jovem, depois de cursar a Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e começou gradualmente a exercer funções de responsabilidade na Agência Portuguesa de Revistas, onde coordenou, ilustrou e maquetizou diversos títulos, além de publicar no Mundo de Aventuras e na Colecção Audácia as suas primeiras histórias aos quadradinhos, com destaque para uma adaptação do conto “A Abóbada”, de Alexandre Herculano, e para as peripécias detectivescas de um irrequieto jornalista chamado Luís Vilar.

JobatUlisses e CamõesNo género histórico, um dos seus preferidos, brindou também os leitores com outros trabalhos de vulto, como a homérica odisseia de Ulisses, baseada no peplum (filme histórico italiano) dirigido por Mario Camerini, cujos personagens e cenários reproduziu com notável fidelidade, e uma primorosa biografia do nosso maior vate, “A Vida Apaixonada e Apaixonante de Camões”, publicada em 1972 no Diário Popular e posteriormente em álbum, numa versão com texto em francês de Michel Gérac.

Jobat e Luis FurtadoFoi sobretudo, durante a sua longa carreira, ilustrador de livros, revistas e colecções de cromos, e ainda chefe de redacção do Jornal do Cuto, onde deixou também vasta obra e nova homenagem ao génio épico do “Trinca-Fortes”, que lhe valeu alguns atritos com Mário de Aguiar, director da Agência Portuguesa de Revistas (APR), a quem não agradava a sua prestação para um concorrente — neste caso, a Portugal Press de Roussado Pinto.

Depois de ter saído da APR e de regressar ao Algarve, por causa da suspensão temporária do Jornal do Cuto, com a mágoa de quem deixa para trás 20 anos de dedicação absoluta a um mister em que fez muito de tudo, José Baptista porfiou noutras áreas profissionais, como artista cerâmico, professor de Educação Visual e desenhador da Câmara Municipal de Loulé, terra da sua naturalidade, onde viveu com a família desde 1976.

     Jobat Jornal do Cuto 22

  jobat Cuto camões088A paixão pelos quadradinhos, em especial pelos da época áurea da BD portuguesa, alimentada pelas leituras da infância, com O Mosquito e Eduardo Teixeira Coelho na primeira linha das suas preferências, acompanhou-o durante toda a vida, como ficou bem expresso nas valiosas crónicas e análises críticas que escreveu para a rubrica “9ª Arte”, o seu último e devotado tributo aos autores cujas obras mais admirava e que procurou, com raro escrúpulo gráfico, preservar no tempo e na memória dos bedéfilos da sua geração, mas sobretudo na dos leitores mais jovens.

Pela minha parte, jamais poderei esquecer um dilecto amigo que me deu os primeiros conselhos quando o conheci na redacção do Jornal do Cuto (pouco antes de me tornar colaborador da APR e responsável pelo Mundo de Aventuras) e que ficou, aliás, associado à minha estreia como contista, em 1959 (também no Mundo de Aventuras, do nº 491 ao 493), pois foi ele que ilustrou, com o expressivo e vigoroso traço que caracterizava o seu estilo, o meu primeiro trabalho literário publicado numa revista de banda desenhada: um conto do género faroeste, com o título “Terra Selvagem”. Em dois desses números (492 e 493), foi também o autor das capas.

Jobat Terra Selvagem

Jobat MA 492 e 493

Mesmo sem ainda nos conhecermos, não tenho dúvidas de que foi aí que começou uma bela amizade! A José Baptista devo também a foto que ilustra o cabeçalho deste Gato Alfarrabista, cujas letras desenhou parcialmente, com a colaboração de Catherine Labey.

Ainda mal refeitos da infausta notícia, já sentimos o enorme vazio que a sua perda irá irremediavelmente provocar no nosso espírito e no de todos aqueles que tiveram o privilégio de partilhar os seus sonhos, os seus afectos, as suas memórias, os seus conhecimentos e os seus conselhos… e de desfrutar, como eu — que falava com ele quase todas as semanas, às vezes até altas horas da noite —, o seu bom-humor, a sua gentileza, o seu espírito generoso e compreensivo, a sua permanente disponibilidade para com os amigos, o sorriso afável que lhe adoçava o rosto, como um cunho de simpatia, amizade e camaradagem que acalentará para sempre as nossas recordações.

Jobat no GuinchoQue a sua alma descanse em paz nas pradarias eternas onde floresce a herança de tantos mestres que lhe serviram de patronos e de guias, na grande jornada repleta de sonhos e de projectos artísticos que deram mais sentido e valor à sua vida.

Em homenagem ao talento deste veterano e ecléctico artista, vamos dedicar-lhe uma retrospectiva, iniciando-a com uma das suas primeiras histórias aos quadradinhos, como já tínhamos combinado com ele há algum tempo. Trata-se de “O Voto de Afonso Domingues”, narrativa sucintamente adaptada do conto “A Abóbada”, de Alexandre Jobat biografiaHerculano, com início em 2/1/1958, no Mundo de Aventuras nº 437, a par de uma pequena nota que fazia a apresentação “oficial” de José Baptista aos leitores daquele popular semanário, onde pontificavam outros valiosos colaboradores nacionais: Carlos Alberto Santos, José Antunes, José Manuel Soares, Raul Cosme, Luís Correia e Orlando Marques.

Nervo, rigor, poder descritivo, acutilância barroca do traço, são algumas das virtualidades estéticas desta história, que pode ombrear dignamente, quanto a mim, com outras adaptações de textos literários que abundam na BD portuguesa. Resta acrescentar que “O Voto de Afonso Domingues”, com oito páginas, terminou no Mundo de Aventuras nº 444, de 20/2/1958.

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RETROSPECTIVA – 1

Jobat Afonso Domingues 1 e 2

Jobat Afonso Domingues 3  e 4

Jobat Afonso Domingues 5 e 6

Jobat Afonso Domingues 7 e 8

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